Belo Desastre
19 Escuro.
Notas iniciais
Quente, como fogo.
Deslizando, ardendo, ferindo minha pele.
Um aperto forte em meus quadris enquanto os músculos definidos de seu abdome roçavam em minha barriga conforme ele subia e descia.
Subia e descia. Incansavelmente e sem me deixar respirar, seus suspiros dentro da minha boca eram todo o oxigênio de que eu precisava.
Eu me agarrava aos seus ombros quando o mundo ao redor de nós decidiu girar e com uma última estocada, gritei dentro de sua garganta, seus lábios não pararam de se mover, mesmo que eu estivesse ocupada demais para pensar em corresponde-lo .
–Não acha que essa é uma péssima hora para pensar em mim, Luce?
Virei minha cabeça para cima rapidamente e tudo o que tive foi um flash de olhos escuros e brilhantes, olhos esses que eu conhecia muito bem.
Tentei pronunciar seu nome, mas de repente nada mais me segurava, e meu corpo foi puxado para baixo graças a arrebatadora força da gravidade, tudo se tornou negro e o fundo daquele abismo não parecia existir.
Ergui minhas costas de uma vez enquanto cobria os olhos com as mãos para evitar as lágrimas, os soluços que saíam da minha boca eram abafados por meus joelhos, que haviam se encolhido , minha cabeça girava e eu não sabia o que sentir, estava tudo tão embaralho que por um momento eu esqueci até mesmo onde estava.
Em seguida lembrei.
Tateei ao meu lado até encontrar o cabo frio da lanterna e a segurei de vagar, como se fosse uma arma.
O facho de luz branca acertou em cheio o rosto de um Jellal adormecido, ele franziu a testa antes de coçar os olhos e finalmente me encarar.
–Aconteceu alguma coisa? — Ele forçou sua voz a sair, tremida e cansada.
–Não. — Foi tudo o que consegui dizer. Em seguida me virei para Lisanna, que ainda estava desacordada, aquilo era muito mais sério do que eu pensei no momento, ela não estava apenas desmaiada.
Bufei, frustada e me certifiquei de que ela estava respirando. Não é como se pudéssemos fazer alguma coisa presos em um porão abafado e aparentemente sem sinal de celular.
Bati minha nuca na parede atrás de mim e fechei os olhos, respirando fundo. Por um momento, pensei ter ouvido o eco da batida soar na madeira, até perceber que vinha de cima.
–Jellal. — Murmurei, me levantando. Agora estava mais claro, passos. Muitos passos pesados pela casa inteira.
Nos entreolhamos e um calafrio subiu pela minha espinha quando todos os passos pararam e apenas um som foi ouvido.
O leve ranger de madeira.
Antes que eu pudesse identificar o que era aquilo, fui bruscamente empurrada para baixo de uma escrivaninha, Jellal logo me acompanhando, ele desligou nossas lanternas e me olhou de uma forma que indicava claramente "Silêncio".
O escuro era completo, silêncio total, mas minha cabeça gritava.
Eram tantas informações que eu demorei alguns segundos para organiza-las, meu corpo reclamava de dor por ter dormido no chão, a necessidade de comer algo crescia a cada minuto e minha garganta estava seca, os lábios rachados, passei minha língua sobre eles, voltou cheia de poeira, engasguei e tossi sem conseguir me controlar, meus pulmões doíam a cada inspiração brusca e eu tentava abafar os sons com a mão.
Senti uma mão cuidadosamente batendo em minhas costas e distingui a silhueta de Jellal no escuro, respirei fundo, desistindo e encostei minhas costas na parede atrás do móvel, era pequeno demais para nós dois, mas o escuro ajudava.
Fechei meus olhos e as lembranças do sonho voltaram com tudo, só então percebi mais uma reação de meu corpo e eu tive certeza de que minhas bochechas coraram.
Um calor havia se acomodado em meu ventre, pulsando levemente como se pedindo por mais enquanto os pelos dos meus braços se arrepiavam pela constatação.
Oh, droga.
Não podia ser, podia?
Eu bufei e me encostei mais ainda a parede, negando tudo aquilo, mas quando o tecido grosso de meu jeans encostou no tecido já úmido de minha calcinha e eu tive que morder a língua para não soltar nenhum som, eu tive certeza.
Eu estava excitada no pior cenário possível, enquanto os degraus da escada começavam a ranger, indicando que alguém descia as escadas, por sorte esse alguém não levava lanterna, ou seríamos pegos.
Pressionei minhas coxas para tentar acabar com aquela sensação, mas apenas a intensifiquei, meu corpo inteiro tremia bem levemente e meu coração acelerou tão subitamente que eu levei um susto.
–Lucy? — Ouvi Jellal sussurrar ao meu lado, mas ele parecia distante, meus pensamentos agora só viam as imagens de nossa única noite juntos embaralhadas com um sonho tão intenso que fez minhas pernas bambearem, mesmo que eu estivesse sentada.
Ele queimava em minha mente. Ele. Natsu.
Tudo ficou borrado. A simples menção de seu nome, ainda que dentro de minha cabeça fez tudo se desintegrar em volta de mim quando eu fechei os olhos, e por alguns longos minutos sentada no escuros com as palmas das mãos pressionadas contra os olhos, eu me senti finalmente sozinha.
Mas então tive que voltar.
Por que um único barulho cortou o ar até mim, um pequeno riso debochado, de uma voz que não poderia me ser mais familiar.
Logo em seguida todo o som morreu e a porta do porão rangeu mais uma vez, batendo com força e fazendo minha respiração falhar.
Meus olhos arderam subitamente e eu levei alguns momentos para perceber que Jellal havia ligado as lanternas, saímos de baixo da escrivaninha que havia nos salvado de um problema.
Apenas para cair diretamente em outro.
Lisanna havia sumido. A poeira no chão havia sido retirada, como se alguém houvesse arrastado algo pesado por ela.
Como um móvel...
Ou um corpo.
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