Believe In Me
32 Capitulo 32 — Recomeço
Notas iniciais
— Pensei que você fosse ficar longe de mim. Sabe, depois daquela sua dica de que se a garota gosta, ela foge por ter medo — Liam murmurou enquanto enrolava os dedos em meu cabelo, que de tanto remexer, se soltará do elástico e se encontravam espalhados sobre meus ombros e cobrindo metade do peito de Liam.
Estávamos deitados em um dos vários colchonetes daquela academia e, não sei por quanto tempo, conversamos sem brigar sequer uma vez.
Com uma expressão séria, voltei meus olhos para um ponto fixo nas altas janelas daquele lugar, e por um momento, fiquei feliz por poder ver o céu clareando juntou a Liam, mesmo que fosse através da janela.
— Era o que deveria fazer, já que eu faço tudo errado — Quis adicionar um “mas não sou capaz” no final da frase, porém desisti.
— Eu não quero que fique longe.
Sorri timidamente, em seguida, deixei de observar a janela para erguer a cabeça e olhá-lo.
— Eu sabia que você era um babaca, mas burro a esse ponto — Ri — É uma surpresa.
— Burro por querer você? — indagou. Neguei.
— Não. Burro por desejar que eu fique — Minha voz, por mais que eu tentasse mudar, saiu com uma pitada de emoção conforme ele colocava a mão livre sobre a minha em cima de seu peito.
— Bem, eu usaria outras palavras ao invés de burro — sorriu ele, eu pisquei.
— Quais?
Ele se arrastou bem mais abaixo no colchonete para ficar a minha altura, em seguida esfregou seu nariz contra o meu, que mesmo sensível suportou muito bem o toque depois de todos aqueles beijos.
— Homem apaixonado seria ótimo — Suspirei, e quase que automaticamente, ergui uma mão para tocá-lo, contudo, hesitei lembrando que eu não sabia dar o carinho que ele merecia. Liam não se importou, pois se inclinou para frente e esfregou o rosto contra minha mão aberta, os olhos fechados tão relaxadamente que sorri.
— Você é tão estranho. — sussurrei. Ele sorriu.
— Mas ainda gosta de mim — concluiu orgulhoso. Eu ri incapaz de negar algo depois de tudo.
— Por incrível que pareça — Afastei uma de suas mechas — Eu gosto sim — E foi quando ele liberou seus olhos impossivelmente azuis para abrirem e focarem em mim, que me lembrei do medo que senti por Liam, o pânico no coração ao pensar nas palavras que Edgar havia me dito no meio da noite e das ruas silenciosas. O calafrio que ultrapassou meu corpo pareceu afetar Liam também, pois ele franziu a sobrancelha e encolheu, me puxando para ele.
— Está com frio? — perguntou, e antes mesmo de eu falar, ele começou a esfregar meus braços na intenção de aquecer-me.
Mordi os lábios.
— Não eu só... Queria te pedir uma coisa — Ele ergueu uma sobrancelha curiosa.
— Fale.
— Não venha mais para cá sozinho — Engoli em seco — Prometa que virá com alguém — Ele ficou confuso, olhando-me surpreso pelo tamanho do pedido, depois entendeu que alguma coisa tinha relacionado a isso e segurou meu rosto.
— Por que? — Permaneci calada — Jodie, por que está me pedindo isso? Que eu saiba você é a única que tem de tomar cuidado, e nem deviria ter saindo tão tarde de casa — disse todo rancoroso. Sentei-me reta, puxando as pernas para mais próximo do peito e as abraçando. Ele se ergueu ainda me assistindo e esperando a resposta, tal essa me fez hesitar durante minutos.
Respirei fundo e joguei a bomba.
— Quando estava vindo para cá, eu senti que alguém me seguia — disse. Os olhos do novato se estreitaram no mesmo instante.
— E estava?
— Edgar me encontrou há pouca distancia daqui — contei, o que o deixou tão pálido quanto uma peônia.
Liam acariciou meu rosto, cabelo, toda extensão de meu pescoço, como se estivesse tentando ter certeza de que eu não estava ferida e de que estava mesmo ali.
— E está bem? Aquele bastardo não te tocou, certo, Jodie? Se ele o fez eu vou...
— Pare com isso, eu estou bem — segurei as mãos dele com força e as abaixei — Mas é em você que estou pensando — A expressão dele foi de confusão. — Ele disse que voltaria e que iria me pegar, incluindo você! Está zangado por ter me levado embora de casa. Ele sabe que a única forma de eu ter me movido era com ajuda, assim, ele sabe que foi você — Um olhar sombrio cresceu ali, mas eu temi mais ao ouvir suas palavras.
— Deixe que o maldito venha. Estou pronto para ele — Alguma coisa em seus olhos azuis-enegrecidos estava começando a aparecer maligno.
— Está agindo como idiota.
— Que seja. Não dou à mínima — rosnou, e pulou de pé. Eu o segui — Se ele me quer, que venha me pegar. Não tenho medo e não vou fugir — Gemi com eternar frustração.
— Não é assim Liam. Se algo acontecer eu vou me ferrar, assim como todo mundo que me conhece. Podemos levar um bando inteiro para fundo do poço caso Edgar pegue alguém que é importante em nossas vidas. Hoje eu tive sorte dele estar bêbado ou nem teria chegado aqui para avisá-lo — Liam me alcançou tão rápido, que nem deu para reagir pela aproximação.
— Eu fico feliz por ter conseguido escapar, mas tenho raiva por você não ter chamado a policia no mesmo minuto em que chegou aqui. Ele podia estar preso uma hora dessas — bufei, esfregando o rosto cansadamente.
— Não pensei muito na hora. Tudo que passava na minha cabeça era avisar a você sobre isso. Ele era o que menos importava depois de tudo — Ele segurou meu queixo para fazer-me olhar para ele. Seus dedos estavam congelando contra a minha pele. Seus olhos novamente azuis-mar, sem traços de cinza pela primeira vez.
Observando-o, pensei que ele começaria a distribuir broncas, mas finalmente, Liam me abraçou depois.
— Está com raiva de mim? — Sem jeito, enterrei o rosto no peito dele e senti o cheiro doce de sua pele.
— Só estou feliz por você ter chegado aqui bem. — Aliviada, voltei meu olhar para a tão pequena janela.
— Prometa que não vai voltar sozinho — insisti. Ele bufou, eu o belisquei.
— Ai! Jodie!
— Prometa!
— Caralho de menina — resmungou com antipatia. Eu ri — Okay. Eu prometo.
— Ótimo — falei satisfeita, e permaneci com minha linda vista enquanto pensava que nunca em minha vida, eu tinha parado para admirar a manhã e ainda sentir prazer ao fazê-lo. Era estranho, era anormal. Era bom.
O sol da madrugada se tornou o mais bonito e o mais precioso diamante. Não pude parar de olhar.
~*~
— Acho que devem estar querendo nos matar — falei, mas ainda sim, joguei a cabeça para trás ao soltar uma risada louca — Isso foi tão maneiro. Sair durante a noite de fininho. Carter vai me decepar a pele. — Ao meu lado, o novato balançou a cabeça negativamente sem tirar as mãos do volante. Olhei-o com a sobrancelha erguida e depois para os lados.
Eu logicamente estava em minhas roupas e Liam o mesmo, porém havia trocado o shorts por uma calça jeans. Seu cabelo estava molhado assim como o meu, porque tínhamos tomado uma ducha rápida na academia antes de decidirmos voltar para casa. No entanto, a ligação de — um muito bravo — Ethan, fez o celular do garoto tocar. Ferrei-me também, pois o meu fez a mesma coisa juntamente ao dele.
— Isso quer dizer que toparia fugir mais vezes comigo? — Ele balançou as sobrancelhas sugestivamente para mim, o que me fez erguer a minha própria, e em seguida, jogar os pés cruzados para cima do porta-luvas.
Liam fez careta.
— Quem sabe — murmurei sem dar a entender de que queria muito isso — Se você se comportar. — Liam explodiu em gargalhadas, um cacarejar alto que ecoava através do carro. Ele riu por tanto tempo e tão intensamente que precisou controlar seus espasmos e teve que secar uma lágrima dos olhos.
— O que é tão engraçado? — perguntei.
— Que você ache que vou me comportar depois de tudo que aconteceu — disse ele, ainda rindo. Suas mãos acertaram meus pés para que esses voltassem ao chão novamente. — Não seja tão bobinha Jodie.
Bufei, cruzando os braços e transformando minha raiva em um bico enorme.
— Vai pra o inferno — resmunguei ouvindo-o se acalmar.
Que coisa chata. Eu não era tão fácil assim. Se bem que com ele me beijando eu ficava bem mole... Que caralhooo! Eu ficaria muito fodida se ele começasse com provocações.
Cerrando os dentes, permaneci quieta durante duas horinhas, mas Liam, antes de poder impedi-lo, pegou meu braço e inclinou-me para mais perto dele. Eu ia gritar, mas seus lábios já estavam nos meus fazendo tudo estremecer, mas infelizmente eles foram embora cedo demais.
— Que diabos... — praguejei, me ajeitando de volta ao banco — O que foi isso porra?
— Seu jeito — ronronou. Franzi a testa.
— O que tem ele? — Ele sorriu e deu de ombros.
— Sei lá. Apenas o amo — Ai meu Deus!
Caralho. Puta que me pariu! Ele não devia ser assim tão... fofo? Erg! A palavra me dava até arrepios.
Engolindo seco, olhei-o seriamente.
— Você está sendo meloso...
— Se não desmanchar esse bico, serei obrigado a beijá-la de novo, e dessa vez não vou me preocupara com a direção do carro — Avisou com aquele olhar cheio de malicia. Fechei a boca e fiquei quieta o resto do caminho para casa de Linnea, porque afinal das contas, eu queria permanecer viva por enquanto, mesmo que isso me custasse os beijos alucinantes do novato.
Não fiquei muito ansiosa em entrar quando vi o carro que estava em frente à fachada da casa. Bufei, transferindo um olhar assassino para Liam.
— Você não me disse que eles estariam aqui! — A testa franzida de Liam era algo como “Tô fodido”.
— Eu não sabia.
— Que ótimo. Se dermos sorte, podemos circular a mesa para um almoço nada feliz — Ele riu por meu drama, em seguida engatou a marcha e saiu do carro. O segui, já que não tinha outra forma. Acho até que caminhamos quase parando para a entrada, pois era obvio como isso ia dar em merda.
— Okay. É agora ou nunca — murmurou o novato, segurando a maçaneta da porta. Olhou-me — Pronta?
— Está brincando? Enfrentar Carter já é um pé na minha bunda, imagine ter que lidar com seu pai e sua mãe também. Por mim eu dava a volta e subia para meu quarto pela janela, assim, não precisaria ver ninguém — Entendi que ele estava se divertindo comigo assim que vi os lábios tremerem.
Virei os olhos.
— Vamos logo — Ele riu e segurou minha mão para me puxar assim que abriu a porta.
As vozes invadiram nossos ouvidos assim que entramos, trocamos olhares escutando quando as palavras de Carter, eu acho, aumentaram, depois sendo substituídas pelas de Ethan, que por mais incrível que parecesse, estava estranhamente calma.
Espiei a sala e quase tremi.
Os Corey estavam sentados lado a lado no sofá super-calmos, enquanto Linnea andava de um lado para o outro em sua camisola de ceda cinza e com um pequeno carrapatinho grudado ao seu quadril e pescoço.
Ivy tinha os olhos divertidos enquanto assistia sua mãe tentar acalmar seu grande pai exaltado, esse mesmo dava voltas e mais voltas na sala enquanto passava a mão por seu cabelo.
Parecia tão nervoso.
— Pare com isso Carter! — Linnea esfregou o rosto ao bufar irritada — Está agindo como um lunático.
— A merda com isso. Jodie saiu durante a noite e não voltou! Ela está com o garoto deles e acha que vou me acalmar? Impressiona-me você aceitar isso tão facilmente — resmungou o homem, e vi quando sua esposa fez uma expressão de desgosto completo para ele, e, de repente, jogou-se na frente do homem e o acertou no ombro com seu punho fechado. Ivy adorou isso, pois bateu palmas e ladrou uma risada.
— Cale-se. Sabe como me preocupo com essa menina, e sim, eu estou aflita com a demora, porém, não acho que o Liam faria algo para ela. Deixe de ser paranoico — O marido a fitou, depois encarou seu ombro e a menina risonha no colo da esposa. Rolou os olhos e em seguida deixou um suspiro sair.
Eu sorri, realmente feliz por saber que ele se preocupava tanto comigo. Por isso, não querendo tortura-lo mais, entrei na sala.
— Tudo bem Carter. Já estou em casa — Todos ficaram de pé e nem mesmo entendi quando todos começaram a falar ao mesmo maldito tempo. Pedindo paciência a Deus dei uma olhadela em Liam quando fomos empurrados para sentar no sofá em que os Corey estavam antes.
Os olhares direcionados a nós não eram nenhum um pouco amistosos.
— Querem começar? — Ethan perguntou a Linnea e Amara, seus braços cruzados e bem perto de Carter, como se para prevenir que esse não pulasse em nós, ou para ser mais precisa, pular em Liam. Não entendia o porquê de ele estar agindo daquela forma.
Amara, a tão correta advogada que eu conhecia, bufou cheia de frustração enquanto olhava o filho.
— E vou dizer o que mais para esses dois desmiolados? Olhe para eles, nem se arrependem! — Foi impossível, eu tive de abaixar a cabeça e rir um pouquinho. O novato teve de me beliscar, mesmo que também estivesse sorrindo.
— E ainda ri!
— Desculpa mãe — Liam realmente não parecia arrependido — Mas eu precisava de um tempo sozinho e... não tem que ficar tão nervosa. Nem mesmo acredito que não descobriram onde eu estava.
— Eu estava louca de preocupação seu garoto ingrato — rugiu Amara jogando as mãos para o alto — Como poderia pensar em uma maldita academia?
— Talvez porque eu vivo lá? — Amara deu as costa, praguejando, mas ao fazê-lo Linnea tomou seu lugar. Seu olhar, por mais belo que fosse, ainda era severo.
— Gostaria que me avisasse da próxima vez Jodie. Fiquei com medo de que algo tivesse acontecido — Pisquei, odiando a forma como ela me olhava decepcionada.
— Foi mal Linnea. Eu só tinha uns assuntos inacabados com Liam e queria, sei lá, resolver sozinha — apertei as mãos juntas — Prometo avisar da próxima vez.
— Próxima vez! — Carter saiu de seu canto para ficar ao lado da esposa. Seus olhos me fitaram zangados — Deve estar louca se acha que vou deixar você dormir fora de casa de novo, e com ele — fiz careta.
Liam também não pareceu gostar.
— Você não pode proibi-la de...
— Eu posso, e vou. Ela não vai fazer isso — Ele não discutiria, pensei ao observá-lo tão enraivecido — Jodie mora comigo, portanto é minha responsabilidade até que essa queira o contrário. Não permito que durmam juntos! — Acho que minha boca tinha caído aberta pela surpresa. Olhei para trás, e encontrei o sorrisinho cheio de diversão de Ethan, que assistia tudo em silêncio ao lado das mulheres. Essas duas pareciam entediadas, pois percebi o virar de olhos que deram.
Linnea tocou o ombro do marido com um sorriso terno.
— Chega de alto-proteção querido — Alto-proteção? Espera. O que é isso?
— Estou me prevenindo — Os negros olhos não nos deixaram. Linnea riu ajeitando Ivy em seus braços.
— Claro que sim. Mas espera essa daqui crescer — riu ao apontar para a filha. Carter pareceu ficar pálido e faltar ar.
— Não está no tempo desse assunto surgir Linnea — protestou olhando fixamente para filha. Linnea riu suavemente.
— E quando será? Talvez quando ela tiver dezoito e a nossa porta cheia de garotos com hormônios? — Carter com certeza odiou a imagem que apareceu em sua cabeça, pois ele só faltou impe ventilar.
— Eu preciso de um copo de água. — Fiquei ainda mais confusa quando ele virou-se e saiu andando para a cozinha. A explosão de risos que aconteceu me deixou ainda mais alheia de tudo.
— O que? — Olhei-os procurando resposta — Por que ele agiu assim?
— Ele pensa que fizemos algo a mais que nos beijar — Liam sussurrou bem perto de meu ouvido. Me tremi toda e depois arregalei os olhos.
— Sério?
— Sim — riu. Eu fiquei mais desconfortável.
— Mas a raiva dele foi estranha. E viu como ele olhava para você como se fosse lhe matar?— O novato sorriu, mas quem falou foi o pai dele, que caminhou para sentar-se na poltrona logo à frente.
— Ele está convivendo com você, Jodie, está se apegando — Ergui uma sobrancelha.
— E o que isso tem haver com o modo que ele agiu? — indaguei confusa. Ethan sorriu, ajeitando o paletó e depois cruzando as pernas.
— Ele ficou com medo de você estar namorado.
— Que tal trocar “Medo” por “Ciúmes” meu querido? — Amara perguntou com um sorriso zombeteiro. Ele fechou a cara e a mirou nervosamente. — Não me olhe assim, sabe que é verdade.
— O que é verdade? — perguntei, e Liam ao meu lado, riu ao falar.
— Meu pai anda meio paranóico também com quem chega perto de Micthie. Ela está ficando uma menina linda e bem... uma hora os garotos vão...
— Não vão nada! — Ethan rosnou de seu assento. Eu sorri — Ela é uma criança.
— Com doze anos prestes a fazer treze — Apontou o filho todo divertido — Ela vai querer namorar logo.
— Não vai! — O sr. Corey parecia realmente convencido disso. Amara, rindo, ficou logo atrás dele, pondo as mãos por cima de seus ombros. Foi quando ela inclinou para falar algo em seu ouvido, que percebi como seus cabelos pareciam mais belos e cheios de cachos.
Ethan estava carrancudo e nervoso, mas depois de uns minutos a ouvido, seus ombros relaxaram e ele sorriu de lado. Eu balancei a cabeça e olhei Linnea, que balançava Ivy de cima para baixo enquanto essa tentava se livrar dos seus braços. Mordi os lábios, pensando no que todos falaram sobre Carter. Podia sentir meus olhos marejando.
Ele tinha ciúmes de mim, pensei com um sorriso, ele gostava de mim como filha!
A emoção de poder ter o gostinho de um ciúmes de um pai de verdade, foi interrompida quando um gritinho veio do outro lado da sala. Olhei novamente para Ivy, e quase congelei quando ela riu para mim e estendeu as mãozinhas gorduchas.
Merda.
— Jojo! Colo. Colo. — Me encolhi ao lado de Liam como se a bebê fosse um mostro, Linnea riu ao perceber isso.
O novato aproximou o rosto de mim.
— Pegue ela doçura.
— Eu já a peguei uma vez. Está de bom tamanho. Ela não me quer de verdade.
— Jojo. Jojo! — Liam riu.
— Não é o que parece — murmurou. Eu bufei.
Linnea, tentando controlar sua pestinha, começou a andar para cozinha, sabendo que eu não me dava bem com crianças. No entanto, a criança começou a berrar.
— Ah, querida. Por favor, vamos ver se seu pai está respirando — Ela não deu ouvidos a mãe, apenas voltou os olhinhos fofos e cheios de lágrimas para mim, sua boquinha vermelha tremendo em um biquinho enquanto Linnea caminhava para fora da sala.
— Deus querido me ajude — gemi. Levantei do sofá, e saltando pelos brinquedos no chão, cheguei a Linnea antes que essa saísse. — Me dê ela — Linnea abriu aquele lindo sorriso radiante, depois permitiu que a filha pulasse e agarrasse em meu pescoço.
A garota parou de chorar no mesmo instante e começou a brincar com meu cabelo como dá última vez que a peguei. Linnea me beijou no rosto.
— Irei ver Carter. Volto já. Enquanto isso converse com Amara e Ethan, eles não vieram apenas por causa de sua pequena fuga. — Assenti, e depois que ela saiu, olhei para o rosto avermelhado da menina que agora sorria. Bufei.
— Você é uma manipuladora pequena e fofa. Não é justo usar lágrimas contra mim — Ivy borbulhou em uma risada e puxou meus fios quase secos.
— Belo. Belo. Belo — Cantarolou, e eu balancei a cabeça.
Essa menina tinha uma coisa com meu cabelo.
Com ela nos braços, caminhei de volta para o sofá ao lado de Liam, mas ergui uma sobrancelha ao encontrar ele e os pais me observando.
— Por que essas caras de bocós? — A pergunta mal educada saiu antes que pudesse ter pensado. Olhei para os Corey gelada — Foi mal — Fiquei feliz por eles rirem e não me matassem.
— Tudo bem — Amara falou, e apontou para mim e o filho — Espero que tenham usado o tempo na academia para se acertarem.
— Sim, mãe — senti quando os dedos do novato enlaçaram com os meus — Nós conversamos...
— Quer dizer no tatame lutando? — provoquei balançando as sobrancelhas. Ele gargalhou, enquanto Ethan e Amara nos olhavam pasmos.
— Lutaram?
— Um pouquinho — respondi — Mas ele não deu conta e fugiu — menti. Recebi um empurrão no braço fazendo Ivy rir.
— Mentirosa.
— SQÑ — Sorri.
Os Corey se olharam, e então coçaram os olhos.
— Certo, depois falamos disso. Agora, vamos falar das suas consultas Jodie — Virei os olhos para Amara.
— Quando vai ser? — perguntei logo. Ela suspirou.
— Hoje. — Meus olhos só faltavam ter pulado para fora.
— Como assim, hoje?
— Agendei para hoje na esperança de você ir apenas para conhecer a psiquiatra e trocar umas palavrinhas. Não será nada de extravagante, prometo. — Eu não acreditava, por mais que eu tentasse, eu não conseguia ficar confortável com o fato de que eu, a partir de hoje, estar indo falar tudo o que aconteceu em minha vida para uma desconhecida ou desconhecido.
— Bom. Tudo bem — Por um instante, tive de trazer Ivy mais perto para poder abraçar alguma coisa, e como se ela soubesse disso, os bracinhos agarram minha nuca e sua cabecinha deitou em meu ombro. Suspirei — Eu prometi a Linnea e vou fazer — Algo parecido com orgulho brilhou nos olhos de Amara e Ethan, e querendo ver como Liam tinha reagido, espiei pelo canto do olho.
Droga. Ele estava me olhando de uma forma tão sexy. Não pude deixar os olhos dele e encarei de volta, pois acabei encontrando o carinho, o mesmo orgulho que seus pais me direcionavam, e atrás de tudo isso havia um sentimento que eu não sabia compreender, mas que com toda a infeliz certeza, era forte.
Só depois de incontáveis minutos, eu percebi que Amara e Ethan conversavam comigo. Voltei-me para eles completamente envergonhada.
— Desculpe-me. O que disseram? — O novato deixou uma risadinha escapar, o que me deixou com as bochechas coradas e com raiva. Pisei em seu pé com força fazendo-o praguejar e pular de susto.
— Disse que essa é a tabela das datas em que você precisa ir à consulta. Não falte em nenhuma, por favor — Peguei o papel que ela me oferecia e dei uma olhada — Nos primeiros dias você irá precisar de alguém para acompanhá-la. Posso falar com Linnea para que vá com...
— Eu vou ir — Interrompeu Liam, já sem rir e ficando sério — Vou com ela em todos os dias que precisar. — Amara ergueu um sobrancelha desafiadora.
— Você está de castigo — entoou calma e terrivelmente imóvel. A boca de Liam abriu em um O enquanto eu, não consegui prender a risada.
— O que? Mas mãe...
— Nada de mais mocinho. Você quase fez meu coração parar ontem à noite — O novato virou os olhos.
— Eu já pedi desculpas — resmungou. A mãe não cedeu, sendo assim, ele olhou para o pai — Me ajuda aqui — Ethan sorriu de lado e deu ombros.
— Ela quem manda filho. Dessa vez você passou de todos os limites. E se Edgar tivesse aparecido e capturado os dois? — Minha risada parou instantaneamente enquanto Liam, quase que imediatamente, abaixou a cabeça.
Eu sabia que ele estava xingando quando seu pai apertou os olhos pela nossa reação. Seus ombros contraíram para trás.
— Falem. Agora. — Exigiu. Estremeci.
Aquela voz fazia com que eu quisesse correr para muito longe, no entanto, fiquei onde estava e falei.
— Eu encontrei com meu pai ontem — Eu não tive coragem de assistir a reação de nenhum dos dois, por isso me concentrei no dedinho de Ivy, que brincava distraidamente com as pontas de meu cabelo. No entanto, ainda podia sentir a intensidade do olhar de ambos os advogados, podia ouvir as inalações fortes e os suspirar altos.
Comecei a contar para que tudo começasse.
5,6,7,8,9...
Ethan, o que antes estava tão terrivelmente calmo, se levantou com a face vermelha, os braços marcando por baixo do paletó e os olhos transmitindo nada mais que aversão. Seu corpo enorme e rijo aumentando cada vez mais me transformando em uma fraca formiguinha.
— Deixa-me ver se eu entendi — Ethan entoou fechando as mãos em punho e cerrando a mandíbula — Vocês encontraram com Edgar Jodie, e não ligaram para a polícia, e nem mesmo para mim? — caramba. Isso estava ficando tenso.
— Olha pai...
— Não. — cortei Liam ao ver que pretendia me defender, mandei-lhe um olhar e voltei a enfrentar Ethan — Só eu vi ele. Eu tinha acabado de sair do metrô e ia direto para academia. Ele me seguiu desde algum ponto até lá — Ethan fechou os olhos e então, os esfregou rudemente, enquanto Amara se levantava com a face branca.
— E o que aconteceu? Ele não lhe fez mal, fez? — Ela estava pronta para ir me revistar, quando Linnea e Carter adentraram na sala de novo.
— O que é isso? — questionou Carter ao ver a advogada começar virar meu rosto a trás de contusões.
— Eu estou bem — garanti.
— Como não nos avisou Jodie? — Ethan grunhiu irritadiço — O que aconteceu quando viu seu pai?
— Como é que é? — Linnea arregalou os olhos para mim, dando passos para frente. Eu tentei parecer o mais calma possível ao falar.
— Eu não pensei na hora, ele estava bêbado e me ameaçou.
— O que ele disse? — Indagou insatisfeito. Eu engoli.
— Ele está muito bravo comigo — estremeci, e ao sentir a mão o novato apertar a minha, relaxei um pouco e continuei — Falou que voltaria para me pegar. E também deixou bem claro que tentaria pegar minha irmã e Liam — Os Corey deixaram aquela expressão de escudo feito com titânio sair e ficaram ainda mais perto um do outro, para em seguida, pousar os olhos cheios de proteção no garoto ao meu lado.
— Ele sabe que Liam lhe tirou da casa — deduziu Ethan. Eu assenti confirmando — Ele disse algo mais além disso? — balancei a cabeça.
— Eu não quis ouvir. Só corri para chegar logo na academia, queria avisar ao Liam. Por isso não pensei em ligar para a polícia, estava concentrada demais em encontrá-lo — podia imaginar como minhas bochechas avermelharam com essas palavras, também pressentia que Liam sorria satisfeito por minha grande preocupação — Sei que fui errada, mas...
— Você permitiu que ele fugisse Jodie — Carter deu a palavra de onde estava, e esfregava a nuca cansadamente — Isso não podia e não pode acontecer. Ele poderia ter ido preso se tivesse...
— Eu sei. — Aumentei a voz só para ver se ele entendia — Mas eu não me importava. Foi mal.
— Isso foi mais que “Mal” — entoou nervoso, e depois chacoalhou a cabeça — Se ele estava lhe seguindo, isso significa que sabe onde você mora agora. Poderia estar nos vigiando...
— Não. — interrompi. — Ele não me seguiu desde casa. Ele me encontrou perto do metrô, eu senti sua chegada. No entanto, ele só esperou eu chegar em uma rua deserta para me parar. Sem falar que ele estava mais bêbado que nunca, pode até não se lembrar o aconteceu ontem.
— Esse homem é lunático — Carter estava abatido ao encarar o chão fixamente — Precisamos avisar ao delegado onde o encontrou.
— Eu farei isso — Ethan se ofereceu enfiando a mão em seu bolso e retirando seu celular. Olhou-me seriamente — Provavelmente, ele vai querer falar com você sobre isso. Esteja pronta para ir depois de sua consulta hoje — foi difícil impedir o bufado sair de minha boca ao lembrar da maldita consulta. Relaxei no sofá, encostando-me a Liam enquanto tentava não mandar aquilo tudo se foder.
— Okay — respondi. Satisfeito, ele sumiu da sala para falar em seu celular, Amara virou-se para conversar com Linnea, obviamente sobre quem iria me acompanhar hoje até a droga do psiquiatra. Fiquei tentada em me negar até a morte, no entanto, enquanto observava as mulher conversando, e depois que desviei os olhos para a menina em meu colo, que agora estava incrivelmente dormindo sobre meu peito, me impedi de desistir disso.
Eu não queria que eles sofressem por minha causa, não podia permitir que me vissem ficar destruída e quebrada aos poucos. Mesmo que aquela vozinha em minha cabeça me ordenasse que parasse e me afastasse de tudo aquilo.
— Não pense tanto doçura — o sussurrou de Liam fez cocegas contra meu ouvido. E quando o arrepio percorreu cada parte de meu corpo mutilado, eu lembrei que ele também era um dos motivos para querer não desistir.
Tomei fôlego antes de olhá-lo... Eu sabia que ele via toda a incerteza em meus olhos, eu sabia que ele observava meu rosto com uma tristeza preocupada, mas uma confiança de ferro. Ele pensava que eu era capaz, e eu realmente queria poder fazer o mesmo.
— Não sei se isso vai dar certo — murmurei incerta. Espiei de canto Amarra e Linnea e depois, soltando um braço do corpinho de Ivy, franzi o cenho para o meu próprio pulso, fitando-o como um inimigo maligno ou até quem sabe... quase um amigo. Por mais perigoso que fosse. — Como é possível essa sensação ir embora? Tem estado comigo há tanto tempo. — Meu pulso foi circulado pela palma grande do novato, me privando de ver as marcas que tinha sob a manga da blusa.
Ele levou-o até os lábios, e deixou um beijo que reverberou por mim toda.
— Pois então ela já está mais que na hora de partir — falou, e deu um sorrisinho de lado ao deslizar a mão para minha e entrelaçar os dedos novamente — Precisa saber o que é sentir de verdade Jodie.
Fiz uma careta.
— Sentir é uma fraqueza — apontei. Liam sorriu.
— Sentir também pode ser uma saída. — Ergui uma sobrancelha.
— Uma saída para meu jeito de pensar? — indaguei. Ele piscou e seu rosto não tinha nenhum vestígio de sorriso. Quando ele falou, ele tinha aquela voz. A voz que não dava duvida sobre o quão forte era, a voz que não provia chance para sobrepor algo a mais. A voz de um verdadeiro lutador.
— Não. — respondeu — Mas a sua saída da solidão.
~*~
O escritório era em um edifício enorme com janelas lustrosas e filme-azul. Quando olhava para cima, podia se pensar que aquele prédio não tinha final. Dentro a recepção estava silenciosa e era enorme, com poltronas chiques e todas aquelas chatices.
Com braços cruzados e em um mau humor enorme, segui Linnea até a moça da recepção.
Mulher era jovem, e aqueles lábios marcados com um batom vermelho cereja combinava com os cabelos ruivos — cor tirada de uma garrafa muito obviamente — presos em um coque apertado. Ao lado esquerdo de sua blusa havia um papelzinho com o nome: Alice.
— Com licença — Linnea abriu um meio sorriso para a mulher atrás do balcão. Essa mesma o retribuiu mostrando uma fileira de dentes perfeitos. — Temos uma consulta com a Dra. Clarice Lamartine.
— Claro. Ela está esperando por vocês senhorita... — Olhou em seu computador por um minuto — Linnea Lewis e Eli...
— Jodie — Eu tive que evitar rosna para a ruiva. — Me chame de Jodie. — A tal de Alice pareceu se surpreender com minha reação repentina, mas assentiu de toda forma e estendeu dois papeis como o que ela tinha colado em sua blusa.
— Grudem nas blusas de vocês — pediu. Assim fizemos, e quase reclamei por meu nome estar escrito naquele papel idiota. Mas hesitei quando vi Linnea me mandar um olhar sério de “Não faça isso”. Bufando, cruzei os braços e permaneci quieta.
— Provavelmente é acompanhante e mãe dela, não? — Todo o meu humor sombrio foi para longe quando escutei Alice perguntar tal coisa. Fiquei de cabeça baixa esperando que Linnea negasse o que fora dito, porém, ela me surpreendeu por fazer o contrário e dizer:
— Sim. Sou os dois. — Arregalando os olhos a fitei, e vi quando ela sorriu para moça e perguntou o andar em que ficava o consultório, com todas as informações, ela se virou e me empurrou gentilmente até o elevador.
Continuei fitando-a. Ela disse que era minha mãe. Realmente minha mãe.
— Por que está me olhando assim querida? — perguntou, observando-me com curiosidade. Limpei a garganta.
— É, bem... Você disse para moça lá em baixo que era minha...
— Mãe? — Linnea sorriu adoravelmente e eu só pude assentir quando o caroço de emoção cresceu em minha garganta. — Isso quase não é mentira meu bem. Estou começando a vê-la como minha menininha e não me importa que tenha sangue de outra pessoa. É ótimo ter mais uma filha. Espero que não te deixe mal, e se for, prometo nunca mais tocar novamente nesse assunto e me dirigir somente como sua amiga e, em certo caso, como tutora provisória. — Eu estava chocada, mas não podia demonstrar em minha expressão o que sentia em meu peito. Tudo estava faiscando, pulando, gritando. Abraçá-la era uma ótima ideia na hora, no entanto, eu me impedi, e somente balancei a cabeça, minha voz falhando ao dizer.
— Nã-não. Tudo bem... Eu não me importo — A resposta a alegrou, pois sorriu mais que nunca, e sutilmente, se aproximou para descansar um beijo em minha testa. Dessa vez, eu pude sentir meus lábios tremendo ao deixar um risco de um sorriso aparecer.
— Obrigada meu anjo — E as portas do elevador abriram.
Naquele andar o lugar era pequeno, e logo a frente, havia uma outra mulher sentada atrás de sua mesa enquanto falava no telefone. Olhei em volta do simples lugar, encarando os quadros até que...
— Vocês provavelmente são a consulta que a Dra. Clarice fará. — A mulher havia soltado o telefone, e ao contrário da outra lá em baixo, essa era morena, e quando se levantou seu corpo magro em um terninho cinza fez Jodie recuar.
— Sim. Somos nós. — Linnea anunciou. E moça acenou para nós.
— Sou Berna, a secretária da doutora Clarice. Acompanhem-me, por favor — Nós não andamos muito dessa vez, apenas a seguimos por um corredor depois, Mary bateu contra a porta cinzenta a frente. Depois girou a maçaneta e entrou.
— Sua cliente doutora. — falou formalmente.
Linnea e eu adentramos no consultório, e esse parecia ainda mais simples que o lugar em que ficava a secretária. Tinha uma linda vista por causa daquela janela, que a meia hora atrás, eu estava admirando do carro, em frente dessa tinha dois sofás pequenos e uma cama meio inclinada para frente.
A mesa da doutora continha somente papeis, cadernos, e uma pasta amarelada. Apertando os olhos pude ver facilmente o meu nome.
— Obrigado Berna. Pode sair — Falou gentilmente. — Sentem, por favor. Fiquem a vontade.
— Obrigada. — Linnea segurou minha mão e puxou-me até um dos sofás com ela. Sentamo-nos, e quando virei-me para a doutora, ela me assistia com olhos castanhos curiosos e cuidadosos.
— Que tal começarmos com as apresentações? — perguntou a doutora com um amistoso sorriso. — Meu nome Clarice, cresci na França, no entanto não tenho sotaque por ter me mudado aos dez anos e perdido o toque francês. Sou formada na faculdade Harvard em psicologia e medicina. Infelizmente, não sou mais tão jovem e tenho 30 anos, e estou aqui para ajudar Jodie em todos os desafios que aparecer em sua frente. Prometo me empenhar ao máximo para não deixá-la sem uma resposta — Escutei o blá blá blá dela até que foi a vez Linnea se apresentar. Elas conversaram, e notei como minha nova tutora se dava bem com moça. Eu quase tive esperanças de fugir dali sem falar nada.
Me enganei, porque depois de um tempo, Clarice focou em mim.
— Não gosta de falar certo? — abri um sorriso sarcástico para ela.
— Que bom que percebeu — soube quando Linnea me olhou feio, mas não me importei. A doutora queria me ajudar? Pois bem, teria que enfrentar meu humor ao me entrevistar.
Clarice se aconchegou contra sua cadeira confortavelmente, seus cabelos escuros acima dos ombros pareceram mais brilhantes pelo simples movimento.
— Sobre o que gosta de conversar Jodie? — apertei os olhos cerrados para ela. Ela não tinha tentando falar meu primeiro nome e nem sequer sabia que eu ia impedi-la. Isso acionou meu botão de alerta.
— Para sua falta de sorte, eu não gosto de falar. Sobre nada da minha vida — Sublinhei só para que fosse bem claro. Ouvi o suspirar de derrota vindo de Linnea e me encolhi. Não queria magoá-la, mas merda, isso era tão difícil.
Clarice não desistiu tão rápido. Juntou as mãos em baixo do queixo, apoiando os cotovelos nos lados da cadeira.
— Eu entendo — falou com calma — No entanto, não podemos fazer isso funcionar se não se empenhar em melhorar. — Eu não gostei de como ela falou.
— Não estou doente para melhorar em algo.
— Sim. Não está. Mas pode ficar se não para com os cortes — Eu gelei. Não que eu não soubesse que ela deveria conhecer minha historia, mas, porra, ouvir da boca de outra pessoa as palavras tão nítidas me fez ficar tão gelada quanto um morto.
Eu quis mais que tudo retrucar.
— Eu sei como me cuidar e...
— Você pode mudar essa frase antes de terminá—la — sugeriu de modo sutil. Engoli tudo sem voltar falar. Clarice se inclinou para mim lentamente — Eu sei como é Jodie. Eu sei das emoções dolorosas, das noites e noites sem dormir... Qual o método que mais gosta Jodie? Cortar ou arranhar a pele? Queimar a pele. Gravar palavras ou símbolos na pele. Com certeza já pensou, no momento de loucura ou até de desespero por sentir dor, em perfurar a pele com objetos afiados. — Ela pegou a pasta com meu nome e abriu, averiguando o que tinha dentro cautelosamente — Não a muito sobre você, mas soube que gosta de lutas. Diga-me se não já brigou com alguém apenas pelo prazer de quebrar ossos, ou de bater-se ou socar-se ou até bater a cabeça. Existem táticas infalíveis para se maltratar e se ferir, e com certeza, você já sabe a maior parte delas. — Os olhos escuros fitaram, e por mais espantada que suas palavras tenham me deixado, eu encarei de volta, paralisada como uma estatua. — E mesmo que saiba de tudo isso, ainda pensa que não pode ficar doente ou até mesmo morrer durante um desses ocorridos? — apertei os lábio fechados e cerrei a mão em punho.
— A automutilação vem a cada dia se aproximando de mais pessoas, esse fenômeno traz sofrimento não apenas para quem pratica — Clarisse segurou nas laterais de sua cadeira e a puxou para frente, se aproximando de mim e depois, olhando bem fundo em meus olhos — O que preciso fazer você entender em primeiro lugar, é que não é somente você a sofre. Existem os familiares — Ela olhou um momento para Linnea e depois para mim — E amigos de quem apresenta esse problema. A cada semana recebo mais mensagens de pais, professores e amigos de automutiladores querendo saber como podem ajudá-los. Entendo que vir aqui, sentar, e ouvir concelhos de uma mulher desconhecida, não é fácil, e no seu caso é ainda mais complicado. Mas para que nós duas passar por essa etapa, necessitamos de paciência, de sinceridade. Mesmo que você ache a coisa mais dolorosa e significativa, conte-me, pois eu nunca irei revelar suas informações a ninguém. Então, por favor, mon cher. Ajude-me com isso e vamos tentar nos tolerar dentro de uma sala. Juro que irá valer a pena. — Abaixe a cabeça, tentando mantê-la no lugar para que não a perdesse depois que ouvi tanto em apenas uns minutinhos. Respirei fundo, e olhando para o olhar esperançoso de Linnea ao meu lado, e o cheio de expectativa de Clarice, eu finalmente cedi.
— Okay. Vamos tentar fazer isso.
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