Believe In Me
22 Capitulo 22 — Corajosa... Mas com medo
Notas iniciais
Acordei ofegante e suada no meio de varias cobertas, eu olhava para o teto para tentar me acalmar, respirei fundo e senti uma pontada na costela. Fiz um careta e olhei para baixo, passei a mão sobre uma atadura que circulava minha cintura, depois verificando os curativos nos braços e no pescoço.
Olhei para a roupa que vestia, e praguejei uma maldição. Aquilo era bizarramente minúsculo, um top da cor preta que cobria apenas meus seios. Fiz careta e tentei me levantar, mas não consegui por conta das dores que viam, soltei uma serie de xingamentos e procurei saber onde estava.
Pelas fotografias nas paredes, parecia ser a casa de Eloise, e eu continuava na sala deitada no colchão.
— Oh, você acordou — Virei a cabeça quando ouvi a voz de Eloise. Ela sorriu e se ajoelhou ao meu lado, e fiquei surpresa quando Stefany também apareceu em sua camisola rosa — Está melhor?
Fiz careta.
— Só um pouco dolorida.
— Jared disse que você bateu o quadril e agora ele vai ficar um pouco sensível — Explicou e foi ai que percebi a claridade vindo de uma janela ali perto.
— Que horas são? — perguntei. Stefany virou o rosto e olhou o relógio grudado na parede.
— São 10h20 da manhã — respondeu se sentando no chão com as pernas cursadas com a prima.
— Cadê todo mundo?
— Bem, eles tiveram que ir para as casas deles, nesse momento todos estão no colégio… Liam disse que vem direto para cá quando sair. Disse que daria uma desculpa a Maryse.
— E vocês, por que não foram? — Ambas sorriram amigáveis.
— Ficamos para cuidar de você, Jared passou vários remédios para dor que você precisa tomar, e além do mais, você não pode levantar ou vai sentir dores — bufei e virei os olhos
— Não preciso que cuidem de mim — Eloise riu.
— Sério, Jodie, essa não é hora de bancar a durona — falou e ficou de pé — Eu e Stefany ficamos ao seu lado a noite toda e vimos você chorando e chamando sua mãe enquanto dormia — Apertei os lábios e desviei o olhar dela — Não estou dizendo isso para você sentir raiva, e sim para pensar em abaixar um pouco a guarda. Somos nós Jodie, não iremos machucá-la, apenas ajudá-la — Ela sorriu — Bom, eu vou pegar seu remédio e o café da manhã, volto logo — falou e mandou um olhar sério a prima.
— Cuide dela. — Stefany sorriu.
— Pode deixar — E com isso a loira sumiu. — Não fique com raiva dela, ela está realmente preocupada com você — Stefany falou ao estarem sozinhas. Olhei para ela, e pisquei com uma tranquilidade tão desconhecida que pareceu assustadora.
— Não estou com raiva — falei sinceramente — Só preciso me acostumar com pessoas tentando me ajudar.
— Espero que você tenha sucesso com isso, pois não deixaremos que enfrente tudo sozinha. Estamos juntos nessa — Ela se inclinou e, surpreendentemente, me beijou na bochecha. Eu quis sorrir, mas estava rígida demais para isso.
— Vou ao quarto da Lizze me trocar e desço rapidinho — falou, e quando eu assenti, ela se foi.
Fiquei olhando para o teto pensando no que ela tinha me falado, pensando no sonho que tive com minha mãe, pensando em como Edgar estaria uma hora dessas comigo sumida. Eu não falei mais nada enquanto comia com Eloise e Stefany, elas apenas me ajudavam e eu consentia sem falar qualquer coisa. E por mais que eu quisesse, eu não sabia o que.
Quando acabei de comer Eloise foi se arrumar e Stef lavar a louça do café, o que me deixou sozinha com meus pensamentos. Eu estava odiando essa de ficar deitada sem fazer nada… Eu nunca tinha necessitado disso, eu podia me levantar.
Respirando fundo, fechei os olhos e me obriguei a ficar sentada, ignorei a dor e usei a mesa atrás de mim para apoiar minhas costas, logo Eloise apareceu correndo as escadas para baixo.
Agora ela usava um vestido florido e tinha o cabelo preso em um rabo de cavalo, nos pés usava uma sapatilha rosa.
— Jodie, como você sentou? — perguntou com testa franzida.
— Sentando, ora — falei normalmente.
Ela virou os olhos e saiu bufando para cozinha.
Sorri para mim mesmo ao pensar que Lizze ficaria louca cuidando de mim.
— Você quer alguma coisa marrentinha? — Ela perguntou ela reaparecendo na sala.
— Não, valeu — disse me ajeitando e depois fiz careta ou lembrar o que estava vestindo — Quem colocou isso em mim? — perguntei e ela sorriu.
— Eu e Harlow. Jared disse que se tivesse sem blusa seria melhor para não incomodar as feridas — Mordi o canto da boca.
— O que... disseram à ele sobre…— Levantei os braços — Isso? — Lizze me olhou tristemente.
—Tivemos que contar a verdade, desculpe — deixei minha cabeça bater na madeira da mesa e falei.
— Não importa mais… Acho que nunca mais vou por o pé na casa de Edgar — Pelo canto do olho, vi ela sorrir.
— Então onde vai ficar? — Arregalei os olhos assim que ela tocou nesse assunto.
— Merda, é verdade — murmurei e passei as mãos pelo rosto — Estou perdida.
— Ei, calma — Ela sentou no colchão comigo e segurou minha mão — Pode ficar aqui até encontrar outro lugar, meus pais não vão ligar — A olhei duvidosa.
— Como sabe que não vai? Eles nem me conheceram ainda.
— Isso porque eles estão viajando e só voltam mês que vem — Respirei mais aliviada e sorri.
— Obrigada — Apertei a mão dela — Você e os outros estão me ajudando muito — Lizze sorriu e vi seus olhos marejarem. Eu teria rido, mas nessa hora a porta da frente foi escancarada e Jonah entrou.
— E o motivo disso é que nós somos seus amigos marretinha — falou e deixou sua mochila no sofá.
Ri quando ele se jogou no colchão e deitou a cabeça nas pernas de Eloise.
— Está melhor princesa? — Rosnei.
— Princesa é tua mãe — Eles riram. Stefany saiu da coisinha bem na hora em que bufei e disse — Mas estou sim. Lizze e Stef cuidaram bem de mim por mais que não precise — Eloise virou os olhos e a prima sorriu, acenando para Jonah
Ele riu.
— Claro que elas cuidaram. E a minha gatinha aqui é perfeita em tudo — Gargalhei alto quando e vi Eloise corar.
— Ela está vermelha Jonah — falei ainda rindo.
— Jodie, cale essa boca — Ela mandou tacando uma almofada em mim. Jonah riu quando taquei de volta a certando bem na cara.
— Você é tão boba Lizze — Stefany sorria ao se sentar no sofá ao lado dela. Acabou por levar a almofada na cara também — Ei!
— OPA, É GUERRA? — Viramos o rosto para porta e sorrimos para Jack e Jimmy.
— Eloise estava corando por causa do Jonah.
— EU NÃO ESTOU! — Gargalhei de novo e Jonah me acompanhou.
— Ah, mas isso é normal — disse Jack sentando no chão, e eu já estava com dores de tanto rir só de ver Eloise escondendo o rosto.
— Oh, eu sei que ela me ama — disse Jonah com um sorrisinho convencido — Não é gatinha?
Eloise apertou os olhos para ele e depois empurrou-o para o chão.
— Continua sonhando, babaca — Ela se levantou e sentou no sofá ao lado de Jimmy e Stef, que estavam rindo da cara de Jonah.
— Não precisa usar a violência verbal e nem fisica — Jonah falou se levantando do chão e se sentando ao meu lado.
— E ai loirinha, está melhor? — perguntou Jack para mim, o rosto doce, mas cheio daquela mesma aflição de ontem.
— Estou sim, e devo dizer que não vou ficar nesse colchão por muito tempo — Eles sorriram.
— Isso é uma coisa boa, mas o que vai fazer com… seu pai? — perguntou Jimmy, e eu entrelacei os dedos nervosamente.
— Ainda não sei, mas acho que vou pedir a ajuda dos pais de Liam — Eles se entreolharam com brilho nos olhos, como se estivessem orgulhosos de mim.
— Isso é uma atitude maravilhosa, os pais de Liam são ótimos no que fazem — disse Eloise sorridente.
— Conhecem os pais dele? — perguntei curiosa.
— Na verdade, nós conhecemos a família toda de Liam — Corrigiu-me Jonah.
— Os pais deles são como nossos tios de verdade. São divertidos, chatos quando querem — Stef disse com carinho.
— Qual os nomes deles?
— Ethan e Amara Corey, e também tem os irmãos dele — Assenti em concordância.
— Sim, Liam me contou — falei e suspirei —Vocês acham que os pais dele podem me ajudar a por Edgar na cadeia?
— De fato eles podem! — A resposta veio da porta e o sorriso que de repente se formou em meu rosto foi estranho, contudo, algo muito grande para impedir de acontecer. Eu ainda lembrava-me como ele tinha entrado na minha casa e me tirado de lá para me ajudar, de como ele tinha ficado preocupado comigo e cuidado de mim.
Virei o rosto para porta e ele me sorriu grandemente, Harlow e seu irmão estavam logo atrás.
— Ah, Jodie, você está melhor? — Harlow perguntou correndo até mim e jogando a mochila em cima de Jimmy.
Ele resmungou e eu sorri.
— Estou sim. Já posso até levantar — pelo menos eu achava que podia.
— Vamos com calma moça — disse o irmão dela entrando no campo de minha visão com a mesma maleta que trouxe ontem — Vou primeiro ver seus ferimentos para poder dizer se pode ou não levantar — Virei os olhos e me deitei no colchão lentamente.
Olhei para atadura na minha cintura e fiz careta.
— Quanto tempo vou ficar com isso? — perguntei enquanto ele tirava os curativos do meu braço para olhar.
— Talvez uma semana — Arregalei os olhos.
— O que? Vou ficar com esse troço por uma semana inteira? — Ele riu um pouco.
— Não precisa de drama, é pouco tempo — bufei.
— Pouco tempo nada. Não posso ficar deitada em uma cama, tem ideia de como Edgar pode estar a essa hora, com o meu sumiço repentino? — Todos ficaram em silêncio e Jared parou o que estava fazendo para me olhar.
Sua expressão era indecifrável, mas ainda podia ver a mesma curiosidade que vi nos olhos de Liam na primeira vez que nos vimos.
— Você não tem que se preocupar com isso agora — falou finalmente e virou meu rosto gentilmente para ver o corte no meu pescoço enquanto fazia careta — E antes que me diga para ir embora, tem algumas coisas que precisa saber. Em primeiro lugar, não vou divulgar a sua localização a ninguém e não vou compartilhar nada que me diga ou qualquer coisa que eu descubra. Harlow me explicou sobre seu pai — Soava bem. Na teoria. Mas não queria homem em nenhum lugar perto mim com o que havia naquela maleta preta. Continuei em silêncio meio tensa, mas relaxei quando Liam sentou-se no chão do outro lado do colchão.
O doutor Jared continuou:
— Segundo, eu não sei absolutamente nada sobre você. Portanto, precisarei de um breve relato mais tarde, sobre quais são suas alergias ou se tem algum efeito inesperado com certos medicamentos. Irei examiná-la com o máximo de cuidado, prometo-lhe — Limpei a garganta e tentei travar os ombros, para que não tremesse tanto.
— Eu não quero ser examinada.
— Isso foi o que Harlow falou que você poderia dizer. Mas você já passou por um trauma...
— Passei por muito mais — Sentia a resposta emocional de Liam vindo do canto de onde ele estava, mas não tinha energia para descobrir os detalhes do que estava sentindo. — E eu estou bem...
— Então deveria encarar isso como uma simples formalidade.
— Eu pareço com alguém que é formal?
O olhar escuro do doutor se estreitou.
— Você parece com alguém que foi espancada. Que não se alimentou de maneira adequada. E que não dormiu. A não ser que queira me dizer que esse machucado roxo em seu ombro é maquiagem. Ou que essas bolsas debaixo dos seus olhos são uma miragem.
Droga.
Estava bem familiarizada com pessoas que não aceitavam “não” como resposta... pelo amor de Deus, eu era uma delas! E considerando aquele tom rígido e equilibrado, estava muito claro que o doutor iria fazer as coisas do jeito dele ou não iria embora. Nunca.
— Maldição.
— Para sua informação, quanto mais cedo começarmos, mais cedo termina — virei os olhos.
— Fácil para você falar.
Ele sorriu para mim amigável.
— Sinto muito por tudo isso — O medico disse sem me olhar diretamente.
— Não precisa sentir — falei sinceramente — Acho que falar sobre isso é meio estranho para mim. Eu nunca disse a ninguém o que se passava na minha casa — contorci o meu rosto ao sentir uma pontada de dor na coluna ao levantá-la — Isso até um garoto idiota dar uma de macho alfa e me enfrentar — Todos riram inclusive Liam.
— Sabe como é — Ele começou e piscou um olho para mim — Eu adoro um desafio.
Sorri maliciosamente.
— Não. Você gosta de me provocar e levar porrada depois — corrigi fazendo-o rir novamente — Mas isso não quer dizer que eu não goste de te socar.
Ele rolou os olhos, mas sua expressão era divertida.
— Ah claro, isso nunca passou pela minha cabeça — disse irônico.
— Isso só confirma o quão você é sem noção — falei, adorando provocá-lo, mas ele não estava cedendo tão fácil como muitos fariam.
— Eu sei que você me adora, Jodie — Ri um pouco.
— Não se iluda novato.
— Não sou iludido, apenas sincero.
— Um idiota.
— E você adora esse idiota — Não pude evitar corar quando os outros riram, rosnei raivosa e olhei para Jared, ele tentou esconder o sorriso, mas foi em vão.
— Por acaso você tem alguma seringa com sedativo bem pesado dentro dessa sua maleta? — perguntei calmamente. Ele franziu a testa.
— Por que? — perguntou relutante. Mordi o canto da boca com uma expressão maldosa no rosto.
— Quero botar esse infeliz aqui pra dormir — falei me referindo a Liam. Jared sorriu.
— Acho que não é sensato eu te dar algo parecido — falou enquanto passando uma coisa verde nos meus braços.
— Eu duvido que ele se importe, não é Liam? — voltei a olhar o garoto do meu lado.
Ele estalou a língua e se aproximou do meu rosto. Me empurrei para trás um pouco arregalando os olhos. O que ele estava fazendo?
— Isso depende… Vai me acorda com um beijo? — E isso fez todos explodirem em gargalhadas, e eu?
Bom, eu não sei como, mas eu empurrei o doutor para longe, peguei a gola da camisa de Liam e o troquei de lugar comigo. Ele ficou deitado no colchão e eu em cima de seu abdome com o rosto centímetros de distancia do seu. Ele respirava depressa e seu rosto estava malditamente confuso enquanto eu apertava sua gola e encarava seus olhos azuis, eu ainda ouvia risinhos dos outros, mas não dei atenção, apenas me abaixei para mais perto de Liam, que aos poucos foi curvando os lábios em um sorriso malicioso.
— Se você não parar de me provocar do jeito que anda fazendo — sussurrei ameaçadoramente — Vai acabar perdendo a língua. E acho que eu faço questão de cortá-la fora com uma faca bem afiada — E ele continuava sorrindo.
— Acho que vou correr esse risco. Se te provocar vai fazer com que me ataque desse jeito — Deu de ombros — Prometo provocá-la todo dia.
— Ai meu Deus, a loirinha está sendo paquerada — Eu não acreditei que tinha sido mesmo o Jack que começou a provocar. Virei os olhos para ele, pasma para tal mudança. Dias atrás ele estava se atracando com Liam por minha causa, agora, estava sentado no sofá, um braço em volta dos ombros de Stef e sorrindo divertido para situação que eu me encontrava.
Eu quis socá-lo muito. Com certeza ele sentiu isso, pois se encolheu e disse.
— Foi mal marretinha.
Voltei minha atenção para Liam e me surpreendi quando senti uma mão dele na minha perna. Eu corei, puta que pariu! Eu realmente corei de novo por culpa dele! Mas o que eu não sabia era que eu não estava usando o moletom de ontem a noite.
Fiz careta e me ergui olhando para o pequeno — quase uma calcinha — shorts preto.
— MAS QUE PORRA DE ROUPA É ESSA? — Berrei saltado de cima de Liam e fazendo um esforço para ficar de pé.
Os meninos riram enquanto as meninas se escondiam.
— Desculpe Jodie, mas Jared disse para vestir você com pouca roupa — disse Harlow.
Jared, que antes estava sorrindo, agora estava corando.
— É melhor para você melhorar — disse envergonhado.
Olhei para mim mesma odiando ter minha pele amostra, minhas pernas totalmente roxas por conta das surras me fez fechar os olhos e cerrar a mão em punho.
— Tudo bem, Jodie? — Liam perguntou quando eu fiquei em silêncio.
Abri os olhos novamente e passei os dedos sobre os nomes da minha mãe e irmã. Esquecendo-me da dor, comecei a andar de um lado para o outro olhando meus braços, ou melhor, olhando as feridas deles.
— Não precisa se preocupar com isso Jodie — Liam falou outra vez.
Parei de andar para encara-lo.
— Se preocupar com que Liam? Pode me falar? — Ele engoliu em seco olhando meu corpo. Grunhi em desgosto.
— Fala serio Liam… Nunca vou voltar a ser o que era antes — Olhei para mim mesmo — Nunca vou ser bonita de verdade… E agora todos sabem como eu sou e sabem minha vida inteira, e isso só me faz ter mais vergonha de mim mesma — Eu não esperei para ouvir a opinião deles, ao invés disso eu peguei minha mochila do sofá e me virei para Eloise — Posso tomar um banho?
— Consegue se virar sozinha? — perguntou protetoramente. Assenti — Usa o banheiro daqui de baixo, siga o corredor e vire a direita.
— Isso não é uma boa ideia — Jared se prontificou, colocando-se de pé — Você está fraca, e não vai conseguir ficar tantas horas de pé. Precisa de ajuda para lavar-se e...
— Não — O interrompi — Vou tomar meu banho sozinha. Mas obrigada pela preocupação doutor.
— Jodie... — Ignorei o apelo de Liam e segui para o banheiro que Lizze indicou.
Ele não era igual o de Linnea, esse não tinha aquela bela banheira, mas ainda sim, era bonito e melhor que o meu. Todos os detalhes em branco e cinza.
Não querendo demora, comecei a tirar as minhas peças de roupas, o que levou muito tempo, pois a cada movimento que fazia era uma nova dor. Antes de entrar no chuveiro, tirei a atadura que estava em volta da minha cintura mesmo sabendo que Jared tinha dito para não tirá-la, e também me livrei das que estavam em meus braços e pescoço.
Eu amaldiçoei Edgar varias vez ao ver o corte horrível que estava em minha cintura, Jared havia dado alguns pontos que o deixava fechado, mas de qualquer forma, eu apertei os olhos com raiva, queimando em ódio.
Mas depois pensei que nunca mais ele encostaria em mim e relaxei. Entrei no chuveiro, as feridas arderam um pouco, mas consegui me banhar mesmo com dificuldade.
No final eu estava com o cabelo preso em um coque frouxo e nas minhas roupas normais — Blusa, jaqueta de couro e calça jeans preta — e estava respirando rápido por conta do esforço que eu fiz para me mover. Abri a porta do banheiro e sai com uma mão na parede e outra sobre a barriga, amaldiçoando a cada passo.
Aquilo tudo era uma grande merda e estava aponto de solta um grito de raiva quando eu tropecei em um tapete e me atrapalhei com os pés, a queda até o chão me trouxe mais dores na mesma hora.
Mordi os lábios tentando me erguer, mas quando empurrei meu corpo para cima senti os pontos em minha cintura se abrir de uma só vez.
— Droga — praguejei com as mãos sobre a ferida e me contorcendo de dor.
Eu não gritara ninguém, era muito orgulhosa para isso, mas mesmo assim… Se eu ficasse aqui perdendo sangue iria perder a consciência e seria mil vezes pior.
Bufando eu respirei fundo e me deitei no chão procurando por uma posição que não me fizesse sentir dor, quando estava me sentindo pelo menos um pouco melhor, ergui a cabeça e chamei por Jared, aumentando minha voz até que tivesse certeza de que alguém podia escutar.
Os passos apreçados vieram logo depois, mas o primeiro a chegar até mim foi Liam.
— Eu não acredito!— Ele se ajoelhou ao meu lado parecendo estar nervoso — Não tem como você parar quieta e descansar?! — Sorri de provocação.
— Sei que você gosta da minha teimosia — Por mais que ele tivesse nervoso, notei um sorriso querendo se formar, mas logo Jared estava ao meu lado com expressão séria.
— Eu sabia que aconteceria algo parecido — Ele resmungava ao se abaixar do meu lado com uma carranca — Você devia escutar quando falo que precisa de ajuda — brigou ele, e levantou minhas blusas — Você tirou a atadura?! Está tentando se matar menina? — Esbravejou.
Oh maravilha, agora vou levar sermão do irmão mais velho de uma amiga. Achei isso ótimo.
— Você é impossível, Jodie — Ouvi Jimmy censurar assim como os outros.
Eu não falei nada, apenas ouvi. Era uma perda de tempo discutir.
— Eu vou ter que sedá-la — Jared disse — Preciso refazer os pontos — franzi a testa.
— Não preciso, eu aguento a dor — Ele me olhou totalmente assombrado.
— Eu nunca vou fazer isso sem sedá-la primeiro, não seja maluca — Eu tive que rir disso, mas depois fiz uma careta de dor.
— Acho que Harlow não te contou sobre… O meu outro segredo — Adivinhei e Jared olhou para mim confuso e depois para Liam, esse abaixou os olhos para meu pulso e levantou a manga.
— Ela se corta, Jared — Contou tristemente. O medico me olhou horrorizado.
— Você precisa mesmo de ajuda garota — murmurou preocupado, mas eu sorri despreocupada.
— Já passei por muita coisa doutor. Apanhei muito. Essas surras me fizeram parar de sentir a dor corporal e começar a sentir a dor espiritual… Aquela que eu carrego no peito desde que vi minha mãe sendo surrada pelo meu próprio pai, aquele que devia me amar incondicionalmente e que deveria me proteger — Os olhos de Jared transmitiram pena e compreensão enquanto eu falava — Eu perdi minha mãe e minha irmã, estou sozinha para começar uma batalha perante Edgar, de frente para o cara que eu odiei mais que minha própria vida… Alguns furinhos de agulha é pouca coisa para comparar com o que passei naquela casa. E por isso eu peço, não como uma louca, mas sim como uma garota que precisa disso mais que tudo — Engoli em seco e levantei mais a blusa — Pode costurar, sem sedativo… Eu preciso sentir essa dor, e saiba que se não fizer o senhor, eu mesmo faço.
Jared e os outros pareciam assombrados com minha atitude, e o doutor parecia que ia fazer algo de outro mundo, pois estava engolindo em seco muitas vezes.
Suspirei quando vi ele mexer em sua maleta.
— Jo-Jodie, você não pode fazer isso — Liam falou gaguejando e segurou minha mão— Deixe que ele lhe de o sedativo.
Apertei a mão de Liam e olhei nos olhos.
— Obrigada por me ajudar ontem — Foi o que consegui falar, e pareceu surpreende-lo — Acho que você salvou-me de levar mais cintadas aquela noite — Liam encostou a testa em minha mão.
— Eu queria ter te salvado antes de tudo isso acontecer — sorri fraca, aproveitando sua proximidade.
— Você já está fazendo o bastante, novato — censurei com a voz risonha, mas ele não riu — Vamos Liam, pare com isso.
Ele balançou a cabeça, emburrado.
— Não, isso é loucura! Era para você estar se sentindo melhor, se cuidando — Assim que ele falou isso eu lembrei, sorri para ele.
— Quer me fazer sentir bem? — Ele me olhou esperançoso e assentiu — Me dá as minhas fotos — Liam murchou e seus ombros caíram, aquele brilho de esperança se esvaiu, escorregando até o chão lentamente.
— Stef? — Ele chamou sem desviar o olhar de mim. A prima de Lizze apareceu com rapidez e apertando as mãos nervosamente.
— Estou aqui.
— Pegue a bolsa de Jodie no banheiro, por favor — A garota assentiu, e correu para o lugar de onde eu havia saído, ao voltar, carregava minha mochila.
Liam pegou, mas antes de abri-la, eu a peguei, forçando os braços fracos a se moverem na intenção de recuperar minha única família. Eu as peguei e apertei contra meu peito, sentindo o alivio de tê-las de volta.
— Pronta? — Jared perguntou hesitante.
Não.
— Sim — confirmei de olhos fechados, e logo depois eu senti a ponta da agulha atravessar a minha pele.
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