Belo Desastre
16 Sangue.
Notas iniciais
Ela deu uma última olhada no espelho e suspirou com a pessoa que a encarava de volta, a pele pálida que não apenas por causa das luzes artificiais, as bolsas arroxeadas em baixo dos olhos que ela não havia percebido até aquele dia, os lábios secos e rachados e a tensão concentrada no maxilar que ela só percebeu quando seus dentes começaram a doer. Relaxou os músculos e finalmente observou o único ponto de cor em toda ela, o vermelho amargo do sangue fresco que escorria por seu braço.
Aquela não era ela.
Não podia ser.
Ela estava presa naquela maré há muito tempo, e estava chegando a hora das ondas se quebrarem.
Seus joelhos tremeram violentamente e um soluço fraco escapou de seus lábios quando ela desabou no chão, leve, a princípio, para depois descer com tudo, a cabeça tombada para frente, com a testa encostada nos joelhos que se encolhiam e os braços ao redor de si mesma. Ela engasgou com o choro e seus olhos lagrimejaram antes de lágrimas implodirem dolorosamente para fora de si.
"Não é o suficiente." — A frase atravessou sua cabeça como uma flecha e para torturar-se ainda mais, ela se forçou a lembrar. Lembrar de tudo.
~♥~
–Está feliz?
Os olhos dele brilhavam na escuridão, com a pupila cobrindo quase toda a íris.
Seus cabelos negros, muito mais compridos que os dela e seu corpo musculoso com piercings que brilhavam como faíscas prateadas. Os cílios longos e os lábios finos que agora estavam abertos em um sorriso.
Ela assentiu com a cabeça, sem responder devidamente a pergunta e tomou mais um gole daquele líquido fluorescente com cheiro de morangos e vodka que a atraiu desde o momento em que pisara naquele clube.
As luzes estroboscópicas fazia tudo parecer em câmera lenta e o gelo seco roçava em suas pernas enquanto ela se movimentava em cima de um piso que mudava de cor, envolta em corpos suados e incansáveis que dançavam como se não existisse amanhã. E talvez eles estivessem certos.
A sua frente, deslizando suavemente entre os vultos que acompanhavam a batida de qualquer fosse a música que estivesse tocando, ele a observava, movendo-se como se não tivesse peso, prendendo seus olhos aos dela.
Uma de suas mãos se ergueu sem o seu consentimento para chamá-lo com o dedo indicador e ela sentiu a respiração quente e familiar bater em sua bochecha.
–Feliz aniversário, Levy. — Um segundo e meio depois, o espaço entre os dois já era uma lembrança e a sincronia de seus corpos parecia ter sido ensaiada.
As mãos dele contornaram-na e chegaram até seus quadris, onde se encaixavam perfeitamente e os dedos dela arranharam a pele do abdome dele por baixo da camiseta escura.
Os pelos de seu corpo se arrepiaram quando ele suspirou em sua boca e as costas dela se arquejaram para ficarem totalmente em contato com aquele que proporcionava formigamentos.
Ela mordeu o lábio inferior dele e sentiu-o sorrir antes de contornar seus lábios com sua língua.
–Certo, eu estou interrompendo algo. — Os dois abriram os olhos e lentamente se separaram quando uma cabeleira loira ofuscante pulou para perto deles.
–Lucy. — Ela tentou fazer a voz soar mais animada, porque de fato ela estava feliz, mas seus olhos não se desviavam dos dele, que a encaravam sem pudor.
–Parabéns, Levy! Use camisinha! — E ela não teve tempo de retrucar, porque assim que a loira animada deu um leve beijo em sua bochecha, sua silhueta voltou a se perder entre a multidão e sua mente se voltou agora completamente para aquele que ainda a encarava, agora com um sorriso malicioso.
–Ela está certa, sabia? — Ele se aproximou mais uma vez e mesmo com a iluminação embaralhada, conseguiu ver as bochechas dela queimarem.
–Me beija logo porra. — E foi só oque ele precisou ouvir.
O calor dentro dela aumentava assim como o ritmo da guitarra que fluía violentamente pelas caixas de som.
Ela arranhou as costas dele por baixo da camiseta quando suas línguas deslizaram e as mãos fortes que antes estavam em seus quadris agora haviam descido para suas coxas, ela agarrou os cabelos dele com força quando o mesmo a levantou do chão, suas pernas grossas envolveram-no e ele ergueu o tronco enquanto ela puxava sua cabeça para trás pelos cabelos, fazendo ele arfar por mais, afastou seus lábios dos dele por tempo suficiente para ver entre os cílios semicerrados a expressão de desejo no rosto que estava a sua frente e o beijou sem deixa-lo retribuir, mordiscando seu lábio inferior entre as ocasionais chupadas.
Suas costas bateram contra uma parede gelada e o contraste de temperaturas a fez levar um susto, ele aproveitou para esquenta-la com sua língua.
Quando luzes fortes a atingiram, ela sabia que eles havia chegado no banheiro.
Ela suspirou e ele beijou seu pescoço, com o calcanhar, empurrou a porta de um dos cubículos e fechou atrás dos dois com as mãos que agora estavam fervendo.
–Levy, se não pararmos agora... — ele sussurrou e ela respirou fundo em muito tempo para pensar com clareza. Não levou nem dois segundos para chegar a uma resposta, e confiou nela.
–Eu te amo, Gajeel. — Sentiu os dedos dele tocarem nos botões de sua calça e deixou ser levada, quando as calças dele escorregaram até o chão e a fivela do cinto bateu no piso, ela abriu os olhos e os dois respiraram juntos.
E então ele avançou.
A dor não foi percebida no começo, talvez por que ela estava entorpecida pela sensação que a pele dele causava, então veio o desconforto e ela rangeu os dentes enquanto ele afundava a cabeça no pescoço dela.
Segundos; minutos; horas. Ela não sabia quanto tempo havia se passado, se sentia ao mesmo tempo jovem e adulta.
Finalmente, aliviou a pressão que suas pernas faziam em volta da cintura dele e seu quadril se afastou lentamente, para voltar com tudo.
O suor escorria pelo seu pescoço e os deixava escorregadios, dançando no ritmo deles, estremecendo a cada investida. O calor crescia dentro dela e seu corpo parecia estar sobre efeito de entorpecentes.
Palavras não eram necessárias, a velocidade não era reduzida e a força parecia querer rasga-la em duas. Um gemido inesperado escapou de sua boca e ela encontrou um brilho no olhar dele antes de tudo ficar branco.
Seus pés encostaram no chão e ele a abraçou com força suficiente para expulsar o oxigênio que ela tentava recuperar.
–Eu também te amo, Levy. — Ela se recuperou da sensação que a invadira quando chegaram ao ápice juntos e vestiu suas calças antes de trocarem um olhar cúmplice.
–Esse foi o melhor presente que eu já ganhei. — Ela afastou uma mecha de cabelo do rosto dele e os dois não trocaram mais palavras.
Foi quando os tiros começaram.
Os dois correram para fora do banheiro e encontraram o verdadeiro caos, foram empurrados para dentro da multidão e um pavor tenebroso cresceu no estômago dela quando um cotovelo bateu em sua nuca.
Vozes extremamente altas e em pânico eram ouvidas por toda parte e ela não conseguia ouvir a própria voz enquanto gritava desesperada.
De repente, todos pararam de se mover quando tiros acertaram o teto.
–No chão. — Uma voz grossa ecoou pelo clube agora silencioso sem esforço.
Levy se virou para Gajeel, mas não sem antes observar o dono da ordem, só teve tempo de avistar cabelos loiros e uma cicatriz na sombrancelha esquerda que emoldurava um par de olhos azuis antes de Gajeel puxar sua cabeça para a dele, beijando-a como se fosse morrer no dia seguinte. E talvez fosse.
–Eu também te amo, Levy. — Ele repetiu mais uma vez e ela franziu a testa, prestes a dizer algo quando ele a empurrou para trás, fazendo-a tropeçar e cair no chão.
Tudo o que viu antes de receber um forte golpe em sua nuca que a fez desmaiar, foram cabelos rosados no meio do gelo-seco.
~♥~
Usou a manga da camiseta para secar as últimas lágrimas que havia escorrido e lavou a lamina brilhante que estava sobre a pia.
Saiu do banheiro e tentou forçar um sorriso quando a mesma loira daquela noite veio em sua direção.
–Onde você estava? Você não sabe o que acabou de acontecer! Macarov me forçou a trabalhar com a nova estagiária! Como se já não bastasse o detetive... — Lucy se interrompeu quando observou Levy direito. — Você está bem?
Levy respirou fundo e repassou tudo em sua cabeça novamente.
–Eu estou bem. — Foi o que ela respondeu, com os pulsos ardendo debaixo das mangas.
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