Belo Desastre
13 Pânico.
Notas iniciais
O vento frio batia em meu rosto enquanto eu corria desesperada.
Havia sido tudo muito rápido, primeiro o susto, em seguida, seus olhos, que nunca pareceram mais assustadores, e logo depois eu, correndo para a sacada baixa de meu quarto, tropeçando e atravessando o vidro gelado e cortante, mas sem parar de correr, me jogando na grama dura do jardim da frente de lado, meus pés doíam e as mãos sangravam, mas as forças vieram rapidamente quando meus ouvidos estalaram e um buraco profundo na terra se formou ao lado da minha cabeça.
Uma bala. O cheiro de pólvora invadiu as minhas narinas e eu não sabia se aquilo era psicológico ou não, uma fumaça cinzenta começou a subir, contrastando com os flocos de neve que caiam lentamente.
Ele havia atirado. Em mim.
Ele estava de pé na borda da sacada, mirando em minha direção, e não iria errar da próxima vez.
E olhando em seus olhos com a luz do meu quarto acesa atrás de suas costas, eu não vi absolutamente nada.
Fiquei de pé e quase caí novamente, mas ele não me seguiu, tampouco atirou novamente quando meus passos aumentaram de velocidade, me levando mais adentro na escuridão da noite vazia, eu via seu rosto em todos os lugares, ele não estava logo atrás de mim, mas podia estar esperando na próxima esquina, não vê-lo era pior do que estar cara-a-cara com ele, o medo corroía meu cérebro enquanto eu tentava pensar, mas a adrenalina que corria pelas minhas veias impedia qualquer solução, eu me forçava a correr cada vez mais rápido no meio das ruas desertas, sentindo a neve nos meus pés descalços e a umidade penetrando no meu pijama.
Meu coração batia cada vez mais rápido e o ar já não entrava em meus pulmões, tropecei em um buraco coberto de branco e olhei para trás com as mãos apoiadas nos joelhos enquanto meus pulmões se enchiam de novo.
Escuro, ele não viria atrás de mim.
Finalmente, olhei para mim mesma, contando os hematomas e cortes, incluindo as dores internas e um possível tornozelo torcido.
Eu tremia de pavor, segui sem rumo por calçadas nem um pouco familiares ignorando a dor até os primeiros raios de sol nascerem.
E quando eu parei novamente para respirar, me vi em frente a um lugar que não via faz muito tempo.
Bati na porta, uma, duas, na metade da terceira a madeira foi entreaberta e dois olhos curiosos me observaram de cima abaixo.
Levou apenas dois segundos para a porta se escancarar e braços finos me agarrarem, eu não tentei abraçar de volta, muito menos disse algo.
Ela sabia que um dia eu voltaria, sempre soube. E foi por isso que não proferiu uma única palavra enquanto trancava a porta atrás de mim e me guiava por sua pequena casa cheia de livros até um quarto.
Tirei minhas roupas devagar no pequeno banheiro, observando cada marca e desejando que ela desaparecessem, tomei um banho longo, a água quente chegava a queimar e eu esfregava a esponja com tanta força que minha pele ficava vermelha e ardia, mas eu não prestava atenção.
O terror ainda estava solto dentro de mim enquanto eu tentava arrancar todos os vestígios dele do meu corpo, seu cheiro, seus toques, seus olhares.
Fechei os olhos por um momento e tudo veio de uma vez, minha mente finalmente acabando de digerir as informações.
Ele era um assassino. Um assassino procurado.
E nem que houvesse sido apenas por uma noite. Eu o amei.
Também não podia descartar a possibilidade de ainda amá-lo.
Despenquei sentada no chão do box enquanto a água se derramava sobre as minhas costas, e enquanto minha mente começava a ficar turva como o vapor que condensava cada vez mais o banheiro, eu deixava cair todas as lágrimas que havia guardado por todos os anos da minha vida.
Foi ai que senti, finalmente toda a tristeza que não havia aparecido com a morte de minha mãe me abateu, meu estômago estava preso em um nó firme e meu coração era um grande buraco negro, toda a felicidade havia sido sugada para dentro, nunca mais a encontraria de novo.
Somente quando a água do chuveiro desligou e eu levantei a cabeça vi que ela estava de pé a minha frente, estendendo uma toalha macia.
Ela me levou de volta para o quarto, onde deixou peças familiares... eram as minhas roupas antigas, vê-las quase me fez chorar de novo, ela as havia guardado depois que nos afastamos. Em cima da cama também havia uma bandeja com uma caneca de chá quente e biscoitos, agradeci mentalmente por não ser chocolate ou café, aquilo apenas me faria lembrar mais ainda dele.
Ela me acompanhou enquanto eu comia, não percebendo o quão faminta eu estava e assim que terminei, me deitou na cama com cuidado, ela havia visto os meus machucados.
–Boa-Noite, Lucy. — Ela sussurrou antes de me cobrir com uma manta felpuda e apagar a luz do quarto que já estava com as cortinas fechadas.
A vontade de dormir me levou consigo enquanto minha mente nebulosa vagava por locais desconhecidos e sombrios, a adrenalina finalmente parando de fazer efeito e minhas pálpebras se fechando, o vapor em minha mente se dissipava aos poucos enquanto a minha respiração se normalizava.
"Natsu"
Ouvi os primeiros barulhos do dia que começava do lado de fora daquele quarto e me esforcei para ignora-los, eu já não estava mais naquele mundo.
E quando ela já havia fechado a porta e provavelmente voltado a dormir, eu sussurrei de volta:
–Boa-Noite, Levy.
E antes de finalmente dormir, me lembrei de uma frase que minha mãe disse uma vez em um de meus dias ruins.
"Um dia, Lucy, você vai encontrar o amor, e você vai saber que é ele quando se ver em um mundo escuro e gelado, com essa pessoa sendo a última vela."
Contive um soluço quando finalmente percebi.
Que por mais terrível que fosse, e por mais medo que eu sentisse, naquele mundo frio e gelado em que eu me encontrava, Natsu era o sol.
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