Before You - 3 Temporada

15 AQUILO QUE NOS REVELA


“Algumas verdades não são descobertas…

elas são expostas no momento exato em que não podem mais ser escondidas.”


POV BELLA


O corpo sempre sabe antes da mente.

Ele percebe antes, reage antes, entende antes… mesmo quando você ainda está tentando negar, reorganizar, racionalizar aquilo que já não cabe mais dentro da lógica que você vinha sustentando. Foi isso que eu senti enquanto estava deitada naquela maca, o papel fino grudando levemente na pele das minhas costas, fazendo um som baixo a cada pequeno movimento, como se até o ambiente estivesse consciente de que algo irreversível estava prestes a acontecer. O consultório era claro demais, limpo demais, com aquele cheiro característico de desinfetante e algo levemente adocicado que tentava suavizar o que, no fundo, nunca é suave. A médica falava, explicava, mas as palavras dela pareciam vir de longe, como se atravessassem uma camada espessa antes de chegar até mim.

— Vamos dar uma olhada…— disse ela, com um sorriso profissional que não significava nada.


Nada.

Mas o monitor…

o monitor significava.


O gel frio tocou minha pele e o choque térmico percorreu meu corpo inteiro em uma onda rápida, fazendo meus músculos contraírem levemente de forma involuntária. Minha respiração ficou mais curta, mais atenta, como se meu próprio corpo estivesse tentando se preparar para algo que ainda não tinha nome.


E então…

som.

Um som que não parecia real.

Rápido.

Constante.

Vivo.


Meu coração falhou por um segundo.

— Esse é o batimento…— disse a médica.

Mas eu já sabia, claro que sabia.

Porque naquele momento…não era mais uma possibilidade.

Era real.


Minha mão subiu lentamente até o abdômen, os dedos tocando de forma quase hesitante, como se houvesse algo ali que pudesse desaparecer caso eu pressionasse demais. Minha garganta apertou, um nó firme se formando, não de tristeza, não de medo… mas de algo mais complexo, mais difícil de nomear.


Controle.

Perda de controle.

Criação.

Consequência.


— Está tudo bem…— continuou ela, ainda falando, ainda explicando.


Mas eu não estava ouvindo mais nada.

Porque aquele som...aquele som mudou tudo.

Ou talvez...tenha apenas confirmado.


Quando saí da sala, o mundo parecia levemente deslocado, como se tudo estivesse no lugar certo… mas com uma distância mínima entre o que era e o que parecia ser. O ar parecia mais denso, mais difícil de puxar completamente, como se meus pulmões não estivessem mais funcionando com a mesma precisão de antes.


Meu celular vibrou.

E aquilo…trouxe tudo de volta.

SMS.

Número desconhecido.

Mensagem simples.

Direta.

Um endereço.


Silêncio.


Meu corpo inteiro reagiu antes mesmo de eu terminar de ler.

Victoria.

Claro, sempre ela.


Minha respiração acelerou, não de pânico… mas de antecipação. Porque eu sabia. Sabia exatamente o que aquilo significava. Sabia exatamente o que ela estava tentando fazer.


— Não…— murmurei, já discando.


Félix atendeu no segundo toque.


— Eu preciso que você vá pra um endereço…— disse, rápido, já enviando.

— O que aconteceu?— perguntou.

— Ela tá tentando alguma coisa…— respondi — fica atento.

Silêncio curto.

— Tô indo.


Eu desliguei.

E fui.


O caminho pareceu mais longo do que realmente era, como se cada semáforo demorasse mais, como se cada carro estivesse mais lento, como se o mundo inteiro estivesse criando pequenas barreiras para atrasar algo que não deveria acontecer.


Mas eu cheguei, claro que cheguei.

O depósito do Edward...

Frio.

Vazio.

Errado.

O ar ali dentro parecia parado, pesado, carregado de algo que não deveria existir fora da superfície. Meus passos ecoaram no chão de concreto, cada som mais alto do que deveria, como se aquele espaço amplificasse tudo.


— Victoria?— chamei, a voz saindo mais baixa do que eu pretendia.

E então ela apareceu sorrindo.

Vitoriosa.


— Bella…— disse, inclinando levemente a cabeça — você precisa ver algo.


Meu coração acelerou, mas não de medo.

Nunca de medo.


Eu caminhei até ela, os passos calculados, controlados, mesmo que por dentro… tudo estivesse acontecendo rápido demais.


E então eu vi.

A jaula.

O vidro.

E você.


Meu corpo travou.

Real.

Instintivo.


Os olhos arregalaram, a respiração falhou, um frio subindo pela coluna de forma abrupta.


— Anthony…?— sussurrei.


Perfeito.

Exatamente como deveria parecer.


— Esse homem é um assassino…— disse Victoria, apontando para você.


Silêncio.

Pesado.

Denso.


— Ele matou Tanya Denali…— continuou — Ele matou várias pessoas.


Meu olhar foi para você.

Confusão.

Dúvida.

Fragilidade.

Tudo no lugar certo.


— Isso não é verdade…— você disse.


E naquele momento…o mundo parou.


Porque agora…era o ponto de decisão.


Eu poderia recuar.

Poderia fingir não entender.

Poderia sair.

Poderia deixar.

Mas eu não faço isso.

Nunca fiz.


— Bella…— você começou.


— Eu tentei te avisar…— disse Victoria.


Silêncio.

E então…eu abaixei a cabeça.

Lentamente.

Como se estivesse processando.

Como se estivesse quebrando.

Como se estivesse… acreditando.

Quinze segundos.

Exatos.


Porque às vezes…o tempo é necessário para convencer.

Minha mão encontrou o vidro quebrado no chão.

Frio.

Cortante.

Real


E então…eu agi.

Rápido.

Preciso.

Sem hesitação.

O som foi seco.

O movimento limpo.


O vidro atravessando a pele dela com uma facilidade absurda, como se o corpo humano fosse mais frágil do que as pessoas gostam de acreditar.


Sangue.

Muito sangue.

Quente.

Vivo.

Descontrolado.


Ela levou a mão ao pescoço, os olhos arregalados, tentando entender, tentando reagir, tentando sobreviver.


Mas já era tarde.

Sempre é.


Eu respirei pesado, o ar entrando de forma irregular agora, o corpo reagindo, finalmente, ao que tinha acabado de acontecer.


Não por arrependimento, mas pela intensidade.


— Eu não ia deixar ela te machucar…— disse, olhando para você.


E naquele momento…eu vi.

Nos seus olhos.

O entendimento.

Não completo.

Ainda não, mas suficiente.

Suficiente para mudar tudo.


Minha respiração ainda estava descompassada, o sangue no chão se espalhando, o cheiro metálico subindo pelo ar, invadindo tudo.


E ainda assim…eu estava calma.


Porque no fim…não foi escolha.

Nunca é.

É necessidade.

E você…você precisava de mim.


Mesmo que ainda não soubesse disso completamente.

Mesmo que agora…

finalmente…estivesse começando a ver.