“Eu poderia ter perdoado uma mentira…

mas nunca vou perdoar o momento em que você escolheu alguém que não fosse eu.

POV BELLA

Existem verdades que não quebram você de imediato…

elas se instalam primeiro.

Silenciosas.

Frias.

E depois começam a se espalhar, lentamente, como veneno no sangue, ocupando espaço, contaminando tudo o que encontram até que não reste mais nada intacto. Eu sempre acreditei que saber era melhor do que não saber, que a verdade, por mais dura que fosse, ainda era mais fácil de lidar do que a dúvida. Mas naquele momento… eu entendi que isso não era verdade. Porque a dúvida ainda te dá escolha. A verdade… não.

Eu estava no escritório quando Félix entrou.

De novo.

Mas dessa vez… havia algo diferente.

Não era o silêncio dele. Não era a postura. Era o peso.

Eu senti antes mesmo de olhar.

Meu corpo reagiu primeiro, um leve aperto no estômago, um frio subindo pela coluna, como se alguma parte de mim já soubesse exatamente o que estava prestes a acontecer.

— Você encontrou mais alguma coisa…— murmurei, sem tirar os olhos da mesa.

Ele não respondeu imediatamente.

E isso… já era uma resposta.

— Bella…— disse ele, mais baixo dessa vez.

Errado.

Tudo ficou errado naquele instante.

Eu levantei o olhar devagar, encontrando o dele, tentando manter a expressão neutra, tentando manter o controle… mas já sentindo ele escorrer por entre os meus dedos.

— Fala.

Ele puxou o celular do bolso, destravou e colocou sobre a mesa.

Virado para mim.

— Eu achei que você ia querer ver.

Eu não toquei, não de imediato.

Porque existiam momentos em que você sabia… que depois de olhar, não existiria mais volta.

Mas eu olhei e ali estava.

Jacob, de perfil com corpo inclinado e a mão segurando o rosto dela.

Renesmee.

E o beijo.

Não havia dúvida.

Não havia interpretação.

Não havia espaço para “parece”.

Era.

Meu coração não disparou.

Ele parou.

Por um segundo inteiro.

E depois voltou… mais lento.

Mais pesado.

Mais frio.

— Quando foi isso?…— perguntei.

Minha voz não parecia minha.

— Hoje.

Hoje.

Enquanto eu…

Silêncio.

Meu dedo finalmente tocou a tela, ampliando a imagem, analisando cada detalhe, cada ângulo, cada expressão.

Ele parecia… inteiro.

Presente.

Vivo.

E isso foi o que mais doeu.

Não o beijo.

Mas o fato de que ele não parecia confuso.

Não parecia perdido.

Não parecia forçado.

Ele escolheu.

E aquilo…aquilo destruiu alguma coisa dentro de mim de forma definitiva.

— Eu posso estar enganado…— começou Félix.

Eu soltei uma risada baixa.

Sem humor.

Sem som.

— Não…— murmureicom meus olhos ainda presos na imagem.— Você não está.

Silêncio.

Pesado.

Denso.

Irreversível.

— Bella…— ele tentou novamente.

— Ele me traiu…— falei.

Simples.

Direto.

Limpo.

Mas dentro de mim…não era limpo.

Era caótico.

Era quente.

Era violento.

— Você não sabe exatamente o contexto…— disse Félix.

Eu levantei o olhar e pela primeira vez…ele hesitou.

— Eu sei o suficiente.

Porque não era sobre o beijo, era sobre escolha e ele escolheu alguém que não fosse eu.

E isso…isso era imperdoável.


Quando Jacob chegou em casa, o corpo dele já denunciava tudo.

A forma como ele abriu a porta mais devagar, um leve hesitação no passo, a mão apoiando na parede por um segundo a mais do que o necessário.

A respiração… mais pesada.

Ele estava pior.

E aquilo…deveria ter me feito parar.

Mas não fez, porque naquele momento… não era mais sobre cuidar.

Era sobre confronto.

— Onde você estava?…— perguntei.

Eu estava sentada no sofá, imóvel, a foto ainda aberta no celular ao meu lado, como uma prova, como uma sentença, como algo que não podia mais ser negado.

Ele levantou o olhare por um segundo…ele soube.

— Bella…— disse ele, cansado.

— Onde você estava?— repeti.

Mais firme.

Mais frio.

Ele passou a mão pelo rosto, fechando os olhos por um segundo.

— Eu tava com a Renesmee.

A honestidade dele me atingiu mais forte do que qualquer mentira poderia.

— Eu sei.

Silêncio.

Ele abriu os olhos.

— Então por que você tá perguntando?

Eu peguei o celular.

Mostrei.

Sem dizer nada.

Sem explicar.

Sem dar espaço.

Ele olhou e não negou.

Não tentou.

Não explicou.

Nada.

— Você beijou ela…— murmurei.

A frase saiu baixa.

Mas pesada.

Irreversível.

Ele respirou fundo.

Demorou.

Mas respondeu.

— Sim.

Sim...Só isso?

Sem justificativa, sem desculpa ou arrependimento imediato.

E naquele momento…algo dentro de mim quebrou.

De verdade.

— Há quanto tempo?…— perguntei.

— Não foi o que você tá pensando…— começou ele.

Eu levantei.

Rápido demais.

— Então explica!— minha voz subiu, falhando no meio da frase.

Ele me olhou.

Cansado.

Fraco.

Mas ainda firme.

— Eu não queria que fosse assim…— disse.

— MAS FOI!— gritei.

Meu corpo inteiro estava vibrando, a respiração descompassada, o peito apertado, queimando, como se o ar não fosse suficiente.

— Eu tava tentando resolver as coisas…— continuou ele.

— RESOLVER? COM OUTRA PESSOA?— rebati.

Silêncio.

— Você se afastou…— disse ele.

Aquilo me atingiu.

Fundo.

— Eu me afastei?…— ri, incrédula.

— Você mudou, Bella…— respondeu.

— Eu mudei porque eu tô tentando salvar isso!— apontei para nós dois.

— Isso aqui não tá sendo salvo…— disse ele, mais baixo.

E aquilo…foi pior.

Muito pior.

— Eu fiz tudo por você…— murmurei.

Minha voz agora mais baixa.

Mais quebrada.

Mais real.

— Eu sei…— disse ele.

— NÃO, VOCÊ NÃO SABE!— gritei novamente, sentindo as lágrimas queimarem nos olhos.

— Eu nunca fiz isso com você!— continuei — Eu nunca olhei pra outra pessoa!

Silêncio.

Pesado.

— Porque você nunca deixou espaço pra ninguém…— respondeu ele.

Aquilo foi um golpe.

Direto.

Cru.

— Eu sou sua esposa…— disse, mais baixo.

— E eu não sou sua propriedade…— respondeu.

Silêncio.

Final.

Irreversível.

Ele respirou fundo.

E então…disse.

— Eu quero o divórcio.

O mundo não parou.

Mas tudo dentro de mim… sim.

Meu corpo ficou imóvel.

Minha respiração travou.

Meu coração…descompassado.

— O quê?…— sussurrei.

Como se não tivesse entendido.

Como se ele pudesse voltar atrás.

— Eu não posso continuar assim…— disse ele — Eu não tô bem, Bella.

Não.

Você não tá.

Porque eu fiz isso.

— Isso não é sobre você…— continuei, dando um passo à frente.

— É exatamente sobre mim…— respondeu.

— Não!— balancei a cabeça — Isso é sobre ela!

— Não é!— disse ele, mais alto — É sobre a gente!

Silêncio.

— Não existe mais “a gente”…— completou.

E ali…foi o fim.

Ou pelo menos…foi o que ele pensou.

Naquela noite, eu não chorei.

Isso foi o mais estranho.

Não houve colapso.

Não houve desespero.

Houve… silêncio.

Eu estava sentada na cama, olhando para as próprias mãos, sentindo uma leve dormência nos dedos, como se meu corpo estivesse tentando se desconectar de mim mesma, como se estivesse criando distância do que eu estava prestes a aceitar.

Mas eu não aceitei.

Eu entendi.

E entender…é mais perigoso.

Porque agora…não era mais sobre manter.

Era sobre recuperar.

Corrigir.

Resolver.

Meu olhar foi até a porta, fechada.

Ele dormindo no outro quarto, o quarto que era para ser de um filho que um dia teríamos...

Distante.

Fraco.

Vulnerável.

Meu.

Minha respiração desacelerou.

E um pensamento…calmo.

Claro.

Definitivo.

se formou.

“Você escolheu errado…”

Silêncio.

“…mas eu ainda posso consertar isso.”

Eu me levantei devagar, sentindo o chão frio sob os pés, o corpo leve, quase flutuando, como se cada passo estivesse sendo guiado por algo maior do que emoção.

Mais lógico.

Mais preciso.

Mais… necessário.

Porque no fim…isso nunca foi sobre amor.

Foi sobre permanência e eu não fui feita para ser deixada.

Nunca fui.

E eu não vou ser.

Não agora.

Não por ele.

Não depois de tudo.

Porque se ele acha…que pode ir embora…

então ele ainda não entendeu.

E eu vou ensinar.

Da forma certa.


O silêncio da casa não era mais o mesmo.

Ele não era pesado como antes, nem opressor, nem carregado de tensão. Era… funcional. Como se tudo tivesse se reorganizado para servir a um único propósito. Cada som parecia mais claro, cada movimento mais consciente, cada pensamento mais… alinhado.

Eu parei em frente à porta do quarto.

Do outro lado… ele.

Respirando.

Vivo.

Ainda.

Minha mão pousou na maçaneta, mas eu não girei de imediato. Meus dedos pressionaram o metal frio, sentindo a temperatura contrastar com o calor da minha pele, como se aquilo fosse me lembrar de alguma coisa… alguma linha que talvez eu estivesse prestes a cruzar.

Mas não existia mais linha.

Não existia mais antes.

Só existia depois.

Eu abri a porta.

Devagar.

Sem fazer barulho.

O quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz fraca que vinha do corredor, desenhando sombras suaves nas paredes, nos móveis, no corpo dele deitado na cama. Jacob estava de lado, a respiração irregular, mais pesada do que o normal, como vinha acontecendo nos últimos dias. O peito subia e descia de forma lenta, cansada, como se o próprio corpo estivesse lutando para manter um ritmo que já não era natural.

E aquilo…

aquilo deveria ter me feito parar.

Mas não fez.

Eu me aproximei da cama, os passos leves, quase inexistentes, como se eu tivesse feito aquilo a vida inteira. Meus olhos percorriam cada detalhe dele, como se eu estivesse memorizando, como se alguma parte de mim quisesse guardar aquilo antes de mudar.

Porque ia mudar.

Eu sabia.

Eu sentei ao lado dele, o colchão cedendo levemente sob o meu peso, criando um pequeno movimento que fez a respiração dele falhar por um segundo… mas ele não acordou.

Confiança.

Sempre confiança.

Minha mão subiu até o rosto dele, tocando a pele quente, passando os dedos com cuidado, quase carinho.

— Eu tentei…— murmurei, baixo, quase inaudível.

Silêncio.

— Eu tentei fazer isso do jeito certo…

Mas você não deixou.

Minha outra mão já estava firme.

Decidida.

A seringa entre os dedos.

A dose.

Maior.

Mais forte.

Mais definitiva.

Não era mais sobre manter lentamente.

Era sobre impedir.

De vez.

Minha respiração ficou mais lenta, mais profunda, como se meu corpo estivesse se preparando para algo que já estava decidido antes mesmo de eu chegar ali. Meus dedos encontraram o braço dele, a pele quente, viva, pulsando sob o toque.

Humano.

Frágil.

Meu.

— Vai ficar tudo bem…— sussurrei.

E dessa vez…eu realmente acreditei.

A agulha entrou.

Rápida.

Precisa.

Sem hesitação.

O líquido desapareceu sob a pele dele em segundos.

E então…

o mundo mudou.

Não devagar.

Não sutil.

Violento.

O corpo dele reagiu quase imediatamente.

Um espasmo.

Forte.

Involuntário.

O peito dele se ergueu de forma abrupta, como se tivesse sido puxado por uma força invisível, e então veio o som… um ar preso, falho, quebrado.

— Jake…— murmurei, a voz falhando pela primeira vez.

Os olhos dele se abriram.

Confusos.

Desorientados.

Assustados.

— B… Bella…— tentou dizer.

Mas a voz não saiu direito.

O corpo dele começou a tremer, os músculos contraindo de forma descontrolada, os dedos se fechando com força sobre o lençol, puxando, tentando encontrar algum tipo de apoio que não existia.

— Calma… calma…— disse eu, mas minha própria respiração já estava errada.

Rápida.

Alta.

Descompassada.

Aquilo não estava acontecendo como deveria.

Não assim.

— Respira…— murmurei, segurando o rosto dele, mas o olhar dele já estava perdido, os olhos focando e desfocando como se não conseguissem mais encontrar estabilidade.

O peito dele começou a subir rápido demais.

Rápido.

Irregular.

Errado.

— Não… não…— sussurrei, sentindo o coração disparar agora, forte, violento, batendo contra o peito como se quisesse sair.

O corpo dele arqueou.

E então…parou.

Silêncio.

Um silêncio absoluto.

Pesado.

Irreal.

— Jake?…

Nada.

Meu estômago despencou.

Minha visão ficou turva por um segundo.

— Jacob?— minha voz saiu mais alta agora.

Mas não havia resposta.

Não havia movimento.

Não havia nada.

Meu corpo reagiu antes da minha mente.

Eu me inclinei sobre ele, a mão indo direto para o peito, pressionando, sentindo…

Nada.

Nenhum ritmo.

Nenhuma resposta.

— Não…— sussurrei.

Meu coração disparou ainda mais.

— Não, não, não…

Minhas mãos começaram a tremer.

De verdade.

Pela primeira vez.

— Isso não era pra acontecer…— murmurei, pressionando o peito dele, tentando forçar alguma reação.

— Jake!— minha voz saiu quebrada.

Alta.

Desesperada.

Errada.

Nada.

Nada.

Nada.

O ar parecia não entrar mais nos meus pulmões, como se o próprio ambiente estivesse se fechando ao meu redor, como se tudo estivesse errado, completamente errado.

— Acorda!— gritei, sacudindo ele.

Mas o corpo dele já não respondia e naquele momento…

pela primeira vez…eu senti.

Pânico.

Real.

Cru.

Descontrolado.

Meu olhar caiu para o braço dele.

Para a marca.

Para a seringa.

Para o que eu fiz.

— Eu só queria…— minha voz falhou.

Eu só queria que você ficasse.

Meu corpo inteiro tremia agora, as mãos frias, a respiração quebrada, o coração batendo rápido demais para acompanhar qualquer pensamento lógico.

Eu puxei o celular.

Quase derrubando.

Os dedos falhando na tela.

Errando.

Voltando.

Tentando de novo.

— Atende… atende… atende…— murmurei.

Até que ele atendeu.

— Bella?— a voz de Félix veio do outro lado.

— Félix…— minha voz saiu irregular, falhando — Eu…

Eu olhei para o corpo na minha frente.

Imóvel.

Frio demais.

Errado demais.

— Eu fiz merda…— sussurrei.

Silêncio.

Curto.

Mas pesado.

— O que você fez?— perguntou ele, direto.

Minha respiração falhou.

— Eu… eu só queria que ele ficasse…— minha voz quebrou — eu dei uma dose maior… eu achei que…

— Bella.— a voz dele veio mais firme agora — ele tá consciente?

Eu olhei.

De novo.

Procurando qualquer sinal.

Qualquer coisa.

— Não…— sussurrei — Ele não tá respirando.

Silêncio.

Dessa vez… mais longo.

— Escuta com atenção — disse Félix, a voz controlada, precisa — Você vai fazer exatamente o que eu mandar.

Meu corpo inteiro estava tremendo.

Mas eu assenti.

Mesmo ele não podendo ver.

— Eu… eu não sei o que fazer…— murmurei.

— Eu sei.— respondeu ele.

E naquele momento…

eu me agarrei a isso.

Porque pela primeira vez desde que tudo começou…

eu não estava no controle.

E isso…isso era muito pior do que qualquer coisa que eu já tinha feito.