Believe In Me
25 Capitulo 25 — Dificuldades
Notas iniciais
Ficar de olhos fechados era uma das piores coisas, que eu devia fazer agora que Edgar estava solto para caçar minha irmã como bem intendia. Tudo por causa de mim, porque com certeza irá querer uma vingança. Os terrores me tocaram desde o meu ponto fraco até… Uma nova parte do meu coração. Aquela que era nova, aquela que tinha entrado em minha alma sem permissão, aquela que me fazia odiar admitir fraqueza ou covardia, que me fazia sorrir mesmo quando queria estar com raiva.
Maldição. Eles me atingiram através de Liam.
Sentia o suor percorrer por todo meu corpo, tornando minha pele pegajosa e irritantemente arrepiada, de olhos fechados eu via aquele garoto sendo machucado, mas fora dela eu chacoalhava a cabeça contra o travesseiro, sofrendo a cada batida dolorosa e acelerada do meu bastardo coração. A cada momento que o vento soprava da janela a cima de mim, eu via seu rosto, e isso se tornou insuportável a ponto de acordar ofegante e desesperada.
O quarto estava escuro e silencioso. Passei a mão sobre o rosto notando o rastro de lágrimas que havia derramado enquanto dormia, olhei novamente em volta e uma necessidade de correr atrás do novato, me fez arrastar minhas pernas para o chão na intenção de me levantar para ir procurá-lo, porém, me detive assim que meus olhos pegaram a visão de Lizze ao pé da cama, deitada em um colchão. Virei para o lado esquerdo da cama, e ali estava Stefany, espalhada em uma manta branca e coberta por um cobertor rosa.
Respirei fundo, deixando um pouco do medo se esvair. A sensação de que elas estavam ali por mim me fez sorrir, agradecida pela preocupação de ambas.
De vagar, fiquei de pé, uma mão sobre os pontos dados pelo irmão de Harlow. Não sentia mais dor como antes e sabia que a febre tinha passado então não me preocupei em me agasalhar, aliás, nem mesmo tinha outra blusa para vestir. Teria que ficar com aquela roupa minúscula até as feridas curarem, ou até que encontrasse o esconderijo que Liam havia feito para colocar minha mochila.
Assim que consegui enfrentar a escada, passei pela sala direto para cozinha. Precisava de um copo d’água depois do pesadelo que tive. Mesmo que a água não fosse apagar o medo terrível que sentia por Liam.
Medo. Parecia absurdo, com tantos outros medos que tenho que enfrentar, logo esse tinha que aparecer. Eu tinha que me preocupar com Michelle, essa sim tinha meu amor completo para sempre, não Liam. O garoto que invadiu minha vida e que fez tudo mudar para um rumo diferente tão rápido. Isso era uma tolice! Uma grande e absurda merda de pessoas românticas. E eu não era romântica. Nem um pouco.
— Sem sono? — fiquei rígida assim que a voz bateu em meu ouvido. Apertei o copo em minhas mãos tentando não demonstrar o quanto estava feliz por saber que o dono daquela voz, estava logo atrás de mim e não em um perigo tremendo por causa de meu pai.
— Um pouco — respondi, ainda encarando o copo em minhas mãos — O que faz aqui? Pensei que voltaria com seus pais.
Senti sua aproximação como se senti uma descarga elétrica. Foi intenso, e eu com certeza não gostei.
— Eles permitiram que eu dormisse aqui essa noite. — falou, chegando mais perto, até que sua mão descansava gentilmente na curva da minha cintura. Praguejei em minha mente. — Sua amiga, Linnea… Ela pediu que ficássemos de olho em você até amanhã. Ela irá preparar o marido dela e a casa para a sua chegada — Minha cabeça pulou em pé assim que compreendi suas palavras. Virei, mandando aqueles arrepios para o inferno e procurando por seus olhos no meio da escuridão.
— Casa dela? Marido? — chacoalhei a cabeça — Eu disse que ficaria em seu orfanato, não na casa dela. — No escuro, aqueles olhos brilhavam ao me observar, seu cabelo rebelde caia em sua testa, e mais uma coisa que percebi assim que me virei, era que o idiota estava sem camiseta.
— Eu a avisei de seu desejo, mas ela se negou a aceitar — falou ainda me olhando daquela forma perturbadora — Disse que você ficará na casa dela até as coisas se acertarem. — bufei, descansando o copo da pia e depois passando a mão pelo cabelo, que notei apenas agora, estavam dançando livres em minhas costas.
— Amanhã falo com Linnea. Não posso morar com ela — comecei a juntar meus fios para prendê-los — O marido dela com certeza vai detestar a ideia. Imagina só. Ter uma problemática dentro de sua própria casa e perto de sua filha e esposa. Ele tem que ter algum juízo. — procurei por alguma coisa que pudesse usar para segurar o cabelo, mas assim que tentei me afastar, Liam me prendeu entre ele e a pia e tocou em minhas mãos, puxando-as para baixo.
— Liam o que…
— Não faça isso — disse, seus dedos então adentraram em meus cabelos, os alisando para cima de meus ombros novamente — Deixe eles assim. Nunca tinha te visto tão… natural — Engoli em seco, forçando meu corpo a se afastar, contudo a pia atrás de mim não permitia.
— Em breve vou voltar ao que era antes. E eu odeio meu cabelo solto — tentei prendê-lo novamente, mas ele segurou meus pulsos. Fiz careta pronta para xingá-lo, mas antes, abaixei os olhos para o braço que ele segurava, e percebi que esse estava com uma faixa branca, a não ser por uma pequena quantidade de sangue seco que a manchava.
Pisquei, e lembrei tudo que havia acontecido na tarde passada.
— Por que ainda tenta ficar perto de mim? — Indaguei, de repente necessitada de saber isso mais do que tudo — O que tem em mim… que te atrai tanto? Eu sou tão inútil…
— Não — Liam segurou meu rosto, fazendo-me olhá-lo — Você não é inútil. Você é linda, corajosa…
— Liam, por favor…
— Por favor digo eu, Jodie — Sua mão esquerda apertou minha nuca, evitando roçar na ferida próxima, enquanto a outra, deslizava levemente por minha bochecha. — Esqueça pelo menos por um segundo que eu gosto de você, e comece a pensar que minhas palavras são verdadeiras em outro sentido. Não às digo para te conquistar, e sim para tentar lhe mostrar que você também é um ser humano! Eu as digo, porque eu sei que você merece cada uma delas depois de tudo que passou nas mãos daquele canalha que se diz ser seu pai. — Sua mão percorreu todo meu rosto, como se estivesse me decorando para depois, nunca mais ter que esquecer os detalhe.
Um pouco mole demais, tentei afastar seu toque.
— Está sendo melodramático e compreensivo, para mim ficar de boa com suas cantadas? Isso não vai funcionar — falei. Ele fez uma careta de completo desgosto, e ao perceber minha tentativa de afastamento, ele recolheu as mãos e deu um passo para trás. Seu peito estreito ficou a toda visão para mim, mas fiz o possível para focar em seus olhos.
— Você realmente não confia em mim. Não é? — disse asperamente. Eu quase recuei ao sentir o peito doer com seu tom, tal esse ele nunca usou comigo, pois a tristeza estava pendurada na ponta de sua lamina de fúria — O que eu tenho afinal? Por que aceitou o Jack uma vez, e não pode me aceitar nunca? — apertei os lábios, e ergui o queixo, mesmo que essa postura estivesse fraquejando.
— Ele não queria um compromisso sério — retruquei. Liam franziu a testa, olhando-me verdadeiramente magoado.
— É disso do que você tem tanto medo, Jodie? Um relacionamento sério? — Eu vacilei, deixando o rosto cair por segundos antes de falar.
— Não tenho medo de nada. E além do mais, para que servem os relacionamentos? Apenas para nos deixar submissos e fracos, para nos dar uma coisa perigosa — Liam entrecerrou os olhos.
— E o que seria tão perigoso? — perguntou, e quando não respondi, ele chegou a sua própria conclusão — Acha o amor tão ruim assim? Se apaixonar também tem suas coisas boas, Jodie. — bufei, jogando as mãos para o alto, cansada de permanecer calada sobre o que sentia de verdade.
— Se apaixonar é uma merda, Liam! — tentei não aumentar minha voz, e foquei em seus olhos tristes — O amor, tão nobre, tão denso, tão intenso, acaba. Rasga a gente por dentro, faz um corte profundo que vai do peito até a alma. A prova disso é minha mãe ter morrido como morreu, ter partido e levado meu coração com ela. Eu não quero sentir isso! Não de novo. — No silêncio que se seguiu, eu examinei o perfil de meu primeiro amigo, do cabelo escuro que lhe caía sobre a inteligente frente da testa e a cima do nariz quebrado e a sobressalente mandíbula. Pela primeira vez em muito tempo eu ansiava alguém, e isso me assustava, e por isso eu nunca poderia admitir isso para ele.
Liam voltou a ficar de frente para mim, ainda mais perto. Eu não me movi, não desejando toques, pois tinha certeza que se houvesse, não seriam apenas alguns.
— Isso pode ser diferente — sussurrou. — posso tentar fazer diferente, se me der uma chance.
— Eu não posso Liam. Tente entender — Meu primeiro pedido para ele. Com certeza ele notou isso, pois sua expressão foi a mais difícil possível. Havia mais que um simples “Gostar” na forma que ele me olhava. Eu conseguia ver isso, mas não podia aceitar. — Isso não vai seguir Liam.
— Eu sei que você senti o mesmo Jodie. Sei que seu coração pula tanto quanto o meu quando te toco assim — Ele roçou os dedos em meu rosto. Minha pele arrepiou, e o meu traidor coração, assim como ele disse, começou a bater e pular mais depressa — Sei que pelo pouco que passamos juntos, você já pôde me conhecer o suficiente para perceber que sou alguém que fala o que senti, que não tem medo de enfrentar desafios. Um dia você me disse que se eu quisesse a garota, eu devia agarrá-la — Seu toque se tornou ainda mais terno — …disse também que se ela corresse, era porque gostava de mim. Você está fugindo de mim e…
— Isso não era para ser usado em mim! — Me frustrei — falei porque pensei que era outra pessoa. — Aquele sorriso malicioso que tanto me irritava e ao mesmo tempo eu adorava, apareceu cuidadoso e quente.
— Eu sei. Mas o fato é que deu certo, e eu sei que você gosta de mim! — fiz careta, prestes a negar, mas ele me calou com o dedo — Não se dê ao trabalho de negar. Lhe conheço bem o bastante para saber que nunca vai admitir tal coisa — Meu corpo reagiu de imediato ao seu toque. E, pelo que vi em seus olhos, o dele também reagia do mesmo modo. Totalmente sem controle.
Eu quis dizer a ele para ir embora. Eu quis! Mas meus lábios não responderam ao meu comando, não porque o dedo que estava sobre eles me impedisse — mal exercia pressão — mas sim porque não era capaz de falar coisa alguma. E uma parte idiota de mim, queria mandar tudo e todos para o inferno para poder agarrá-lo, mas meu bom senso ainda estava intacto…
Liam acabou com qualquer pensamento meu quando seu dedo acompanhou o desenho de meu lábio inferior. Pequenos tremores abalaram minha estrutura e eu quase tive um troço ali mesmo.
— Ah Jodie — Suspirou, afastando a mão aos poucos com hesitação, mas substituiu, aproximando seus próprios lábios. Seu calor me envolvendo por inteira — Diga para mim a verdade. Diga que me quer tanto quanto eu à quero. — Cerrei os olhos quando o leve roçar me tentou a ceder, me incentivou a começar um beijo tão feroz quanto o que demos da biblioteca, um beijo tão bom que poderia tirar meu fôlego.
— Liam, eu…
— Eu sei que você quer — Minha nuca foi apertada, a leve pressão me levou para mais junto dele. Ofeguei, encarando aquele azul, as linhas cinzentas cintilantes, os traços de seu rosto, os seus lábios.
Mordi os meus próprios, sabendo que aquilo seria a maior burrice já feita por mim, entretanto eu não estava pensando corretamente, não mesmo.
— Eu te odeio — chiei, ele sorriu, mas aquele sorriso sumiu quando minha boca foi puxada para ser colada com a dele.
Mãe de Deus! Era tão bom quanto eu me lembrava. Aquela boca, aquela língua. Fazia-me ficar sem controle, me fazia esquecer as coisas sensatas, assim como estava acontecendo agora.
Merda. O lutador era tão magnífico, o peito nu poderoso reluzindo na luz da lua vinda da janela, a pele transportando uma camada de excitação, os mamilos perfurados se elevando e descendo conforme a pulsação desenfreada do sangue aquecido. Percorri a mão pelos músculos do braço que os ligava, desde a espessura grossa do ombro até a protuberância do bíceps e a curva entalhada do tríceps.
Liam esticou a mão no escuro com acuidade certeira, as mãos encontrando as laterais do meu pescoço com tanta precisão como se tivessem sido direcionadas pela visão. De uma vez só, todo o passado reprimido foi libertado com fúria e eu senti o gosto de sangue, sem saber quem tinha mordido quem, eu me abri mais para ele.
E quem se importava?
Com um puxão forte, Liam me apertou, abraçando minha cintura e descendo as mãos pela pele descoberta de minha coxa. Frenesi, em toda parte, rápido, depressa, rápido... Puta merda, havia desejo demais para entender onde suas mãos estavam, ou no que ele se esfregava ou... Porra, havia pele demais para tocar, cabelos para puxar, tanta coisa, demais...
Com um puxão, afastei-me da boca que poderia passar uma centena de anos beijando, e arregalei os olhos. Liam empalideceu a ponto de ficar acinzentado.
No silêncio, eu nada disse. Não conseguiria. Minha voz havia desaparecido.
Em pernas cambaleantes, me distanciei, usando a mão para me segurar nas coisas ou correria o risco de cair miseravelmente no chão.
Não fui muito longe. Pouco mais de um metro além do quarto, eu desabei ao encontro da parede lisa e fria do corredor.
Ofegando. Estava ofegando.
E todo aquele esforço de nada adiantaria. A sufocação no peito só piorava e, subitamente, minha visão foi substituída por quadrados em preto e branco de um tabuleiro de xadrez.
Deduzindo que estava prestes a desmaiar, agachei-me e coloquei a cabeça entre os joelhos. Nos recessos da mente, orei para que o corredor continuasse vazio. Aquele não era o tipo de coisa que gostaria de explicar para ninguém: estava do lado de fora do quarto de Lizze, obviamente corada, o corpo tremendo como se um terremoto particular estivesse acontecendo…
— Jesus Cristo…
… eu sei que você gosta de mim!
… Não se dê ao trabalho de negar. Lhe conheço bem o bastante para saber que nunca vai admitir tal coisa.
— Não — disse em voz alta. — Não…
… Diga para mim a verdade. Diga que me quer tanto quanto eu a quero.
… Eu sei que você quer.
— Não. Não! — Apoiando a cabeça nas mãos, tentei respirar calmamente, pensar racionalmente, agir sensatamente. Não poderia me dar ao luxo de afundar ainda mais naquilo.
Aqueles olhos quentes, brilhantes, eram o que me atraiam.
— Não. — sibilei.
Enquanto a voz ressoava em meu crânio, resolvi me dar ouvidos. Chega. Aquilo não poderia ir adiante.
Há tempos perdera o coração por causa de um amor materno.
Não havia motivos para perder a alma também, e dessa vez por causa de um garoto estrema e absolutamente gostoso.
~*~
Eu não dormir mais depois do que rolou na cozinha, apenas entrei no quarto e fiquei sentada na cama, abraçando as pernas e tentando esquecer tudo que aconteceu durante a madrugada. Era difícil, ainda mais quando fechava os olhos, e por isso, assim que deu oito da manhã, eu me levantei novamente e, com muito cuidado, passei a fuçar nas coisas de Lizze e no armário dela a procura de minha mochila, porém a encontrei em baixo da cama bem lá no fundo.
Retirei umas das muitas roupas que Liam havia socado lá dentro e vesti, tomando cuidado com os cantinhos machucados de minha pele. O jeans até que incomodava um pouco, o mesmo era a jaqueta, mas eu não ficaria com aquela roupinha minúscula por mais nenhum segundo.
— Jodie? — vire-me. Stef coçava os olhos e bocejava sonolenta. Abriu os olhos e deu um sorriso de lado — Bom-dia.
— Bom-dia. — falei. Voltei a fechar minha mochila depois de guarda minhas fotografias. Tarefa terminada, olhei em volta, depois virei para Stefany. — Sabe onde posso encontrar escova de cabelo e lápis de olho preto?
— Huum. Acho que no banheiro… — Ela franziu a testa, e em seguida, para minha surpresa, pegou seu travesseiro e jogou em Lizze, que dormia do outro lado. — Acorda Lizze! — berrou ela, e eu sorri quando sua prima remexeu no colchão e puxou a coberta para cima da cabeça.
— Pare de me encher — resmungou ela, Stefany fez careta. Eu dei de ombros, mas Stef não ficou quieta. Ela levantou, pulou em cima da cama em que eu dormi, e sem qualquer remorso, saltou por cima de Eloise gritando.
— Acordaaaa!! — Eloise se encolheu e começou a xingar a garota de tudo quanto é nome, eu não podia fazer outra coisa a não ser assistir as duas discutindo. E naquele instante, eu me encostei no armário e comparei essa cena com várias outras que tive ao pensar nos meus dias com Michelle em minha vida. As perguntas, “Nós brigaríamos muito?” ou “Seriamos unidas?” e a que mais se ressaltava, “Como é ter uma irmã?”, flutuavam em minha cabeça. E o que mais doía, era saber que nunca poderia saber a resposta de nenhuma delas.
— Bom-dia, Jodie! — Eloise me falou, já sorrindo novamente ao invés de xingando. Seu cabelo louro estava mais para ninho de passarinho e o rosto estava corado, mas continuava linda da forma dela.
— Bom dia, Lizze.
— Você está melhor? — Me direcionou um olhar avaliativo, e sob ele, eu era pura serenidade ao falar, ”Sim. Estou ótima!”, mas no fundo de meu peito eu estava acabada, cansada, destruída, magoada, querendo chorar, com o coração partido, nervosa, angustiada, louca e sobre tudo, confusa. Muito, confusa.
— Que tal um café da manhã? — Ela se levantou, Stef fez o mesmo se espreguiçando — Liam está lá em baixo, pediu para dormir aqui querendo ter certeza de que você estaria bem durante a noite. Ele deve ter acordado — Engoli em seco e assenti, não confiando na minha voz para falar com ela.
Stefany virou-se para prima.
— Ela precisa de escova de cabelo e lápis de olho — falou. Lizze fez uma careta para mim.
— Quer mesmo se pintar daquela forma? Você é tão bonita sem toda aquela maquiagem — Estreitei os olhos para ela.
— Sim. Eu vou — respondi normalmente — E eu não sou bonita — As duas suspiraram e depois de eu ter a confirmação de que as coisas que eu precisava estavam no banheiro, eu sai do quarto e partir para lá sem dizer mais nada.
Acho que fiquei ali dentro por mais de duas horas, e nem era por estar me arrumando, pois estava prontinha depois de dois minutos, o problema era arranjar coragem para olhar na cara de Liam depois do que aconteceu no meio da noite passada. Me sentia arrepiar só de pensar naquelas mãos deslizando por minha pele, aquela boca devorando a minha…
Pensando em seus beijos, olhei no espelho e pisquei para meus lábios. Estavam perfeitos, não havia ferida, e podia jurar que ele havia me mordido em meio aquele afobado beijo, mas pelo jeito tinha sido apenas impressão.
— Pare com isso sua idiota — resmunguei em voz alta, e chacoalhei a cabeça, terminando de arrumar as coisas de Lizze e as colocando no lugar correto. — Você não é covarde — tentei convencer a mim mesma assim que segurei a maçaneta e girei.
O corredor estava silencioso, ao contrário da cozinha, que tinha vozes animadas conversando umas com as outras. Cerrei as mãos em punho e entrei no lugar onde tudo havia acontecido.
Lizze estava contra a pia lavando pratos enquanto ria de algo, já Stef se encontrava sentada em frente à mesa redonda ao meio da cozinha com Liam ao seu lado. Ambos sorriram para Jared, meu mais novo doutor.
— Ah, ai está ela! — Lizze sorriu para mim ao me ver, eu evitei olhar para Liam e caminhei até a cadeira do lado de Stef.
— O que faz aqui? — perguntei com olhar fixo em Jared, ele abriu um sorriso de lado e apontou para sua pequena maleta.
— Vim verificar você antes de ir trabalhar. — Abri a boca para protestar, mas sua mão erguida me impediu na mesma hora.
— Não adiantará protestar. Já basta para mim você ter me feito costurá-la sem anestesia — fiz careta, mas fiquei quieta. Eu não era tão sem sentimento assim, okay? O cara tinha me furado contra sua vontade, me feito dor sem poder opinar, ele merecia um credito agora.
— Tá. Mas nada de mais ataduras. Já bastam as que eu tenho — avisei. Ele concordou e se levantou para vir até mim. Comecei a comer enquanto ele verificava meu pescoço, percebi ai que estava morrendo de fome. Puderá. Não tinha comido nada ontem e só tomado água o dia todo. E para um café da manhã, Lizze tinha preparado um bom banquete.
— Acho que nunca vi tanta carne — suspirei, e podia apostar que tinha os olhos brilhando. Eloise se sentou na cadeira que Jared estava antes, e falou.
— Jed. disse que você precisa se alimentar com comida saudável porque está fora do peso.— franzi a testa e dei um olhar por cima do ombro para o doutor.
— Como sabe que estou fora do peso?
— Eu sou médico, acha mesmo que meus olhos não perceberiam uma coisa tão óbvia? — virei os olhos, e voltei-me para a comida.
Eu realmente não iria me importar em comer aquilo, pensei com um sorriso.
Bife quente em nome da saúde. Eu gostei.
— A forma que você olha tudo isso é impressionante — Liam, pela primeira vez, falou. Eu quase parei de mastigar minhas fatias de carne.
— Então você iria se impressionar quando eu encontrar chocolate — engoli tudo depois que falei e suspirei, evitando sempre olhar para o novato — durante anos comi apenas a maldita sopa de aveia que Edgar me cedia. E também ganhava um copo de suco e pão com manteiga, só, mais nada.
— Esse homem merece ser detido — A voz severa de Jared arrepiou minha nuca. Lambi os lábios e passei o suco para dentro.
— Estou trabalhando nisso — falei, mas me corrigi de pressa — Quero dizer, os pais de Liam estão.
— Oh, quer dizer que Amara e Ethan estão ajudando? — Parei de mastigar para olhá-lo com a sobrancelha erguida.
— Também os conhece? — Ele sorriu.
— Claro que sim. — respondeu. Automaticamente, virei o rosto para Liam pronta para falar, quando a primeira coisa que meus olhos captaram foram seus lábios, fixando no inferior, que estava relativamente avermelhado e com uma marquinha machucada. Corei, abaixando a cabeça, e pela primeira vez eu me senti envergonhada.
Porra! Eu tinha marcado ele! EU. MARQUEI. ELE.
— Jodie? — Arrastei os olhos para Stef, que olhava-me curiosamente. — Você está bem?
— É claro que tô bem — tentei manter minha voz firme — por que não estaria? — Ela sorriu, e soube que estava trocando olhares com sua prima.
— Você ficou quieta de repente e…
— Está vermelha — A voz divertida de Liam me fez ficar quase congelada, mas não me permiti permanecer com vergonha, aquilo iria acabar com minha dureza.
Largando a comida na mesa e endireitando o pescoço que Jared tocava, enfrentei o novato. Ele sorria, tinha uma linda trilha de dentes a mostra enquanto a malicia transbordava de seus olhos. Eu senti a raiva na corda bamba, e ao notar isso, ele me provocou mais, sabe como? Bem, ele simplesmente molhou os lábios com a língua e tocou bem na onde EU tinha mordido noite passada.
Estremeci, mas recusei o sentimento de excitação.
— Não estou vermelha. — rangi os dentes para ele. Uma de suas sobrancelhas se ergueu desafiadoramente.
— Não é o que diz seu rosto — Ele não ia vencer!
— Vai se ferrar — quase rosnei, ele riu.
— Será que vocês nunca vão parar com isso? — Lizze virou os olhos, mas sorria amplamente — Não basta se pegarem para acabar com o tesão? — Fuzilei Lizze com os olhos assim que Liam, Stef e Jared jogaram a cabeça para trás gargalhando.
— Eloise, estou pensando seriamente em arrancar sua língua fora — A loura riu, mas acenou em sinal de paz.
— Okay, eu paro com os comentários, mas eles não deixam de ser verdadeiros.
— Eu vou te bater — avisei mais uma vez. Ela pulou fora da cadeira assim que fiz menção de levantar. Foi ficar atrás de Liam toda sorridente.
— Qual é Jodie, por que não aproveita essa gostosura? — provocou ela, e se abaixou para abraçar o pescoço de Liam. Esse sorria, aparentemente gostando de ser oferecido para mim na cara dura. Rosnei, cheia de desgosto, porém não podia sair correndo para o quarto, pois Jared estava examinando os ferimentos em minha cintura.
— E posso dizer que ele beija muito bem — O novato gargalhou novamente. Eu fiz careta.
— Se você sabe que ele beija bem, é porque já provou. — deduzi. Liam estreitou os olhos cheios de divertimento e disse.
— Foi um acidente. Estávamos bêbados.
— Mas eu ainda lembro — Lizze riu alto — Contudo, fique tranquila, eu nunca pensaria nesse garoto como algo mais.
— Não estou me importando — dei de ombros, querendo ser indiferente, mas era exatamente ao contrário. Queria era cortar os cabelos de Lizze e fazer de enchimento para travesseiro.
— É uma péssima mentirosa Jodie — Stef murmurou, e lhe mostrei o dedo do meio.
— Me erra Stefany.
A campainha da casa tocou. Lizze se afastou de Liam e correu para atender gritando um “Já vai!”, Stef foi atrás dela depois de me mandar um sorriso zombeteiro, tal esse quase me fez mostrar os dentes.
— Acabei — Jared abaixou minha blusa e camiseta e se livrou das lupas plásticas — Já deixei seus remédios com Lizze, e para o caso de precisar de mais, mandarei por Harlow.
— Falando na baixinha, onde ela está? — indaguei. Ele começou a organizar suas coisas de volta na maleta.
— Colégio. Quando saí ela estava de partida com Jaime — ri, e senti que Liam fez o mesmo.
— Esses dois ainda vão se catar — murmurei. As mãos de Jared param de fazer seu trabalho assim que soltei as palavras. Seus olhos ficaram atentos e presos em mim como uma águia prestes a atacar.
— O que está dizendo? — questionou muito sério.
O novato murmurou um “Ferrou!” que eu não entendi.
— Ue, está na cara que sua irmã gosta do Jimmy, assim como o Jimmy gosta da sua irmã. — O doutor arregalou os olhos, parecia indignado.
— Mas ela só tem dezesseis anos! — Ah! Agora entendi o “Ferrou”. — Como esse garoto se atreve tentar algo com ela? É uma criança!
— Opa, vamos com calma doc. — acenei com a mão para ele e fiquei de pé. Não podia e não queria criar problemas para a pequena Harlow. Ela tinha me ajudado muito chamando seu irmão para me ver.
— Nós dois sabemos que sua irmã não tem nada de criança. Está tendo crise de “Irmão protetor” atoa. Jimmy é legal.
— Jimmy tem dezoito anos! — Ele não cedeu. — Harlow é minha irmã mais nova, e assim como aconteceu com Dana, não irei permitir que namore aos dezesseis anos. — bufei, notando como eu tinha feito burrada. Mandei um olhar para Liam pedindo ajuda.
— Jodie está certa Jed. — tentou ser cauteloso — Jimmy sabe o que faz.
— Oh, eu também sei o que ele faz. Será que devo mencionar aquela morena? Como era o nome dela, Mônica, certo? — Droga!
— Ele não magoaria Harlow, Jared — Liam se tornou sincero, seu rosto demonstrando tanta firmeza que ele quase podia se passar por um homem completo, assim como o que estava ao meu lado. — Ele é meu amigo, sei que já fez muita burrice, mas agora, eu acho que Jodie tem razão. Ele gosta da nossa nanica, só não percebeu isso ainda.
O homem grunhiu para o novato, mas não avançou.
— Espero que ele não perceba, pois de forma alguma vou deixar isso acontecer. — Isso estava ficando chato.
— Não acha que seus pais que deviam dizer isso? — questionei desafiadora, porém eu não esperava que ele ficasse quieto, assim como Liam, que levantou da cadeira silenciosamente. Franzi a testa.
O que foi que eu disse?
— Eles não poderiam opinar se quisessem — garantiu Jared, e sua face tinha se acalmado, contudo uma tristeza familiar apareceu em seus olhos. Meu coração se afundou.
Oh, pobre Harlow.
— Essa não… eu sinto muito — gaguejei, sem voz. Ele piscou, surpresa aparente em seus olhos.
— Como adivinhou tão rápido? — indagou. Eu suspirei, olhando para os pés e depois para ele. Uma mão foi descansada em meu ombro, e pude relaxar com a gostosa quentura proibida de Liam.
— Minha mãe morreu também — falei. Jared piscou em solidariedade.
— Também sinto muito — Assenti em reconhecimento. Ele respirou fundo — Já que você sabe como é a dor de perder, pode entender como é a minha preocupação com minha irmã. Ela e Dana só tem a mim. Meu pai morreu por causa de um tumor maligno sete anos depois que minha mãe faleceu no parto de Harlow, isso foi forte para minhas irmãs e principalmente para Harlow. Ela não conheceu nossa mãe, e se culpa por ter nascido e isso ter custado a vida dela. Eu criei essas meninas desde a morte dele, e é meu dever protegê-las de qualquer coisa, então me desculpe se não confio no amigo de vocês. Sou obrigado a isso, e garanto que não faria diferente mesmo com meus pais vivos. Agora, se me derem licença, tenho que ir trabalhar — E com um aceno de cabeça, ele pegou sua maleta e partiu para fora da cozinha. Eu fiquei ali, apenas olhando o lugar que ele estava antes com um grande aperto no peito.
— Jodie? — Liam esfregou meu ombro gentilmente. Fechei os olhos.
— Eu sou tão idiota — sussurrei. Ele apertou as mãos envolta de meus braços, levando-me para mais perto dele.
— Você não sabia. Fique tranquila.
— Entendo ele, Liam — chacoalhei a cabeça — Ele se sente tão responsável para cuidar das irmãs, sente tanto medo de vê-las machucadas. Maldição! Eu sou como ele. Se precisar que eu vá ao inferno para ver minha irmã segura, eu vou, e isso não são apenas palavras.
— Compreendo — Ele arrastou uma mão para trás de meu pescoço — Mas você e ele não pode esquecer que elas também tem suas próprias opiniões. Jared sabe como é Harlow, sabe que ninguém a prende ou da ordens, se ela quiser, ela vai fazer. Mesmo com ele no pé dela.
— Fico preocupada com Jared — confessei, sentindo os dedos dele em minha nuca — Olhar sua obsessão e proteção é meio assustadora.
— Que bom que acha isso, pois assim poderá entender o que eu sinto quando vejo você tentando dar a vida por sua irmã — fiz careta.
Ele até tinha razão, mas não era como se eu ligasse.
Esquivei de seu toque e falei.
— Isso é diferente. Eu nunca vou ver minha irmã — O rosto dele demonstrou seus sentimentos. Era algo como tristeza e pena, mas eu não queria isso dele, não queria nada. E mesmo que meu corpo discordasse de minha cabeça, eu ainda podia forçá-lo a fazer as coisas que minha mente desejava, e por isso preparei-me para ser bruta, ou talvez até magoá-lo, entretanto, acho que não era esse o plano de Deus, pois ele acabou por enviar seu melhor anjo. Talvez essa pessoa fosse meu anjo da guarda, pois estar perto dela era como estar perto de minha mãe.
— Olá crianças — Ela sorriu com aqueles lindos olhos verdes, e depois me inspecionou dos pés a cabeça — Jodie querida, você não devia estar deita? — Eu sorri, não podia fazer outra coisa. Ah não, na verdade até podia.
— Já disse que não serei amarrada na cama — lembrei, e sorrindo corri para abraçá-la. Ela me acolheu, passando seus braços gentis ao meu redor e beijando minha cabeça. — Que bom que voltou.
— Você duvidou? Acho que ainda não me conhece bem então — ri, e me afastei. Capturei a visão de alguém atrás dela. Era Stef e Lizze, mas tinham caras de bocó enquanto seguravam uma a outra ao olhar para o homem a frente.
Caramba. Ele era absolutamente quente.
Não tinha os músculos do pai de Liam, mas ainda sim, aquele olhar profundo e negro, aquele cabelo penteado para trás e aquele ar de executivo, causava um orgasmo a qualquer garota. Segurando o sorriso ao ver minhas amigas idiotas, suspirando, direcionei o olhar para Linnea.
— Trouxe um amigo? — A mulher sorriu, e virando-se para o homem logo atrás, estendeu uma mão para ele.
— Jodie, esse é Carter, meu marido — Permaneci bem serena por fora, ao contrário de por dentro, que comecei a me rasgar inteira.
— Er, certo. Oi, Carter — falei sem graça. O homem continuava me observando atentamente, com certeza me avaliando.
— Jodie — Acenou com a cabeça formalmente — Será que podemos falar em particular? Eu, você e Linnea — Engoli em seco nervosamente. Com certeza Liam sentiu minha tensão, pois se aproximou e entrelaçou sua mão com a minha antes que eu pudesse afastar-me.
— Por que a sós? Não vou deixá-la sozinha — Ele estava carrancudo, desafiava o cara com os olhos, corajosamente. Eu quis sorrir para ele, ou beijá-lo por ser tão sexy.
— O assunto é sobre ela ir para minha casa — Carter se manteve firme ao enfrentar o adolescente revoltado — Preciso saber com que estou lidando — franzi o cenho para ele.
— Olha, desculpe Carter, mas eu não pedi para ficar na sua casa — olhei para Linnea severamente — Eu ia te pedir para ficar no orfanato, mas se não me deseja lá, ficarei na casa de Lizze. Ela não irá se importar, não é? — Eloise deslizou ao lado de Carter assim que falei, e sorriu para mim amável ao dizer.
— Claro que eu não me importo. Pode ficar o quanto quiser — sorri.
— Não! —Linnea se pronunciou mais séria que nunca, olhando seu marido com um aviso bastante íntimo — Carter, você prometeu conversar primeiro. E Jodie. Não é que eu não queira você em meu orfanato, é bem-vinda lá, porém não quero que more naquele lugar. Nunca permitiria isso quando posso levá-la para minha casa — mordi os lábios olhando de canto para Carter.
— Seu marido parece se incomodar com essa ideia.
— Meu marido é um certinho ranzinza — resmungou. Sorri quando o homem apertou os olhos nas costas da esposa e grunhiu bem baixo na garganta. Linnea sorriu sem olhá-lo — Vamos conversar criança. Prometo que ele vai se comportar.
Hesitei por um longo tempo, mas depois de olhar a forma que o rosto dela estava suplicante, eu cedi, e me virei para Liam. Ele ainda segurava minha mão possessivamente.
— Eu vou ir falar com eles. Você fica aqui — ele endireitou-se e ofereceu-me um olhar que deixava claro o tamanho de sua insatisfação. Respirei fundo — É sério novato, fica na sua para que eu possa acabar com isso logo. Já tenho problemas demais.
— Sabe que pode contar comigo — Tinha preocupação no seu tom de voz. Meu coração bateu desconsertadamente, mas apertei sua mão de toda forma.
— Valeu. — Forcei um sorriso, e virei-me para Linnea e Carter.
Lizze escoltou pela casa, através do corredor, e então para o quarto ao lado. Era um escritório, masculino e bem decorado. De seu pai acredito. À direita estava uma considerável escrivaninha de carvalho; à esquerda estava uma área de estar com mobílias de couro marrom. No fim da sala estava uma longa e oval mesa de conferência, que estava logo antes de um banco sob as janelas, cobertas por cortinas aveludadas de cor azul marinho. Os dois lados da parede eram forrados com prateleiras embutidas cobertas com livros, troféus, fotografias, e memórias.
— Fiquem a vontade — Ela disse, e saiu fechando a porta atrás de si.
— Venha querida, vamos nos sentar ali — Linnea aportou para um dos sofás de couro, no qual eu e ela sentamos, enquanto Carter puxava uma das cadeiras para nossa frente.
Ele olhou fixamente para mim por um momento antes de falar.
— Linnea me explicou o que está acontecendo com você — continuei calada. Ele falou novamente — Primeiramente queria pedir desculpas por parecer duro, mas apenas quero fazer as coisas da maneira correta. — sorri sorrateiramente.
— Por isso que sua mulher de chamou de “Certinho ranzinza”. — sussurrei. Eles provavelmente ouviram, pois Linnea soltou uma risadinha e Carter, surpreendentemente, sorriu.
— Linnea tem suas razões para me chamar assim — Seus olhos ficaram ternos ao se prenderem na esposa — Ela me conhece muito bem. — A mulher sorriu, assim como eu também não pude deixar de fazer — De toda forma. Eu não gosto de saber que você se corta — Meu sorriso apagou tão rápido que eu mesma fiquei impressionada.
— Você é bem franco. — Carter se inclinou de volta na sua cadeira e cruzou seus dedos juntos sobre seu peito.
— Preciso ser assim para entender sua historia.
— Nada precisa ser intendido na minha história, senhor, as palavras já estão formadas perfeitamente corretas na folha: Eu morei a vida toda com um pai lunático, ele acabou com a vida da minha mãe, me fez ficar longe da minha irmã, e me batia todo santo dia. O que mais você precisa entender? Seja direto, por favor — Ele engoliu, Linnea segurou minha mão em um aperto confortante. Carter olhou o gesto carinhoso silenciosamente.
— Quer que eu seja direto? Tudo bem — Ele focou em meus olhos — Eu irei aceitá-la na minha casa, perto da minha filha e da minha mulher, mas isso com a condição de você me prometer parar com isso — pisquei confusa.
— Isso?
Carter se arrastou para a ponta da cadeira, e com aquela mão enorme, puxou meu pulso não de forma bruta, mas gentil até mesmo ao erguer a manga da minha blusa.
— Isso, Jodie — Se referiu aos cortes — Se não parar, além de prejudicar a si mesma, vai fazer mal para as pessoas ao seu redor. Linnea e eu somos crescidos e sabemos como nos virar, mas Ivy não, ela é um bebê, e estar perto de alguém que se machuca poderia ser perigoso — Senti a pontada de medo bem no coração.
— Não quero causar mal a ninguém — neguei sinceramente — Por isso não posso ficar na casa de vocês. Posso causar mal…
— Isso não vai mudar nem mesmo na rua, Jodie — Linnea tentou ser cuidadosa com as palavras, pois tinha olhos hesitantes — Eu vi seu desespero ontem, eu vi você querer proteção, mas quando não encontrou o suficiente em meus braços, correu atrás daquela lamina — Os incríveis olhos esverdeados brilharam com lágrimas — Foi triste para mim vê-la naquela situação, e tenho absoluta certeza que seus amigos também pensam assim. Entenda que ao ferir você mesma, sem querer acaba por machucar as pessoas que está a sua volta. — Eu quis dizer que ia parar de me cortar, quis fingir horror e dizer que nunca mais faria nada contra mim mesma. Mas uma lágrima correu pela minha bochecha, propulsada por alguma combinação de ira e culpa, tudo porque eu sabia a verdade. E a verdade era que eu não conseguia parar. Eu enxuguei a lágrima com a parte de trás de minha mão.
Carter olhou para mim por muito tempo, e eu podia ler a decepção em seus olhos. Isso me aborreceu, aquela decepção, mais do que eu queria admitir.
— Não é… assim tão fácil — sussurrei. — Sabe quando nada da certo? Ou tudo dá certo, mas você acha que nada tá bom? Sabe como é ficar sozinha ou estar rodiada de gente e se sentir sozinha? — funguei, esfregando aquelas lágrimas idiotas — É uma coisa tão forte… Eu queria te dar a certeza de que nunca mais chegaria perto de uma navalha, mas eu não posso fazer isso. Eu não sei como vai ser o amanhã ou como vou estar me sentindo, isso não é uma coisa simples que é só você estalar os dedos e pff! Aconteceu. — chacoalhei a cabeça negativamente — Eu não me controlo, só procuro algo para fazer a dor parar. Para me sentir forte para as pessoas que querem me machucar. — A expressão de Linnea e seu marido era compaixão, e Carter, sempre quieto, esfregou o polegar que estava sobre meu pulso.
— Sei que seu coração doí como inferno todo dia. Tem suas razões para isso acontecer, mas… olha o que isso está lhe fazendo com você, está sucumbindo para laminas, derramando seu próprio sangue.
— Como se isso fosse importante — Minha indiferença pareceu assustá-lo. Desafiei seus olhos — Estou cansada de estar aqui, suprimida por todos os meus medos infantis de uma vez só. Aguentar isso nunca vai ser fácil, mas se torna suportável fazendo isso — mostrei os pulsos. — É difícil, mas é a verdade, Carter, sou problemática, louca, doente, seja a palavra que for, acho que não posso ser curada, porque essas feridas não vão cicatrizar. Essa dor é muito real, há muita coisa que o tempo não pode apagar.
— Sei que nada vai apagar o que você passou — falou ele — mas isso não quer dizer que você não pode ser ajudada, salva, como acabou de dizer — Agora, ele juntou as duas mãos em volta da minha, fazendo uma leve pressão ao dizer — Muitos parecem querer ajudá-la. Aquele menino na cozinha, ele me olhou da mesma forma que um leão observa sua presa — Escondi um sorriso e virei os olhos, secando o rosto com a mão livre.
— Liam é todo protetor. Um idiota, não ligue para ele — Carter sorriu.
— Não posso fazê-lo, pois aprecio a proteção dele. Ela pode ajudá-la a fazer a coisa certa.
— Já disse que eu não consigo mudar — O toque de Linnea retornou, mas dessa vez em meu ombro.
— Você não consegue sozinha, mas agora terá amigos. — Ela sorriu — Terá a mim. Só precisamos saber se vai aceitar a nossa ajuda, pois se não a quiser… nada vai funcionar. Por favor, fale para mim que irá tentar, diga que vai se esforça para não se prejudicar mais do que já está. — Não sei se foi a forma como ela pediu, mas minha estrutura toda balançou em vontade de carinho, de seu abraço, e de repente, veio aquela vontade de dar-lhe orgulho, aquela necessidade de ver o sorriso cheio de amor que ela direcionou à Ivy na última vez que estive em sua casa. Eu queria agradá-la, queria evitar fazê-la chorar, queria, por um momento, que ela fosse minha mãe.
Engolindo o nó na garanta, os olhei por minutos, e então falei:
— Eu prometo tentar.
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