Before You - 3 Temporada
13 AQUILO QUE EU PROTEJO
“Algumas verdades não precisam ser escondidas…
elas só precisam ser sustentadas pela pessoa certa.”
POV BELLA
O luto não é um evento… é um estado contínuo que se infiltra nos detalhes mais pequenos, nas pausas entre uma respiração e outra, na forma como o corpo demora um segundo a mais para responder a algo simples, como se tudo estivesse sendo processado em uma camada mais profunda, mais lenta, mais pesada. E o mais interessante sobre ele… é que ninguém percebe quando não é verdadeiro. Porque o luto tem muitas formas, muitos ritmos, muitas manifestações possíveis. Algumas pessoas choram, outras gritam, outras se isolam… e algumas continuam exatamente iguais. Funcionando. Sorrindo. Conversando. Existindo como se nada tivesse mudado, quando na verdade… tudo mudou. E eu aprendi muito cedo que a forma mais segura de sentir… é não demonstrar.
Mas sentir… eu sentia, cada segundo, espaço ou silêncio.
O Complexo Higginbotham parecia igual naquela manhã, mas havia uma diferença sutil que só alguém como eu conseguiria perceber. As pessoas estavam mais próximas umas das outras, as conversas mais baixas, os olhares mais atentos, como se algo estivesse deslocado mesmo que ninguém ainda soubesse exatamente o quê. E eu caminhei por aquele espaço com a mesma postura de sempre, os ombros relaxados, o olhar neutro, o ritmo constante, como se estivesse perfeitamente integrada àquele cenário… quando na verdade eu estava observando tudo de fora.
Sempre de fora, foi então que eu vi.
Ela.
Sophie.
Ou melhor…
A nova namorada do Emmett...
O cabelo ruivo capturava a luz de forma quase agressiva, vibrante demais, chamativa demais, como se existisse ali uma necessidade constante de ser vista, de ocupar espaço, de provocar reação. O corpo dela estava inclinado levemente na direção de Emmett, próximo demais, confortável demais, como se já tivesse encontrado um lugar ali dentro… como se já tivesse se infiltrado.
E aquilo…me incomodou, não pelo que ela era, mas pelo que ela queria.
— Bella…— a voz dela veio antes mesmo de eu me aproximar completamente.
Doce.
Artificial.
Controlada.
Eu parei a poucos passos de distância, cruzando os braços lentamente, sentindo a tensão leve nos dedos, quase imperceptível, mas presente.
— Sophie…— respondi, mantendo o tom neutro.
Ela sorriu, mas não com os olhos.
— Você deveria tomar cuidado com ele…— disse ela, se inclinando levemente na minha direção, como se estivesse compartilhando um segredo.
Meu estômago se contraiu.
Micro.
Controlado.
— Com o Anthony?— perguntei, inclinando a cabeça, observando cada micro expressão dela.
— Sim…— respondeu.
Simples.
Direto.
Perigoso.
Antes que eu pudesse responder, senti a presença.
Você.
— Meu amor…— sua voz veio suave, natural, perfeita demais para o que estava acontecendo ao redor.
Seu beijo na minha testa foi preciso, calculado, mas ainda assim… funcionou. Meu corpo respondeu automaticamente, relaxando um pouco, inclinando levemente na sua direção, permitindo o toque.
— Oi, lindo…— murmurei, me apoiando de leve em você.
Sophie inclinou a cabeça, analisando, sempre analisando.
— Estávamos falando de você…— disse ela, com aquele sorriso que não era sorriso.
— Imagino…— você respondeu, no mesmo tom leve.
Perfeito.
Vocês dois eram perfeitos nisso.
Mentiras bem executadas.
Mas eu…eu era melhor em observar.
Eu te puxei levemente para o lado, meus dedos envolvendo os seus com firmeza suficiente para te conduzir, mas leve o bastante para parecer natural.
— Você conhece a Sophie?— perguntei, olhando direto para você.
Você respirou, com uma micro pausa.
Escolha.
— Sim…— respondeu.
— Como?— questionei, franzindo levemente o cenho.
E então… você fez aquilo que sempre fazia.
Atuou.
— Porque o nome dela não é Sophie…— disse, baixo, segurando minhas mãos com mais força.
Meu corpo reagiu.
— O quê?— murmurei.
— O nome dela é Victoria…— continuou — ela é minha ex-namorada.
Silêncio.
Eu observei você.
Cada detalhe.
Cada micro reação.
Cada hesitação.
E mesmo assim…eu escolhi.
— Eu terminei com ela anos atrás…— você continuou — ela não lidou bem com isso.
Eu olhei para ela novamente, analisando a forma como ela tocava Emmett, como sorria, como ocupava espaço.
— Você está me dizendo que ela está usando o meu irmão?— perguntei, sentindo algo subir pelo peito.
Raiva.
Proteção.
Controle.
— Eu acho que ela nunca superou…— você disse.
Mentira.
Talvez.
Mas útil.
— Isso é… muito estranho…— murmurei.
— Eu sei…— você respondeu.
Silêncio.
E então…eu decidi.
— Eu acredito em você…— disse, segurando sua mão, acariciando seus dedos lentamente.
Porque acreditar… é uma escolha.
E eu sempre escolho o que me favorece.
Mas mesmo enquanto dizia aquilo…algo em mim não estava estável.
Porque Rosalie…Rosalie não estava ali.
E o vazio que ela deixou não era visível para ninguém além de mim.
— Bella…— Alice apareceu ao meu lado mais tarde, a voz suave, mas carregada de preocupação — Você não tá bem.
Eu sorri.
Pequeno.
Controlado.
— Tô sim…— respondi.
Mentira.
— Não tá…— insistiu ela, tocando meu braço — você tá… diferente.
Diferente.
Interessante.
— Eu só tô preocupada com a Rosalie…— murmurei, desviando o olhar.
E dessa vez…não foi completamente mentira.
Porque eu estava, só não da forma que eles imaginavam.
Emmett apareceu logo depois, o rosto mais sério do que o normal, os olhos atentos, analisando.
— Você falou com ela antes de ela sumir…— disse ele.
Meu corpo travou.
Micro.
Quase imperceptível.
— O quê?— perguntei, franzindo o cenho.
— Pelo meu celular…— continuou ele — lembra?
Lembro.
Claro que lembro.
Cada segundo.
Cada palavra.
Cada detalhe.
— Eu… não lembro direito…— murmurei, passando a mão pelo cabelo, como se estivesse tentando organizar algo confuso.
Atuação.
Simples.
Eficiente.
Ele me observou por alguns segundos, mas não insistiu.
Porque ele confia em mim, sempre confiou e isso…sempre foi útil.
Félix me encontrou pouco depois, como sempre fazia quando algo precisava ser dito longe de todos.
— A ruiva…— comecei, antes mesmo que ele falasse.
— Já tô vendo…— respondeu ele — quer que eu descubra?
— Quero tudo…— murmurei — quem ela é, de onde veio, o que quer.
Silêncio.
— E rápido.
Ele assentiu.
Sempre eficiente.
Sempre necessário.
— E a Rosalie?— perguntei, antes que ele se afastasse.
Ele me olhou.
Diferente.
— Ainda nada…— respondeu.
Ainda nada, mas eu sabia.
Sempre soube.
O dia passou mais lento do que deveria, cada minuto se arrastando como se o tempo tivesse decidido desacelerar apenas para me obrigar a sentir cada detalhe com mais intensidade. O ar parecia mais pesado, o som das vozes mais distante, como se tudo estivesse acontecendo em um plano levemente deslocado da minha realidade. E talvez estivesse. Porque enquanto todos ali viviam a expectativa da ausência, a incerteza, a dúvida… eu vivia a certeza.
E certezas… são solitárias.
Foi no final da tarde que tudo mudou.
O carro de polícia.
As vozes.
O movimento.
E então…a notícia.
— Encontraram um corpo…— disse alguém.
Meu coração não acelerou.
Ele desacelerou, como sempre faz quando algo importante acontece.
— É a Rosalie…— completaram.
Silêncio.
O mundo ao meu redor reagiu.
Alice levou a mão à boca.
Emmett travou.
As pessoas começaram a falar ao mesmo tempo.
Mas eu…eu fiquei parada.
Imóvel.
Porque eu já sabia.
— Foi o Riley…— disseram.
Claro.
Sempre há uma explicação.
Sempre há alguém para culpar.
E dessa vez…não fui eu.
Meu corpo reagiu então, não antes.
As pernas ficaram levemente instáveis, o ar mais difícil de puxar, o peito apertando com força suficiente para parecer real.
E talvez fosse.Porque mesmo sabendo…
mesmo escolhendo…
mesmo fazendo…
eu ainda perdi ela.
— Bella…— Emmett me segurou antes que eu precisasse cair.
E eu deixei.Porque naquele momento…
ser sustentada era mais fácil do que sustentar.
— Eu tô aqui…— ele disse.
E eu fechei os olhos.
Sentindo.
De verdade.
Mas não como eles pensavam.
Nunca como eles pensavam.
Porque enquanto eles choravam pela perda…
eu carregava algo maior.
Eu carregava a verdade.
E a verdade…é muito mais pesada do que o luto.
Mas também…muito mais poderosa.
Porque no fim…ninguém sabia.
Ninguém suspeitava.
Ninguém via e isso significava uma coisa.
Porque diferente dos outros… eu não perdi a Rosalie.
Eu escolhi perder.
Eu ainda estava no controle e enquanto eu estiver no controle…ninguém vai tirar você de mim.
Nem ela.
Nem ninguém.
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