Notas iniciais
O bloqueio só me permitiu escrever isso...ou é porque eu estou escrevendo quatro fics de uma vez? Enfim...

Lemminkainen levantou-se e colocou a bandeja de prata em cima da cômoda. O cheiro de canela ainda rodava no ar, fazendo-o se lembrar de dez anos atrás, quando encontrara a mulher por quem daria a vida. Hēi què era seu nome. Seu significado era Pardal Negro, o qual Lemminkainen achava belíssimo. Seus cabelos eram negros como a noite sem estrelas e os olhos transmitiam muita coragem. O feiticeiro se lembrava como se tivesse a conhecido no dia anterior. Ainda podia sentir a pele macia como seda da chinesa na ponta de seus dedos, que formigavam. Entrou na banheira para tomar seu banho matutino e para despertar completamente. As pontas do cabelo prateado boiavam serenamente na água, cobrindo as costas brancas de Lemminkainen. Os olhos azuis intensos agora estavam dispersos, olhando para um passado que jamais voltará. Ele a esperou, esperou que ela cumprisse a promessa que fizeram de que quando ela saísse daquela floresta procuraria por ele. Angustiado, Lemminkainen passou a procurá-la. Procurou na China, procurou na Ásia e, por fim, em todos os lugares possíveis. Mas, não a achou. O que teria acontecido se ele tivesse esperado? Teria ela procurado por ele? Estariam juntos, com uma família? O tempo passou e o feiticeiro culpava-se cada dia mais pela sua impaciência. Agora, estava perdido e fadado a viver aquela vida miserável na qual ninguém seria capaz de amá-lo novamente.

O barulho do piano ao longe tirou-lhe do devaneio. A música era triste, um folclore chinês que Lemminkainen conhecia muito bem. Hēi què tocou essa música em uma flauta de bambu para ele quando estava de partida.

— Esta música fará com que você nunca se esqueça de mim. – disse Pardal naquele dia. E, desde aquele momento, Lemminkainen nunca esqueceu aquela melodia e nem quem lhe mostrou. Colocou um sobretudo preto com uma calça de couro preto. Por cima, colocou a tão prestigiada capa vermelha de veludo. Estendeu a mão sobre a penteadeira e os anéis de prata foram colocados magicamente em seus dedos. Desta vez, por motivos óbvios, não usaria coroa. Não iria sair de casa naquele dia. Lembrar-se de Pardal Negro fazia com que o dia se tornasse nublado, mesmo havendo um sol que brilhava para todos naquela terra.

Perambulou pela casa absorvendo o som das teclas do piano velho, desafinado e empoeirado da sala de música. Levou a bandeja para a cozinha e surpreendeu-se ao vê-la arrumada e limpa após toda a bagunça que fizeram de madrugada. Após isso, subiu vagarosamente pelas escadas da casa até a sala de música e deparou-se com a porta escancarada. Bela estava de costas, concentrada em tocar. O vestido azul serviu perfeitamente em seu corpo. O corpete não estava apertado e nem frouxo, e a saia caía sobre a banqueta, abrindo-se como uma flor. Os braços finos da menina eram ágeis, descendo e subindo oitavas no instrumento enorme e negro.

— O quê está fazendo? – a voz grossa do feiticeiro se sobressaiu e assustou Bela, que levantou num pulo, parando a música no meio.

— Lemminkainen! Eu... eu ia... – ela gaguejou assustada.

— Você devia estar limpando esta sala, e não tocando piano. – ele se aproximou do instrumento e passou o dedo nas teclas, cheias de pó. – Sua função nesta casa é limpar, cozinhar e me servir. Não está aqui para ter aulas de música.

— Estava apenas me lembrando da minha terra natal. Que mal há nisso?- Não precisa se lembrar. – Lemminkainen abriu um sorriso sádico. – Você nunca voltará para lá. Não é mais fácil esquecer?

Furiosa, Bela desferiu um soco no nariz do feiticeiro, que desviou de última hora. Bela achou um absurdo ele pensar que podia prendê-la ali para sempre e achou uma falta de respeito falar de sua terra natal daquele jeito. Sempre fora difícil de tirar do sério, mas sua paciência havia acabado com Lemminkainen. Sem se importar se o que tinha por baixo da saia ia ser mostrado, Bela chutou o lado esquerdo do rosto do homem, que pegou seu pé e a girou no ar. Bela pousou no chão flexionando as pernas, a saia do vestido ainda girando no ar. Então, ela correu na direção do feiticeiro ao mesmo tempo em que ele cambaleava para trás devido à defesa eu fizera. Pulando no ar, Bela flexionou a perna esquerda, concentrando toda a força no chute da direita. Mas, Lemminkanen desviou e agarrou seu pescoço, levantando-a no ar. As unhas da guerreira arranhavam insanamente as mãos do homem, sem nenhum sucesso.

— Voltando-se contra o seu mestre, é?! – disse ele, seus olhos estavam muito perto dos de Bela.

— Você...não é...meu mestre. – Bela conseguiu falar apesar da pressão feita em sua garganta.

— Ah, não? Então sou o quê? — Bela sorriu. Estava começando a ficar pálida.

— Meu alvo. Não se esqueça, não sou sua empregada. Estou aqui para te matar. Eu vou achar seu ponto fraco, Lemminkainen, e vou cutucá-lo até que você caia, fraco e derrotado, aos meus pés. – Lemminkainen a encarava horrorizado. — E, então, neste momento, eu cortarei sua cabeça e esse seu lindo cabelinho prateado.

Lemminkainen se aproximou o bastante para Bela sentir as batidas do coração dele. Ela podia sentir os lábios gélidos do feiticeiro em sua orelha e sua respiração entrava sedosamente no ouvido de Bela.

— Estou ansioso por isso. – Lemminkainen sussurrou e, em seguida, largou Bela, que caiu sonoramente no chão. Quando ela levantou a cabeça, conseguiu ver apenas a ponta da capa vermelha de veludo. Por um curto período, ela se permitiu chorar. Chorar de raiva. Mas, tinha que se controlar. Precisava se controlar. Ela se levantou, tirou o pó do vestido, limpou as lágrimas e se recompôs. Agora era Bela novamente. Seu lado Pardal Negro não deveria jamais aparecer de novo.

Lemminkainen estava furioso. Todos os seus nervos estavam à flor da pele. Com essa garota não seria fácil de lidar. Quando chegou em seu escritório, bateu a porta com força. Passou as mãos na cabeça, claramente fora de si. Sentou-se na cadeira aveludada atrás da mesa, onde havia feitiços antigos abertos. Um deles era aquele que seu mestre havia lhe jogado num momento de ódio, o feitiço do Mal Amado. Sim, o nome era ridículo, mas seus estragos eram sérios. Todos aqueles com os quais Lemminkainen tentasse conversar, odiavam-no de imediato. E era exatamente por isso que ele era completamente sozinho. Até surgir Bela. Ela não o odiou de imediato. Mas, acostumado a receber o ódio das pessoas, Lemminkainen aprendeu a se defender de um jeito rude e assustador. E era apenas esse lado que ele conseguia mostrar. Pensou bem e descobriu que se esforçava demasiadamente para mostrar seu lado ruim. Descobriu, também, que não gostaria de perder Bela, pois era a sua única companhia após anos. Então, era seu dever recomeçar com a guerreira, mostrar a ela que podia confiar nele, que podia conversar com ele. Apressado, saiu do escritório sem ao menos colocar a capa vermelha.

Lemminkainen correu até a sala de música, onde encontrou Bela agachada esfregando o chão. Ela o encarou por um instante antes de voltar a esfregar o chão, ignorando-o. A respiração do feiticeiro estava ofegante devido à corrida.

— Bela, perdoe meu comportamento rude. – disse ele da porta.

— Está tudo, esse comportamento é normal quando se sabe que vai ser assassinado pela pessoa perante si. – ela respondeu, seca. Continuou a esfregar o chão.

— Não! Por favor, me perdoe. Você é a minha primeira e única companhia em anos. – seus olhos e sua voz estavam suplicantes. Bela parou de esfregar o chão, segurando a escova contra o piso. Então, ela jogou a escova dentro do balde e se levantou. Olhou com certa dó para Lemminkainen.

— Eu sei como é ficar sem nenhuma companhia. Sozinho, é perigoso enlouquecer. – Bela viu o feiticeiro assentir com a cabeça. – Mas, eu estou tentando te matar. E, também, não posso garantir meu comportamento, sabe?

— Sim. – ele abriu um sorriso familiar para Bela. Por um momento, ela se lembrou de Samael e da floresta solitária. Mas, sua fala seguinte seria uma confirmação para essa familiaridade: – A senhorita é brava. Quanto à sua língua, eu aprendi com o meu mestre. Mas, ele também não é chinês. Estou avisando para o caso de você praguejar em chinês.

O coração de Bela bateu forte no peito. Ele é...o meu Samael? Como é possível ter mudado tanto? Ou, eu estou delirando e confundindo-o só porque ele falou uma frase familiar? Devo estar delirando, mas...por que é tão tentador descobrir sobre o seu eu verdadeiro? Esse acontecimento produziu muitas dúvidas na cabeça de Bela, que só seriam respondidas com o tempo.

— Está bem, então...eu lhe darei uma última chance.O feiticeiro abriu um sorriso radiante e sincero, e correu na direção de Bela. Ainda envolta em suas dúvidas, Bela não viu quando os braços de Lemminkainen passaram por sua cintura, abraçando-a calorosamente.

— Obrigado. – ele sussurrou em seu ouvido. E, tudo o que Bela pôde fazer, foi abraçá-lo de volta e esconder o rosto em seu ombro.

Vou me esforçar para conhecê-lo por dentro e descobrir se és meu Samael.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.