“Algumas coisas nascem do amor…

outras… do que fazemos para não perdê-lo.”

POV BELLA

O enterro não é sobre quem morreu… é sobre quem ficou. Sobre o espaço que se abre e não se fecha, sobre o peso invisível que se instala no ar e transforma tudo em algo mais lento, mais denso, mais difícil de respirar. Eu percebi isso assim que desci do carro, o salto afundando levemente na terra úmida, o cheiro de grama misturado com flores recém-cortadas subindo pelo ar de forma quase sufocante. Tudo estava organizado demais, bonito demais, respeitoso demais… como se a dor pudesse ser suavizada pela estética. Como se perder alguém pudesse ser encaixado dentro de um cenário aceitável.

Mas não pode,nunca pode.

Eu caminhei devagar, sentindo cada passo com uma consciência exagerada, como se meu corpo estivesse tentando compensar o fato de que minha mente estava em outro lugar. As vozes ao redor eram baixas, controladas, educadas… condolências cuidadosamente escolhidas para não invadir demais, para não pesar demais. Pessoas que nunca realmente conheceram a Rosalie falando sobre ela como se soubessem, como se pudessem resumir quem ela era em frases bonitas e vazias.

Mas eu conhecia.

Eu sabia e isso tornava tudo pior.

O caixão estava fechado, como sempre acontece quando a verdade não pode ser mostrada. Eu parei diante dele, os olhos fixos por tempo demais, sentindo uma pressão lenta subir pelo peito, como se algo estivesse tentando escapar e não conseguisse. Minha respiração ficou mais curta, mais superficial, e por um segundo… apenas um segundo… eu quis abrir. Ver. Confirmar. Como se aquilo pudesse me dar alguma coisa além do que eu já tinha.

Mas eu não fiz.

Porque eu não precisava.

Eu já tinha visto o suficiente.

— Ela ia odiar isso…— murmurei, quase inaudível, os dedos pressionando levemente um contra o outro.

Porque Rosalie odiava formalidade, odiava falsidade ou qualquer coisa que parecesse menos intensa do que realmente era e aquilo era uma mentira bonita.

Alice estava ao meu lado, a mão fria segurando a minha com força suficiente para me manter presente, mas não o suficiente para me prender. Os olhos dela estavam vermelhos, inchados, a maquiagem levemente borrada como se ela tivesse tentado manter controle e falhado várias vezes no processo.

— Eu ainda acho que ela vai aparecer…— disse Alice, a voz falhando no meio da frase — tipo… atrasada… reclamando de tudo isso…

Meu peito apertou.

Forte.

— Ela faria isso…— murmurei, sem olhar para Alice.

E pela primeira vez…a dor não foi fingida.

Porque perder alguém que você ama… é uma coisa.

Mas perder alguém que você matou…é outra completamente diferente.

— E a Bree?…— perguntei, finalmente virando o rosto.

Silêncio.

Pesado.

— Ela não veio…— respondeu Alice, baixo.

Claro que não veio.

Ela não podia e eu sabia o porquê, mas ainda assim…

me preocupei.

— Isso não parece com ela…— murmurei.

— Talvez ela não tenha conseguido…— disse Alice, tentando encontrar lógica onde não existia.

Ou talvez…ela tenha sido afastada.

— Ela tá bem…— sua voz surgiu atrás de mim.

Você.

Sempre no momento certo.

Eu virei o rosto devagar, encontrando seus olhos, analisando, procurando.

— Como você sabe?…— perguntei.

— Eu ajudei ela a sair da cidade…— respondeu, simples — achei que era melhor.

Meu estômago se contraiu.

Micro.

Controlado.

— Melhor pra quem?…— questionei.

Silêncio.

— Pra ela…— disse você.

Mentira.

Talvez.

Mas útil.

Eu assenti.

Porque às vezes…não é sobre a verdade.

É sobre o que mantém tudo funcionando.

Emmett estava diferente.

Não era apenas o luto, não era apenas a ausência, não era apenas o choque. Era algo mais profundo, mais instável, como se alguma parte dele tivesse sido deslocada e não conseguisse voltar para o lugar certo. Os olhos estavam mais escuros, mais cansados, e havia uma tensão constante nos ombros, como se ele estivesse sempre pronto para algo que ainda não tinha acontecido.

— Bella…— disse ele, me chamando para mais perto.

Eu fui.

Claro que fui.

— A gente precisa conversar…— continuou.

O tom.

Errado.

Eu já sabia.

— Sobre o quê?…— perguntei, cruzando os braços.

Ele passou a mão pelo rosto, respirando fundo, como se estivesse organizando algo difícil.

— Sobre ele…— disse.

Silêncio.

— O Anthony…— completou.

Meu corpo reagiu.

Frio.

— O que tem ele?…— perguntei, a voz mais baixa agora.

— Ele não é quem você pensa…— disse Emmett, direto — o nome dele é Edward Cullen.

Silêncio.

Eu observei.

Cada detalhe.

Cada micro expressão.

Cada tremor.

— E a Sophie…— continuou — ela tá falando a verdade.

A palavra verdade ecoou de um jeito estranho.

— Ela não tá mentindo, Bella…— disse ele, se aproximando — você tá em perigo.

E ali…foi onde eu decidi.

— Você tá ouvindo o que tá dizendo?…— murmurei, inclinando levemente a cabeça.

Ele travou.

— Eu tô tentando te proteger…— respondeu.

— Não…— balancei a cabeça devagar — Você tá alucinando.

Silêncio.

— Por causa das drogas…— completei.

A mudança no rosto dele foi imediata.

Dor.

Real.

Profunda.

— Você não acredita em mim…— disse ele, mais baixo agora.

— Eu acredito em você…— respondi — só não acredito nisso.

E aquilo…aquilo foi pior.

Porque eu não neguei ele.

Eu neguei a realidade dele.

E isso quebra mais do que qualquer rejeição direta.

— Eu tô tentando te salvar…— sussurrou ele.

— Eu não preciso ser salva…— respondi.

Silêncio.

Final.

E quando ele se afastou…eu senti.

Mas não o suficiente para mudar.

Nunca o suficiente.

Mais tarde, quando finalmente estávamos sozinhos, o silêncio era diferente. Não pesado, não opressor… mas carregado. O tipo de silêncio que não exige palavras, mas que está cheio delas mesmo assim.

Você se aproximou devagar, como sempre fazia, como se cada movimento fosse pensado para não me assustar, para não me pressionar.

— Você não tá bem…— disse, tocando meu rosto.

E o toque…sempre funcionava.

— Eu tô…— murmurei.

Mentira e ele percebeu na hora.

— Não precisa fingir comigo…— respondeu.

Engraçado.

Eu precisava.

Com todo mundo.

— Eu perdi ela…— sussurrei, finalmente.

E dessa vez…não foi atuação.

Sua mão deslizou pelo meu cabelo, puxando levemente, me aproximando.

— Eu tô aqui…— disse.

E aquilo…aquilo era perigoso.

Porque eu queria acreditar.

— Você não vai embora…— murmurei, quase implorando sem perceber.

Silêncio.

— Não…— respondeu.

E então…me beijou.

Lento.

Profundo.

Como se estivesse selando uma promessa e eu deixei.

Porque naquele momento…eu precisava.

Os dias passaram…ou pelo menos…

pareceram passar.

O tempo não estava funcionando direito, não da forma como deveria, mas ainda assim as coisas continuavam acontecendo. E foi nesse espaço estranho, entre o que eu sentia e o que eu demonstrava, que ela voltou.

Victoria.

— Você acredita mesmo nele?…— disse ela, aparecendo ao meu lado sem aviso.

Eu não me virei de imediato.

— Você devia se preocupar mais com a sua vida…— respondi.

Ela riu.

Baixo.

— Eu tô…— disse — Especialmente com as pessoas que ele machuca.

Silêncio.

— Você não sabe de nada…— murmurei.

— Eu sei mais do que você imagina…— respondeu.

E aquilo…

aquilo ficou.

Porque não foi ameaça.

Foi aviso.

Félix apareceu naquela noite.

— A ruiva tá se mexendo demais…— disse.

— Eu sei…— respondi.

— Quer que eu resolva?…— perguntou.

Silêncio.

— Ainda não…— murmurei — Mas fica de olho no Emmett.

Ele franziu levemente o cenho.

— Por quê?

— Porque ele tá mexendo onde não deve…— respondi.

E isso…isso era perigoso.

Muito perigoso.


Foi Alice que me arrastou para fora de casa.

— Você precisa sair…— disse ela.

Eu não queria.

Mas fui.

As lojas estavam cheias, o barulho alto demais, as luzes fortes demais. Tudo parecia exagerado, artificial, irritante. Meu corpo não estava acompanhando, havia uma leve tontura constante, uma sensação estranha de desequilíbrio que eu não consegui ignorar completamente.

— Você tá pálida…— disse Alice.

— Eu tô bem…— murmurei.

Mentira.

O café veio logo depois.

Quente.

Amargo.

E o cheiro…me fez enjoar.

Forte.

Repentino.

Eu virei o rosto, respirando fundo, tentando controlar.

— Bella?— chamou Alice.

— Só… me dá um segundo…— murmurei.

Meu estômago revirou.

Minha cabeça girou levemente.

E algo…algo não encaixou.

Quando cheguei em casa, o silêncio parecia mais alto do que o normal. Eu caminhei até o banheiro, fechando a porta atrás de mim, apoiando as mãos na pia, olhando para o próprio reflexo por alguns segundos.

Pálida.

Cansada.

Diferente.

Minha mente começou a organizar.

Datas.

Detalhes.

Ausências.

E então…veio.

Minha respiração falhou.

Micro.

— Não…— sussurrei.

Mas não foi negação.

Foi reconhecimento.

Minha mão desceu até o abdômen, quase sem perceber, um gesto automático, instintivo, como se meu corpo soubesse antes da minha mente aceitar.

— Não…— repeti.

Mas dessa vez…mais fraco.

Mais incerto.

Porque no fundo…eu já sabia.

E quando o teste apareceu nas minhas mãos…o mundo ficou…silencioso demais.

E pela primeira vez…em muito tempo…

eu não estava no controle.