Before You - 3 Temporada

9 SEU NOME NÃO É ESSE


“Algumas pessoas mentem sobre quem são…

outras apenas esperam o momento certo para revelar.”

POV BELLA

Desconfiar nunca foi um erro, foi sobrevivência.

Eu aprendi cedo demais que nada deve ser aceito como é apresentado, que as pessoas constroem versões de si mesmas para serem aceitas, desejadas, toleradas. E quanto mais perfeita a superfície… maior a chance de haver algo escondido por baixo.

E você…

você não parecia perfeito.

Você parecia… calculado.

E isso era pior.

Eu estava no escritório quando chamei Félix. O ambiente estava silencioso, organizado, exatamente como deveria ser, mas havia algo em mim que não estava. Uma inquietação leve, constante, como uma peça fora do lugar que eu ainda não tinha identificado completamente.

— Félix…— chamei, sem tirar os olhos da mesa.

Ele entrou como sempre fazia.

Sem pressa.

Sem surpresa.

— Aconteceu alguma coisa?— perguntou.

Direto.

Sempre direto.

Eu levantei o olhar devagar.

— Eu preciso que você descubra tudo sobre alguém…— disse.

Ele não reagiu imediatamente.

— Nome?— perguntou.

Silêncio.

Eu apoiei as mãos na mesa, sentindo a superfície fria contra a pele, usando aquilo para manter o controle enquanto organizava as palavras.

Anthony Masen.

O nome soou errado, de novo.

Félix inclinou levemente a cabeça.

— Algum motivo específico?— perguntou.

Eu sustentei o olhar dele.

— Ele observa demais…— murmurei.

E aquilo foi o suficiente, porque Félix me conhecia.

— Entendi…— disse ele.

Silêncio.

— Quero tudo — continuei — Origem, histórico, conexões… tudo.

Ele assentiu.

— Eu te aviso.

Simples e eficiente, como sempre.

Mas dessa vez…não foi suficiente.

Porque enquanto ele saía…eu ainda sentia.

Você.

Presente, errado e eu não gosto de coisas que não fazem sentido.

Os dias seguintes não foram dias, foram observação.

Eu não procurei você, mas passei a perceber mais.

Muito mais.

E foi assim que eu descobri.

Você não era só parte do complexo.

Você estava… próximo demais.

A primeira vez que eu te vi fora dali foi por acaso.

Ou pelo menos… foi o que pareceu.

Eu estava estacionando em frente ao prédio da Rosalie, o carro ainda ligado, a mão no volante, quando te vi saindo do prédio ao lado.

Passos calmos, postura relaxada , como se aquele espaço fosse seu e isso chamou minha atenção imediatamente.

Você era vizinho.

Meu coração bateu mais forte, não de emoção.

De reconhecimento.

Padrão.

Conexão.

— Interessante…— murmurei, desligando o carro.

Eu não saí imediatamente, fiquei ali observando.

Você caminhando.

Sem pressa.

Sem distração.

Sem fingir.

Como sempre.

E isso…

isso confirmou.

Você não estava ali por acaso.

Eu entrei no prédio da Rosalie ainda com aquela sensação leve de alerta percorrendo meu corpo, uma atenção mais afiada do que o normal, como se cada detalhe ao meu redor tivesse se tornado relevante.

Rosalie abriu a porta com o cabelo preso de qualquer jeito, roupas simples, expressão cansada.

Real.

Sempre real.

— Bella…— disse ela, surpresa — você não avisou.

— Eu estava passando…— respondi.

Mentira.

Ela deu espaço.

— Entra.

Eu entrei, mas minha mente…não estava ali.

— Você conhece o vizinho novo?— perguntei, casual demais.

Ela franziu levemente o cenho.

— Qual?

— O do apartamento ao lado…— respondi, indo até a janela.

Ela deu de ombros.

— Ah… o esquisito?

Aquilo me fez parar.

— Esquisito?— repeti.

Rosalie encostou na parede, cruzando os braços.

— Ele não fala com ninguém, fica olhando as pessoas como se estivesse analisando tudo… meio estranho.

Silêncio.

— Bree gosta dele…— completou.

Aquilo… me chamou atenção.

— Gosta?— perguntei.

— É… ele é gentil com ela, ajuda com algumas coisas, mas sei lá… ainda acho esquisito.

Gentil.

Com Bree.

Interessante.

Eu me aproximei da janela novamente.

E então…você apareceu.

Perfeito demais, como se estivesse sincronizado com o momento.

Eu peguei o celular devagar.

Sem pressa.

Sem levantar suspeita.

A câmera abriu.

Meu dedo ajustou o ângulo.

E então…eu tirei a foto.

Discreta.

Precisa.

Minha respiração ficou mais lenta, controlada.

Como sempre fica quando eu tomo uma decisão.

Eu não disse nada.

Não expliquei.

Apenas guardei o celular.

Mas naquele momento…já estava feito.

Horas depois, no meu quarto, a luz baixa, o silêncio mais pesado, eu encarei a tela do celular por alguns segundos antes de enviar.

Para Félix.

Sem mensagem.

Ele entendeu.

Sempre entende.

A resposta veio mais rápido do que eu esperava.

— Você tem certeza que é ele?— perguntou.

Eu franzi levemente o cenho.

— Sim.

Silêncio.

— Isso não faz sentido…— disse ele.

Meu estômago se contraiu.

— O que você quer dizer?— perguntei.

Pausa.

— Esse homem… não é Anthony Masen.

O mundo não parou, mas algo dentro de mim…

sim.

— Como assim?— minha voz saiu mais baixa.

— Não existe nenhum Anthony Masen com esse histórico — respondeu Félix — pelo menos não esse.

Meu coração começou a bater mais forte, mais rápido e certo.

— Então quem é ele?— perguntei.

Silêncio.

Mais longo dessa vez.

Pesado.

E então…

— Edward Cullen.

O nome caiu como algo que não devia existir.

Estranho.

Familiar.

Errado.

Meu corpo reagiu antes da minha mente.

Um leve arrepio subindo pela coluna, a respiração falhando por um segundo, os dedos apertando o celular com mais força do que o necessário.

— Tem certeza?— murmurei.

— Absoluta — disse Félix — Esse é o nome dele.

Silêncio.

Denso.

Irreversível.

Eu encarei a foto na tela.

Você.

Mas não você.

Edward.

— Então por que ele mentiu?— perguntei.

— Essa é a pergunta certa…— respondeu Félix.

Sim.

Era.

Mas não era a única, porque naquele momento…

eu entendi uma coisa.

Você não apareceu por acaso.

Você não observa por curiosidade.

Você não está ali… sem motivo.

E isso muda tudo...

Minha respiração desacelerou, meu corpo relaxou.

Mas não por calma, por clareza, porque agora…não era mais sobre curiosidade.

Era sobre descobrir.

— Continua investigando…— murmurei.

— Claro.

Eu desliguei.

O silêncio voltou.

Mas dessa vez…não era confortável.

Eu olhei para a foto novamente.

Para você.

Para Edward.

— Quem é você…?— sussurrei.

E pela primeira vez…eu senti.

Não medo.

Não dúvida.

Mas algo mais perigoso.

Interesse.

Porque mentiras…sempre escondem algo.

E eu…sempre descubro.


O problema nunca foi você mentir.

O problema… foi eu perceber.

Porque quando eu percebo, eu não consigo parar.

Não consigo ignorar, não consigo fingir, não consigo simplesmente seguir em frente como se aquilo não existisse. Eu preciso entender. Preciso desmontar, analisar, reconstruir até que tudo faça sentido dentro de mim.

E você… não fazia sentido e isso só me puxava mais.

Os dias passaram de forma silenciosa depois que Félix me disse o seu nome. Edward Cullen. Eu repeti mentalmente mais vezes do que gostaria de admitir, testando o peso, a sonoridade, tentando encaixar aquilo em você.

Não encaixava, mas também não rejeitava.

E isso…isso era pior.

Porque significava que você era maior do que qualquer nome e eu odeio coisas que eu não consigo reduzir.

Mesmo assim… eu me aproximei.

Ou talvez tenha sido você.

Não houve um momento exato onde isso aconteceu. Não houve uma decisão clara, um ponto de virada. Foi gradual. Natural demais. Perigoso demais.

Você começou a falar mais comigo, não muito, mas o suficiente.

— Você sempre passa aqui no mesmo horário…— você disse uma tarde, encostado no balcão.

Eu não olhei imediatamente.

— Coincidência…— respondi.

— Você não parece alguém que acredita nisso…— você murmurou.

Silêncio.

Eu levantei o olhar.

— E você parece alguém que observa demais.

— Eu observo o que importa…— você disse.

E aquilo…ficou.

Porque você estava me incluindo.

Sem dizer.

Mas incluindo e eu deixei.

Eu comecei a demorar mais na livraria, a criar pequenas justificativas para estar ali, a sustentar conversas que eu normalmente encerraria. E você… nunca forçava.

Você esperava.

E esperar…funciona comigo.

Porque me dá a ilusão de controle e eu gosto de ilusões bem construídas, mas ainda assim…eu não parei de observar.

Nunca parei... E foi isso que me levou até aquela noite.

Eu estava no carro, estacionada em frente ao prédio da Rosalie, o motor desligado, as mãos repousando no volante, mas o corpo inteiro atento. Eu já tinha visto você entrando naquele prédio antes, mas dessa vez… algo parecia diferente.

Você saiu, passos rápidos.

Mais tensos, diferente do padrão.

E isso foi o suficiente.

Eu não pensei.

Eu segui.

Distância segura.

Movimento controlado.

Respiração estável.

Você entrou em uma casa e eu conhecia aquela casa...

Minutos.

Talvez mais.

O tempo ficou estranho naquele momento, dilatado, impreciso, como se estivesse segurando algo que ainda não tinha forma.

E então…o som.

Um impacto.

Um movimento brusco.

Meu corpo reagiu antes da minha mente.

Eu me aproximei, devagar.

Silenciosa.

E vi...

Você.

E ele.

James.

O corpo dele já não reagia.E você…você estava completamente diferente.

Não era o homem da livraria.

Não era o homem que falava baixo, que observava em silêncio, que parecia sempre um passo atrás.

Você era…preciso.

Frio.

Decidido.

Perigoso.

Meu coração não disparou, ele desacelerou.

Porque naquele momento…tudo fez sentido.

E isso foi o pior.

Eu não fiquei.

Não confrontei.

Não reagi.

Eu fui embora,porque eu não precisava ver mais.

Eu já tinha entendido.

E entender…sempre foi o suficiente.

Quando voltei para o prédio da Rosalie, minha mente estava clara.

Assustadoramente clara, como sempre fica quando eu tomo uma decisão importante.

Eu subi.

Toquei a campainha.

Nada.

— Rosalie?…— chamei.

Silêncio.

Eu respirei fundo, me virando levemente.

— Bella?— a voz de Bree veio da varanda.

Eu olhei.

Ela estava ali, encostada na grade, o cabelo bagunçado, expressão leve.

— Oi…— respondi, me aproximando.

— A Rosie saiu…— disse ela.

— Eu percebi…— murmurei.

Silêncio.

— Você veio ver ela ou…?— Bree perguntou, curiosa.

Eu dei um pequeno sorriso.

— Só estava passando.

Mentira, como sempre.

Nós começamos a conversar.

Coisas simples, amenidades.

Nada importante.

Nada real.

Mas o suficiente para parecer normal.

Até que…eu senti.

Antes de ver.

De novo.

Aquela mudança mínima no ar.

E então você apareceu no corredor.

E dessa vez…eu já sabia.

Meu sorriso desapareceu imediatamente.

— Anthony…— eu disse, franzindo levemente a testa — o que aconteceu com seu rosto?

O corte no seu supercílio estava aberto, o sangue já seco em algumas partes, mas ainda escorrendo em outras.

Eu observei, atenta e detalhista.

Como sempre.

— Um bêbado — você respondeu.

Rápido demais...Errado de mais...

— Um bêbado?— Bree perguntou, incrédula.

— Na rua…— você completou — Ele trombou comigo e decidiu que seria uma boa ideia tentar brigar.

Bree riu.

Alto.

Descontrolado.

— Você apanhou de um bêbado?

Eu virei para ela imediatamente.

— Bree!— disse, repreendendo.

Mas não era por você, era pelo controle.

Eu não gosto quando as coisas saem do controle.

Eu voltei minha atenção para você.

E dessa vez…eu me aproximei.

Mais perto.

Mais direta.

— Isso está aberto…— murmurei — Você precisa limpar isso.

— Eu estou bem…— você disse.

Mentira.

Óbvia.

— Não está…— respondi, cruzando os braços — Eu cresci com Emmett… sei reconhecer quando alguém está fingindo que não precisa de ajuda.

Silêncio e então…eu decidi.

— Seu apartamento…— disse.

Você me olhou.

— Vamos limpar isso.

Eu não pedi.

Eu conduzi.

E você…veio.

O apartamento era silencioso, organizado.

Mas não vivido.

Como você.

Eu caminhei com naturalidade, como se já conhecesse o espaço, como se já tivesse estado ali antes.

E talvez…de alguma forma…eu já estivesse.

— Caixa de primeiros socorros?— perguntei.

Você apontou.

Eu peguei.

Voltei.

— Senta…— disse, batendo levemente no sofá.

Você obedeceu.

E isso…isso foi interessante.

Eu me aproximei, segurando a gaze, molhando levemente, sentindo a textura fria entre os dedos.

— Vai arder…— avisei.

Ardeu.

Eu vi.

Mas você não reclamou.

E enquanto eu limpava…eu observei.

Seu rosto.

Sua expressão.

Seus olhos.

Sempre seus olhos.

— Você tem uma péssima sorte…— murmurei.

— Talvez…— você disse.

— Ou talvez você procure problemas…— continuei.

Silêncio.

Eu pressionei a gaze, com cuidado.

Mais próximo agora.

Muito mais próximo.

E então…eu levantei o olhar.

Nossos rostos estavam a centímetros.

E naquele momento…eu senti.

De novo.

Mas mais forte.

Mais claro.

Mais perigoso.

— Você guarda muita coisa…— murmurei.

Você não negou e isso foi o suficiente, o silêncio entre nós não era vazio.

Era carregado.

Pesado.

Cheio de coisas que ainda não tinham sido ditas.

E então…eu fiz.

Sem pensar ou talvez pensando demais.

Eu te beijei.

Não foi impulsivo.

Foi inevitável.

Como se aquele momento já estivesse decidido antes mesmo de acontecer.

O beijo começou lento.

Cauteloso.

Mas não ficou assim.

Porque havia tensão acumulada demais, silêncio demais, coisas não ditas demais.

E quando nos afastamos…minha respiração estava errada.

— Isso é uma péssima ideia…— murmurei.

Mas eu não me movi e você também não.

E isso…isso foi o suficiente.

Porque algumas decisões não são feitas.

Elas só…acontecem.

E naquela noite…eu deixei acontecer.

E pela primeira vez em muito tempo…eu não pensei nele.

E isso… deveria ter me assustado mais do que assustou.

Mas não assustou, porque naquele momento…você era suficiente.

E talvez…esse tenha sido o erro ou o começo de um ainda maior.