Before You - 3 Temporada
7 LUTO
“Você não deixou de ser o amor da minha vida…
você só se tornou a maior perda que eu vou carregar para sempre.”
POV BELLA
A morte não faz barulho quando decide ficar.
Ela chega no corpo… mas permanece no espaço.
No ar.
Nas paredes.
Nos objetos que ainda carregam o formato de quem já não está mais ali e foi isso que eu senti.
Não quando o coração dele parou ou quando eu percebi que não havia volta, mas depois.
Quando tudo ficou quieto demais.
Eu ainda estava ajoelhada ao lado da cama quando Félix chegou. Eu não lembro de ter aberto a porta, não lembro de ter dito nada, não lembro sequer de ter saído do lugar. Só lembro do som dos passos dele entrando no quarto, firmes, controlados, como se estivesse chegando para resolver mais um problema… e não para lidar com o fim de uma vida.
Ele parou ao meu lado.
Olhou.
Analisou e não houve choque.
Não houve reação,apenas cálculo.
— Quanto você deu? — perguntou.
Minha garganta estava seca.
— Mais do que antes…— murmurei.
Ele assentiu, como se aquilo confirmasse algo que já esperava.
— Certo.
Certo.
A palavra ecoou de um jeito errado dentro de mim.
— Ele morreu…— sussurrei.
Félix me olhou.
Direto.
— Sim.
Sim.
Sem suavizar, fingir ou me poupar.
E aquilo… foi o que me quebrou.
Não o que eu fiz, mas o fato de que não havia mais como desfazer.
— A gente precisa agir rápido — disse ele, já se movendo pelo quarto.
E então… tudo começou a acontecer.
Rápido.
Frio.
Eficiente.
Ele retirou qualquer coisa que não deveria estar ali, organizou o ambiente, apagou vestígios com precisão cirúrgica, transformando aquele quarto em algo… limpo demais. Como se nada tivesse acontecido. Como se Jacob nunca tivesse passado por aquele momento.
Como se ele nunca tivesse morrido ali.
— A gente vai usar o histórico dele — disse Félix, enquanto trabalhava.
Eu levantei o olhar.
— Histórico…?
— Sintomas. Fraqueza. Desmaios. Isso constrói uma narrativa.
Narrativa.
Eu senti um arrepio subir pela minha coluna.
— O que você vai fazer…?— perguntei.
Ele parou por um segundo.
Me encarou.
— O que precisa ser feito.
Silêncio.
Pesado.
Irreversível.
— Vai parecer natural…— continuou — Ninguém questiona o que faz sentido.
E aquilo…
aquilo fez sentido.
Mais do que deveria.
Dias depois…o mundo continuou, como sempre continua e isso foi o que mais me revoltou.
O sol nasceu, as pessoas falaram.
Os carros passaram, como se ele não tivesse ido embora ou se nada tivesse sido arrancado de mim.
O velório foi silencioso, não pela ausência de pessoas… mas pela ausência dele.
O caixão estava fechado.
Claro que estava.
E aquilo… tornava tudo mais fácil para os outros, mas não para mim.
Porque eu não precisava ver, eu já tinha visto.
Eu já sabia.
Eu estava de preto, sentada na primeira fileira, as mãos repousando no colo, imóveis demais, frias demais, como se não fossem mais parte de mim. Meu corpo estava ali… mas o resto… não.
— Sinto muito…— diziam.
Um atrás do outro, vozes diferentes.
Palavras iguais.
Vazias.
Eu assentia, mecanicamente.
Porque era isso que esperavam, mas dentro de mim…
não havia resposta.
Não havia nada.
Até que eu vi ela.
Renesmee.
Ela estava mais atrás, perto das últimas fileiras, como se não tivesse direito de estar ali… mas não conseguisse ficar longe. O rosto dela estava pálido, os olhos vermelhos, o corpo pequeno demais dentro do próprio luto.
E quando nossos olhares se encontraram…eu entendi.
Ela amava ele, não era dúvida ou suposição.
Era real, tão real quanto foi pra mim.
E aquilo…
aquilo me atravessou de um jeito diferente.
Não foi raiva.
Não naquele momento.
Foi reconhecimento.
Perda.
Espelhada.
Ela deu alguns passos na minha direção depois que as pessoas começaram a se dispersar. Hesitante. Incerta. Como se estivesse invadindo algo que não era dela.
Mas era.
De certa forma… também era.
— Eu…— a voz dela falhou e eu levantei o olhar.— Eu sinto muito…
Silêncio.
Eu observei o rosto dela.
Os olhos.
A dor.
E pela primeira vez…
eu não quis destruir.
— Eu também…— respondi.
Minha voz saiu baixa, quebrada, real e aquilo não era mentira.
Porque no fim…nós duas perdemos.
Mas só uma de nós sabia a verdade.
E isso…isso me destruiu de um jeito silencioso.
Os dias seguintes não foram dias, foram espaços vazios.
Sem começo, sem fim e sem forma.
A casa parecia maior.
Fria.
Errada.
Tudo ainda estava no lugar.
As roupas dele, os objetos, o cheiro e isso era insuportável.
Eu não tirava nada, não mexia em nada.
Porque tirar…significava aceitar.
E eu não aceitava.
Eu passava horas sentada no chão do quarto, encostada na cama, olhando para o espaço onde ele costumava estar, tentando lembrar da voz dele, do toque, do jeito como ele dizia meu nome como se fosse algo simples.
Como se amar fosse simples.
— Você prometeu…— murmurei uma noite, a voz falhando no meio da frase.
Prometeu que ficaria.
Prometeu que ia dar certo.
Prometeu que…
Silêncio.
O tipo de silêncio que responde.
E eu comecei a entender.
Não de uma vez, mas aos poucos.
Como tudo sempre acontece, ele não saiu da minha vida de uma forma comum.
Ele não foi embora.
Ele não me deixou.
Ele se tornou…a minha perda.
E existe uma diferença, porque quando alguém vai embora…
você pode culpar.
Mas quando alguém se torna uma perda…você só sente.
E sentir…era pior.
Muito pior.
Eu parei de sair, parei de responder.
Parei de existir fora daquele espaço.
Alice tentava.
Rosalie aparecia.
Emmett ficava em silêncio ao meu lado.
Mas nada…chegava até mim.
Porque tudo que eu tinha…era ele e tudo que sobrou…
foi a ausência.
Uma ausência que não gritava.
Não exigia, mas permanecia.
Constante.
Pesada.
E eterna.
— Você precisa comer…— disse Emmett uma vez, parado na porta.
Eu não respondi.
— Bella…
— Ele ia querer que eu ficasse bem…— murmurei.
Mais para mim do que para ele.
Silêncio.
— Então fica…— disse ele.
Eu soltei uma risada baixa.
Fraca.
— Eu não sei como.
E essa…foi a única verdade que eu consegui dizer.
Porque amar ele foi fácil.
Mas perder…não era.
E nunca seria.
Porque algumas pessoas…não deixam a sua vida.
Elas se tornam parte dela.
Mesmo depois de irem embora.
E Jacob…não deixou de ser o amor da minha vida.
Ele só se tornou…
a maior perda que eu vou carregar para sempre...
O tempo não passou.
Ele simplesmente… aconteceu.
Sem que eu percebesse, sem que eu acompanhasse, sem que eu participasse. As horas deixaram de ter sentido, os dias deixaram de ter nome, e tudo o que existia era aquele espaço entre acordar e voltar a fechar os olhos… não para dormir, mas para escapar.
Eu estava sentada no chão do quarto quando ouvi a porta da frente abrir.
Não me movi.
Não reagi.
Mas eu soube.
Alice.
Ela não fazia barulho ao entrar, nunca fez. Seus passos eram leves, quase inexistentes, como se ela soubesse exatamente como ocupar um espaço sem invadir. E talvez fosse por isso que ela sempre conseguiu chegar até mim… mesmo quando ninguém mais conseguia.
— Bella…— a voz dela veio baixa, cuidadosa.
Eu não olhei.
Não de imediato.
Meus olhos estavam presos no nada, naquele ponto invisível que eu vinha encarando há dias, como se em algum momento ele fosse me devolver alguma coisa.
— Você não desceu hoje…— disse ela, se aproximando.
Eu senti o peso leve dela ao se sentar ao meu lado, o tecido do vestido roçando no chão, o calor do corpo dela contrastando com o frio que parecia ter se instalado em mim.
Silêncio.
— Eu trouxe café…— continuou, colocando a xícara ao meu lado.
O cheiro chegou primeiro.
Quente.
Familiar.
E ainda assim… distante.
— Eu não quero…— murmurei.
Minha voz saiu baixa, arrastada, como se cada palavra exigisse esforço demais.
— Eu sei…— respondeu ela.
E aquilo…aquilo era o que fazia diferença.
Ela não insistia.
Ela não pressionava.
Ela só… ficava.
— Ele gostava de café forte…— falei, sem perceber.
Silêncio.
— Lembra?…— continuei, a voz falhando levemente — Ele sempre dizia que café fraco era desperdício de tempo…
Minha garganta apertou.
Forte.
Repentino.
— Eu fiz do jeito que ele gostava…— disse Alice, mais baixo.
E aquilo…
aquilo me quebrou.
De verdade.
O som que saiu de mim não foi um choro bonito.
Não foi contido.
Não foi silencioso.
Foi bruto.
Irregular.
Como se algo estivesse sendo arrancado de dentro de mim sem permissão.
Eu levei as mãos ao rosto, os dedos pressionando com força demais, tentando conter, tentando segurar… mas não dava.
— Eu não consigo…— minha voz saiu entrecortada — Eu não sei como fazer isso…
Alice não respondeu.
Ela apenas me puxou e eu deixei.
Meu corpo caiu contra o dela, fraco, pesado, como se eu não tivesse mais estrutura para me sustentar sozinha. Os braços dela me envolveram com firmeza, mas sem pressão, sem urgência… só presença.
— Eu sei…— sussurrou ela, passando a mão pelo meu cabelo — Eu sei…
E pela primeira vez…eu não precisei fingir.
A porta abriu de novo.
Dessa vez com mais peso.
Rosalie.
Eu senti antes mesmo de ver.
A presença dela sempre foi mais intensa, mais marcada, mais difícil de ignorar. E naquele momento… ela não tentou esconder.
— Bella…— disse ela.
A voz saiu mais baixa do que o normal.
Mais… humana.
Eu levantei o rosto devagar, os olhos ainda embaçados, encontrando os dela.
E Rosalie…não estava perfeita.
O cabelo estava preso de qualquer jeito, a maquiagem inexistente, os olhos vermelhos, inchados.
Ela também tinha perdido.
Talvez não da mesma forma.
Mas ainda assim… perdido.
Ela deu alguns passos na minha direção, sem hesitar, sem medir e quando chegou perto… não falou.
Não perguntou.
Não analisou.
Ela simplesmente se ajoelhou e me abraçou.
Forte.
De verdade.
Diferente da Alice.
Menos leve.
Mais… ancorado.
Como se estivesse segurando não só meu corpo… mas tudo que eu estava prestes a deixar desmoronar.
— Você não tá sozinha…— disse ela, a voz firme, mesmo com a falha escondida entre as palavras.
Eu fechei os olhos.
E pela primeira vez desde que tudo aconteceu…
eu acreditei.
Nem que fosse por um segundo.
Nem que fosse fraco, mas eu acreditei.
Nós ficamos assim por um tempo que eu não sei medir.
Porque quando você está quebrando…o tempo não funciona.
Ele não avança.
Ele só… se dissolve.
Até que outro som veio, mais alto.
Mais presente.
Passos.
Mais de um.
A porta abriu novamente.
E dessa vez…
eu levantei o olhar.
Jasper entrou primeiro.
Como sempre fazia.
Silencioso.
Observador.
Mas diferente.
Os olhos dele estavam mais pesados, mais atentos, como se estivesse sentindo tudo ao redor com intensidade demais. Ele não falou nada, apenas me olhou por um segundo… e assentiu levemente.
Como se dissesse:
“Eu tô aqui.”
Emmett veio logo atrás e quando eu vi ele…alguma coisa dentro de mim reagiu.
Porque Emmett sempre foi força e estabilidade.
Sempre foi… casa.
Ele parou por um segundo na porta, me olhando.
De verdade.
Sem máscara.
Sem leveza.
Sem aquela energia fácil que ele sempre carregava.
— Bella…— disse ele.
E a forma como ele falou meu nome…foi o suficiente.
Eu me soltei das meninas antes mesmo de perceber, me levantando com dificuldade, as pernas fracas, o corpo pesado, mas ainda assim… indo até ele.
E quando cheguei…eu não pensei.
Eu abracei, com força.
Desesperado.
Como se ele fosse a única coisa que ainda fazia sentido e talvez fosse.
— Eu não consigo…— murmurei contra o peito dele.
A voz abafada.
Quebrada.
— Eu sei…— respondeu ele, a mão firme nas minhas costas — Eu sei…
E ele não tentou consertar, não tentou explicar.
Não tentou melhorar.
Ele só… ficou.
Paul e Quill entraram logo depois.
Mais quietos do que o normal.
Mais contidos.
Mais… conscientes.
E quando se aproximaram…não houve piada.
Não houve leveza.
Só presença.
Paul foi o primeiro a me abraçar.
Rápido.
Forte.
Quase protetor.
E Quill veio logo depois, os dois me envolvendo como se estivessem tentando garantir que eu não fosse cair de novo.
E talvez… estivessem.
Porque naquele momento…eu realmente podia.
Nós acabamos todos no chão, sem perceber como.
Sem decidir.
Simplesmente… acontecendo.
Alice ainda ao meu lado.
Rosalie com a mão na minha.
Emmett encostado atrás de mim.
Jasper próximo.
Paul e Quill ali.
E pela primeira vez desde que ele se foi…o vazio não era total.
Ele ainda estava ali.
Mas não sozinho.
E isso…isso fez diferença.
Pequena, mas fez.
Eu respirei fundo.
Sentindo o ar entrar com dificuldade, mas entrar.
Sentindo o calor ao meu redor.
Sentindo o peso.
Sentindo… presença.
E pela primeira vez…eu não estava apenas sobrevivendo.
Eu estava sendo segurada.
E talvez…só talvez…isso fosse o começo de alguma coisa.
Ou pelo menos…o começo de não desmoronar sozinha.
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