Bell Wants To Kill The Beast
3 Three
Notas iniciais
A floresta era densa e escura, mas a menina já sabia se virar ali. Construíra seu próprio arco e confeccionara todas as flechas. Aprendera a caçar prestando atenção aos movimentos dos caçadores de sua antiga vila. Ela corria pela floresta com seu cheiro camuflado para não assustar os animais. Espalhara armadilhas caseiras num raio de cinco quilômetros da sua cabana, na esperança de pegar alguns roedores. Então, ela avistou um cervo há quinze metros de sua posição. Abaixou entre os arbustos e puxou uma flecha da bolsa. Preparou o arco e respirou fundo. Mirando perfeitamente no coração do animal, ela soltou a flecha. Mas, algo desviou a flecha de seu trajeto e assustou ambos o animal e a menina. O cervo saiu correndo quando um homem alto e bem vestido com roupas ocidentais apareceu de um arbusto à leste da caçadora.
— Apareça! — o homem girava vagarosamente, visivelmente perdido. Era jovem, aproximadamente vinte anos. Os olhos eram intensamente azuis e os cabelos eram um emaranhado negro. A menina se encolheu ainda mais dentro do arbusto. Nunca vira outra pessoa dentro daquela floresta além dela mesma. De repente, algo a puxou para cima e ela se viu encarando aquele par de olhos azuis intensos. — O que você está fazendo é horrível. — disse ele. A menina chutou a canela do homem, fazendo com que ele a soltasse. Enquanto ele reclamava de dor, a caçadora preparou uma flecha no arco e apontou para o estranho. Ele levantou as mãos em defesa. — Calma, calma. Não sou seu inimigo.
— Não devia ter atrapalhado a minha caça. Aquele cervo daria refeições por uma semana. E como aprendeu a falar essa língua? Você não é daqui.
— Nossa. — ele abriu um sorriso de tirar o fôlego. — A senhorita é brava. Quanto a sua língua, eu aprendi com o meu mestre. Mas, ele também não é chinês. E, quanto à caça, você não precisa do cervo. Todas as armadilhas que colocou na floresta pegaram um animal.
A menina desarmou o arco.
— Saia da floresta enquanto há tempo. — ela olhou para o céu. — Logo vai escurecer e o senhor vai se perder. Esta floresta prende à todos que entram e passam a noite. — a menina fez uma reverência. — Adeus.
— Espere! — o moço a segurou pelo braço. — Eu já estou perdido. Desde ontem, quando entrei aqui. Rodei esta floresta quase por inteiro e não achei uma saída sequer. — seus olhos azuis brilhavam. — Me ajude, por favor.
Não podendo recusar o pedido, a caçadora apenas assentiu contra sua vontade.
— Venha. Você pode passar a noite na minha cabana. Mas, amanhã você vai embora.
— Muito obrigado! E... o que vamos ter para o jantar?
— O que as minhas armadilhas pegaram.
O homem entortou o nariz.
— Tem alguma planta comestível por aqui? — ele indagou.
— É vegetariano?
— Bom...não gosto de comer animais, sabe?
Ela riu.
— Podemos colher no meio do caminho.
— Fico muito agradecido, senhorita...
— Pardal Negro.
— Pardal Negro. Lindo nome. — ele segurou a mão da garota e depositou um beijo ali. — O meu nome é Samael.
******************************************************************
Bela acordou suando. Havia sonhado com um acontecimento de anos atrás, quando ainda estava presa naquela floresta. O nome de Samael ecoava em sua mente, trazendo à tona o sentimento que Bela desenvolvera por este homem. Balançou a cabeça e levantou da cama. Abriu as cortinas para deixar o sol entrar, mas ele ainda nem nascera. Ascendeu a vela para encontrar uma roupa no armário. Pegou a primeira que lhe chamou atenção: um vestido de lã azul claro com mangas compridas brancas. Prendeu o cabelo em um rabo de cavalo e desceu para a cozinha, afim de começar a arrumar aquela bagunça que haviam feito mais cedo. Ascendeu os candelabros da cozinha para iluminá-la. Os ponteiros do relógio acusavam ser cinco da manhã.
— Ótimo. Assim, o café da manhã não sai atrasado.
Decidiu não tentar matá-lo tão cedo. Limpou toda a sujeira dos biscoitos e preparou um chá de canela com leite, junto com croissants de queijo. Aprendera a cozinhar quando fora treinada para ser uma guerreira. Bela, em seu tempo livre, vivia visitando a cozinha, onde uma mulher baixinha e robusta preparava os quitutes para os soldados e para a nobreza.
As janelinhas da cozinha foram iluminadas pelo sol das seis da manhã. Sete horas era quando Bela iria acordar Lemminkainen, então, como ainda havia tempo, decidiu explorar outra parte da casa enquanto os croissants assavam. A partir da escadaria do hall, Bela seguiu pelo lado esquerdo, sem subir a escada de caracol. A primeira porta do corredor revelou uma sala de música, com um piano preto enorme, um violino pendurado e um violoncelo embaixo. As cortinas eram beges e estavam abertas, deixando o sol entrar. Dava-se para ver uma camada de poeira em cima de cada instrumento. Bela se aproximou da janela, para ver todo o reino de Brasca abaixo e as montanhas em volta. Seu coração bateu dolorido ao pensar que só poderia sair quando matasse o feiticeiro. Então, voltaria a procurar pelo seu amado Samael, na esperança de ele ainda lembrar-se dela.
Desceu correndo para tirar os croissants do forno e arrumá-los num pratinho. Faltavam dez minutos para as sete e Bela ainda tinha de encontrar o quarto de Lemminkainen. Do lado direito da casa, antes da escada de caracol, havia uma porta no fim do corredor que era o escritório do feiticeiro. Mas, Bela não havia prestado atenção que, ao longo do corredor, havia uma porta que estava camuflada com o papel de parede de flores. Girou a maçaneta e encontrou um quarto, com uma cama de casal gigante, com cortinas de veludo azul marinho. As cortinas da janela eram pesadas e escuras, mas Bela não hesitou em abrí-las. A luz do sol inundou o quarto, revelando o resto da mobília de mogno. Uma cômoda, um guarda-roupa, uma penteadeira e uma escrivaninha preenchiam o lugar. Bela depositou a bandeja de prata na cômoda e abriu as cortinas da cama. Nesta, Lemminkainen dormia enrolado nas roupas de cama vermelhas, com apenas a cabeça para fora. O cabelo prata estava esparramado no travesseiro de penas de ganso. Ele tinha uma expressão tão tranquila e inocente que fez Bela se coçar para não matá-lo ali mesmo. Com uma voz suave, Bela sussurrou:
— Senhor Lemminkainen, está na hora de acordar. — o homem abriu os olhos azuis intensos. Por um momento, Bela sentiu que ele estava olhando sua alma. Abriu um sorriso trêmulo. — Bom dia.
— Bom dia. — Lemminkainen abriu um sorriso torto.
— Eu trouxe seu café da manhã. Para hoje temos croissants de queijo com chá de canela com leite.
— Envenenado também? — ele se sentou e coçou os olhos. Bela agarrou as alças da bandeja com força.
— Infelizmente, não.
— "Infelizmente"? — Bela colocou a bandeja em seu colo.
— Coma tudo e, depois, leve a bandeja para a cozinha. Estarei limpando a sala de música, se precisar. — Bela saiu do quarto sem bater a porta. Lemminkainen mordeu um croissant desconfiado, mas não sentiu nenhum gosto estranho. O cheiro do chá era maravilhoso e sem nenhum veneno. Ele tomou um gole.
— Este cheiro de canela me lembra você, — ele sorriu consigo mesmo. — Pardal Negro.
Fale com o autor