Behind Blue Eyes
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Notas iniciais

Ele estava ali para esperar sua irmã sair do colégio, por dois dias havia sido retirado do colégio militar.
Christoff sentou no banquinho pintado de azul e que estava em processo de descascamento e encarou o portão branco do colégio de sua irmã. O sorveteiro discutia política com o guarda do colégio, ambos estavam exaltados, Chris conhecia bem essas exaltações porque desde que nascerá há treze anos atrás escutava sem parar seu pai discutir com seus amigos e parentes sobre o mesmo assunto.
O jovem alemão partilhava dos pensamentos de seu pai, ele realmente acreditava que os “outros povos” estavam roubando o lugar de alemães, usurpando seus empregos, suas mulheres, suas casas, suas vidas. E sem contar aqueles que diziam amar uma pessoa do mesmo sexo, o que Christoff considerava simplesmente nojento e extremamente desrespeitoso com pessoas de família.
O país estava se afogando cada vez mais em uma lama negra pegajosa e vergonhosa, cada vez mais as coisas estavam se tornando insuperáveis. Christoff estava á ponto de levantar-se e se juntar aos homens que discutiam sobre a diferença entre liberdade e libertinagem.
Christoff apoiou o peso do corpo em um dos braços para assim impulsionar e se levantar, ele precisava dizer para aqueles senhores que ele tinha uma opinião sobre aquilo e que ambos estavam errados.
O sinal tocou interrompendo a caminhada de Christoff, o portão se abriu e algumas alunas começaram a sair do colégio, pareciam ser todas iguais com seus cabelos claros e olhos azuis, as mais assanhadas o encaravam e as mais tímidas nem o enxergavam ali. Ele não se importava com as loirinhas que estavam á paquerarem-lo, não deu importância á nenhuma garota, ao menos até vê-la sair.
A adolescente ria conversando sobre algo com a irmã mais nova de Christoff, a alemã irmã do rapaz imitava alguém – provavelmente uma professora ou inspetora – seus cabelos loiros estavam presos em duas trancinhas uma de cada lado do rosto, os olhos azuis como o oceano estava a revirar enquanto ela comentava sobre algo, seus dedos magros gesticulavam algo e assim ela derrubou sua pasta escolar.
Christoff se aproximou das duas, todas as garotas ao redor da dupla se assanharam ao verem o garoto loiro de olhos azuis marinho se aproximar, ele colocou as mãos nos bolsos, estufou imponentemente o peito, seu jeito de caminhar era como uma completa tempestade. O alemão parou na frente de sua irmã e de sua amiga, a loirinha abraçou o irmão e ele não tirava os olhos da morena.
– Liesel solte-me – pediu.
– Você passa um milhão de anos trancado em um colégio militar e chega aqui dispensando meu abraço?! – a loirinha cruzou os braços.
– Perdoe-me – Christoff afagou os fios da irmã.
Ele voltou seu olhar para a pequena menina á sua frente, ela parecia estar com vergonha, mas procurava encara-lo com atenção como se quisesse que ele se recordasse dela. Então ele finalmente a reconheceu.
“Gärtner não quero mais brincar com você”
Ele podia ouvir o tom doce da voz da menina soando prepotente em sua memória, porque cada passo que a garotinha dava Christoff prestava atenção. Era ela, ele tinha certeza que era sua pequena amiga de rua, a garotinha que corria com ele, a garota que não sentia medo dele, a garota que bagunçava seus fios loiros após joga-lo no chão e apertar suas bochechas pálidas, a garota que não se conformava com tamanha branquidão em sua pele.
– Hadassa Hakim – o nome dela saiu de seus lábios como uma canção erudita pronunciada pelos lábios de seu interprete perfeito.
– Achei que não se lembrasse de mim – ela apertou os dedos na alça da pasta fazendo esforço para não sorrir para ele.
Hadassa desviou seus olhos castanhos esverdeados dos olhos azuis turquesa de Christoff, ele observou a mudança que ela havia sofrido desde a última vez que a vira. Seus cabelos castanhos avermelhados haviam crescido bastante e estavam mais cheios, suas testa que normalmente estava sempre relaxada naquele momento estava franzida mostrando sua enorme tensão, suas sobrancelhas cheias e desarrumadas marcavam a região dos olhos, sua boca carnuda estava mais rosada, ela sorriu mostrando seus dois dentes tortos, e ela ainda tinha seu famoso buço que só era visível de muito perto, seu nariz era perfeito sempre havia sido, seu queixo era um pouco torto para o lado direito isso não havia mudado, suas bochechas estavam coradas por saber que ele a examinava, seus dedos longos ainda seguravam a pasta, suas pernas estavam cobertas por uma saia social que ia até metade da panturrilha, o resto estava coberto por uma meia grossa esbranquiçada, seus braços estavam cobertos pela blusa social da farda e uma gravata azul nadava na imensidão alva da blusa de seu uniforme, ela usava uma jaqueta preta para esquentar o frio que fazia naquele frio alemão.
– Como não me lembraria da garota que quebrou meu braço? – o loiro sorriu para ela.
– Eu sinto muito – pediu perdão pela centésima vez depois do acontecido á três anos atrás.
– Já te perdoei, sei que não foi sua intenção – ele tirou as mãos do bolso.
– Na verdade foi porque eu estava brava com você – confessou corando ainda mais.
Christoff se inclinou um pouco para frente não precisava se curvar muito para toca-la, pois seus braços eram longos compatíveis com sua altura, o loiro colocou uma mecha do cabelo cacheado de Hadassa atrás da orelha esquerda e lá estava o pequeno sinal de nascença que parecia um brinco pequenino.
– Hadassa – a voz masculina grave soou atrás deles.
Hadassa assustou-se mais com a voz do que com o toque de Christoff, a garota nem se despediu, apenas saiu andando, seus passos eram como um castelo de cartas prestes á desabar.
O homem segurou a mão da menina e parecia repreendê-la com preocupação e mansidão ao mesmo tempo.
Um garoto moreno, provavelmente da mesma idade que Christoff abraçou Hadassa e rodeou a cintura da menina com seus braços e a rodou no ar, os olhos castanhos esverdeados da menina brilharam ao mergulhar nos olhos amendoados do garoto.
– Conhece? – Christoff perguntou á irmã.
– Acho que é o primo recém-chegado dela, Dassa só sabe falar sobre ele – Liesel contou.
O garoto olhou na direção dos irmãos alemães, seus olhos pararam ao encontrarem as trancinhas infantis de Liesel, ele retirou o olhar dela e voltou á olhar a sua prima de pequena estatura.
Christoff levou a irmã de volta para casa, mas por algum motivo Hadassa não saía de sua mente, sempre era assim.
Os irmãos entraram na espécie de palacete de um tom fraco de azul, o portão dourado rangeu e o som atraiu uma das empregadas que rapidamente abriu a porta de madeira maciça da casa, eles adentraram no local e o piso amadeirado brilhava mostrando que acabara de ser encerado.
– Crianças lavem as mãos para o almoço – a voz feminina soou do topo da escada, mas nenhuma imagem pôde ser contemplada.
Logo Christoff e Liesel desceram as escadas para o almoço, adentraram a sala de jantar e Liesel antes de sentar-se a mesa correu até o pai e o abraçou.
– Senti sua falta papai – disse manhosa.
O homem que parecia sorrir apenas para a filha abraçou-a novamente, mas disse nada.
~~~ ➹➹ ~~~
“Christoff não vai não, fica aqui dessa vez”
A voz dela pairava em sua memória enquanto ele mexia o almoço de um lado para o outro, não sentia fome, ele queria vê-la.
– Posso sair um pouco? – pediu ao pai.
– Não se atreva á levantar-se dessa mesa – o homem o repreendeu com o olhar.
Gaspar Gärtner ou Tenente Gärtner, era um homem frio que servia á seu país e estava metido diretamente com pessoas das quais ele não falava sobre com a família. O homem era alto e meio desengonçado, mancava de uma perna, e carregava com orgulho uma cicatriz enorme que ia do canto direito da boca até abaixo de seu olho direito, seus olhos azuis não expressavam nenhum sentimento, eram vazios assim como seu senso de culpa ou compaixão, seus lábios finos só pronunciavam palavras duras e ofensas, suas mãos eram capazes de esbofetear sua própria esposa, mãe de seus únicos filhos.
Ele amava sua pequena Liesel acima de qualquer outra pessoa, ela era sua bonequinha, sua paixão e seu maior orgulho. Já por seu único filho homem ele sentia total desprezo e nada que Christoff fazia era o suficiente para orgulha-lo, nem quando ele obrigava seu primogênito a assistir conversas cheias de políticas e preconceitos era capaz de sentir orgulho das opiniões do filho.
A esposa de Gaspar, Moura, uma mulher de beleza estonteante e de rebeldia aparente, havia se casado obrigada e aprendera a amar verdadeiramente o homem com quem se deitava todas as noites até descobrir o monstro que ele era verdadeiramente. O real problema dos dois era a preferência por filhos, enquanto Gaspar é louco por Liesel, Moura é total defensora de Christoff e se desentende diversas vezes com sua filha.
– Pode sair meu bem – Moura desafiou deixando o filho sair.
– Como se atreve? – Gaspar pegou uma taça e jogou na parede fazendo-a se desfazer em alguns pedaços irregulares.
– Subam – a mãe ordenou.
Christoff segurou a mão da irmã e saiu puxando-a para longe da sala de jantar, ele sabia exatamente o que aconteceria ali.
Liesel insistia em olhar para trás, mas a imagem que ela teve naquele momento á fez tremer por dentro, Gaspar agarrou o cabelo de Moura, os fios loiros da mulher estavam misturados aos dedos do homem, em um movimento brutal ele jogou a mulher contra a parede e Liesel deixou que seu irmão á tirasse dali.
O jovem alemão colocou a irmã sentada em sua cama, os olhinhos azuis de Liesel estavam cheios de lágrimas e ele não sabia como agir com uma garota de dez anos que acabara de ver o homem que ela julgara ser perfeito jogar sua mãe contra a parede.
– Liz vai ficar tudo bem – acariciou o rosto da irmã.
– Por que ele fez isso? – choramingou.
– Porque ele é um monstro – respondeu duramente.
Liesel estava inconsolável, os gritos vindos do andar de baixo mostravam que Moura jamais havia apanhado daquela maneira.
“Acredite Chris sei que acha que eu não entendo nada, mas acho que tudo ficará bem um dia”
Hadassa havia dito isso á ele em um momento do qual ele não lembrava realmente de detalhes, apenas que ela havia dito aquilo debaixo de uma árvore enquanto Christoff brincava com os dedos finos da judia.
Ele levou as mãos até as tranças de sua irmãzinha e desfez as trancinhas dela e a abraçou forte, o cheiro de morango invadiu suas narinas e ele sentiu vontade de espirrar, detestava realmente aquele cheiro adocicado que sua irmã parecia ser viciada.
– Chris tudo vai ficar bem mesmo? – Liesel se afastou do abraço e o encarou.
– Prometo á você que um dia tudo ficará bem – forçou um meio sorriso.
– Eu nunca quero casar – a loirinha disse entre soluços.
– Amor é para os fracos Liz, no dia em que você amar ficará fraca como a mamãe é – afirmou com certeza.
A garotinha olhou para o longe, para o nada. Ela acabara de perder toda a certeza que tivera na vida, acabara de perder a certeza no amor, ela não sabia mais o que queria da vida, pois sempre havia sonhado em casar com um soldado, ter uma casa linda e filhos loirinhos correndo pela casa brincando de serem soldadinhos.
– Fique aqui – o irmão mais velho ordenou e garotinha ficou em silêncio.
Christoff caminhou apressadamente e desceu as escadas, ficou escondido atrás de uma parede esbranquiçada e pôde ver sua mãe sentada no chão com a mão esquerda levada ao olho, seus cabelos estavam bagunçados, sua boca estava machucada, seu rosto e cabeça sangravam, mas seus olhos estavam secos, ela já não chorava mais e talvez já nem amasse o homem que a encarava secamente.
– É isso que uma vagabunda como você merece – Gaspar chutou a perna na esposa.
– Vagabunda? Vagabunda é a sua amante! – gritou.
Moura juntou suas forças e levantou-se, estava descalça e suas vestimentas estavam bagunçadas, rasgadas e manchadas de um líquido carmesim. O Tenente segurou a mulher pelo braço e ergueu-a a ponto de seus pés saírem do chão.
– Suba, tome um banho e arrume-se porque hoje eu fico em casa – ordenou entre dentes.
Moura sabia o que ele estava a dizer e sentiu seu estomago revirar, uma ânsia de vomito tomou conta de seu ser, ela sentia nojo de si mesma pelo que teria que fazer.
– Seu porco nojento – vociferou.
– Você é minha mulher e me deve respeito, por tanto lhe castigarei por seus atos – gritou com a fúria de um trovão.
Ele a tomou em seus braços e possuiu os lábios de Moura com ira sentindo o gosto do sangue que havia tirado dela, a loira o empurrou com força e cuspiu-lhe o rosto.
– Vagabunda! – Em um movimento de fúria extrema Gaspar golpeou a esposa com as costas de suas mãos e ela caiu novamente no chão.
Christoff não aguentou mais ver sua mãe sofrer e correu até onde ela estava sentada no chão e a abraçou até que seu pai o pegou pelo braço e tirou de perto dela, Gaspar tirou o cinto e golpeou o filho por algumas vezes.
– Não toque no meu filho – Moura defendeu o filho como uma leoa defende seu filhote desprotegido no meio da savana.
– Não grite comigo mulher tola, sabes que sou teu marido – Gaspar vociferou na direção da esposa.
– Eu sei que você é meu marido, você não me deixa esquecer isso e eu sinto nojo de você. Odeio-te com todas as minhas forças, seu monstro, assassino, desgraçado – encheu-lhe de tapas.
– Chega de drama – Gaspar segurou os dois braços da mulher com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos.
Ele puxou-a pelos degraus da escada, as pernas grandes e modeladas de Moura chocavam-se com os degraus enquanto o alemão tentava equilibrar o corpo da loira segurando-a pelo braço esquerdo levando-a em direção ao quarto.
Os olhinhos de Liesel encontraram com os olhos de seu irmão que chorava sentindo a dor de uma surra por simplesmente ter defendido sua mãe.
Depois daquele dia a inocente Liesel havia morrido, era isso que Christoff conseguia enxergar nos olhos da irmã mais nova, e cinco segundos depois ele não conseguia ver mais nada, Liesel estava vazia, seus olhos estavam vazios.
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