Believe In Me
24 Capitulo 24 — Sono tranquilo
Notas iniciais
— Alô? — Fechei os olhos quando a voz saiu do telefone. Passei a roer a unha nervosamente enquanto tentava encontrar alguma coragem para o que eu iria fazer. Engolindo em seco, reabri os olhos e os deslizei por todos meus amigos, que agora substituíam Ethan e Amara, pois esses haviam se retirado para conversar no quarto ao lado.
— Linnea? — Minha voz nunca tinha saído tão hesitante quanto naquele instante. Do outro lado, a mulher fez um ruído que pareceu de empolgação.
— Jodie! Boa-tarde minha querida, como está? — Engoli novamente. Os olhos de todos estavam em mim, e o sentimento de encorajamento estava a circulando protetoramente.
— Não muito bem — mordi os lábios.
— Aconteceu alguma coisa? — Ela se exaltou — Precisa de mim? Diga que vou correndo — Essa simples palavras me fizeram sorrir, aquecida por sua terna preocupação.
— Na verdade eu preciso sim. Mas… para isso você teria que ouvir uma pequena história — Linnea permaneceu quieta por um tempo, como se soubesse que o que eu iria contar fosse algo muito preocupante. Em meio ao silêncio dela, eu podia ouvir vozes logo atrás, e isso indicou que com certeza, ela estava em seu orfanato.
— Se estiver ocupada, eu posso ligar depois e…
— Onde nos encontramos? — Interrompeu. Eu sorri, sentindo meus olhos arderem, porém falei com minha voz forte.
— Anote o endereço — Ela confirmou, e quando conseguiu um papel e caneta eu dei o endereço da casa de Elosie, enquanto essa mesma falava para mim. — Quando poderá vir? Não quero te prejudicar, então você pode escolher o dia.
— Bobagem. Irei hoje mesmo, chego ai em duas horas — Eu nem mesmo discuti, pois ela finalizou a ligação e me deixou sorrindo de forma boba. E eu não era nada boba!
— Pela felicidade em seus olhos — Ouvi a voz de Liam — Ela aceitou falar com você.
— Ela está vindo para cá — sussurrei, ainda sem acreditar. — Não entendo por quê ela tão boa para mim.
— Talvez seja pelo mesmo motivo que nós somos — Jack falou, seu braço circulando a cintura de Stefany e a puxando para perto. A garota corou soltando um sorrisinho. — Vai contar tudo para ela?
— É único jeito, não? — suspirei — Não acho que ela vá deixar eu ficar uns dias no orfanato se não for por um bom motivo.
— Já falamos que pode ficar em uma das nossas casas — Liam grunhiu nem um pouco feliz. — Se não quer ficar comigo ou os outros, fique com Lizze aqui. Os pais delas nem sequer saberiam.
— Já disse que não — insisti. Os outros bufaram irritados — Podem bufarem o quanto quiserem. Eu não vou ficar na casa de vocês para que me amarrarem na cama como se fosse uma invalida.
— Não vamos fazer isso — resmungou uma Lizze bicuda. Eu não acreditei.
— Está certo. Mas o que acontece se Linnea te deixar ficar no orfanato? Como vamos nos ver? — Liam perguntou rabugento, eu dei de ombros e disse.
— Podemos resolver isso mais tarde.
— Você é tão teimosa — Ele coçou os olhos, exaurido. Eu ri.
— E mais uma vez eu tenho que apontar o quanto você gosta da minha teimosia — falei. Isso tirou um sorriso dele como sempre, mas também trouxe a zoação dos outros.
— Sério. Vocês precisão se catar logo, estão cheio de testosterona — Jimmy falou, puxando o riso de todos e atiçando minha paciência.
— Olha quem está falando, não é Jaime — Ele apertou os olhos para mim ameaçadoramente. Pisquei provocante — Vai me dizer que não está todo cheio de tesão para o lado da Harlow? — O garoto arregalou os olhos, ficando tão vermelho quanto um pimentão. Risos aumentaram e Harlow, um pouco mais afastada dele e sentada no chão perto da porta, ficou congelada com os olhos maiores que os dele.
— Isso nã-não é verdade — gaguejou o louro. Eu gargalhei.
— Haha! Tua cara diz outra coisa.
— Jodie! — Uma almofada foi parar na minha fuça tão de repente que me assustei — Cala a boca! — Harlow berrou. Joguei a almofada de volta sorrindo.
— Mas por que? Ele começou.
— E acertou em cheio princesa — Jonah direcionou aquele sorriso enorme para mim — Mas esqueceu de lembrar que nesse quarto, todos estão cheios de algo por alguém — Ele balançou a sobrancelha para Lizze, que mostrou-lhe a língua e virou o rosto.
Fiz careta.
— Espero que eu esteja de fora disso. — reclamei.
— Claro que não! — falaram todos em uníssono.
Mano. Sério. Eu me assustei demais com aquilo.
— É óbvio que tu quer catar Liam de jeito — Jonah gargalhou quando eu, com certeza, fiquei vermelha. Espiei o novato, e o cara de pau ainda sorria maliciosamente para mim.
— Não. Nunca! Jamais! — negaria eternamente.
— Fico me perguntando quando irá se render a mim — Liam provocou. Houve uma porção de “Uuuuh” e “Oooh” no quarto, e por muito pouco eu não levantei daquela cama para quebrar a cara daquele idiota.
— Vai pra merda, Liam. — Ele sorriu.
A porta abriu, e Amara e Ethan entraram lado a lado, sérios, porém, ao escutar o fuzuê do dentro do quarto, sorriram.
— Vejo que estão se divertindo — Amara falou, passando os olhos azuis por todos. Jack, foi o que respondeu, acenando com a mão divertidamente.
— Sabe como é né tia, temos que manter os laços intactos. Mesmo com Jodie nos ameaçando a cada cinco segundos — A mulher sorriu amável para o adolescente, enquanto eu marcava sua morte com apenas um olhar.
Emburrada, estreitei os olhos para o Ethan.
— Sr. Corey. Devemos começar essas aulas logo, por favor. Não sei mais quanto tempo vou aguentar ficar sem socar a cara desses meus amigos idiotas. — O duro advogado sorriu, os lábios finos se erguendo dos lados discretamente.
A revolta dos outros ajudou um bocado para aquele sorrisinho aparecer.
— Podemos marcar um dia para isso — Ethan confirmou, e isso me tirou o mais grande dos sorrisos.
Liam pulou da poltrona de Lizze para ficar ao lado do pai. Tinha uma carranca enorme.
— Eu acho que precisamos conversar muito seriamente — opinou ele. Ethan lhe ergueu uma sobrancelha.
— Tio, você não percebe que acabou de dar uma arma nas mãos dessa garota? — Harlow pulou ao lado do homem com uma expressão cheia de desgosto — Ela vai usar isso em nós!
— Está cometendo o maior erro da sua vida! — Jimmy concordou ao fundo. Eu virei os olhos.
— Se vocês já estão começando a concordar um com outro, acho que a aliança de compromisso já vai sair, não é? — Os olhos dos dois se prenderam em mim, e eu me encolhi dando um risinho.
Os Corey pareciam bem a vontade conosco, mas isso ficaria diferente caso eu estivesse que ser morta por meus amigos.
— Jodie, eu juro para você — Harlow apontou um dedo ameaçador — Se você tocar nesse assunto mais uma vez, vou esquecer que está machucada e arrastá-la pelas escadas dessa casa! — Eu sabia que a maioria ali tinha arregalado os olhos para a baixinha magricela, mas eu não pude fazer isso. Apenas joguei a cabeça para trás, e ri. Ri alto.
— Ah! Isso seria divertido. Acho que vou continuar com isso então — pisquei para ela — Adoro saber que você é iludida, pois só sendo assim para achar que pode comigo, mesmo eu estando machucada — A pele opaca da guria ficou vermelha na mesma hora, como se estivesse esquentando, esquentando, e esquentando…
E explodiu!
— Já chega! Você pediu! — Estava pronta para ela assim que notei que ia pular sobre mim, mas para meu azar, Liam estava agarrando sua cintura em dois segundos.
— Harlow, não. —soou severo.
A pequena rosnou.
— Você me paga Jodie!— Sorri.
— Aquieta gatinha. Não precisa silvar para mim — ri. Liam me mandou um olhar nervoso.
— Pare de provocá-la — Exigiu. Fiz careta.
— Você é tão chato. — Ele não respondeu isso, pois seu pai tomou sua frente já não muito feliz.
— Chega com isso. Não estou aqui para ver briguinha sem sentido — Ele se dirigiu a mim — E você precisa ficar quieta, não tentar se matar.
— Mas…
— Nada de mais. Sua situação requer repouso.
— Minha situação requer um policial com uma arma carregada — corrigi empinando o queixo da mesma forma que ele fazia — Desculpe, mas não será o senhor e nem ninguém que fará com que eu mude a forma de agir, mesmo sendo um cara legal, ou… — Mirei sua musculatura impressionante — …Ou um-puta-de-um-homem-enorme. E também não me importa se é o mais incrível lutador, em breve meu professor — Apontei essa parte mais alto, e pude notar o leve sorriso querendo formar em seu rosto — ou pai do garoto que me salvou. — A pequena fronta que essas palavras formaram fez com que todos no recinto ficassem em silêncio, o que me fez pensar, que aquele homem não levava desaforo para casa, muito menos quando a rebelde era uma desconhecida adolescente. As duas esmeraldas que eram seus olhos me fitavam intensa e perigosamente, e eu com certeza saiba o que estava enfrentando, mas isso não queria dizer que abaixaria a cabeça somente pelo querer dele.
— Muito bem — falou ainda me olhando — Essa sua amiga vai mesmo te ajudar? — Um couro alto de suspiros circulou-me, e quase sorri, sabendo que era de alívio por aquele lutador não ter me dado um nocaute.
— Não sei bem — fui sincera. — Vou contar toda a verdade para ela e ver como vai reagir.
— Confia nela? — Meus olhos demonstraram força no mesmo instante.
— Claro que sim -— Ethan assentiu, e deu um olhar para Amara, essa já estava preparada e se aproximou para falar. Foi quando ele se juntaram em um canto, que a campainha da casa tocou.
Arregalei os olhos me ajeitando na cama e verifiquei o relógio na escrivaninha.
— Como ela chegou tão rápido? Pelo amor de Deus! — Exclamei, mas não por estar irritada, e sim surpresa. Lizze, sendo a dona da casa, se afastou de seu cantinho e caminhou até mim.
Ela sorriu e tocou minha mão.
— Vou trazê-la para você. Vai dar tudo certo, e mesmo se não der… Sabe que pode ficar aqui — O toque gentil me aqueceu, e o sorriso não saiu forçado.
— Obrigada. — Ela acenou com a cabeça, e saiu do quarto para atender a porta.
— Certo. Meninos? — Amara se direcionou aos outros — Não será bom tanta gente ao redor dessas moças. Esperem todos lá em baixo, por favor — A ordem da mulher não foi encarada muito bem, pois eles passaram a resmungar mais que uma velha.
Um estrondo fez todos arregalarem os olhos e fecharem a boca. Olhamos para a fonte, e vimos Ethan com a mão serrada em punho em cima da mesa de marfim de Eloise, um olhar feroz sendo lançado para cada um.
— Saíam. Já! — Exigiu, e não foi duas vezes dessa vez, pois todos passaram as pressas pela porta.
Eu ri, realmente começando a ser fã daquele cara.
— Liam. Você também — Ethan falou firme da mesma forma, e antes que pudesse olhar para o outro canto, algo aterrissou ao lado de mim na cama, algo grande, quente, e duro. Um corpo que me tirava os malditos pensamentos.
Concentre-se nos pais dele, disse a mim mesma, imaginando se tinha enlouquecido.
— O que está fazendo? — questionei, tentando me convencer de que estava brava com seu ato.
Ele sorriu e deu de ombros, e se não fosse minha imaginação, senti seu braço esquerdo escorregar por de baixo do cobertor, onde se envolveu em minha cintura. Segurei o rubor que queria emergir com garras de um leão.
— Liam!
— Liam, saía. — Ethan falou por cima de meu sussurro. Eu fui puxada para mais perto gentilmente, mas isso me tirou um pouco da minha ação.
O que ele pensava estar fazendo?
— Vou ficar com ela.
— Filho, ela precisa estar à vontade com a amiga dela — Amara falou, sua voz era doce, mas a expressão dura — Vá ficar com seus amigos e deixe isso comigo e seu pai. Podemos tomar conta dela.
— Isso não vai funcionar mãe. Eu vou ficar — Ele começou a inclinar-se para o lado e a enorme mão masculina escorregou sobre meu braço para manter-me perto. Ofeguei.
— Está indo longe de mais novato — sussurrei para ele. A mão apertou um pouco mais e seu rosto virou para mim — Acho melhor você ir…
— Desculpe Jodie — Ele me interrompeu, e dessa vez não mais sorria — Mas agora nem mesmo você vai poder me mandar embora. — Seus olhos prenderam os meus, e me vi imediatamente transportado para outro plano de existência. Poderia ser o céu. Quem sabia ou se importava? Tudo o que sabia era que havia apenas eu e ele juntos, o resto do mundo se afastava numa névoa.
Uma batida na porta fez com que a cabeça de nós dois virasse.
Ajeitei-me na cama com a ajuda de Liam, e assim, pude ver a linda mulher na porta. Sorri. Deus, e como eu sorri. Não tinha parado para perceber o quão confortante era estar com Linnea, e só saber desse fato, me fez querer levantar da cama para abraçá-la.
A mulher nem mesmo verificou o quarto ao entrar, seu olhar estava sobre mim, e com certeza eu podia ver a preocupação, o horror ao constatar que eu estava ferida. Ela correu, largou a bolsa, e me abraçou.
— Jodie! Ah meu Deus, o que aconteceu com você menina? — Ela se afastou, segurando meu rosto para verificar meu pescoço — Oh, minha nossa. O que fizeram? Meu bem, o que aconteceu? Conte-me tudo.
— É uma longa historia, Linnea — Suspirei, permitindo que ela me tocasse. A moça o fez sem hesitar.
— Então comece…
— Com licença — As costas de Linnea se tornou rija ao ouvir a voz de Amara, e, estranhamente, sua testa vincou enquanto passava os olhos por Liam, e depois, virava-se para ver quem mais estava no quarto.
Eu ouvi Linnea assobiar uma exalação, e por mais que não pudesse ver seu rosto por ter se levantado, sabia que ela se encontrava paralisada, ou até mesmo branca como papel. E eu não dizia somente por ver sua postura congelada, e sim porque até mesmo Amara estava pasma, sua boca aberta em um O enorme enquanto fitava Linnea, assustada.
— Mas o que…
— Sra. Corey? — Linnea tinha a voz cheia de surpresa. Eu e Liam trocamos olhares confusos e assistimos quando Ethan ficou ao lado de sua esposa. Ele parecia mais controlado, mas não podia negar que havia uma reação estranha em seu olhar.
— Lewis? Como você… — A cabeça de Linnea virou-se para mim assim que Ethan ia falar, o que deixou a frase dele incompleta.
— Vocês se conhecem? — Ela perguntou. Eu ergui uma sobrancelha.
— Na verdade, eu os conheci agora. Ele são os pais de Liam — Apontei para o garoto ao meu lado — Lembra do garoto idiota que eu disse? — Senti um beliscão em meu braço e pulei, sorrindo para o novato.
— Você… — Ela estreitou os olhos para os Corey
— Linnea, como conhece essa menina?— Indagou Amara. E isso atiçou também minha curiosidade.
— Sabe, eu também queria saber como se conhecem. Isso é muita coincidência — falei. A pobre Linnea ficou ao nosso meio olhando de mim para o casal de advogados, e ficou fazendo isso depois de minutos até respirar fundo e virar-se para o casal.
— Precisamos conversar — Me olhou — A sós. — Ethan e Amara franziram a testa, tão confusos quanto eu, porém assentiram, indicando a porta para que ela os seguissem para outro cômodo.
— Isso foi estranho — Liam murmurou, ainda com olhar fixo na porta. Eu fiz careta sem ser capaz de discordar.
— De onde será que eles se conhecem? — Virei-me para ele — Você já viu Linnea? — Balançou a cabeça.
— Não que me lembre. Mas meus pais conhecem muita gente — deu de ombros — Vai saber onde eles se viram.
Cruzei os braços, me inclinando para frente na esperança de eles estarem por perto.
— Será que pegaria mal ouvir a conversa deles? — O peito de Liam tremeu em uma risada fraca.
— Com certeza pegaria. Vamos esperar. — Virei os olhos e lhe mostrei língua.
— Você é tão estraga prazer — resmunguei. Cansada de ficar deitada naquela cama, empurrei os cobertores pronta para levantar. A mão grande de Liam me prendeu contra ele me impedindo de mover qualquer distância longe dele. — Liam!
— Onde pensa que vai?
— Eu vou levantar seu idiota. Me largue!
— Você está machucada e precisa ficar na cama — Era mais fácil dizer do que fazer.
— Desencana dessa novato. Já disse que não vai me prender na cama — Me remexi em seu braço, usando a cabeceira da cama para puxar-me para longe dele. Não foi uma boa ideia, pois tinha esquecido o quanto meu quadril doía.
Resmunguei.
— Porcaria — O braço dele se afastou na mesma hora em que me encolhi. Ia usar isso a meu favor, mas tão rápido quanto ele se afastou, eu fui segurada com uma certa força nos braços, e jogada deitada na cama.
Liam tinha o rosto contorcido em preocupação e fúria.
— Quanto mais teimar em se mexer, mais vai doer esses ferimentos. — suas mãos fizeram uma leve pressão em meus pulsos — fique quieta.
— Eu vou te dar um soco — Avisei. Ele não se importou.
— E eu acho melhor você parar de me ameaçar — sugeriu. Eu ergui uma sobrancelha desafiadora.
— E por que eu faria isso? — Sabe aquele momento em que tudo fica silencioso e estranhamente perigoso, como se um assassino ou um vilão estivesse lhe perseguindo as escondidas? Bem, foi exatamente assim que me senti quando Liam deu um pequeno sorriso de lado, e inclinou o corpo para mais perto do meu, ficando praticamente em cima de mim, colando peito com peito e deixando face com face, seu hálito alcançando o meu e os olhos me observando como sua presa mais apetitosa.
Eu quis me rebelar, quis empurrá-lo para mostrar o que acontecia quando se tocava em mim, quis xingá-lo, mas algo dentro do meu peito me impediu, ardeu como fogo invadindo uma floresta cheio de árvores, me fez ficar em baixo dele sob seu olhar azul cinzento me deixando ser queimada pelo fogo potente.
A pergunta “Por que?” sobrevoou por nós, silenciosa, perdida enquanto procurava uma resposta. Envolveu Liam, pois ele era o único que a possuía.
— Liam — Ele assistiu meus lábios formarem seu nome, uma de suas mãos deixando meu pulso para ir até minha boca, delineando meus lábios com gentileza, carinho, e algo mais.
— Jodie — Seu rosto abaixou, e minha respiração mudou da forma mais drástica. Aquilo não podia acontecer, mas no momento eu não estava realmente me importando.
Tentei encontrar minha voz.
— Vo-você não… respondeu — A testa dele franziu, seus olhos deixando minha boca para focar-se em meus olhos — Por que devo parar com as ameaças? — O garoto piscou, e então sorriu, mais uma vez se aproximando, mas dessa vez de meu ouvido, onde, cruelmente, sussurrou.
— Porque isso me faz querer beijá-la a cada segundo — Ele se afastou de minha orelha depois de dar uma mordiscada, mas eu fiquem beeem onde estava. Não achava que poderia me mover, aquele arrepio em minha nuca intensificou e com sua mordida discreta seu olhar agravou para mais quente.
Eu tava muito fodida!
Eu com certeza estava.
Enquanto olhava Liam se esticar em sua posição reta novamente, todo cheio de satisfação por ter-me deixado sem fala eu percebi como aquilo estava se aprofundando. E tudo porque ele me ajudou, eu tinha a absoluta certeza de que aquela “Pequena quedinha” de antes, agora havia se tornado em uma queda gigante, do tamanho daquelas que são quando se saltão de um avião.
Liam estava conquistando um lugar dentro de meu coração, e pela primeira vez, Edgar não estava tão perto para tirar aquela felicidade. Isso assustou, e por isso, enquanto estava sob o olhar avaliador de Liam, eu me fechei, o empurrei para fora querendo compreender o que estava sentindo, pois se fosse o que estava pensando… tudo iria mudar.
Liam franziu o cenho, percebendo quando minhas barreiras foram repostas entre mim e ele, ele se levantou da cama, sua expressão ferida, mas cheia de compreensão. Nenhum dos dois falou, ele apenas se afastou e depois de um sorriso que dizia “Darei o seu tempo”.
Saiu do quarto, deixando somente o som de suas passadas potentes ecoarem.
~*~
Eu fiquei sozinha no quarto por quase três horas, continuei deitada só porque tentava compreender o que rolou entre mim e Liam, olhando para o teto como uma retardada. A cima da cabeceira da cama, depois da janela aberta de Lizze, o céu se escurecia e o sol se esvaia, eu estava a ponto de me levantar para ver o porquê da demora de Linnea, quando essa mesma atravessou a porta com Amara e Ethan logo atrás.
Sentei-me, começando a sentir que o sono estava me pegando, sono que mandei embora quando notei a expressão de Amara e Ethan no momento e que colocaram o pé dentro do quarto. Eles ficaram parados sem dizer uma palavra, só permaneceram juntos e observando-me com um tipo novo de olhar. O problema era que eu não conseguia decifrar o que ele significava.
— Querida? — pisquei, retirando minha atenção dos Corey para olhar Linnea. Ela parecia mais calma que antes, e sorria amável.
— Como se conhecem? — perguntei logo. A mulher suspirou, olhando por cima de seu ombro e depois ela novamente.
— Primeiro, eu quero saber o que seu pai fez a você — Me encolhi. Sabia que seu tom severo era direcionado a outra pessoa, mas ouvi-lo era ruim da mesma forma.
— Se você sabe que foi ele… Acho que eles já contaram metade da história, não é? — Linnea estreitou os olhos, a cor deles nada eram perecidas com a de Ethan Corey, aquele verde era uma mistura suave de castanho mel, com linhas em dourado ouro, uma linda junção que fazia-me sentir estar sendo vigiada por olhos de um anjo. Já o verde de Ethan, era chamativo, brilhante como uma esmeralda poderosa, cortante, que fazia-me pensar em árvores, florestas enormes e cheias de folhas com a mesma cor de suas íris.
— Devia ter me contado Jodie — Suas palavras eram repreendedoras — Eu te deixei sair da minha casa para ir ao encontro de alguém que te machucava. Como, em nome de Deus, não me falou? Por que me deixou fazer isso? — Doeu quando os olhos da doce moça lacrimejaram, e doeu mais ainda ouvir a culpa correr cada uma das palavras.
Inclinei-me, pegando suas mãos em um aperto forte para que entendesse o que eu falaria.
— Nunca mais eu quero ver esse olhar novamente — Linnea piscou, segurado bravamente as lágrimas, mas ainda havia a pior coisa — Apegue ele já Linnea. Nada disso foi sua culpa. Pare, por favor.
— Você estava comigo… Eu devia ter te levado em casa…
— Ia ser pior — garanti a cortando. Suspirei sob seu olhar cheio de preocupação — Edgar não era impotente. E por mais que eu quisesse dizer a alguém sobre isso, eu não podia… Eu assisti tudo o que ele fez a minha mãe e não pude fazer nada para ajudá-la por ser fraca demais, nova demais. — Dei uma conferida nos Corey, e eles continuavam no quarto, estranhamente quietos, mas a pergunta em seus olhos era óbvia — Minha mãe morreu. E não, Edgar não a matou, por mais que eu achei que ele tenha ajudado no progresso.
— O que quer dizer? — perguntou Linnea. Respirei fundo.
— Ele batia nela — Linnea estremeceu — Foram anos assim depois que ele perdeu o emprego. Até que ela ficou grávida de Michelle — Achei de ouvido os Corey puxarem o ar asperamente, mas não querendo saber suas expressões, continuei focando em Linnea — Minha mãe partiu daquela casa por nove meses inteiros. Foi por isso que eu nunca conheci minha irmã. Marissa teve ela na casa de minha avó Harriet, e assim, passou a tutela da menina para ela não querendo que sua filha mais nova ficasse com Edgar. Enquanto ela tratava disso, eu fiquei com Edgar, e deve imaginar como ele se tornou violento depois que minha mãe desapareceu. — Suspirei — Minha mãe voltou e ela ficou horrorizada ao me ver machucada, acho até que se culpou por aquilo. Eu quase pensei que tinha sido abandonada por ela. Mas não fui. Antes dela morrer disse que minha irmã existia e que estava com minha avó, e assim, ela se foi. A parti dai fiquei com ele pela minha irmã, pois sabia que uma hora, ele iria atrás dela. — deixei os ombros cair — quis mantê-lo ocupado para desviar a atenção dele, dela.
Linnea, saindo de sua posição abalada, se juntou a mim e me puxou para seus braços, abraçando-me forte, mas não a ponto de fazer doer alguma coisa. Sua mão acariciou minha cabeça várias e várias vezes.
Fechei os olhos apreciando o carinho.
— Então por que não fugiu dele minha criança? — Sua voz era cheia de tristeza — Por que não o denunciou depois que Michelle foi para o orfanato? Ela estava segura, e depois que foi adotada… — Pulei de pé, olhando ela com nada mais que firmeza e convicção, uma raiva que nunca cessaria.
— Ele sabe onde ela está — Linnea arregalou os olhos.
— Como é? — Ethan entrou no meu campo de visão atento e em uma postura de combate profissional — O está dizendo Jodie?
— Eu não sei como, mas ele sabe onde está minha irmã. Eu ouvi uma de suas conversas no celular. Ele disse que queria ficar de olho nela — Estremeci com o pensamento. — Acho que era por minha causa.
— O que você tem haver? — Amara estava estranhamente protetora — O que ele quer dessa menina?
— Para me controlar — respondi, abraçando a mim mesma — Quando eu descobri que ele tinha a elevado para o orfanato, eu me rebelei. Pensei que agora que não estava mais nas mãos dele, ela estava e continuaria segura. — Fiz careta — Enfrentei-o, e acho que quando fiz isso, ele percebeu que não poderia me manter para sempre sem ter um motivo razoável. Foi ai que escutei ele falando com alguém, perguntando com qual família ela estava. Pensei que fosse do orfanato no qual ela esteve. — Linnea se levantou da cama negando ferozmente com a cabeça.
— Não. Eu me encontrei com ele sim, mas nunca daria a localização da menina sem a autorização dos pais adotivos. Ele perguntou, e eu recusei-me a ceder qualquer informação.
— Você tem certeza que ele não falou com nenhuma das pessoas de seu orfanato? — questionou Ethan duramente — Ele não pode ter conseguido essa informação sem ajuda.
— Eu tenho absoluta certeza — garantiu Linnea atordoada. — Ninguém diz nada que não é autorizado em meu orfanato.
— Bom. Mas ele descobriu de alguma forma — falei com rancor, pegando seus traços de preocupação — E eu fugi agora. Edgar deve estar com raiva de mim, e… — franzi a testa, começando a juntar um pouco das coisas que eu não tinha percebido antes. Um medo atravessou minha espinha enquanto direcionava o olhar para os Corey — Não deixem Liam desprotegido. Meu pai o viu, e ultimamente, me fez várias perguntas em relação a ele. — Os pais na hora se endureceram dos pés a cabeça. Amara de repente ficando mais vermelha que seu marido.
— Ele que se atreva encostar no meu filho — A mulher, que antes parecia frágil ao meus olhos, fechou as mãos em punhos e exalou em coragem e proteção, seu corpo se preparando para atacar qualquer um que tentasse chegar perto de sua cria.
Ethan deslizou um braço pela sua cintura, obviamente para acalmá-la.
— O que ele te perguntava e por que?
— No começo ele só queria saber o que eu e Li. fazíamos na biblioteca, mas depois de duas semanas, passou a me perguntar onde ele morava, quem eram seus pais e se tinham irmãos. Eu logicamente não falei nada, e na maioria das vezes falava a verdade, porque não conhecia vocês e muito menos sabia onde ele morava. Tentava desviar seu foco para outra coisa, tipo o fato de eu ”Odiar Liam mais que ele próprio”. O que, com certeza, não é verdade — Ethan esfregou o maxilar e puxou mais sua mulher para perto, escondendo seu rosto na curva de seu pescoço, como se estivesse sussurrando algo para ela.
— Você acha que ele sabe onde a nova família dele mora?— Linnea indagou. Eu engoli em seco.
— Isso é bem provável, e aproveitando que você está aqui — Cheguei mais perto de Linnea, segurei suas mãos com força enquanto prendia seus olhos — Por favor, avise a família dela. Diga que precisam ir embora, peçam para levá-la para bem longe de mim. Eu não sei quem são, e não pretendo correr atrás para saber… Só quero ela segura. Isso era o que minha mãe queria, e isso é o que eu quero. Ligue agora. Lhe peço, ligue para eles — Pisando sobre a superfície azulejada do chão, minha pele tremeu ao esbarrar com o ar frio que vinha dos meus próprios sentimentos.
— Oh minha querida — Linnea tocou-me no rosto, suave, com cuidado. Seus olhos voando por cima de meu ombro a cada segundo — Eu com certeza vou falar para eles, mas… Não acha que deveria passar por isso ao lado de sua irmã? — Meu primeiro pensamento ao ouvir essas palavras foi aceitar e chorar um “Sim” cheio de dor e curiosidade. Curiosidade para conhecer minha maninha. A minha única família. Mas depois o recordei-me do rosto bruto de Edgar, lembrei de sua mão pesada descendo de encontro com meu rosto, lembrei de seu cinto de couro preto rasgado minha pele.
Afastei-me de Linnea no pulo.
Não. Não era isso que eu queria para Michelle. Eu não era a mesma depois de ter ficando sob a agressão de Edgar, não podia nunca, e jamais, permitir que minha irmã visse em seus olhos o quão quebrada eu era.
— Jodie — Linnea tentou tocar-me.
Afastei-me novamente.
— Isso não pode acontecer. — falei, firme, forte, mas desesperada — Não posso estar com ela.
— E por que? — Amara ficou ao lado de Linnea, sua expressão já suave de novo — Por que não pode ir para sua irmã? Não acha que ela precisa de você? Não acha que ela tem o direito de te ver? Como pode ter coragem de esconder-se dela? — Senti um arrepio descer por minhas costas... como se uma faca de lâmina afiada estivesse sendo passada sobre a minha coluna
— A senhora acha que eu gosto disso? — raiva faiscou de meus olhos, ouvidos, e talvez até mesmo pelas narinas. Sentia-me a garota mais furiosa de todas — Eu não faço isso porque quero. Faço por ela! Todo o meu maldito esforço é por ela. O que acha que eu sou senhora? De ferro? — Meus olhos pinicaram com lágrimas e essas deslizaram por meu rosto, mas eu as a afastei com brutalidade. — Olha mim. Olha a porcaria que está o meu corpo, olha nos meus olhos e diga se essa aparência não é terrível. Acha mesmo que deixarei a minha irmã, minha única irmãzinha… me ver dessa forma? — Meus lábios se separaram e comecei a respirar pela boca quando meus olhos observaram os de Amara ceder, lentamente alagando e depois desviando. Funguei, e neguei com cabeça quando Linnea tentou uma aproximação.
Ela não compreendia, não sabia o quão nervosa estava.
— Sabe Amara… — esfreguei o nariz e os olhos — Se eu for ver Michelle, eu vou destruí-la. Por que é assim que estou — Dei de ombros desinteressadamente — Estou destruída. Quebrada. Edgar fez isso, e fico muito grata por ele não ter feito o mesmo com ela… Não quero ser aquela que leva o pesadelo para sua mente. Porque é isso que eu levo para pessoas, pesadelo e medo. Não posso fazer isso com ela.
— Não irá — sussurrou Amara, mas não me olhava diretamente. Ethan juntou-se a ela, abraçando-a e enfrentando meu o olhar.
— Amara está certa. Sua irmã entenderá… E você não é quebrada, filha. Está apenas machucada — Minhas inalações ficaram mais fortes e as exalações mais curtas à medida que andava ao redor do cômodo, senti um toque em meu ombro e vire-me.
Linnea me envolveu em seu abraço mais uma vez.
—Tenha calma criança. — Meus joelhos enfraqueceram e eu como uma pedra jogada na água parada, colidi contra a mulher que firmemente, me sustentou. Enterrando o rosto naquela superfície suave de seu pescoço, puxei-a para mim, sua fragrância era confortante, mas atiçava o que ela mais odiava. Atiçava suas emoções.
— Linnea — Não entendi nada, minha mente estava turva e os olhos tão embaçados. Doía… doía demais.
— Shhh. Estou aqui querida. — Ela me apertou, e isso desencadeou o tão famoso desespero. Aquela dor, eu sabia o que ela era, e sabia como curar, mas tinha tantos olhos. Ah, e aqueles braços eram tão protetores, tão bons.
O ruído falho saiu de minha boca involuntariamente, tentei refrear os outros, mas saiu, e quando não pude controlar, eu me entreguei totalmente. Fechei os olhos, e chorei.
Era uma coisa inútil fazer isso agora, mas era mais forte, e isso me fez apertar Linnea com toda a força que encontrava.
— Estou tão casada Linnea… Eu preciso disso… eu preciso — funguei, muitas vezes. A mulher esfregou minhas costas, querendo dar-me conforto, mas não podia. Meu coração estava ferido e precisava de força.
— Eu sei meu anjo, mas agora estou com você. Vou cuidar de tudo, prometo. — Ela sussurrou. Eu ergui os olhos para ela, demonstrando tanto medo que não achava possível um dia tê-lo sentido.
— Cuide dela Linnea. Não deixe que ele pegue ela — A dor não cessava quando fechava os olhos, eu tentava obrigar, mas não passava. Chacoalhei a cabeça querendo uma pequena libertação daquilo, querendo um pouco de paz. Foi quando meus olhos abriram e se prenderam na escrivaninha de Eloise.
A lamina do canivete suíço brilhava sob a luz da lua que invadia o quarto, era como se aquele brilho me indicasse a libertação. A solução para acabar com a dor. Minha respiração ficou entrecortada, e antes que eu pudesse pensar melhor ou antes que qualquer um se movesse, eu pulei na direção do canivete e agarrei como um porto seguro.
Linnea gritou. Amara e Ethan se assustaram ficando parados pela surpresa, mas se moveram no momento em que pulei contra a cama e enfiei o canivete no pulso.
— Não!
Eu pude sentir a queimação subir, meu corpo sendo agarrado por mãos fortes e o canivete arrancado de meus dedos. Fui deitada na cama enquanto sentia as gotas mancharem o edredom. Mãos me ergueram, mas dessa vez eu não me importei, ouvi as vozes exaltadas, mas ignorei apenas me concentrando em sentir o deslizar do liquido que corria por meu corpo inteiro. Contentei-me com a conhecida dorzinha aguda enquanto tudo ficava muito, muito calmo.
— O que está acontecendo… Jodie! — Novas mãos me tocaram, afastando quem quer que fosse. Fui erguida, mas minha atenção estava no teto, e meu fascínio no corte feito um pouco mais a baixo no braço — O que é isso? Mãe o que houve?
— Alguém me dê um pano, uma tira. Qualquer coisa! — Linnea gritava, suas mãos segurando o braço cortado. Continuei parada. Congelada.
Estava cansada, muito cansada.
Meus olhos foram fechando, e era aquela paz que eu queria, então permiti que ela me levasse.
— Jodie, ei… Fale comigo — O toque. Deus, aquele toque mexia tanto comigo. Pisquei para Liam, e franzi a testa ao ver o tamanho da aflição em seus lindos olhos azuis.
— Mude essa cara novato… — bocejei — Vo-você fica chato… preocupado — O trabalho em meu pulso terminou, mas a mão permaneceu me tocando enquanto meu corpo continuava sendo segurado pelos os braços de Liam.
Eu nem queria pensar em como aquela cena devia parecer melosa.
Suspirei, pronta para cair no sono. Liam arrastou o dedo por minha testa, afastando mexas de meu cabelo.
— Você não pode fazer isso doçura. — resmunguei, mexendo a cabeça de um lado para o outro em seu braço, sentindo seu peito contra minha bochecha.
— Se eu não… estivesse com tanto sono… te daria um soco — respirei fundo, permitindo meus olhos fecharem — Não me chame… de doçura. — Senti quando ele tocou em mim novamente e soube que estava sorrindo, mesmo que a preocupação arrepiasse os cabelos de minha nuca.
— Mas é o que você é — falou. Eu balancei a cabeça lentamente.
— Não. Eu sou bruta… feia e… sozinha — As lágrimas pingaram, mas algo quente as colheu, algo suave e… bom.
Os lábios de Liam estavam roçando meu rosto.
— Não mais Jodie. Não estará nunca mais sozinha. — Beijou minha testa — Nunca mais.
E assim, eu pude dormir tranquila, aconchegada no berço de seus braços.
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