Belo Desastre
18 Confiança.
Notas iniciais
–Você tem certeza?
–Não.
–Certo, vamos entrar de uma vez.
Seguimos de volta para dentro da casa que eu tinha certeza seria o local do meu próximo pesadelo enquanto eu me agarra fortemente a lanterna que Jellal havia me dado, depois de todo aquele pavor, Lisanna e Jellal me fizeram sentar no banco da viatura policial durante vinte minutos com os aquecedores ligados mesmo que não estivesse frio, infelizmente eu não pude ouvir a conversa que os dois estavam tendo do lado de fora.
Mas agora, de pé e prestes a retornar para dentro daquele lugar macabro, eu desejava mil vezes voltar para o carro.
–Piso de madeira. — Lisanna sinalizou e Jellal assentiu com a cabeça.
Eu focava minha lanterna no chão a minha frente, sem realmente prestar atenção para onde ia enquanto Lisanna me levava junto com ela e Jellal para a cozinha.
Estávamos quase saindo de volta para a sala, quando uma das tábuas em baixo de mim rangeu com o meu peso, imediatamente olhei para Jellal.
–Porão. — Foi o que eu disse e nossas lanternas seguiram pela tábua até uma caixa de papelão amarrotada e toda riscada...
Que eu podia jurar, não estava ali antes.
"Respira. Relaxa. Controle-se."
–Eu não tinha visto isso... — Lisanna comentou e eu andei para trás até sentir o balcão gelado contra minha espinha dorsal quando ela ergueu a caixa do chão.
E até eu, que mal conseguia ver, tive que arregalar os olhos quando bem em baixo da caixa, quase escondida entre a sujeira escura da madeira, estava uma porta. Um buraco quadrado tampado precariamente por mais madeira.
–Havia algo pesado em cima disso, talvez a geladeira. — Jellal se agachou para ficar mais próximo do buraco e tudo em que eu conseguia pensar era em como aqueles não não sentiam o cheiro que exalava por entre as tábuas no chão.
Cheiro de carniça.
–Mas que... — Foi o que consegui murmurar antes que as tábuas de madeira já não nos separassem do que havia lá em baixo.
–Vocês estão sentindo isso? — Lisanna enrugou o nariz e eu assenti, mas Jellal ignorou e sem hesitar, desceu as escadas.
Ele. Desceu. As. Escadas.
Respirei fundo pela boca antes de voltar a abrir os olhos, nada havia mudado, continuávamos nós duas sozinhas ali enquanto os cabelos de Jellal sumiam enquanto ele descia cada vez mais.
–Vamos. — Eu disse sem pensar. Não podia pensar agora.
Não é necessário dizer que o cheiro só foi ficando mais forte.
–Parem! — Jellal disse de algum lugar abaixo de nós. — Não venham, voltem. Agora.
–Nem pensar. — Lisanna devia estar nervosa e eu não culpava ela, naquela casa, era impossível se sentir você de novo.
Ela tocou meu ombro e eu engoli em seco, mas isso me acordou e eu desci os últimos degraus até bater minha testa nas costas de Jellal.
–Eu disse para vocês não virem. — Ele se virou para mim e seu rosto estava preso em uma expressão de choque e incredulidade.
Mas quando eu me virei, podia jurar que o meu rosto estava exatamente igual.
Animais. Grandes, pequenos, esquilos, ratos, pássaros, gatos e cachorros.
Mortos, com as gargantas cortadas em uma tentativa clara de extrair o máximo de sangue possível, presos de ponta cabeça.
Ouvimos um baque surdo atrás de nós e nos viramos para ver que Lisanna havia desmaiado.
–Acho que... — Jellal engoliu em seco. — Já está bom por hoje...
–Está bom por hoje?! — Meus olhos ardiam. — Que ideia foi essa de entrar aqui para começo de conversa?! — Eu estava descontrolada, pensar que aquilo tudo tinha sido feito pela mesma pessoa que sorriu para mim tantas vezes.
Minha cabeça doía e eu percebi que mais uma vez não estava respirando, soltei o ar e o puxei de volta pela boca.
–Me desculpe se eu estava fazendo o meu trabalho! — Jellal disparou, mirando sua lanterna em mim, ofuscando minha visão.
Pisquei algumas vezes e voltei a respirar fundo, uma discussão era a última coisa da qual precisávamos naquele momento.
–Me desculpe. — Jellal me surpreendeu falando primeiro e eu engoli em seco assentindo com a cabeça.
–Temos que ir embora... Como vamos tira-la daqui? — Apontei o facho da minha lanterna para Lisanna, que ainda estava caída no chão.
–Acho que eu posso tentar... -
Mas eu nunca vou saber o que ele iria dizer, pois nesse exato momento, outro baque surdo preencheu nossos ouvidos.
E meu corpo inteiro tremeu.
Quando eu percebi que era a porta do porão. Fechando com força.
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