Being Teens
1 Roda, bebe e faz
Notas iniciais
Julia [narrando]
Era fim de fevereiro e havia cheiro de grama molhada no ar. Papai e eu estávamos arrumando as coisas no sótão de casa e mamãe estava na cozinha, preparando nosso delicioso almoço. Foi então que faltou um ingrediente! Um molho; um maldito molho de tomate.
E lá foi o homem da casa pegar o carro. Me ofereci para ir junto, mas o mesmo disse que não era necessário pois voltaria logo... Mas nunca voltou.
Não demorou muito pra que soubéssemos o porquê. Recebemos uma ligação, e era da polícia. Eu não entendia o que estava acontecendo; ou não queria entender. Passei então o telefone para minha mãe, denominada Kate. Eu a olhava. Sua expressão logo mudou; estava com os olhos fixados ao chão, suas bochechas perderam a cor e sua boca, antes tão rosada, já se tornara acinzentada. A mão na testa mostrava-me tamanho pavor.
Quando desligou o telefone, a mesma deslizou pela parede até se sentar no chão. Em prantos, começou a chorar e dizer "me desculpe filha".
Lembro-me que foram dias e noites chorando e lamentando. Mágoas entaladas na garganta e eu, toda ingênua, perguntava o porquê de papai demorava daquela maneira. Os anos se passaram e foi então que entendi que, nunca mais o veria.
Mamãe se tornou fraca, e eu, fria. Vi que a vida nunca é como se planeja na infância. Pessoas morrem, e não importa se você foi bom ou ruim. Você se decepciona e fim.
Como sempre, somos cobrados a seguir em frente. Ou então, nos chamam de covardes! Grande bosta.
Eu agora tenho 16 anos. Todas as manhãs eu tenho de ir à escola, e acredite, é a melhor parte do dia. Pelo menos eu não preciso ficar presa em casa cuidando da minha mãe, ouvindo a mesma repetir de três em três minutos: "é minha culpa".
Era uma segunda-feira chuvosa. Chegando no colégio, avistei meu grupo de amigos. Estavam sentados em círculo, no chão e rindo muito alto.
– Oi gente. Hora da aula!
– Olha só! Nosso pequeno alarme chegou. — Ash sorriu.
– Tonto! — Respondi, e como de praxe, nos abraçamos. Todos riram.
Nós então entramos. Eu, Margot e Ashton tínhamos aula de biologia agora; minha matéria favorita! Demos então os braços e fomos em direção à sala 7. Professora Agnes já se encontrava em sua cadeira, sentada e olhando todos que entravam no local.
Nos acomodamos e pegamos nosso material. Confesso que a partir de então, eu só reparei na janela. Estava meio embaçado, mas eu conseguia ver as nuvens nubladas lá fora. Garoava e eu podia sentir um cheiro... Aquele cheiro. O cheiro de mato umedecido! Lembrei-me de papai. Senti meu peito apertado e uma falta de ar tomou conta de mim. A vontade de chorar era grande, então foi o que aconteceu. Senti as gotas escorrendo diante de meu rosto, então desviei o olhar.
Ash, que sentou-se ao meu lado, me olhou com uma feição preocupada. Enxuguei os olhos, arrumei meu cabelo e dei-lhe um sorriso; "está tudo bem".
Eu não me abria com meus amigos; nem mesmo com os melhores. Meus pensamentos me torturavam mais a cada dia e tudo que eu fazia era permanecer calada. Saímos da aula e então encontramos Kaue e Margot.
– Nossa, o que houve? — Perguntou o sem noção do Kaue.
Todos se calaram. Talvez não quisessem se intrometer, ou me incomodar; só sei que ficou por isso, e então continuamos andando. Eu sei que eles se preocupavam comigo, e talvez seja isso que me manteve "bem" até agora.
Logo as férias tomariam conta de nossos dias. Estávamos combinando passeios para que aquilo de "ficar em casa com tédio" não acontecesse.
– Podíamos ir à casa de meu pai! É uns 174km daqui. — Charlie se animou.
– Mas vai estar muito frio lá! É perto da colina! — Margot reclamou.
– E por acaso você não tem blusa de frio e cobertor criatura?! — Retrucou Charlie.
– Ele está certo. Além do mais, a casa tem vários aquecedores!
– Está feito! A viagem vai rolar. — Ash exclamou.
Nessa noite, o pessoal iria dormir em casa. Não era por vontade minha, só para saberem. Fui muito ameaçada e chantageada pelos mesmos.
Arrumei a casa toda depois da escola. Fui ao mercado comprar guloseimas gordurosas e cheias de açúcar. Só havia uma coisa que eu havia esquecido, e não podia ser comprado; autorização de Kate.
Fui ao seu quarto e não a encontrei na cama. Pude ouvir o chuveiro ligado; estava tomando banho. Aquele cômodo era cinza, com flores quase mortas num único vaso que havia lá. Nunca tinha suas janelas abertas. Um tanto quanto melancólico!
– Filha?! O que faz aqui? — Disse, saindo do banheiro.
– Então mãe, é que eu acabei convidando a turma pra vir aqui mas, esqueci de perguntar se pode. Então...?
– Bem, estou esperando pedir.
– Mas eu já...
– Tecnicamente, ainda não perguntou.
– Mãe! — Rimos. — Eles podem vir?
– Claro que sim. Você nunca traz todos aqui. A única que vem é sempre a Anne. Desse jeito me faz pensar que só tem ela como amiga... — Disse, enquanto se deitava.
A voz rouca de minha mãe me fazia sentir mal. Via como estava fraca e precisando de ajuda. Eu estava saindo do quarto, mas antes parei e a olhei.
– Mãe...
– Sim?
– Tem certeza?
Mamãe suspirou com um ar de decepção. Fechou os olhos e disse:
– Tenho!
Saí do recinto e fui ao meu quarto. Minhas lágrimas caíam sem parar pensando em sua resposta. Será que um dia ela mudaria de ideia?! Coloquei as mãos sobre o rosto. Eu estava quente, pelando. Me acalmei e comecei a pensar nos últimos meses da minha vida.
Eu ia a escola, como uma jovem normal... Até que descobri; minha mãe havia sido diagnosticada com câncer cerebral, muito grave e sem salvação. Isso gerou-me medo, além de discussões entre nós. Como ela pode esconder de mim, a única pessoa que lhe restou, sobre ela estar morrendo?
Depois de muito tempo eu a entendi. Ela não queria me preocupar. Conversamos muito sobre o assunto e tudo se acalmou em casa. Só havia um problema... Ela não queria ser levada ao hospital, pra no mínimo se sentir melhor com as dores que estava tendo.
Me lembro de sua frase, que todas as noites acaba por ecoar em minha mente. "Vou morrer ao seu lado filha, pois foi você que me mostrou o que é viver".
Mais uma vez, começo a chorar e me abraço ao travesseiro. Já encharcado, o solto e puxo o ar aos meus pulmões. A campainha toca, e quando abro a porta, lá está Ash e Charlie.
– Oi meninos. Entrem.
– Claro né?! Acho que não nos convidaria para nos deixar do lado de fora. — Ash retrucou.
Charlie e eu rimos. Entraram e então nos acomodamos perto da lareira; o frio já chegara.
Um pouco mais tarde, Margot enviou uma mensagem dizendo que não poderia ir. O motivo? Ninguém sabe. Kaue não foi mas pelo menos explicou que foi pela morte de sua avó. Pobrezinha.
Anne chegou três horas atrasada da hora que marcamos nos encontrar e acabou perdendo a janta: macarronada a la Juliá. Mesmo assim, não a deixei passar fome.
Já passava das 04:23 da manhã; estávamos em meu quarto, e decidimos então agitar a conversa.
– Vamos fazer o "roda, toma e faz"? — Charlie deu a ideia.
– Não acho uma boa ideia... — Anne falou.
– Ah, vamos galera! Não brincamos disso desde os nossos 11 anos de idade!
Todos nos olhamos. Já sabíamos como funcionava, então consequentemente, sabíamos que daria merda!
Era festa da Bruna, uma menina que estudava na minha sala e que, por coincidência, nos juntou numa festa. Tudo estava um tremendo tédio, até que Charlie soltou na roda: "roda, toma e faz"?; assim como hoje.
Vou explicar. É assim; há dez primeiras rodadas, e nessas rodadas todos, TODOS, tem que beber um copo do líquido escolhido. A partir de então, as rodadas se tornam um tipo de desafio e MAIS a bebida. Uma garrafa gira no meio; um lado dela é pra pessoa que vai escolher o desafio, e o outro lado é a pessoa que vai ter de fazer o tal desafio.
Obviamente que na época, o líquido era refrigerante e a inocência reinava na turminha. O que provavelmente não aconteceria desta vez.
Lembro-me muito bem de Kaue e Ash nesta festa. Eles caíram juntos, e quem se "fodeu" foi Kaue. Ashton o desafiou a beijar o ROSTO de Anne, que não ficou nem um pouco feliz com a escolha, então passou a bola pra Margot. Realmente, aconteceu.
Talvez uma paixonite tenha surgido aí; não sei. O bom foi que, esta brincadeira um tanto quanto estúpida foi o motivo de nos conhecermos.
Relembramos no quarto como jogava aquela maldita coisa. Anne já recusava com a cabeça; provavelmente lembrando da boca de Kaue aproximando dela.
Por fim, com muita persistência à Anne, todos concordamos em fazer. Fui pegar os refrigerantes, mas como queriam esquentar, pensei no literal da coisa. Agarrei uma garrafa de vodca que estava apenas começada e guardada desde o ano novo de quando eu tinha 14. Fui em direção ao grupo, onde permaneceram sentados em seus colchões, localizados em toda parte do chão de meu quarto.
– Como está frio... Trouxe isto! — Falei, mostrando-os a bebida.
– Nossa! Não imaginaria 'isto' vindo de você. O que houve com a Julia santa e pura? — Ash satirizou. Demos gargalhadas.
Mamãe já devia estar em seu décimo quinto sonho agora, mas preferimos trancar a porta. Colocamos uma música baixinha e nos posicionamos em roda. Como de costume, fizemos as dez primeiras rodadas.
Iriam começar então os desafios. Música de suspense por favor! Estávamos todos nervosos, afinal, não éramos mais tão inocentes e aquilo não era refrigerante, que por mais que bebêssemos, apenas ficaríamos cheio de energia devido à explosão de açúcar.
– First round! Charlie desafia Anne! — Ash ressaltou.
– Hm...
– Lá vem! — Anne exclamou.
– Já sei! — Gritou Charlie.
– FODEU! — Anne gritou mais alto.
– Desafio a tirar a blusa! E se quiser, o sutiã.
Eu e Ash rimos. Já esperávamos algo assim vindo dele.
– Ham... — Tossiu Anne, enquanto tomava seu shot de álcool. — Pra quem?
– Pra mim ué!
– O que? Vale isso?! Achei que só podia ser pra outra pessoa, sem ser nós dois.
– Claro que vale.
– Como sabe?
– Fui eu que criei a brincadeira mulher!
– Ah... Mas não vou fazer isto aqui!
– Eu não disse pra fazer aqui...
Charlie foi em sua direção e cochichou em sua orelha. Ambos se levantaram, destrancaram a porta do cômodo e saíram. Mais uma vez, Anne não parecia animada.
– Só espero que minha mãe não se levante e veja tamanha pouca vergonha.
Ashton sorriu, mas não por muito tempo. Seu olhar descontente me encarava. Houve um grande momento de silêncio, que foi quebrado pelo mesmo.
– Por quê estava chorando? — Ash questionou.
– Quando?
– Hoje, na aula de biologia. Ou então quando nos recebeu; você escolhe.
Ele falava num tom autoritário. Talvez uma mistura de raiva e preocupação; o mesmo que senti quando minha mãe não me falou o que estava acontecendo.
– Eu... Eu não sei. — Abaixei a cabeça.
– Claro que sabe Julia! Só não quer me falar. Ok, eu entendo.
– Não Ash! Poxa, você é meu melhor amigo...
– Mas então me conta! O que está havendo contigo? Já não é mais a mesma faz um bom tempo...
Ele me olhava, e mais uma vez, pude ver pavor na face de alguém. O mesmo ia falar algo, mas calou-se na mesma hora.
– Eu... Ham... Me desculpa Ash. — E caí em lágrimas novamente.
– Mas não é possível Julia! — Ash me abraçou. — Você só chora?!
– É, eu sei. Me perdoe por isto tá?!
– Não precisa de perdão pra isso. Você sabe que estou contigo, certo?
– Certo... Desculpa te deixar triste. Sei que confia em mim, e não pense que eu não confio, mas é que eu não sei explicar...
O mesmo colocou sua mão, quente e acolhedora, em meu rosto.
– Quer me contar, pelo amor de Slash, o que está te fazendo sentir-se mal?
– Não... Hoje não. Estragar esta noite é o que eu menos quero. Esta noite com vocês... Com você.
Um sorriso de orelha a orelha surgiu em seu rosto. Apoiei-me em seu ombro e questionei:
– Por quê a vida não é como escolhemos, ou queremos?
– Nós escolhemos como queremos que a vida seja. Nós somos os responsáveis pelo que está acontecendo.
Aquilo me fez entender o porquê minha mãe sempre repete a mesma frase. Talvez, se ela não pedisse o molho naquele dia, papai ainda estivesse aqui. Mas e eu? Eu tenho culpa, pai?
Talvez se eu tivesse ido com o senhor... Eu pudesse te avisar sobre o caminhão que vinha do seu lado direito, e que bateu em você. Acho que no fim, de certa forma, todos temos culpa de alguma coisa.
Anne e Charlie finalmente voltaram. Entraram no quarto com uma fúria que eu nunca havia visto antes.
– NUNCA mais Charlie Danoski! Escutou? Nunca mais!
– O que houve? — Perguntei.
– Ele tentou me apertar, se é que me entende!
– Ah, pare de ser chata. — Charlie resmungou, deitando-se em sua parte da cama e dormindo em pouco tempo.
A brincadeira acabara por isso mesmo. E pelo visto, nunca mais aconteceria.
– Ele nunca entenderá que não é da "fruta" dele que você gosta?! — Ash disse, rindo a ponto de se contorcer.
Todos rimos enquanto bebíamos, desta vez, os refrigerantes. Havia sido vodca de mais para uma noite. Anne não demorou muito pra reclamar de sono, e deitar-se em sono profundo.
Todos nos acomodamos. Eu não estava com o mínimo pingo de sono, mas não estava sozinha nessa.
– Dormindo? — Ashton perguntou.
– Não. — Eu ri
– Posso subir aí? — Ele referia-se ao meu colchão, que diferente dos outros, não estava no chão.
– Hm... Claro.
O mesmo se levantou, deitou-se ao meu lado e se cobriu.
– Bem melhor.
Eu corei e então sorrimos. Ambos nos entre-olhamos sem dizermos uma só palavra. Parecia cena de filme, confesso. Ele me fazia cafuné, o que me fez sentir protegida. De repente, um abraço.
– Quero que fique bem.
Um sorriso de canto surgiu em meu rosto. Eu devia tanto a ele por cuidar de mim.
– Eu vou. — Cochichei em seu ouvido.
Ashton então olhou pra mim, deu um sorriso de dentes e se aproximou. Um beijo; dois beijos; cinco beijos. Paramos para respirar e então o abraço ficou mais apertado. O calor entre nós era grande, e o frio já não existia mais.
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