Believe In Me
40 Capitulo 40 — Testamento
Notas iniciais
Eu despertei na manhã seguinte de mal humor. Olhei pera quinta vez para o celular e bufei, irritada por Liam não me ligar e também por não me atender. Fiz o trabalho de me arrumar proferindo lamurias terríveis. Era dez da manhã e estava me preparando para a tão inesperada leitura do testamento.
Enquanto olhava para o espelho e passava o lápis de olho, resolvi trocar umas palavrinhas com Jack, então disquei seu numero no meu celular e esperei.
— Minha marrentinha favorita me ligando tão cedo em uma segunda-feira em que não precisamos ir mais para o colégio. Que surpresa! — Virei os olhos.
— Estou ligando para pedir que você tente ligar para o seu amigo idiota — Juntei os cabelos na mão e fiz um rabo de cavalo alto — Liam não está atendendo nenhuma das minhas ligações e preciso falar com ele. Não tenho dia todo porque estou prestes a sair.
— E onde vossa senhoria vai? — perguntou, e era obvio que tinha a boca cheia de alguma besteira.
— Apareceu um cara engomado aqui ontem dizendo ser advogado da minha mãe. Agora estou prestes a participar de uma reunião, onde vão ler o testamento dela — Jack fez um ruído surpreso, com certeza se engasgou.
— Homem, isso é mesmo sério. Boa sorte, marrenta. Vou tentar contato com nosso lutador — falou, e então perguntou — Tia Amara, vai?
— Sim. Por isso estou estranhando que Liam não tenha ligado ainda. Provavelmente ele e a família inteira já sabem dessa merda de testamento. Não é normal que fique sem me passar as doces condolências dele — Sem falar que o imbecil passou a noite comigo. Ele tinha que ligar!
Corri para a cama e peguei a mochila, jogando minhas fotos e todos os documentos necessários. Em seguida não pude deixar de franzi o cenho para o cartão em cima da cama, que Marissa havia me deixado.
Jack riu do outro lado da linha.
— Você está certa. Mas provavelmente ele tenha dormindo no Mick, por isso pode não saber de nada — Peguei o cartão da cama e enfiei no bolso da calça.
— Que seja. Apenas tente falar com ele — Abri a porta do quarto e corri escadas a baixo — Conte a todos sobre isso, e se não tiver noticias do sumido, mande-me o endereço da casa dele por mensagem para que eu vá lá. Não suporto ficar esperando.
— Ok gata. E boa sorte de novo.
A casa estava agitada hoje. Carter era que iria comigo e Amara até o escritório do doutor Williams, mesmo que Linnea tivesse batido o pé exigindo comparecer também. Ela acabou cedendo, pois ainda precisava ir trabalhar.
— Olá — falei ao entrar na cozinha.
Hannah estava de volta e alimentando a criança da casa. Fui até ela e sorri, para depois chacoalhar o cabelo de Ivy.
— E ai menina. — A garotinha gargalhou alto.
— Jojo! — cantarolou.
— Querida. Venha comer algo antes de sair. — Linnea me empurrou até a mesa e beijou minha testa — Como se sente?
— Estressada. Ansiosa. Querendo quebrar alguém...oh, ops. A última coisa é todo dia — disse com ironia. Linnea sorriu tristemente.
— Vai dar tudo certo meu amor.
— Eu espero que sim. — A campainha tocou.
— Ah. Deve ser Amara, volto já — Ela correu para atender a porta enquanto eu começava a comer. Carter apareceu ajeitando a gravata logo em seguida e sorriu para mim ao se sentar na cadeira.
— Tudo bem? — perguntou. Eu virei os olhos.
— Vamos poupar as perguntas okay. Isso não vai ficar bem até saber o que minha mãe disse na droga do testamento — Eu não queria ser rude com ele, mas as coisas estavam acontecendo tão rápido, caindo em minhas costas com tanta força, que eu já não me importava em ser gentil. Fiquei aliviada por Carter compreender isso e apenas assentir, esfregando meu braço.
Os passos de Linnea e Amara se tornou audível assim como suas vozes, ambas demoram um pouco a aparecer, e ao fazê-lo eu detectei problemas no mesmo instante. A cara da minha advogada era de poucos amigos, sem falar que seus olhos pareciam preocupados e estavam circulados duas machas profundas e escuras, entregando que havia passado a noite em claro.
Olhei para as duas.
— O que está acontecendo? — Elas viraram, e vi Linnea morder o cantinho do lábio enquanto Amara respirava fundo.
— Nada de importante. Apenas uns problemas com minha família — respondeu. Meu coração já pulou em alarme. Tinha haver com Liam! Eu sabia que algo ocorreu. Sabia.
— Família? É o Liam? — Me levantei na cadeira para ir até ela — Aconteceu alguma coisa com Liam? — Amara estreitou os olhos azuis para mim, surpreendida, e quando não respondeu, peguei em seu braço impaciente. — Fale de uma vez! Ele está bem?
— Se acalme Jodie — Linnea tocou meu ombro e me afastou de Amara. — Liam está bem.
— E por que essas caras? Por que ele não atendeu minhas ligações e não está me mandando nenhum sinal de vida? O que não estão me contando? — fuzilei as mulheres raivosamente. Eu odiava mentiras, odiava que escondesse as coisas de mim. E era isso que ambas estavam fazendo!
— Ethan está resolvendo uns... — Amara limpou a garganta — assuntos, com Liam e Mick. Mas garanto que meu filho está bem, não mentiria sobre isso Jodie — A encarei muito duvidosa, mas fiquei satisfeita quando ela enfrentou o olhar sem vacilar. Relaxei a postura e voltei par aminha cadeira ao lado de Carter.
— Então. Que tal me falarem mais sobre o advogado que veio ontem? Quero estar a par da situação — sugeriu. E assim começamos o café da manhã.
Deixei que Linnea e o marido explicassem tudo e me dirigia a Amara apenas quando me perguntava algo. O resto de tempo fiquei olhando o celular como uma garotinha boba a espera do namorado que vai ligar. Aquilo era insuportável.
Quando deu meio dia em ponto, saímos para o encontro com advogado. Carter nos levou em seu carro. O lugar onde dr. Williams trabalhava era um prédio com janela de vidro, e enquanto seguia Amara e Carter, e apertei a alça da mochila pensando se estava fazendo o certo ao ouvir aquela leitura do testamento sem Michelle. Era direito de tanto quando era o meu.
Engoli a amargura da garganta e me encostei-me ao espelho do elevador totalmente indecisa.
— Amara? — chamei. A mulher se virou para mim assim como Carter — Estou fazendo o certo ao deixar Michelle de fora? — Esfreguei o rosto e suspirei — Ela também é filha da Marissa e tem o direito de comparecer — Amara me olhou por uns segundos, pensativa, trocou olhares com Carter e respondeu.
— Talvez seja o certo Jodie — falou, e acrescentou — Não é como se você fosse esconder isso para sempre de sua irmã. Está tentando preservar a felicidade dela... Eu sei que quando chegar a hora, ela vai compreender e você vai poder contar tudo o que aconteceu aqui. Michelle agora é uma criança e você, por mais duro que seja, já é uma menina crescida... Pode lidar com isso muito melhor. — Consegui ficar mais tranquila com essas palavras, porque elas faziam sentido.
Amara estava certa, um dia eu ia contar a verdade a Michelle, e esperava que essa me perdoasse ao saber dos meus sacrifícios para protegê-la.
~*~
O escritório de Lorenzo Williams era do tamanho de uma sala de estar, com um monte de janela que pareciam que a qualquer instante seriam estilhaçadas pela entrada do Batman.
Williams estava de pé junto a uma mesa de marfim com quatro cadeiras. Quase parando onde estava, fui empurrada gentilmente por Carter para que nos sentássemos à mesa retangular bonita. O advogado analisou a nós três cautelosamente
— Devo encarar a ausência da irmã mais nova como a sua decisão. Certo? — perguntou a mim. Pesadamente assenti e ele acenou de volta — Ótimo, vamos começar — Ele tirou um documento de uma pasta de couro marrom, ajustou seus óculos bifocais e começou a ler:
— “Eu, Marissa Evans Jodie, apresento minha única vontade perante a lei — Apertei as mãos em cima das pernas quando comecei a tremer, mas tentei ficar sob controle quando o toque de Carter me garantiu amparo para qualquer coisa —... Desejo que meus últimos centavos, guardados com tanto afinco, passe para as mãos de minhas filhas, Elizabeth e Michelle. Fortuna herdada por mim, e escondida a preço por meu pai, Harry Evans. Passo-a agora as minhas meninas com o pedido de que usem o dinheiro da melhor forma.” — O advogado refreou nas palavras por um momento e então limpou a garganta e continuou:
— Sendo assim classificado por mim: Elizabeth, como irmã mais velha e minha primogênita, será responsável pela parte de Michelle até que essa tenha completado a maior idade. O cartão entregue a Elizabeth será a única forma de acessar a conta, porém outro será entregue a Michelle assim que complete seus dezesseis anos.
— Se vocês, minhas filhas, estão vendo isto, significa que eu morri e decidi usar meu testamento. Sei que devem estar assustadas ou talvez apenas uma das minhas meninas esteja presente... — Abaixei a cabeça, prendendo as lágrimas nos olhos ao máximo possível — Mas mesmo assim existem desafios dos quais vocês devem passar, e quero que esse dinheiro lhes ajude a seguir em frente sem empecilhos. Garanto a vocês que tudo vai dar certo, eu acredito nisso e quero que façam o mesmo. Meu advogado, Lorenzo, tem cartas destinadas a vocês feitas por mim e as entregará no final da apresentação desse testamento, espero que consigam a liberdade com isso. Amo vocês. Boa-sorte, e adeus.” — Eu olhei para a janela atrás do homem com afinco e comecei a sangrar, a ferida começou se abrir assim que o Adeus, foi lido. Segurei minha emoção, e tirei o cartão que estava em meu bolso.
— Então eu sou dona do dinheiro dela? — indaguei com a voz franca. O advogado assentiu.
— É dona do seu dinheiro. Se for ao banco agora mesmo, poderá pegar a quantia que quiser — falou, e sorriu amigável antes de abrir a pasta de couro e me empurrar duas cartas — Aqui está. Como ela pediu. — Olhei os dois envelopes com medo. Os puxei e foquei no que estava com meu nome.
— E é somente isso? — Amara falou pela primeira vez, e também parecia emocionada mesmo que tentasse esconder — Sobre a irmã mais nova. Ela terá que assinar alguma coisa? Ou Jodie?
— Nada disso. Está tudo certo, a srta. Elizabeth já é responsável por todo dinheiro, isso até a irmã completar a maior idade. A carta deixada pela mãe pode ser entregue a ela agora mesmo, como foi o pedido de Marissa.
— Então podemos ir? — O homem retirou os óculos.
— Com certeza. Já terminamos aqui. Foi um prazer conhecê-los — O advogado se levantou, assim como Amara e Carter, mas eu continuei onde estava. Não sabia se poderia me mover.
— Jodie? Querida, vamos — Eu quase desabei quando Carter falou tão carinhosamente comigo enquanto segurava meus ombros e me puxava para ficar em pé. Agarrei as cartas com força contra mim e depois as enfiei na bolsa. Não sabia quanto mais de tempo podia aguenta.
— Me leva Carter... Quero ir para casa. Por favor — A feição dele foi de eterna preocupação e carinho. Ele alisou meu rosto e fez com que eu deitasse a cabeça em seu ombro.
— Nós vamos. Agora mesmo. — sussurrou, esfregando minhas costas. Eu não senti que estava de olhos fechados até que os abri e fixei a visão nos vários papeis em cima da mesa. Esfreguei os olhos casados quando, no meio daquela bagunça, encontrei o meu nome, o de minha mãe e também de Edgar. Comecei a compreender que aquela era a uma ficha marcando-nos como “A família Jodie”. Procurei agitadamente o nome de Michelle, e quando não encontrei, vacilei para longe de Carter.
— Jodie? — Ele estranhou o ato e me assistiu remexer nos papeis até que finalmente encontrei o nome de minha irmã, no entanto, o que vi me causou uma tontura descomunal. — Jodie o que está olhando?
— Co-Corey...? — chacoalhei a cabeça confusa e virei-me para o advogado e Amara, que estavam franzindo o cenho para mim — Por que colocou o nome da minha advogada no nome da minha irmã? O senhor se confundiu? — Lorenzo ergueu uma sobrancelha e mirou Amara, essa estava incrivelmente pálida.
— Não houve engano nenhum senhorita. Sua irmã não é mais uma Jodie, ela foi adotada. Corey é seu sobrenome agora — Afoguei um par de tosses em minha garganta enquanto eu cambaleava para trás, as lágrimas começando a embaçar os meus olhos.
— O que? — Amara se aproximou com as mãos erguidas no ar indicando calma.
— Jodie, eu posso explicar. Só tente se manter calma — Eu senti o sangue rugir em meus ouvidos, obliterando som. Reagindo antes que pudesse pensar, eu rosnei para ela, me afastando passos para trás, minha garganta parecia fechar com a visão do rosto sem cor de Amara.
— Você está com ela! — esbravejei, ensandecida de raiva — Esteve com ela o tempo todo! — Meu corpo tremia e eu não conseguia ver nada além do rosto de minha irmã. Amara teve os olhos arregalados com lágrimas rapidamente, e eu não pude acreditar que aquilo era mesmo verdade.
— Jodie, por favor... Nós tentamos lhe contar.
— Nós? — Carter entrou em minha visão atordoado, e ele percebeu quando entendi a parte do “nós.” — Você e Linnea... Ethan, todos vocês — Minha respiração ficou descompassada e minha vista distorcida. Toquei minha cabeça ao sentir uma pontada forte que trouxe a imagem grande e nítida de Liam em meu quarto. Seu rosto pálido feito cera, olhos espantados fitando a foto da minha irmã, que na verdade também era “irmã” dele.
A apunhalada foi certeira. Bem no coração.
— Liam sabia... Ele não contou — sussurrei inconformada. Apertei o peito dolorosamente — Oh não...
— Jodie, me escute — Amara pegou em meu braço — Venha, sente e posso te explicar tudo do começo e...
— Não toca em mim! — Arrastei-me para longe dela, bufando com a fúria e louca pela a merda da enganação — Não devia ser vocês! Não deviam estar aqui! Eu disse para levarem ela embora, eu implorei isso e vocês apenas permitiram que eu ficasse mais perto — As lágrimas salgadas rolaram soltas, e vi Carter tentar me alcançar, mas eu não deixei — Todos mentiram para mim, Linnea disse que ela estava segura. Vocês permitiram que eu ficasse ao lado de Liam! Vocês são a família dela!
— Não podíamos! — Amara gritou sobre minha voz, desesperada por um pouco de compreensão — Como faríamos você se afastar sem ter um motivo, Jodie? Você não queria saber quem era a família de Michelle, se recusou. E nunca pensamos em abandoná-la, e não somente porque Liam gosta de você... Mas porque é irmã dela e já passou por muita coisa. Ethan e eu queríamos te ajudar, por favor, tem que acreditar em mim. Eu me importo com Mitchie, Deus sabe como sinto medo por ela, mas eu não podia lhe deixar depois que soube quem era — Ela passou a mão pela bochecha, apagando as marcas de lágrimas, mas os olhos azuis liberaram mais.
— Ela era mais importante — murmurei a seco — Vocês me ouviram tantas vezes pedir para partir, para levá-la embora e cuidar para que ela nunca entrasse no meu caminho. Eu desabafei com Liam... e ele mesmo assim não me contou sobre ela quando soube uma noite atrás. Ele ignorou minhas ligações e mensagens, me deixou no vazio enquanto ficava preocupada que meu pai, tivesse o machucado. — Tossi, engasgando com as lágrimas geladas, e a encarei sombriamente — A senhora não entende que se meu pai vir atrás de mim, ele vai também querer Liam? E isso o levará diretamente para Michelle de mão beijada. Como permitiu isso Amara? É minha irmãzinha — A advogada fungou, e então balançou a cabeça, negando minhas palavras.
— Não. Eu não vou permitir que ele leve ela — garantiu, e realmente parecia convicta enquanto começava a andar — Eu não vou deixar ele pegá-la, porque ela é minha filha, Jodie. E eu vou protegê-la! — Encarei seus olhos com descrença, com desgosto.
— Se a mãe verdadeira dela não conseguiu me salvar de Edgar... Acha que você vai impedir alguma coisa? — balancei a cabeça negativamente — Ele virá, e conseguira a mim, a Michelle, e também a Liam. E isso será tudo culpa de vocês.
Eu ignorei a dor que me assolava e empurrei meu corpo para a saída em uma corrida além de meus limites, nem mesmo me preocupando com o tráfego quando cheguei a rua. Alguém gritou por mim, mas eu ignorei e segui em frente até sentir o calejar dos dedos, até sentir a falta de oxigênio nos pulmões.
Quando finalmente parei para tomar fôlego, não existiam lágrimas para derramar, apenas o ódio percorrendo as veias, o medo rondando minha mente bagunçada. Virei o rosto quando ouvi ruído de pneus guinchando; O carro de Carter apareceu na curva da rua como se um louco desgovernado estivesse atrás do volante.
Olhei os lados atrás de um esconderijo, e assim que encontrei a cerca logo à esquerda, com arbustos e flores, eu me joguei atrás delas e me escondi. Carter passou direto com o carro deixando marcas de borracha no chão de pedra da rua estreita. Respirei fundo e devagar, controlando meu corpo e tentando pensar com calma, e estava conseguindo... pelo menos até meu celular vibrar em meu bolso avisando ter uma mensagem de Jack.
Princeton — 58 Leigh Ave.
Pegue ele gatinha.
Minha visão escureceu com a raiva novamente. O maldito morava a cincos ruas depois da minha casa. Que merda Amara e Ethan tinha na cabeça em continuar em uma casa tão perto da de Edgar? Meu coração lufou, e na segunda batida acelerada que ele deu, eu pulei para os meus pés e comecei a correr novamente, dessa vez a caminho da casa de Liam.
Comecei a ver seu rosto e grunhi, lembrando de sua reação ao ver a foto. Porcaria. Ele devia ter me dito assim que viu! Tinha que ter me falado! Eu não podia aceitar isso, estar perto dele era colocar Michelle em perigo e assim também levá-lo ao perigo.
Virei três ruas, ensandecida, sem ter mais lágrimas para chorar e somente a angustia para cuidar, tive um momento de dor quando passei por minha velha casa. Pelo lugar em que tanto fui espancada e que assisti minha mãe morrer aos poucos. A emoção me atingiu a um nível anormal e eu fugi daquele lugar, sofrendo em todos os passos acelerados, sendo torturada como se fosse uma bandida sem escrúpulos.
No entanto, nada se comparou com a dor que senti ao chegar na fachada da casa certa. A tão belíssima e enorme estrutura dos Corey, onde Liam morava. Onde minha irmã devia estar morando... Meu estômago revirou e o mal estar subiu com uma avalanche. Segurei-me na lata de lixo que tinha ao meu lado, e sem forças para aguentar, vomitei meu café da manhã dentro da lata me sentindo imunda.
Deus. Eu estava a alguns passos de minha irmã, e tudo que pensava era em encontrar Liam para gritar com ele. Como isso era possível? Por que eu estava sentindo tanta raiva, tanta traição? Não entendia. Não entendia nada.
— Liam — gemi, me afastando da lata e limpando a boca. O suor pingou minha testa enquanto eu andava para mais perto da casa, até que estava com os pés cambaleantes no jardim. — Liam — Minha cabeça estava girando, o mundo girava, e tudo que eu conseguia chamar, era o nome dele. Somente o dele. E continuei dizendo até estar berrando, gritando para o céu o nome do idiota que tinha conquistado meu coração e que agora estava o machucando — Liam!... Liam! — A porta da casa se abriu quando minhas cordas vocais já estavam roucas. Os primeiros a descer a varanda foi Ethan e Mick, as expressões assustadas em minha direção.
— Jodie, o que... — Ethan não completou, porque logo em seguida o novato apareceu nas escadas ofegante e completamente pálido, o susto denunciando tudo em seu rosto ao me olhar.
— Jodie? Oh meu Deus, o que aconteceu com você? — Minha aparência devia ser mesmo terrível para horror que apareceu em seu rosto. Mas não dei a mínima para isso, porque quando ele começou a se aproximar, eu senti tudo voltar.
Rugindo, eu corri e me atirei nele, o surpreendendo tanto que ele não conseguiu se livrar do soco que acertei em seu olho.
— Traidor! — berrei prestes a pular nele novamente, mas braços me circularam e puxaram-me para trás, impedindo-me de ir — Me solte. Não!
— O que está acontecendo Jodie? — Ethan grunhiu em meu ouvido tentando me deter, mas eu estava louca. Louca realmente.
Liam me olhava do chão, pasmo, nem parecia sentir a dor do soco, apenas me olhava com uma confusão estranha na face.
— O que eu fiz Jodie? — perguntou, levantando-se com a ajuda da mão de Mick. Ele tentou se aproximar, mas eu rosnei perigosamente — Jodie...
— Ela está aqui! Você não me disse! — Me chacoalhei nos braços de Ethan — Todos vocês estavam mentindo. Não era para serem vocês! Não deviam estar com ela... Não deviam estar na porra da minha vida. — Um pouco de compreensão acertou o rosto dele, mas ela trouxe o medo aos olhos azuis, e ele não hesitou em se aproximar e tomar meus ombros com força, tomando o domínio do pai. Eu não permitir, tentei me afastar — Não toca em mim!
— Jodie, não é isso... Escute-me. Eu soube ontem... Não tenho nada haver com isso. Eu juro por tudo — Chacoalhei a cabeça, sentindo, sofrendo. — Por favor, doçura, não pode fazer isso comigo, conosco — Ele tentou segurar meu rosto, mas o empurrei para longe. Ficando afastada. — Elizabeth — gemeu ele dolorosamente, e eu no mesmo instante lhe apontei o dedo ameaçadoramente.
— Não fale. Não tem mais o direito — funguei, começando a entender o porquê de querer tanto chama-lo, entendi o porquê de tanta raiva.
Deus, eu o amava. E amava tanto, que a luzinha de perigo estava acesa e piscando. Anunciando que ele estava preso na teia de uma aranha, e que aranha estava prestes a pegá-lo... E eu estava o colocando lá e permitindo que levassem Michelle de brinde. Era tudo eu.
— Eu não devia estar com você... Ethan e Amara tinham que levar vocês para longe de mim. Não mais perto. Eu trouxe Edgar comigo para sua vida, o que também o leva para a vida de Michelle... A minha irmã! Deviam ter ido embora.
— Como eu poderia ir? — Os olhos deles estavam carregados de dor, medo, lágrimas — Eu não poderia lhe deixar, não mais. Meu coração já foi tocado Jodie, o sentimento já está plantado e é tarde demais. Se meus pais fossem embora para proteger Mitchie, eu ficaria... Eu escolheria ficar com você por que eu te amo — Todo o ar pareceu sair de meus pulmões, e o que eu temia aconteceu... O meu mundo caiu bem na frente dele. Na frente da pessoa que eu tanto quis afastar e privar de sofrimento.
Eu apenas chorei enquanto esfregava a pele de meus braços, flexionando as unhas sobre a superfície sensível. Liam arregalou os olhos, assistindo pela terceira vez, uma de minhas crises. E logo atrás dele, Mick encontrava-se pálido e Ethan com um ar desesperado.
— Pare com isso Jodie! — Liam gritou, correndo para mim, mas eu não permiti que me parasse.
— Acabou. Acabou tudo. Acabou — A queimação subiu por meus braços quando as feriadas abriram, e não somente as de fora, como as de dentro também. — Acabou.
— Jodie, por favor... — As mãos de Liam foram a cabeça e seus olhos desesperados passaram por mim, e ele estava preparado para me agarrar quando mais uma vez, tudo parou. Tudo parou, somente por causa de uma voz suave e doce, que chegou aos nossos ouvidos.
— O que está acontecendo aqui? — Parei as unhas, parei os pés, parei tudo quando foquei somente nos olhos de Liam. Eu sofri quando sua primeira lágrima desceu, e sofri mais ainda, quando a voz feminina falou novamente. — Pai?
— Já para dentro Mitchie. Agora — Ouvi Ethan ordenar com um toque de preocupação na voz. Eu fechei os olhos.
— Liam... — gemi dolorosamente ao fechar as mãos sem punho. Pulei quando o toque chegou ao meu rosto.
— Shhh. Vai ficar tudo bem — sussurrou, cariciando-me lentamente. Ouvi os passos da menina na escada.
— Por que essa gritaria? Eu ouvi meu nome — Ela insistiu, e escutei o grunhido impaciente de Ethan.
— Leve ela Michael — falou, e eu soube quando o filho mais velho chegou a ela, pois Michelle gritou.
— Me coloca no chão Mick! — berrou escandalosamente. O irmão vaiou um pouco, e tinha certeza que havia sido machucado.
— Conversa para adulto pirralha. Vamos logo — Prendi a respiração quando a menina continuou gritando ao ser levada, e eu pensei que aguentaria ficar sem olhar, mas não pude. A curiosidade era demais, por isso abri os olhos e espiei por cima do ombro de Liam, esticando o pescoço para encontrar...
Os olhos azuis de Michelle em mim enquanto era levada por seu irmão adotivo para dentro da casa, jogada em cima de seu ombro. Eu tive certeza que minhas pernas fraquejaram quando Liam apertou seus braços a minha volta, e não me importei dessa vez com seu toque, pois estava ocupada demais vendo minha irmã pela primeira vez na minha vida.
— Não! Espera. Deixe-me ir! — A pequena ruiva gritou agora seriamente desesperada. Mick parou na varanda e a ajeitou nos braços, porém não soltou. Ele a olhou, mas ela não, apenas continuou com a vista em mim enquanto eu tinha a minha atenção nela.
— É ela — sussurrei. Sentindo lágrimas escorrerem — É mesmo ela — O seu rosto era redondo, as bochechas eram fartas e continha um pouquinho de sardas... Os cabelos eram exatamente os de Marissa, a boca desenhada era tão pequena, e os olhos... Ah, eram os meus.
Não tinha duvidas de que os olhos da menina me avaliavam enquanto escapava do colo de Michael, e então passava por Ethan, que olhou a menina tão carinhosamente, que solucei ao soltar levemente de Liam. Michelle parou a poucos metros de nós, apertando os olhos e entortando o rosto meigamente.
— Eu... Acho que conheço você — falou, e sua voz me fez tremer. Da distância que estávamos, pude perceber que a garota batia com a cabeça em meu peito. E ela era magrinha.
— E... de onde acha que me conhece? — perguntei, quase parando. A garota piscou duas vezes, e então ela pareceu encontrar uma resposta. Ela mirou Liam, e depois a mim com olhos assustados, depois aos meus braços.
— Oh meu Deus, você está sangrando! — Se assuntou. Liam tentou me tocar, mas eu me afastei, escondendo os braços ao perceber que estava sem jaqueta, mas foi inútil, um pequeno movimento, e a menina arregalou os olhos — Marissa? — congelei, e não pude mais aguentar, era muita humilhação.
— Desculpe, eu... te-tenho que ir — E virei na intenção de fugir, mas eu não esperava que aquela linda e doce menina, tomasse a iniciativa de me segurar pelo braço e girá-lo.
— Michelle — Ela leu, e quase morri quando as lágrimas dela foram soltas — Oh, Deus...
— Por favor, não chore — implorei, voltando para ela e fazendo-a liberar meu braço — Não posso aguentar isso também, apenas não chore. — Ela ergueu a cabeça para mim, seu nariz avermelhado e os olhos azuis alagados.
— É você, não é? — fungou a menina, os lábios tremendo — Diz que é você. — pediu chorosa. Sua mão recaindo no bolso de seu vestido laranja. Eu cai de joelhos a sua frente assim que ela virou as fotografias em minha direção, apontando para a de uma garotinha de seis anos, loura e com olhos azuis brilhantes — Essa é minha irmã, Elizabeth, mas vovó Harriet chamava ela de Beth... Ela ficou com meu pai verdadeiro. Eu o odeio, mas amo ela como amo minha mãe Marissa — Ela se aproximou de mim e tocou as pontas de meu cabelo — Você parece com a Beth. Tem o meu nome e o da minha mãe gravado no braço... Você é ela né? Veio para mim assim como a minha avó disse que faria? — Ai meu Deus.
Tampei a boca com a mão e olhei para cima, até Liam. Ele sorriu, os olhos vermelhos com emoção. Depois virei-me para Ethan e Mick e fiquei surpreendida com os sorrisos deles e a feição sentimental de Ethan. Voltei-me para a menina e respirei fundo.
Puxei a mochila dos ombros e abri. Retirei minhas fotos e mirei a ruivinha, abrindo um sorriso de lado.
— Eu demorei, mas em fim encontrei você — Subi as fotos na altura do rosto e Michelle arregalou os olhos, olhando para a de Marissa e depois, a dela própria.
— Sou eu! — Choramingou sorridente, e eu assenti, tomando uma inciativa de toque. Suspirei quando seus fios tão brilhantes enrolaram em meu dedo.
— Sim querida. É você — estremeci um novo choro — E eu sou a sua Elizabeth.
~*~
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