Abri meus olhos lentamente, me acostumando para abri-los. Bocejei e vi que estava deitada em uma rede e com um casaco de lã sobre mim. Levantei-me com delicadeza da rede, toquei meus pés sobre o piso frio e observei o tinha ao meu redor. Havia várias outras redes com pessoas dentro e em frente uma casa simples. Dei-me conta que estava na varanda dessa casa. Atrás da minha rede vazia havia uma tigela com algo dentro e um pano um pouco úmido. De repente, vi um rapaz de cabelo castanho claro, franja bem masculina, cheia de pontas, até a altura das sobrancelhas. Cabelo que preenche delicadamente as orelhas e algumas pontas encostando até uma parte das bochechas, olhos místicos que lembram dois topázios, de dia pode parecer castanhos esverdeados, à noite, cor de mel reluzente. Olhar inocente, infantil. Lábios macios e carnudos, meio rosados, bem definidos, nariz comum, sorriso envergonhado, mas que passa confiança. Maças do rosto bem fofinhas e macias. Pele suave, macia, nem tão clara, nem tão escura, mas levemente bronzeada. Alto e forte. Ele ficou me encarando com um sorriso decorando seus lábios e as maças do rosto coradas. Fiquei confusa. Que ar estranho esse... Ele resolveu abrir a boca:

-Oi... –Suas bochechas coraram ainda mais.

-Oi. –Respondi naturalmente.

-Ah. Você acordou. Está melhor? –Ele parecia com um ar de... Preocupado.

-Como assim? O que aconteceu? –Perguntei confusa.

-Você foi atacada por um destruidor dos sonhos. –Ele percebeu que eu comecei a ficar assustada e me acalmou. –Fique tranqüila, eu fiquei cuidando de você logo após o que aconteceu ontem.

-O que é um destruidor dos sonhos? –Fiz essa pergunta, não entendi nada.

-Eles vêm do Jackie Marall. Acredita-se que ele os usa para descobrir o sonho de cada um e arruiná-los.

-Hum... Como se chama?

-Breno.

-Prazer, sou Alice.

-O prazer é todo meu. –Ele abriu um sorriso, eu não pude deixar de retribuir. Ficamos somente conversando e após meus amigos e meu tio acordaram. Só uma única garota continuou deitada, passaram-se alguns minutos e a vi espreguiçando e pulando da rede. Percebi que o Gabriel estava a observando, logo fiquei com muito ciúme. Perguntei ao Breno, curiosa:

-Quem é aquela garota que acabou de levantar?

-Ela é filha de uma amiga do meu pai. A Sabrina.

-Ela tem quantos anos de idade?

-Dezessete.

-A mesma idade que eu e você.

-Sim. Ela é muito chata. Vive falando ‘’fato’’. –Eu ri e perguntei:

-Fato? Como assim?

-Por exemplo, você diz que alguém é feio. Ela responde esse ‘’fato’’. –Voltei a rir, ele riu comigo e continuei:

-Então... Vamos nos unir ao povo?

-Claro. –Ele sorriu. Ele pegou na minha mão, não sei por quê. Mas, o toque do Breno me causava uma sensação um tanto reconfortável. Minha mão estava um pouco fria e o toque suave, macio e quente dele fez minha mão ficar um forno. A reação do Gabriel não foi muito agradável. O Gabriel me puxou forte pelo braço, me arrastando para longe. Resmunguei.

-Você está namorando o Breno? –Ele me encarou quando perguntou.

-Não, mas, eu o achei um garoto simpático... Por quê?

-Eu saiba que você gosta dele.

-Eu não! Quem disse?

-É o que parece.

-E por que você quer saber? –Fui um pouco grossa e decidi me desculpar. –Desculpe. É que eu não estou entendendo.

-Desculpada. Nem queira saber... Deixe quieto o assunto. –Ele me estendeu a mão, para que eu fosse embora do arbusto onde nós estávamos com ele. Para que não se repetisse aquilo de ontem novamente.

Fui procurar o Breno. Meus olhos se moveram rapidamente, tentando procurá-lo. O achei conversando com o meu tio. Com muita cautela, com um pingo de curiosidade, devagarzinho me escondi em uma árvore e ouvi a conversa dos dois. Somente pude ouvir isso:

-Ela gosta de que tipos de flores? –O Breno perguntou.

-Azaléia, margarida, tulipa, rosa e girassol.

-De perfume, ela gosta?

-Adora perfume. Ainda mais homem que usa perfume.

-Obrigado. –O vi saindo, pensei para mim mesma que tudo ia dar errado. Um lado de mim diz que o meu esconderijo falhará e o Breno descobrirá, o outro diz que vai tudo dar certo e é pra mim me acalmar.

Respirei fundo duas ou três vezes, me acalmei um pouco, enquanto olhava timidamente para os meus pés. Levantei a cabeça e olhei para o que tinha em minha frente, me assustei com quem deparei. O Breno. Ele disse, para eu quase ter um infarto do coração:

-O que faz aí? –Minhas maças do rosto coraram... Minha garganta enozou e senti um frio na barriga. Respondi:

-Ah... Só... –Arrumei uma desculpa. –Vendo o passarinho.

-Que passarinho? –Ele me questionou. Arregalei meus olhos e resolvi falar discretamente:

-O que estava lá em cima. –Apontei para um galho da árvore, tentando disfarçar.

-Hum. Também gosto de pássaros.

-É, eu também. –Respondi, disfarçando.

-Vou lá com o resto das pessoas. Vamos?

-Pode ser... –Fui caminhando ao lado dele até onde estavam os outros. Eu não entendi porque o Gabriel ficava me fitando com um ar de suspense sem parar.

Arrumamos as nossas coisas. Aceitamos comida do pai do Breno. Vestimos-nos com uma roupa quente e nos preparamos para ir embora. Antes de deitarmos, acendemos uma fogueira e nos sentamos juntos, sobre troncos de árvores cortados ao meio. O Gabriel me chamou para conversar. O Artur me olhou com um sorriso malicioso no rosto, eu o fitei com um olhar indicando ‘’pode parar com isso’’.

Dessa vez, o Gabri segurou minha mão com delicadeza, me guiou até um tronco com cautela, ele me escondeu o máximo possível no tronco e ao corpo dele também. Ele olhou no fundo dos meus olhos, os dele pareciam estar umedecidos por lágrimas. Ele ficou me encarando, perguntei:

-Que foi, Gabri?

-É que... –Ele disse suspirando e com insegurança.

-Diz pra mim. –Era como se nós nos conhecêssemos a muito tempo atrás... Ao falar isso, passei a mão devagar sobre o cabelo dele, passando segurança para o Gabriel falar. Abri um sorriso em meus lábios, seu traço sério na boca deu lugar a um sorriso lindo e perfeito enfeitando os lábios dele.

-Como eu posso provar que eu te amo mais que tudo? –Meu sorriso se desfez, dando lugar a tristeza. Olhei timidamente para o chão e senti algo quente e frio ao mesmo tempo, uma coisa fazendo cócegas sobre minhas bochechas e que deslizava sem controle. Só agora que me dei conta. Lágrimas salgadas estavam deslizando pela minha face... –Lágrimas? Por que, amor? –Dizendo isso, ele passou o dedo levemente sobre a minha bochecha, limpando minhas gotas de tristeza. Ele me abraçou forte e sussurrou em meu ouvido. –Me conta. Por que o choro?

-Você sabe quando estamos quase desistindo de uma coisa e mesmo assim temos que continuar lutando por ela? Quando estamos rodeados de pessoas ao nosso redor, mas aquela pessoa não está do seu lado? É isso que eu sinto. –Falei, entre soluços.

-Eu sei. De coração. E você me ama? –Abri um sorriso bobo, eu sei que o conheci hoje, mas eu tenho certeza que já sinto alguma coisa no peito por ele. Respondi:

-Claro que sim, seu tonto... –Rimos juntos e ele entrelaçou os nossos dedos. Aquilo me proporcionou aconchego, companhia, afeto, amor e segurança.

-Então. Vamos lá com o pessoal? –Ele me convidou. Assenti com a cabeça e fui. Estavam todos se preparando para deitar, eu e o Gabri também. Eu estava deitada de lado em meu saco de dormir, a esta hora a fogueira já estava em fogo baixo, de repente senti braços segurando minha cintura. Olhei para trás e vi o Gabriel deitado atrás de mim, me abraçando fortemente. Abri um sorriso verdadeiro para ele, ele retribuiu ao meu. Eu afastei a franja dele e dei um beijo com estalo na testa dele.

Quando nossos olhos estavam ardendo, os dele também, decidimos fechar os olhos e dormir logo.

-Boa noite, meu amor. –O Gabri disse, alevantando meu queixo e me beijando no cantinho da boca. Mordi levemente o lábio inferior dele e respondi:

-Boa noite, sonhe com os anjos. Eu te amo muito.

-Então, vou sonhar com você. Eu te amo muito mais. –Mas, claro que eu sei que o amo mais.

No dia seguinte todos nós acordamos, nos despreguiçamos, nos alimentamos e fomos para a escola. A nossa equipe ficou em segundo lugar, se não fosse a equipe das patricinhas. Subi para o dormitório e me atirei na cama, geral percebeu que estou cansada.