Notas iniciais
O capítulo foi editado, se você já passou por aqui uma ou outra vez, vai perceber que está diferente. Mas, se esta é sua primeira vez, boa leitura ʕ•ᴥ•ʔ

Tempestade. Quando o céu fica escuro independentemente de ser dia ou noite, quando você afunda até os tornozelos em uma estrada lamacenta e seu guarda-chuva quebra em meio ao granizo que cai a toda velocidade como navalhas afiadas.

Quando qualquer pessoa sensata ficaria em casa. Mas Lucy não.

A jovem, em seus 24 anos, seria o estereótipo de "garota perfeita", pele macia, quadris largos, seios grandes e cintura fina. Pernas longas e cabelos dourados, além de um rosto belo.

Sim, ela poderia ter sido mais uma "garota perfeita".

Poderia.

Se não por apenas um detalhe, algo tão singelo mas ao mesmo tempo tão importante. A cor de seus olhos, não azuis nem verdes, mas de um castanho-escuro profundo, era isso que a tornava única.

E coisas únicas acontecem com pessoas únicas.

Foi por isso que as 14:37 de uma terça-feira escura, no meio de um atalho esburacado em algum lugar perto da divisa entre as cidades Clover e Magnólia, com as mãos tremendo de frio e cansaço no volante, Lucy não viu um enorme buraco.

O impacto chegou no mesmo momento em que ela pisou no freio.

As suspensões fizeram barulho, as luzes piscaram, sua cabeça bateu na janela ao lado e o cinto de segurança em volta de seu tronco a deixou sem ar.

As chaves tilintaram na ignição. E Lucy teve que respirar fundo, sua cabeça latejava pela colisão com o vidro e ela soltou o cinto com um suspiro aliviado.

Depois de constatar que estava bem na medida do possível, ela agarrou seu guarda-chuva que por pouco não havia quebrado com o uso anterior naquela tempestade e abriu a porta do carro. Os faróis frontais mostravam que não haviam outros veículos, mas as luzes traseiras mal iluminavam o chão lamacento, Lucy forçou seus pés a se moverem mais rápido no trajeto para contornar o carro quando notou algo, a forma suja de terra molhada jogada atrás de seu carro claramente não era um buraco.

Ela se aproximou mais devagar dessa vez, hesitante, mas o final seria o mesmo não importava o quando ela demorasse para chegar até ele.

E ah, ela chegou.

Lucy esfregou seus olhos, não acreditando no que via e seu coração provavelmente pulou uma batida.

Não era um buraco, muito menos uma pedra ou tronco, nem mesmo um animal inocente cruzando a estrada no momento errado, mas sim alguém.

O choque tomou conta de seu corpo e o guarda-chuva caiu ao seu lado na lama, fazendo um barulho molhado. As gotas de chuva e granizo batiam no teto de seu carro com força, fazendo barulho.

Não podia ser.

Lucy piscou para remover a água de seus olhos, a aquela altura, já estava completamente encharcada, mas a parte de si que se preocupava com isso provavelmente havia desaparecido junto com seu cansaço. Ela se agachou ao lado do corpo, as luzes vermelhas da traseira do carro apenas distinguindo a silhueta de um homem em meio a água. Se levantou de supetão e correu até seu carro, os pés fazendo força para saírem de dentro da lama, debruçou-se sobre o banco do motorista cuja porta ainda estava aberta e encontrou seu celular.

Mas ali, com a mata alta em volta e nenhum outro carro ao redor, não havia sinal de telefone.

Ela bufou, largou o celular, o desespero começando a tomar conta de si, voltou para o corpo coberto de lama no chão, pegou seu guarda-chuva e o jogou dentro do carro. Respirou fundo, uma, duas, três vezes, parou quando percebeu que estava hiperventilando. Sua cabeça rodou, estava tendo um ataque de pânico?

Oque ela faria? Mordeu os lábios quando percebeu que seus dentes estavam batendo e tremendo assim como o resto de seu corpo, seus pés, mergulhados na lama e água geladas, começavam a adormecer.

O corpo se moveu, um movimento brusco com os ombros, virando a cabeça para o lado, Lucy encostou os dedos em seu pescoço, encontrando um pulso fraco por baixo da pele quente e febril.

Por entre o granizo, um quase imperceptível movimento chamou sua atenção, o sobe e desce do peito que indicava respiração, cada vez mais lento.

Uma ideia passou por sua cabeça, mas ela imediatamente a descartou, seria muita loucura, não seria?

Mas também seria muita irresponsabilidade deixa-lo ali, então, ignorando todos os sinais de alerta que piscavam em sua cabeça, ela passou os braços por baixo dos braços do homem e o arrastou de costas até seu carro, onde abriu a porta e gastou suas últimas energias em colocá-lo desajeitadamente deitado no banco traseiro.

Voltou ao volante, finalmente se livrando da chuva, olhou pelo espelho retrovisor, com a iluminação do carro, se inclinou, virando se para trás afim de alcançar o rosto dele e limpou a lama com as mãos.

Um rapaz de pele bronzeada, ainda que meio pálida, nariz reto e cílios impressionantemente longos sobre os olhos fechados, um maxilar definido e cabelos que mesmo grudados pela lama, água e sujeira, se mostravam rosados.

Lucy respirou fundo, sabia que não havia mais nada em seus olhos para atrapalhar sua visão daquela vez, eles deviam ser quase da mesma idade, o que um rapaz tão jovem estaria fazendo ali?

Finalmente, ela pisou no acelerador, se surpreendendo por não atolar naquele lamaçal e já começando a se arrepender de levar um estranho consigo.

Mas ela o atropelou.

E não havia mais ninguém ali.

Lucy respirou fundo.

Chegou na fronteira de Magnólia exatamente às 19:12, em parte pela tempestade, em parte pelo sono, culpado por ela quase ter batido o carro duas vezes.

E em todo o caminho, ele não acordou nem uma vez.

Notas finais
Eu, particularmente, prefiro esse acima do antigo. Mas eu sou suspeita para falar qualquer coisa acerca dessa estória, então o que acham de me dizerem vocês?