Before You - 3 Temporada
12 O QUE EU FIZ POR VOCÊ
“Existem escolhas que não parecem escolhas…
até que você percebe que nunca houve outra opção.”
POV BELLA
O silêncio depois de algo irreversível não é vazio… ele é preciso. Não existe mais aquele ruído constante de dúvida, aquele peso difuso que se espalha pelo corpo sem forma definida. O que sobra é outra coisa, mais organizada, mais limpa, quase confortável. Como se todas as peças finalmente se encaixassem, como se o mundo deixasse de ser um espaço imprevisível e passasse a funcionar dentro de uma lógica simples, direta, inevitável. Foi isso que eu senti quando atravessei a porta de casa naquela noite. Meus passos não eram pesados, não eram arrastados, não carregavam culpa como deveriam carregar. Pelo contrário, eram estáveis, ritmados, controlados, como se cada movimento tivesse sido previamente decidido muito antes de acontecer. O cheiro da casa ainda era o mesmo, uma mistura leve de madeira polida com algo mais doce que vinha da cozinha, um cheiro que sempre me lembrava de normalidade, de rotina, de algo que deveria ser seguro. E isso me incomodou mais do que qualquer outra coisa, porque nada ali era mais normal, nada ali era mais seguro, nada ali era mais… inocente. E ainda assim, tudo permanecia igual, como se o mundo estivesse se recusando a acompanhar o que tinha mudado dentro de mim.
Eu caminhei até o corredor devagar, meus dedos roçando pela parede, sentindo a textura lisa contra a ponta dos dedos, como se aquilo me ancorasse no presente, como se eu ainda precisasse de algo físico para não me perder completamente dentro do que estava acontecendo na minha cabeça. Minha respiração estava estável, mas havia uma pressão leve no peito, constante, como um lembrete de que algo tinha sido deslocado, de que alguma parte de mim não estava mais exatamente onde deveria estar. E então veio a lembrança, não como um flash caótico ou um colapso emocional, mas como algo organizado, sequencial, inevitável. Eu não tentei evitar. Eu nunca evito. Porque evitar é perder controle, e eu não perco controle… eu analiso.
Eu já sabia que havia algo errado antes mesmo de encontrar aquele lugar. Pequenos detalhes, pequenas ausências, pequenos atrasos que não combinavam com você. Você era preciso demais para deixar pontas soltas, controlado demais para cometer erros óbvios. E quando alguém assim começa a apresentar falhas… não são falhas. São pistas. E eu sempre sigo pistas. Foi isso que me levou até lá, até aquela porta que não deveria existir, até aquele espaço que parecia fora da lógica do resto do mundo. O ar mudou no momento em que entrei. Ficou mais frio, mais denso, como se carregasse algo que não pertencia à superfície, como se ali dentro… a verdade não precisasse se esconder.
E então eu vi.
A estrutura de vidro ocupava o centro do ambiente de forma impossível de ignorar, refletindo a luz de maneira limpa demais, perfeita demais, como se aquilo tivesse sido construído não apenas para conter… mas para ser observado. E dentro dela… eles. Meu corpo não reagiu imediatamente, mas não foi choque. Foi reconhecimento. Foi a sensação clara, direta, de que tudo fazia sentido agora. De que aquilo explicava você. De que aquilo explicava o que eu tinha visto, o que eu tinha sentido, o que eu não consegui ignorar. Rosalie estava encostada no vidro, o corpo mais magro do que deveria, os olhos cansados, mas ainda vivos, ainda intensos, ainda… ela. E quando me viu, tudo mudou.
— Bella…— a voz dela saiu falha, arranhada, carregada de algo que eu não consegui identificar de imediato.
Meu coração apertou.
Forte.
Rápido.
Quente.
— Bella, por favor…— disse ela, se aproximando do vidro, as mãos pressionando contra a superfície transparente.
Eu me aproximei.
Devagar.
Sempre devagar.
Porque pressa nunca foi minha forma de agir.
Anthony estava ao lado dela, mais tenso, mais desesperado, o corpo inteiro carregando uma urgência que já denunciava o que ele iria dizer antes mesmo de abrir a boca.
— Ele é um psicopata…— disse ele, direto, sem filtro — Você precisa tirar a gente daqui agora.
Silêncio.
Eu observei.
Cada detalhe.
A respiração irregular.
O tremor leve nas mãos.
O brilho nos olhos da Rosalie.
Confiança.
E aquilo…
aquilo foi o que mais doeu.
Porque ela confiava em mim.
— A gente precisa ir na polícia…— continuou Anthony, mais rápido agora, mais alto — Ele não pode continuar fazendo isso.
Polícia.
A palavra caiu dentro de mim como algo errado, como uma peça que não encaixava no lugar certo. Minha mente começou a trabalhar imediatamente, conectando, organizando, projetando consequências antes mesmo que eu precisasse pensar conscientemente sobre elas. Se eles saíssem dali… você acabava. Se eles falassem… você acabava. Se eles existissem… você acabava.
Meu corpo relaxou, minha respiração desacelerou e a decisão veio.
Clara.
Simples.
Necessária.
— Eu vou tirar vocês daqui…— murmurei, e a minha voz… foi a coisa mais próxima de sinceridade que eu já disse naquele momento.
Porque eu ia, só não da forma que eles esperavam.
Eu encontrei o mecanismo sem dificuldade, como se já soubesse onde procurar, como se alguma parte de mim já tivesse entendido tudo antes mesmo de chegar ali. O som da trava abrindo foi baixo, quase inexistente, mas suficiente para alterar o ar ao redor. Rosalie foi a primeira a se mover, praticamente caindo para fora da gaiola, o corpo fraco demais, mas ainda tentando, ainda lutando. E quando ela segurou meu braço… o toque dela me atravessou.
Quente.
Real.
Humano.
— Bella…— disse ela, os dedos apertando minha pele como se eu fosse… salvação.
E naquele momento…eu quase fui.
Quase.
Anthony se aproximou rápido demais, falando rápido demais, tentando controlar uma situação que ele já não tinha mais controle.
— A gente precisa sair daqui agora— disse ele, olhando ao redor, tenso — Antes que ele volte.
Erro.
Sempre é o desespero que entrega.
Eu me aproximei dele primeiro, porque era mais lógico, mais rápido, mais eficiente. Minha mão deslizou para dentro do bolso com naturalidade, sentindo a seringa entre os dedos, o líquido frio, estável, silencioso. A agulha entrou com precisão, sem hesitação, e o corpo dele reagiu quase imediatamente, um espasmo, um olhar de confusão que não teve tempo de se transformar em compreensão.
— O que você…— começou.
Mas não terminou.
Nunca terminam.
Ele caiu.
E o silêncio voltou.
Mas dessa vez…diferente.
Mais pesado.
Mais definitivo.
— Bella…?— a voz dela veio atrás de mim assustada.
Eu virei e vi, o momento exato em que ela entendeu.
Não houve grito.
Não houve histeria.
Houve… quebra.
— Não…— sussurrou ela.
E aquilo…aquilo foi pior do que qualquer outra coisa.
Porque não havia raiva.
Só… dor.
— Eu preciso proteger…— comecei, mas as palavras não se sustentaram.
Porque não existia explicação suficiente, nunca existe.
— A gente ia te ajudar…— disse ela.—Eu só queria proteger você...
Meu peito apertou.
Forte.
Quente.
Errado.
— Eu não posso perder ele,Rosie…— murmurei, e dessa vez… foi verdade.
Crua.
Inteira.
Irreversível.
Eu me aproximei dela devagar, cada passo mais pesado do que o anterior, como se o chão estivesse tentando me impedir, como se alguma parte de mim ainda estivesse lutando contra aquilo.
— Eu sinto muito…— sussurrei, segurando o rosto dela.
E eu sentia mesmo, de verdade.
— Eu te amo…— disse ela.
E aquilo…aquilo me destruiu.
Não de forma visível.
Mas interna.
Profunda.
Silenciosa.
— Eu também …— respondi.
E então…eu fiz.
Mais devagar.
Mais consciente.
A agulha entrou e eu senti, senti cada segundo, cada micro reação, cada respiração falhando lentamente enquanto os olhos dela não saíam dos meus nem por um instante.
Eu fiquei.
Até o fim.
Porque ela merecia.
Ela merecia não ser deixada sozinha.
Quando tudo acabou… eu ainda estava ali, segurando ela, sentindo o corpo ficar leve demais, quieto demais, errado demais.
E eu não chorei, porque aquilo não era sobre tristeza.
Era sobre escolha.
E eu escolhi você.
Mesmo que isso significasse perder ela, perder todos, perder… qualquer coisa que ainda restasse de quem eu fui um dia.
E quando me levantei… não havia dúvida.
Não havia arrependimento.
Só… certeza.
Porque no fim…não foi sobre matar.
Foi sobre garantir e eu sempre garanto.
Mesmo quando o preço… sou eu.
Fale com o autor