Bela Morta
13 Capítulo 12
Bruno podia não ser o homem mais feliz do mundo, mas com certeza, ele podia competir com ele no quesito felicidade. Ele já tinha a plena consciência de que estava se tornando um completo idiota, mais especificamente um completo idiota apaixonado.
No dia seguinte a sua ida com Ana no shopping, Bruno chegou com sorriso gigante, que quem o visse no corredor poderia afirmar sem medo ali estava um homem apaixonado.
O rapaz entrou na sua sala cantarolando uma música romântica qualquer do início dos anos 2000, e só parou quando escutou a risada alta e exagerada do melhor amigo que chegava logo atrás dele na sala.
— Pode ri! Porque hoje nem você vai conseguir me tirar do sério. — respondeu a Tiago antes que ele pudesse fazer qualquer comentário.
— Parece que alguém obteve avanços com a garota esquisita! O que ela fez? Sorriu? — seu tom era brincalhão, mas o interesse era sincero.
— Não, ainda não. Eu sei que isso tudo parece loucura e acho que não sei ao certo o que estou fazendo, mas estar com ela me faz bem, conseguir extrair pequenas reações dela me levam ao êxtase. — assumiu jogando suas coisas sobre a mesa e largando o corpo sobre a cadeira.
— Eu nunca te vi apaixonado dessa maneira, é surreal… você parece outra pessoa. — Tiago estava realmente surpreso.
— Eu também acho.
— Mas mesmo achando fantástico esse seu novo jeito idiota, você está proibido de pensar em Ana hoje e amanhã. — falou firme e sério como raras vezes era.
— Por que isso? — ele estava surpreso.
— Temos trabalho a fazer. Mesmo Ana te fazendo feliz sem explicação alguma, ela também te desestabiliza e precisamos trabalhar muito. Amanhã temos outra reunião com Fábio e semana que vem receberemos os estagiários.
— Você está certo! Nada de Ana. — respondeu convencido, mas incerto se seria capaz.
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Bruno passou quinta e sexta sem ver ou falar com Ana, apenas um e-mail com assunto de trabalho, mas que no corpo da mensagem aproveitou para insinuar que estava com saudades. Tirando o e-mail mais nenhum contato com Ana e isso parecia matar um pouco Bruno por dentro.
Tiago tentou convencer o amigo de que ficar alguns dias longe de Ana poderia ser bom para a possível relação dos dois, ele cogitou a ideia de que a bela morta pudesse sentir falta do amigo, porém Bruno sabia bem que saudades era um sentimento e Ana não possuía sentimentos.
No sábado Bruno aproveitou a manhã e tarde para arrumar e limpar a casa, aproveitou lavou algumas roupas e resolveu comprar uma comida decente no lugar se entupir de mais congelados.
Por volta das 17 horas o rapaz encerrou seu dia de dono de casa e foi se arrumar para festa infantil, tomou um bom banho vestiu uma roupa confortável e foi pegar o presente que havia comprado com o auxílio de Ana.
Assim que as mãos Bruno tocaram o urso de pelúcia seu coração se apertou de saudades, uma saudade que ele nunca tinha experimentado, doía fundo, era forte, esmagador, surpreendente, por alguns segundos poderia lhe faltar o ar. O rapaz pensou imediatamente que estava doente, porém logo concluiu que realmente estava doente, mas sua doença tinha nome, Ana.
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Ana Luiza, esse era o nome da filha de Felipe. Bruno não podia acreditar na ironia do destino. Ele estava certo em pensar que ao chegar na festa descobriria o nome da criança, havia painel, enfeiteis e até o bolo marcado com o nome composto, porém era óbvio que Bruno só conseguia enxergar o primeiro nome e isso só fazia o seu coração aperta mais de saudades.
— Vejo que também não sabia o nome da garota. — Tiago comentou ao se aproximar do amigo junto com uma moça negra de cabelos volumosos.
— Realmente, isso foi uma surpresa. — respondeu sentido a garganta seca e voltando a atenção para o amigo.
— Lembra dela? Ela estava no meu penúltimo aniversário. — questionou indicando a moça ao seu lado.
Era óbvio que Bruno não lembrava, Tiago já havia apresentado diversas companhias femininas para ele, nem uma pessoa com uma memória fotográfica impecável lembraria de tantas mulheres. E o fato dela ter estado no aniversário de Tiago não ajudava muito, a festa havia sido em uma boate cheia de gente conhecida e desconhecida, com luzes que davam dor de cabeça e um barulho infernal, Bruno não havia suportado nem 30 minutos inteiros na festa, seria impossível lembrar da moça.
— Claro que não lembra. — Tiago concluiu achando graça.
— Eu sou a Melissa e você deve ser o Bruno. — a moça sorriu simpática estendendo a mão para o rapaz.
— Você está certa e é um prazer te conhecer. — Bruno respondeu apertando a mão de Melissa.
— Vamos procurar um lugar para sentar? — Tiago sugeriu tomando a mão de Melissa.
— Sim, só preciso entregar o presente da Ana Luiza. — informou mostrando o ursinho.
— Bem lembrado! O Tiago podia ir achando uma mesa para gente, enquanto entregamos os presentes para a Ana Luiza. — Melissa sugeriu.
— Isso vão indo lá. — o rapaz concordou soltando a mão da moça e indo atrás de uma mesa para os três.
— O que você viu nele? — Bruno foi direto fazendo Melissa ri.
Ele já tinha feito essa pergunta outras vezes, para outras moças e em outras situações, e as respostas sempre eram as mesmas, ficavam caladas e sem graças, ou respondiam algo como ele é fofo e bonito.
— Nada de especial… talvez os mesmos problemas comportamentais que os meus. — aquele não era uma resposta como as outras.
— Tipo não conseguir manter um relacionamento e ter a necessidade inexplicável de aparecer com uma companhia do sexo oposto? — ele não estava acreditando na pergunta que estava fazendo, mas ele também não acreditava na resposta que tinha acabado de receber.
— Tipo isso. — respondeu sincera com um sorriso bonito.
— Isso foi surpreendente. — confessou.
— Uma das minhas qualidades. — respondeu de uma forma engraçada.
— Olá, Bruno! Que bom que você veio! — Renata esposa de Felipe falou animada ao ver o rapaz.
— É bom te ver também.
— E essa moça bonita quem é? — perguntou voltando a atenção para Melissa.
— Essa é a Melissa, uma amiga do Tiago. — pelo tom de Bruno, Renata já havia entendido perfeitamente.
— É um prazer te conhecer! Fiquem à vontade. — recomendou como uma boa anfitriã.
— Pode deixar! E cadê a Ana Luíza? Preciso entregar o presente dela. — o rapaz falou buscando a criança com o olhar pelo salão.
— Ela acabou dormindo, mas já acordou e a minha mãe está arrumando ela. Podem deixar os presentes comigo se quiserem.
— Claro. — ambos concordaram entregando os presentes a Renata.
— Obrigada! Daqui a pouco a Ana Luiza vem agradecer vocês. — falou se afastando com presentes na mão.
— Tiago já achou uma mesa. — Melissa informou indicando o “amigo” que estava a pouquíssimos metros dali.
Bruno e Melissa se deram bem logo de cara, ele percebeu que ela era muito diferente de todas as outras moças com que Tiago havia saído, as demais sempre tinha a esperança tola de que entrariam em um relacionamento sério com o mulherengo, mas Melissa parecia ter o mesmo objetivo de Tiago, o mesmo objetivo que Bruno era incapaz de entender mesmo se esforçando muito.
O jovem que sempre tivera o controle da sua vida, sempre foi um cara romântico e fiel a crença do amor, para ele era estranho as pessoas estarem juntas sem algum sentimento real e com expectativas de crescimento. Ele nunca havia entendido o jeito de Tiago, e depois que Ana entrou na sua vida, Bruno começava a não entender o porquê de ter se relacionado com outras mulheres um dia.
Melissa falava algo engraçado sobre uma situação que havia acontecido com ela, mas Bruno não prestava mais atenção, seus olhos tinham pousado sobre o painel atrás da mesa do bolo e doces, o nome impresso em rosa grande, chamativo, quase brilhante, era tudo o que ele via, o curioso era que havia dois nomes, porém Bruno só via um.
— Desculpa por não ter vindo antes falar com vocês, mas sabe como é festa de criança. — Felipe falou ofegante puxando a única cadeira livre da mesa e se sentando.
— Sem problemas, a gente entende e está tudo maravilhoso. — Tiago respondeu.
— Que bom. Ah, obrigado pelos presentes! A Ana adorou, principalmente o ursinho, tá agarrada com ele até agora. — informou apontando para menininha com cabelos negros que apertava o urso contra seu corpo pequeno.
Bruno prendeu a respiração ao observar a criança e uma coisa louca passou por sua cabeça. Os cabelos de Ana Luiza eram muito similares aos de sua Ana e a forma como a menina segurava o urso também lembrava a Ana, mas seu olhar era vivo cheio de alegria e admiração por tudo ao seu redor. Bruno não podia se impedir de pensar em como seria se ele e Ana tivessem um filho.
— Bruno! — Felipe chamou ao perceber que o amigo tinha viajado para longe.
— Não liga não, Felipe. O Bruno só estava pensando na moça que o ajudou a comprar o ursinho da sua filha. — Tiago provocou sorrindo.
— Quem seria essa moça?
— Eu também quero saber. — Melissa apoiou.
— O nome dela Ana e não sente nada por mim. — respondeu rindo sem humor.
— Isso é ruim. Mas é algo meio friendzone? — a moça perguntou interessada.
— Não, é tipo ela parece um robô de carne e osso. Ela não demonstra nenhum tipo de emoção, é como se ela não as sentisse. — desabafou sem saber que precisava.
— Alexitimia. — Melissa soltou como se aquela palavra fosse a resposta para tudo.
— Eu tenho um primo que teve isso. — Felipe comentou como se concordasse com a conclusão de Melissa.
— E o que é isso? — Tiago fez a pergunta que o melhor amigo queria fazer.
— É o nome dado a inabilidade ou incapacidade de identificar, demonstrar e descrever emoções. Normalmente isso pode ser encontrado em algumas pessoas com autismo ou que sofreram um grande trauma. — a moça explicou.
— Eu não sou nenhum especialista, mas não acredito que Ana seja autista. — Bruno respondeu mais para si do que para os outros, enquanto trabalha a informação em sua mente.
— Meu primo melhorou muito depois que começou a ir no psicólogo e depois que a minha tia começo a reeducá-lo emocionalmente. Ele começou a ter isso depois do assassinato do pai dele.
— Reeducá-lo emocionalmente? — não era preciso dizer que Bruno estava disposto a isso.
— É, não a uma fórmula secreta para curar isso, mas depois de identificar as causas do problema algumas medidas podem ser tomadas.
Nada na festa fez mais sentido para Bruno depois da informação mais que valiosa que tinha acabado de receber. Era óbvio que o rapaz faria o possível e impossível para ensinar a Ana ter emoções. O problema era: O que tinha causado isso na bela morta? Essa era uma questão que Bruno resolveria enquanto começava seu processo de educação emocional com Ana.
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