Believe In Me
29 Capitulo 29 — Não!
Notas iniciais
Enquanto eu olhava além da janela do carro de Carter, uma parte de minha mente tentava conciliar cada momento dentro daquela delegacia. Finalmente tudo tinha acabado e eu estava voltando para a casa de Linnea, no entanto, ao olhar pelo retrovisor do carro, suspirei ao ver o magnifico porsche 918 spyder de Amara nos seguindo. Eu realmente não estava livre dela ainda, e pelas poucas palavras que havia me dito, eu sabia que ela iria falar com Linnea e Carter sobre alguma coisa da qual eu com certeza não ia gostar, a cara dela me deu essa dica no mesmo instante.
— Jodie? — virei na direção de Carter ao ouvir sua voz — Está tudo bem? — Ele tinha os olhos na estrada, mas sua testa estava enrugada e os lábios apertados em uma linha severa. — Amara me disse o que aconteceu na sala de Richard — permaneci em silêncio, palavras não eram necessárias para o que era óbvio apenas no meu olhar.
Carter respirou fundo.
— Sei que está nervosa pelo que teve de fazer, mas queria que soubesse que conversa ajuda. — Tentei não ser rude, pois sabia que ele queria apenas ajudar-me, e por isso, falei suavemente enquanto olhava além da janela.
— Não tenho o que conversar Carter. Apenas preciso ficar quieta — fechei os olhos, trazendo uma escuridão gelada até mim — Só quero pensar que estou sozinha e bem quieta. Por favor. — Ele respeitou, e assim, o silêncio reinou enquanto eu mergulhava em um sono pesado e lento. Mas eu sabia que minha cabeça estava atormentada, e por conta disso não me surpreendi quando meu sono foi incomodado de forma rápida, derrubando-me para o chão por olhos azuis escurecidos, tentei me esquivar para longe daquela imagem, mas quanto mais tentava escapar, mas ela perseguia, rondava. Queria gritar, mas minha boca não abria, tomei fôlego, meu coração acelerou, ouvi passos indo contra o vento, e depois de segundos, o rosto de Edgar irrompeu das sombras, mas antes que eu sequer gritasse ajuda ao ver seu sorriso horrendo, meus braços foram sacudidos e eu acordei tremula e desnorteada.
Segundos depois eu estava olhando em volta, sentia minhas mãos agarrando algo, mas não podia decifra o que, só sentia o tremor, lembrava-me daqueles olhos, das mãos me tocando. Gemi quando me vi novamente dentro daquele meu quarto pequeno, sujo, contra a cama enquanto a cinta abria vergões e machucados enormes, estremeci, me afastando.
Não podiam me tocar. Não podiam me tocar. Tenho que me afastar. Devo me esconder.
Meu corpo sofreu uma queda até uma superfície dura, o que me tirou um resmungo e trouxe dor ao lado esquerdo de meu ombro. No entanto, a dor devolveu-me minha audição e pouco a pouco, todos os sentidos.
— Dei-me um pano molhado... — me empurrei para o lado sentindo quando fui tocada, primeiro nos braços, depois ombros, nas costas...
— Nã-não... solte-me...
— Está bem querida. Tranquila — A grossa voz era familiar, mas o toque fez-me afastar — Vamos Jodie, está tudo bem. É um pesadelo!
— A coloque novamente aqui — Eu fui erguida facilmente mesmo não querendo, e isso me estava mantando.
Não me toque!
— Está febril. Devemos chamar um médico — A voz da mulher me deixou um pouco mais calma, e quando senti algo molhado ser posto em minha testa, mexi-me, abrindo levemente os olhos, querendo voltar à realidade. Mais mãos vieram ao meu socorro.
— Harlow está a caminho com Jared. Não devem demorar.
— O que houve para que ela haja dessa forma? — Fez-se um suspirar.
— As fotografias. Ela as tirou, e por um momento pensei que ficaria forte, não sai de seu lado — A mulher que falava parecia aflita e agitada — Saímos da delegacia bem, mas então Carter parou carro, e quando fui ver o motivo, encontrei-o tentando acalmá-la durante o sono.
— Pobrezinha — Meus cabelos foram acariciados uma vez e depois outra — Não posso suportar a forma como sofre.
— É duro para todos nós, mas devemos nos manter fortes para ela, Linnea — A voz da moça era suave, e por um momento de lucidez, compreendi que era de Amara.
Um segundo toque veio a minha bochecha, mas dessa vez, eu permiti, pois o nome dito pela minha advogada indicava que estava segura. Não era Edgar, era Linnea, ela estava ali ao lado.
Respirei normalmente, controlando-me enquanto a conversa entre as moças e Carter, continuava. Não sei por quanto tempo permaneci daquela forma, mas sei que haviam posto um coberto por cima de mim, e que horas mais tarde, mãos diferentes estava deslizando por todo meu corpo.
Ofeguei, abrindo os olhos arregalados prontos para gritar.
— Shh. Calma menina — Meus ombros foram empurrados gentilmente para trás — Sou eu, Jared. — Engoli seco, procurando seu rosto até que...
— Ja-Jared?
— Sim. Não precisa ter medo — Deitei novamente, olhando o rosto do jovem doutor com alívio. — Vou examinar seus ferimentos e lhe dar algo para febre, apenas fique parada. Sabe que não farei nada para prejudica-la — Assenti, respirando fundo para que meus batimentos cárdicos voltassem ao normal.
— Hey marrenta — olhei para cima. Harlow e Jaime estavam encostados contra o sofá olhando-me preocupados.
Harlow piscou os silos para mim, seus olhos azuis tinha os pontinhos verdes brilhando com aflição.
— O que fazem aqui? — perguntei. Ambos se recostaram no sofá ao sorrirem de canto.
— Tia Amara ligou no mesmo instante que Jed. queria matar Jimmy por estar em meu quarto — Harlow contou, e eu pisquei surpresa, para depois, virar os olhos para seu irmão mais velho, que tinha uma cara emburrada para Jimmy, esse mesmo tentava não ficar sob seu olhar duro encolhendo os ombros.
— Por que queria matar Jimmy? — indaguei. Ele fuzilou o loirinho antes de me responder.
— Ele estava em minha casa, dormindo no quarto da minha irmã mais nova! Acha que ficaria quieto?
— Estava apenas cuidado dela — Jimmy resmungou, mesmo que não conseguisse enfrentar Jared com o olhar.
— Harlow não precisa de seus cuidados. Ela tem a mim! — rosnou Jared, Jimmy pareceu ficar nervoso pela fala ou pelo tom, pois virou-se para enfrentá-lo com mandíbula cerrada.
— Claro que você pode cuidar dela. Tanto que sabia como ela estava chorando ontem à noite e precisando de alguém para...
— Já chega! — Harlow grunhiu para ambos — Parem de brigar. Estou farta disso.
— Mantenha-se longe dela — Jared a ignorou e continuou fitando o loiro rabugento com rancor — Ela é uma criança!
— Jared! — Harlow berrou, dessa vez conseguindo atenção dos dois — Eu não sou uma criança! Pare de pensar que eu sou, pois não é verdade. E agora cala a maldita boca e faz seu trabalho de médico com Jodie, ela está precisando mais de você do que essa briguinha idiota — E assim, a menina se levantou e correu para fora da casa. Jared deixou o ar sair pela boca parecendo exaurido, enquanto Jimmy, olhava fixamente a porta pela qual Harlow havia saído.
— Estão agindo feito idiotas com ela — murmurei. Eles me olharam com a sobrancelha erguida.
Jared não se dignou a falar e começou a me examinar, ao contrário de Jimmy, que disse:
— Agora eu sou o idiota? Não esqueça que você começou com isso marrentinha. — Virei os olhos, mas não neguei o que foi dito.
— Eu já pedi desculpas. Como eu poderia saber que Jared ia dar uma crise de ciúmes? — A cabeça do cara pulou para cima assim que falei, e ele não parecia feliz.
— Não estou dando crise de ciúmes, apenas quero proteger Harlow de garotos como ele — Apontou para Jimmy com desdém.
Jaime o encorou com uma careta de desgosto.
— Como assim “Garotos como eu”? O que acha que vou fazer com Harlow? — Jared não o olhou enquanto trabalhava em mim.
— Eu lhe conheço há muito tempo Jaime. Sei das coisas que fez e com as garotas que saiu. Se me lembro bem, Dana quase fez parte de sua lista de vadias, e isso só não aconteceu, porque ela teve o bom senso de pensar primeiro no que aconteceu com as outras — franzi a testa, e curiosamente, olhei Jimmy e perguntei.
— O que aconteceu com as outras? — Eu não esperava, mas o menino teve as bochechas e orelhas mais velhas que uma maçã. Ele limpou a garganta e disse:
— Isso não importa — respondeu. Jared riu sarcasticamente.
— Claro que não importa. Por que seriam importantes as várias garotas quebradas por você? — Jared bufou, e terminando com minha atadura, fechou a maleta e levantou — É exatamente por esse tipo de pensamento, que quero minha irmã longe de você.
— Mas eu...
— Nós terminamos aqui Jimmy — Insistiu. E logo me olhou — Deixarei seu remédio com Linnea. Vou trocar umas palavras com ela e Carter sobre sua alimentação. Até mais ver, Jodie. — E assim como sua irmã, partiu para fora da sala a procura de Linnea na casa.
— Você está tão ferrado com ele — ri. O menino suspirou, mas assentiu.
— Com certeza estou — concordou, e se levantou do chão onde estava de joelhos para jogar-se no sofá ao meu lado.
Puxei meu corpo até ficar sentada e dei-lhe espaço.
— O que vai fazer com isso?
— Não faço ideia. Jared é um leão quando se trata de suas meninas — Jimmy fez uma careta — É estranho eu ficar nervoso por não poder ver Harlow? Porque, vamos combinar, essa garota só enche minha paciência. Talvez seja melhor eu me afastar — Durante os minutos em que eu o olhei, eu pensava se devia ou não rir de algo tão divertido. Ele realmente não entendia o porquê de estar se sentindo daquela forma?
— Você não pode se afastar da garota só por isso. Sabe que ela faz parte do grupo de seus amigos...
— Nossos amigos — corrigiu de pressa. Eu bufei.
— Okay. Nossos amigos. Mas voltando ao assunto, seria chato se vocês ficassem mais insuportáveis que o normal — Um sorriso se formou em seus lábios, ele rolou os olhos enquanto estralava o pescoço.
— É... bem. Você pode estar certa — murmurou. Eu ia concordar, entretanto, uma outra pessoa o fez, e sua voz me fez ficar congelada que nem pedra.
— Ela com certeza esta certa! — As grandes mãos de Liam descansaram em meus ombros — E cara, acho que já ta na hora de você confessar que Harlow não é tão ruim — Ainda sem ver o novato, vi quando Jimmy fez careta e se encolheu, desviando o olhar de nós ao resmungar.
— É bem, se você gosta desse tipo de coisa.
— O que tem para não gostar?— perguntei sem conseguir fazer as palavras pararem de sair. — A garota é magrela e nova. Uff. E daí? Ela também é bonita, tem um rostinho até fofo e uma mentalidade terrivelmente perigosa. Não é como se essa guria fosse realmente uma criança, como disse Jared agora pouco.
— Eu sei disso, mas não dá para ver ela como outra coisa do que amiga — Jimmy parecia meio frustrado com suas próprias palavras, e também inseguro — Essa merda está muito errada.
— Errado é você querer se afastar dela — cutucou Liam, e logo o menino empurrou-me para frente e sentou-se logo atrás de mim, fazendo com que eu olhasse para trás franzindo a testa.
Acho que entendi o porquê de eu ter paralisado quando ouvi a voz dele. Eu com certeza sábia que mais cedo ou mais tarde eu teria que encontrá-lo, e depois do que aconteceu no meu quarto horas atrás, meu consciente estava dando voltas, enquanto meu coração começava uma nova dança louca. O rosto dele estava a mesma coisa de antes, porém mais sereno, e sorriso dele para mim agora era diferente; era algo como adoração.
— Olá — Ele falou para mim. Pisquei, erguendo uma sobrancelha para o seu peito, que agora sustentava meu corpo e depois voltei aos seus olhos cheios de azul e cinza.
— Eu não te convidei para sentar — Apontei. Ele imitou meu gesto, e ergueu uma sobrancelha, para em seguida se acomodar mais confortavelmente contra o sofá e contra mim.
— Que pena — disse. Eu rolei os olhos — Como você está? Minha mãe ligou-me contando sobre o aconteceu na delegacia.
— Parece que ela contou para todo mundo. Até agora foram Jared, Harlow, Jimmy Carter, Linnea e agora você. Quem mais quer entrar para festa? — Meu ar irônico o fez fechar o sorriso, por isso, voltei a me virar para Jimmy, deixando ele olhar somente para minha cabeça cheia de cabelos loiros.
Eu apenas não contava que Jimmy tivesse ido embora.
— Droga — praguejei.
Como assim esse idiota me deixou sozinha com o novato? Por que ele fez isso comigo? Vingança. Sim. Ele queria se vigar por ter feito toda aquela confusão com Jared e Harlow. Bastardo de merda.
— Minha mãe não vai contar seus segredos para ninguém mais Jodie. — Liam me puxou de meus pensamentos — Ela apenas me disse, porque eu pedi, ou se quiser encarar de outra forma — Um de seus braços circulou minha cintura, e eu já comecei a xingar mentalmente — Eu exigi que ela me contasse tudo. Quero ficar a par de tudo sobre você — Eu tive de conter um gemido no fundo da garganta. Porra. Como é que esse menino conseguia ser sexy até mesmo ao ser um completo babaca possessivo?
— Você não tem que saber ou exigir nada sobre mim, novato.
— Oh, ela não desiste — Liam riu, depois limpou a garganta. — Realmente vai insistir nisso depois de ontem? — Fechei os olhos, farta.
— Liam, por favor...
— Não peça, por favor, Jodie — Ele de repente pareceu cansado — Precisa de mim. Assim como eu preciso de você. Não pode se fechar para tudo e para todos só por causa de Edgar e das malditas vezes que ele te espan... — Liam segurou o resto da frase assim que sentiu todo meu ser estremecer e depois endurecer. Suas mãos esfregaram meus ombros — Jodie, olha... Eu sinto muito... — Eu me afastei, pulando do sofá para poder correr até as escadas, porém, ele me segurou pelo braço.
— Não fuja. — pediu com olhos suplicantes. Eu os desafiei de forma bruta.
— Me solta. — Ele negou.
— Não, porque eu sei que se fizer isso, poderei ver a mesma cena novamente. Você com uma lâmina na mão e o seu pulso cortado. — Ele estava firme — Isso não vai mais acontecer. Basta, Jodie, essa dor pode matá-la!
— Ao menos as dores do corpo me distraíram da dor na alma — Ele agiu da mesma forma que das outra vez, seu rosto mudou instantaneamente para algo doloroso, como se ele tivesse sido atingido bem no coração. Como se ele sentisse minha própria dor.
— E é exatamente por isso... — pulei para o lado quando Amara apareceu na entrada da sala, com Carter e Linnea logo atrás. — Que vamos conversar. — Deixei um longo suspiro sair pela boca, pois eu sabia, aquilo ia ser difícil, e eu tinha certeza que em alguma hora, minha boca soltaria a última palavra daquela discussão, e no momento, eu tinha o pressentimento que o final séria péssimo para mim.
~*~
— Não!
O escritório de Carter era grande. Um espaço quadriculado, com uma finíssima mesa de marfim e estantes com livros e paredes abarrotadas de fotografias. Encostadas à elas, tinham os sofás de couro marrom e cadeiras decoradas em um tom escuro que eu não conseguia decifrar. As portas do local estavam fechadas, e Carter sentado em sua enorme cadeira enquanto tinha os cotovelos descansados na mesa e os olhos em mim, mesmo que esses fossem mais considerados como adagas no momento.
Olhei para a mulher em pé ao seu lado, e quase cedi para aquela merda; Linnea tinha as íris tristes, a face murcha e o corpo encolhido, fazendo-a parece bem pequena.
A minha frente, estava Amara e Liam, sentados com expressões cheias de desgosto e insatisfação, enquanto eu continuava a dizer.
— Eu não vou fazer isso!
— Mas é necessário Jodie, tente entender que é para o seu bem — Amara tentou me contrair — O delegado viu seus pulsos hoje, ele sabe o que anda fazendo e pediu-me respostas. Fui obrigada a dizer a verdade, porém prometi-lhe que você estava se tratando para não mais fazê-lo.
— Eu não vou ser diferente daquilo que sou, e sou as escolhas que faço todos os dias. E eu as sustento. É minha responsabilidade saber o que fazer com meu corpo, não do delegado e nem sua. Não preciso da ajuda de ninguém.
— Isso é o que você acha — Liam replicou agitado, e parecia até nervoso pela minha escolha — Automutilação está na amenização da dor de uma depressão, e isso quer dizer que sim, você precisa de ajuda.
— Nem um Psicólogo e nem um psiquiatra vai fazer isso parar. — Por que eles não entendiam? Por que queriam me forçar a fazer isso?
— Jodie? — Direcionei meu olhar insatisfeito para Carter ao ouvi-lo — Faça isso. O acompanhamento por um profissional de saúde é essencial para ajudá-la a dar nome às suas emoções, a identificar formas saudáveis e adequadas de lidar com os seus problemas e angústias, a aumentarem a autoestima e aprenderem a gostar de si mesmo. — Apertei os lábios, tentando ao máximo não mordê-los até partir a pele.
— Ma-mas... eu gosto de mim como sou — O riso alto que saiu de Liam me assustou, e eu não fui a única surpresa quando ele se levantou e falou, alto e claro para todos ouvirem.
— Pelo amor de Deus, Jodie. Seja sincera consigo mesma — Ele mirou-me por instantes — Você se despreza todos os dias. Esqueceu todas as vezes que eu te fiz um elogio? Tudo que saiu de sua boca foi um “Não minta para mim”. Eu assisto sua falta de amor próprio todo santo dia. Como consegue mentir dizendo o contrário? — Eu estava parada, e o aperto lá dentro do peito se contorcia em varias voltas.
Engoli em seco, tentando falar, mas como não arranjei palavras pela primeira vez, Amara se levantou para encarar o filho com uma expressão severa.
— Saia da sala Liam — Mandou. O rosto dele só faltou explodir de tão vermelho.
— O que?
— Está atormentando ela. Se está aqui para julgá-la, se retire. Por mais que eu o ame filho, aqui sou somente advogada dela, então é meu dever protegê-la. Vá — O novato ficou olhando a mãe com a boca aberta, totalmente pasmo. Eu fiquei observando até que ele se recuperou e disse tão normalmente, que eu franzi a testa.
— Não. — Amara pareceu inclinar o pescoço como uma cobra cutucada com a vara. Ela se empertigou e avançou um passo.
— Como é Liam?
— Se aqui a senhora é somente advogada dela, você não tem o direito de me botar para fora. A minha mãe eu obedeceria, mas como não é assim, sentarei onde estava, e participarei da conversa. Desculpe, mas não fui eu que impus as regras — Os olhos da mulher ficaram tão afiados quanto os de Carter minutos atrás, e ela encarou o filho em todo tempo, até que...
— Eu odeio quando você age assim — Ela bufou, balançando a cabeça, estressada — Malditos sejam os genes Corey — Liam deu um sorrisinho de lado e se aproximou da moça nervosa.
— Contarei ao papai sobre isso — falou, e a beijou na bochecha. Amara bufou, e naquele instante, a postura dura se foi, e um sorriso juvenil cresceu em seu rosto, o que me fez pensar em minha mãe.
Céus. Como sentia saudades.
— Querida — O toque de Linnea foi o de sempre, quente, confortante, bem-vindo — Meu anjo, tente fazer isso. — Com o canto do olho, vi Amara e Liam voltarem a atenção para mim.
Fechei olhos.
— Eu não quero ir — fui verdadeira — Isso não vai me ajudar.
— Pode funcionar se você permitir — Linnea esfregou-me as costas. — Seja forte criança. Seja forte para você. — Balancei a cabeça, sentindo a tremedeira subir.
— Não dá, eu não consigo. Eu sou isso Linnea, eu sou fraca, não suportaria nem sequer tocar no assunto de Edgar com alguém mais — Os incríveis e esverdeados olhos de Linnea entristeceu, mas ela não discutiu mais, só se ergueu e virou-se para Amara.
— Já chega. Se ela não quer isso, não fará nada — Acho que minha respiração fluiu com mais calma ao ouvir isso, ao contrário das de Amara e Liam, que a olharam como se fosse louca.
— Mas Linnea, você não pode aceitar o que ela faz! — Amara exclamou, pela primeira vez, se exaltando — É perigoso...
— Eu sei o que estou fazendo Amara. — Interrompeu Linnea com a voz tão audível quanto a dela — Forçá-la nada vai adiantar. Temos que esperar o tempo dela.
— Mas esse é o problema Linnea — Liam se intrometeu — Jodie tem medo, nada vai fazê-la mudar de ideia. Espera que fiquemos sentados vendo ela se furar ou fazer a porra de um corte? — Fechei minha mão em punho, já não tolerando a forma que o novato falava, respirei fundo, assistindo quando Carter se pós ao lado da mulher com o ar severo.
— Abaixe o tom garoto. Isso aqui não é uma disputa para quem consegue ajudar mais Jodie, precisamos nos centrar em arranjar um modo de organizar as coisas para deixa-la confortável. Brigar não ajuda.
— Assim como conversar também não está ajudando porra nenhuma — retrucou. Isso me deixou cansada, farta. Ouvi-los falar sobre mim como se não estivesse escutando, vendo-os decidirem minha vida por mim me deixou louca, e o novato só estava piorando as coisas.
Levantei, e em seguida, marchei para a frente de Linnea e Carter só para empurrar o peito de Liam e rugir.
— Cale a merda dessa boca! — Os olhos do novato se arregalaram — Já chega de querer decidir a minha vida. Isso não é da sua conta, e não quero ver você nunca mais levantar a voz para Linnea seu imbecil. Não sou garota de fazer tudo que o garotinho manda, então para, okay? Chega de marcar território em cima de mim porque não sou a puta de uma cadela e não quero ser marcada por você, vaza do meu caminho antes que eu acabe quebrando você — Silêncio. Foi o que se formou por cima da minha respiração ofegante e rápida, meu coração foi desacelerando, e durante esse meio tempo, eu observei quando Liam dava um pé para trás, cambaleando, e Cristo, aquela expressão. Achava que nunca poderia esquecê-la, pois era pura dor, pura decepção e magoa, eu me segurei no mesmo lugar, queimando, gritando por dentro a cada segundo.
A cada respiração dele, eu notava o que estava fazendo, porém era tarde para voltar atrás, e Liam, parecia destruído.
— É... o que quer? — Sua voz estava rouca, hesitante, tremida. Engoli.
— Sim. Quero que me deixe em paz — Apertei as mãos — Agradeço por toda sua ajuda, mas isso basta. Não sou a garota certa para você, sou a bruta, sou a megera, sou a garota estranha que todos temem. Não sei amar Liam, não sei me apaixonar e não sei dar carinho. E mesmo que você tente, eu sempre vou ser quebrada, e não quero fazer isso com você também. Minha vida é dura, e trazê-lo para ela é egoísmo — desviei meus olhos para outro lado — Vai embora. E se seus pais não quiserem mais me ajudar, que assim seja, não os culparei e muito menos a você. Apenas vá, e deixe-me aguentar tudo sozinha como sempre foi. — Ninguém falou, e depois de muito tempo, achei que já tinha partido, mas errei, pois a voz dele veio de longe, talvez da porta. Ouvi-la acabou com tudo.
— Não acho que deva mais se preocupar em me poupar Jodie — Olhei para ele, mas ele tinha as costas viradas para mim e a cabeça baixa, a mão na maçaneta da porta — Porque essas palavras foram às únicas que me quebraram — E assim, ele saiu batendo os pés para fora do escritório. No mesmo instante que Amara correu atrás dele minhas pernas fraquejaram.
Merda. Eu não sabia o que era, mas doía, dilacerava meu peito e fazia meu estômago revirar, e mesmo que eu estivesse sendo segurada pelas mãos grandes de Carter, meu corpo continuava caindo, enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas.
— Não, o que... — Passei a mão pelo rosto e franzi a testa para as lágrimas. Mais delas desceram por minhas bochechas até que a certo ponto, encontrava-me soluçando com o rosto apertado contra o peito de Carter, as unhas agarrando sua blusa com insistência e estremecendo ao lembrar de cada última palavra dita por Liam.
...essas palavras foram às únicas que me quebraram.
— Oh não... o que fiz? — O que tinha feito? Não. Não. Não.
— Oh minha querida — A palma de Linnea deslizou em minhas costas, e eu choraminguei, abrindo os olhos para ela. — Esta tudo bem meu anjo. Fique calma. — Ah, se ela soubesse como estava tentando permanecer calma.
— E o quebrei Linnea, depois de tanto esforço... Eu o machuquei. — Esse fato feria tanto, que não podia conter a tremedeira que abalava meu corpo fraco. Linnea acariciou minha cabeça gentilmente e suspirou.
— Eu sinto muito querida. — Por mais que fosse doloroso, aquilo não era suficiente, a sinceridade e as palavras bonitas, nada era o suficiente. E aquilo era quase torturante.
— Eu não posso fazer isso... Não vou conseguir...
— Jodie, olha só — Carter segurou minhas mãos, pedindo que centrasse a atenção somente nele e nada mais — Não vou te julgar, não vou falar que você é errada, nem que não deve fazer isso. Isso é sua opção, porém pense que se permitir ser ajudada, nós vamos estar aqui sempre para observá-la, e se não quiser fazer isso por si mesma, faça por nós, faça por Liam, que mesmo triste, tenho absoluta certeza de que quer te ver bem. Tenha força e desabafe, chore, seja forte. Eu sei como você se sente, e por mais que eu não sofra da mesma coisa, eu compreendo que a tentação é grande. Você quer parar mais não consegue. Você se sente culpada quando pensa que tem varias pessoas precisando de sangue e você está desperdiçando o seu próprio. Mas por favor, pare de pensar assim, comece a perceber que você é linda, é especial, é importante, você tem valor, você é amada, e você é forte. Eu confio e acredito que irá fazer a coisa certa, mas a decisão não será minha e nem de Liam, e muito menos de Linnea... Tudo depende de você para que aconteça. Então me diga — Os olhos escuros fitaram intensamente — Vai ou não enfrentar isso?
~*~
Fale com o autor