Behind Blue Eyes

3 Die Charta Und Der Cord


Notas iniciais
Quero agradecer de todo o meu coração á todos o leitores perfeitos e divosos que comentaram o primeiro capítulo,espero que tê-los sempre comentando e opinando no decorrer da história. Eu revisei o capítulo, mas pode ocorrer que tenha em algum momento algum errinho, é só me avisar que eu consertarei. A garotinha no banner representa a Liesel e quem me mostrou essa imagem foi a "Amante Imortal", obrigada

“Porque quando um coração se parte

não se parte por igual” – The Script

Christoff parou do outro lado da rua, as mãos estavam nos bolsos demonstrando sua insegurança e nervosismo. Ele observava a casa do outro lado da rua, construída com a técnica Enxaimel – um tipo de construção constituída em encaixe de madeira – pintada de verde musgo e branco, as janelas estavam abertas e as cortinas voavam no sentido contrário á casa, a porta de madeira rangeu sendo aberta por um homem baixo usando roupas bem discretas, a esposa saiu logo atrás dele, suas vestes compridas não mostravam nada de seu corpo, seu cabelo estava escondido por um lenço de cetim negro, o garoto que abraçara Hadassa no dia anterior saiu da casa e acompanhou o homem que já havia se afastado bastante do lar, a mulher entrou e fechou a porta.

O alemão sentou na calçada gelada e um frio percorreu sua espinha, ele não tirava os olhos da janela, ela tinha que aparecer nem que fosse por um mísero segundo.

Pessoas passavam á todo momento e pareciam não notar o loirinho sentado na calçada da solidão, mulheres com seus vestidos compridos, homens com seus ternos, casais de mãos dadas, crianças correndo pelas calçadas, passarinhos cantando, som de automóveis, som de passos apressados na rua e a voz doce de uma garota que estava a cantar uma canção que não parecia ser alemã.

Do outro lado da rua, na segunda janela a visão de uma garota pôde ser vista. Ela segurava a barra de sua saia rodada e dançava cantando uma canção – provavelmente hebraica porque Christoff não entendia nada do que ela dizia – seus cabelos cacheados estavam presos em um coque alto, as mangas longas da blusa da garota estavam levantadas até o cotovelo, Chris observava com atenção cada movimento que ela fazia para guardar em sua memória. Hadassa rodou o corpo um pouco e seus olhos se encontraram com os de Christoff, ela corou e parou automaticamente de dançar.

A garota desceu as escadas correndo, sua mãe estava pegando a bolsa para ir ao mercado, Hadassa deu um abraço na mãe que logo saiu. A judia esperou alguns minutos e saiu na porta fazendo sinal para ele se aproximasse.

– Vim te ver – Christoff sorriu para ela.

– Ficou completamente insano? – a garota parecia estar brava.

– Sempre vim te trazer aqui – tentou argumentar.

– Quando eu estava brincando com a sua irmã – retrucou.

– Você não estava brincando com a minha irmã, estava brincando comigo sempre que trazia até aqui – lembrou-a.

– Que seja, mas meus pais irão brigar comigo – contou.

– Eu sinto muito, não sabia que poderia te trazer problemas se viesse falar com você, só vim até aqui para me despedir – abaixou a cabeça.

– Você já vai voltar para o seu colégio? – a garotinha arregalou os olhos castanhos.

– Tenho que voltar – desviou seus olhos dos dela.

– Eu não queria que fosse – suspirou.

Christoff esticou o braço e tocou a face rosada de Hadassa, ela nunca havia percebido que os olhos do alemão tinham um tom de azul tão escuro e bonito, ele nunca havia percebido que Hadassa tinha pequenas sardas espalhadas perfeitamente por suas bochechas.

– Acho que vou te guardar na minha memória para sempre – o loirinho disse calmamente – Eu acho que vou sentir mais falta de você do que de qualquer outra pessoa – continuou – Sentirei realmente sua falta – acariciou as bochechas da menina.

– Vou sentir sua falta também – os olhos da menina marejaram – Não vai não, por favor – pediu.

– Queria conseguir ficar – suspirou ainda segurando o rosto da pequena Hadassa entre suas mãos.

– Você pode ficar se quiser – insistiu.

– As coisas não são tão simples como você pensa, mas prometo que posso até voltar para o colégio agora, mas jamais te deixarei ou á Liesel – disse calmamente – Nunca deixaria nada acontecer á você e nem á ela, mesmo que tenha sentimentos diferentes por cada uma – contou.

– Sentimentos? – arqueou as sobrancelhas.

– É que eu gosto de você Hadassa, gosto de um jeito diferente que eu não sei explicar – declarou-se.

– Eu nem sei o que é gostar para ser sincera, eu sou apenas uma criança – Hadassa afastou-se do toque de Christoff.

– Sinto muito se te assustei com essa conversa – ele disse.

– Não precisa se desculpar – sorriu docemente.

Hadassa tirou o pequeno cordão que rodeava seu pescoço, a pedra ágata dendrita estava presa ao cordãozinho que moldava a corrente. Ela olhou para a corrente e só então entregou á Christoff.

– É para se lembrar de mim – Hadassa sorriu mais uma vez, mas seu sorriso era triste.

– E isso para você se lembrar de mim – disse.

Christoff se curvou para frente e tocou seus lábios gelados nos lábios aquecidos de Hadassa, correntes elétricas atravessaram seus corpos em uma fração de segundos, eles se afastaram e se olharam confusos.

– Eu... – Christoff não conseguia dizer nada.

– Hadassa Hakin! – o pai da garota segurou a menina pelo braço e levou-a para dentro.

– É melhor você ir – o primo de Hadassa aconselhou – Ela ficará bem – garantiu e entrou na casa.

Christoff saiu de perto da casa á passos apressados, ele se culpava internamente pelo que aconteceria com sua pequena e doce Hadassa.

~~~ ➹➹ ~~~

Já dentro da casa da judia, seu pai a encarava decepcionado, seu primo estava ao lado dela pronto para defendê-la, sua mãe estava com os olhos fechados.

– Ezekiel saía daqui – o homem ordenou.

– Mas tio... – tentou protestar.

– Suba agora – ordenou e o garoto assentiu.

Hadassa sabia o que aconteceria, ela levaria uma surra e depois um castigo quase eterno.

– Tire a blusa – mandou – E vire de costas – ordenou entre dentes.

A garota o fez mesmo sem entender direito o que aconteceria com ela, jamais havia levado uma surra assim.

O homem se preparou para dar a primeira cintada na menina, mas foi interrompido pelo choro compulsivo da mãe da garota que estava prostrada de joelhos ao lado da menina.

– Isso é castigo para quem peca Efraim e nossa filha não o fez – Rebeca soluçava.

– Cale-se mulher, eu sou o homem da casa e você me deve respeito absoluto – disse transparecendo raiva em seu timbre.

Hadassa fechou os olhos e sentiu o cinto molhado com água e sal atingindo suas costas nuas, sua pele fina ficou marcada.
– “Portanto, não permitam que o pecado continue dominando o corpo mortal de vocês, fazendo que obedeçam aos seus desejos” Romanos 6 – Efraim recitava o verso de olhos fechados.

Pela segunda vez o cinto colidiu com as costas da judia, e as lágrimas invadiram seu rosto de boneca, ela soluçou. Terceira, quarta, quinta cintada.

– “Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da lei” João – recitou novamente.

Sexta, sétima, oitava, nona cintadas.

– Sodoma e Gomorra foram destruídas pelo pecado que continha nelas, não quero que essa casa seja destruída pelo mesmo motivo – Efraim continuava de olhos fechados.

– Ela é uma criança Efraim, não cometera pecado algum – Rebeca defendeu.

– “Mas agora, eu te rogo, perdoa-lhes o pecado; se não, risca-me do teu livro que escreveste” Êxodo – recitou e as lágrimas escorriam por seus olhos.

O cinto atingiu as costas de Hadassa pela última vez com tanta força que o sangue carmesim escorreu por sua pele arrepiada e ela gemeu de dor.

– Que seja perdoada – Efraim abriu os olhos e ainda havia fúria neles.

– Falastes, faltastes e esqueceste-se de uma coisa – Rebeca abraçou a filha – “Quando vocês ficarem irados, não peque. Apaziguem a sua ira antes que o sol se ponha” – os olhos castanhos da mulher estavam vermelhos – Ainda pecastes mais por julgar uma inocente – fechou a blusa da filha e pegou-a em seus braços – Que Aquele que nos criou possa te perdoar por um ato tão insano – subiu as escadas.

Efraim caiu de joelhos, levantou às mãos em direção ao céu, o cinto caiu ao lado dele e seus olhos se fecharam.

– Perdoa-me por minha ira – implorou – Não me deixe queimar no inferno, sou apenas um homem fraco e errante – chorava como uma criança sendo repreendida por seu pai.

~~~ ➹➹ ~~~

Logo ao anoitecer Efraim e Ezekiel foram até a casa dos Gärtner. As batidas bruscas na porta fizeram Moura descer as escadas assustada, Christoff havia os visto chegar e se sentou no terceiro degrau da escada, já Liesel estava alimentando-se na cozinha. Eveline, a governanta da casa, abriu a porta e Gaspar apareceu na porta de seu escritório.

– Senhor Hakim, se não me engano – Gaspar caminhou até os dois judeus que estavam dentro de sua casa.

– Sim – Efraim assentiu – Vim aqui falar sobre seu filho – cerrou os punhos.

– Vamos falar no escritório, siga-me – Gaspar lançou um olhar furioso para Moura e levou Efraim até sua sala.

O alemão trancou a porta e lá Efraim lhe contava o acontecido de mais cedo, e pediu-lhe que tomasse conta de seu filho.

*

Liesel havia terminado de comer sua fatia de bolo e estava brincando no quintal quando um dos cachorros ferozes se soltou e partiu para cima da loirinha. Liesel gritava desesperada enquanto o cachorro feroz a babava inteira latindo com ferocidade. Ela fechou os olhos quando sentiu o focinho do cachorro encostar-se a seu pescoço, ela esperou pela mordida que não veio.

A loirinha abriu os olhos vagarosamente, as lágrimas ainda queimavam seu rosto delicado, os soluços estavam contínuos, então o azul mergulhou no mais profundo castanho. O garoto á sua frente ofereceu-lhe a mão e ela pegou.

O cachorro havia corrido para longe deles quando o garoto o atingiu com um pedaço de madeira.

– Você está bem? – ele perguntou.

Ela não conseguia falar, estava confusa, sua cabeça estava á mil. Ela continuava olhando para ele e agora sua silhueta lhe veio à mente, ela o conhecia e os olhos dele sussurram “Já nos conhecemos?”, ela queria dizer algo, mas sua mente estava travada e sua língua pesada.

– Acho melhor entrar – ele disse carinhosamente.

– É – ela não tirava seus olhinhos dos dele.

– Ezekiel Hakim – apresentou-se.

Ele sorriu ao vê-la tão abobalhada encarando-o sem parar, o sorriso dele mostrava seus dentes perfeitamente brancos, seus olhos imensamente amendoados, seus lábios finos ainda valsavam um sorriso doce, o nariz não tinha defeitos, suas bochechas estavam coradas como as da loira, ele vestia-se como o pai de Hadassa, mas sorria marotamente. Liesel, no entanto ainda chorava assustada.

– Você não está bem – o sorriso maroto desmanchou-se rapidamente.

Liesel em um movimento involuntário de seu pequeno corpo frágil agarrou-se a ele em um abraço tímido, ele parecia estar em um conflito interno intenso, porém a abraçou também.

– Está tudo bem – garantiu com seu timbre de adolescente.

Então ele percebeu que não deveria abraça-la por dois motivos, ela era um Gói como seu irmão e ela ainda era criança demais. Para ele o abraço tinha um pensamente diferente, ela o abraçava procurando conforto e ele a abraçava porque de certa forma desejara aquilo desde o começo, dede que a vira na frente da escola pela primeira vez.

Ela se afastou dele e achou engraçada a maneira como seu cabelo era baixo, quase careca, ele não entendeu o motivo dela rir, mas sentiu-se feliz por fazê-la sorrir.

– Serei eternamente grata Ezekiel, você salvou minha vida – segurou a barra de seu vestido rodado rosa.

– Eu sou como um herói? – ele brincou.

– É, algo como isso – sorriu encantada.

– Querida, entre – uma voz feminina meiga soou.

Liesel olhou para Ezekiel e depois saiu correndo, seus sapatos estavam sujos de poeira, ela correu ao encontro da mulher baixa e gorda que a esperava na porta do quintal.

– Está bem senhorita? – perguntou á ela.

– Sim, Eveline – Liesel sorriu para ela – Nunca estive melhor – olhou para trás, mas Ezekiel não estava mais lá.

Então novamente a luz em seus olhos se apagou, ela voltou á ser uma garota sozinha, Liesel voltou á ser a garota presa no inferno que seu pai costumava chamar de casa.

Ela subiu as escadas passando por seu pai e o pai de Hadassa que se despediam, Christoff estava sentado no degrau na escada com a cabeça deitada no colo de Moura que acariciava seus sedosos fios dourados, ninguém pareceu perceber que Liesel estava passando.

A loira abriu a porta de seu quarto revelando o quarto rosa bebê, papel de parede com desenhos de pequenas rosas vermelhas e delicadas, sua cama branca, seus lençóis alvos, pôsteres com desenhos colocados estrategicamente pela parede.

Liesel pegou uma caixinha de madeira branca que estava debaixo da cama, tirou alguns papéis de carta de sua coleção, tirou também algumas fotografias e só então achou o pequeno caderno de capa de couro, desatou o nó, abriu-o e começou a escrever.

Dia 12 de Setembro de 1929

Hoje conheci um garoto, ele me salvou de um ataque que sofri quando o cachorro guarda da casa pulou em mim.

Tenho total consciência de que tenho apenas dez anos de idade, mas senti uma coisa estranha dentro de mim quando olhei dentro de seus olhos acastanhados.

É estranho porque senti meu estômago revirar como se eu quisesse vomitar, como se houvessem mil borboletinhas levantando voo no meu estomago, minhas mãos tremeram, meu suor tornou-se gelado, minhas pernas perderam as forças como se por algum motivo fosse cair sob meus joelhos, minha boca ficou seca, minha língua ficou travada, não conseguia falar ou mover. Só conseguia pensar em seus olhos extremamente amendoados e perfeitos.

Não sei se posso explicar o que senti, mas posso dizer que acho que explicação nenhuma isso requer, apenas preciso sentir, preciso vê-lo novamente nem que seja por um mísero segundo.

Ezekiel Hakim, é para ele que guardarei meu coração, para ele guardarei o que me resta de sonhos e sentimentos.

Para ele guardarei o meu amor, mesmo que eu ainda não saiba direito o que ele é, ou até mesmo não sei se isso realmente existe, mas se existir que eu o ame.

Nem ao menos lhe disse meu nome, mas tenho em mim a certeza de que mesmo assim ele jamais me esquecerá.

Estranho escrever tudo isso, mesmo sendo só uma criança, acho que realmente que meus livros de romance destruíram minha sanidade mental.

Quando fechar esse diário voltarei a ser como sempre fui, uma garota vazia de sentimentos e pensamentos bons. Uma garota vazia.

Não contarei á ninguém sobre ele, mas torcerei para que amanhã ele vá buscar Hadassa na escola.

Com carinho...

Liesel Gärtner.

Notas finais
Espero que gostem de tudo, de verdade. O que acharam do capítulo? & do banner? E tudo mais? O que precisa melhorar? Preciso da opinião de vocês sempre :3 Estou indo responder os reviews & o MP:3Comentem & Favoritem. Amo vocês ♥ Até loguinho, Beijo :3