Before The Sunrise
18 Retornos
Notas iniciais
18. Retornos
Catherine
Olhei no banheiro, revirei meu quarto inteiro, desci; espiei a sala, a cozinha, depois o restante da casa...
Nada! Nem sinal do enfeite de strass que eu tinha usado no cabelo para ir à festa da Stella. Pior que era da minha mãe! E o enfeite preferido dela, por sinal. Meu pai a deu de presente no dia em que eu nasci, e ela adorava usá-lo desde então. Ao que parece, eu também, já que a estrela-do-mar ondulada é realmente linda.
Não acredito! Como eu pude perder uma coisa dessas? Minha mãe ia me matar. Eu ia me matar!
Eu precisava achar, eu tinha que achar.
Quando eu acordei, às duas da tarde, puni-me interiormente por ter dormido demais e faltado à aula, sem falar que tive certeza de que Lizzie me mataria da próxima vez que me visse. Ainda fiquei meio impressionada, pensando em tudo que tinha acontecido em Orazón, mas assim que examinei minha roupa no chão e não achei a estrela-do-mar de strass de jeito nenhum, essas questões nem ocupavam mais a minha cabeça.
Eu desisti e finalmente encarei o fato de que o enfeite devia ter caído na praia.
Na praia. Diabos! Olhei o relógio em cima da mesa de jantar e eram três e meia da tarde. Eu tinha passado mais de uma hora procurando a estrela! Lizzie já devia ter saído da escola.
Disquei rapidamente o número dela no celular, batendo com o pé no chão impaciente enquanto chamava.
– SUA VACAAAAAAAAAAA! – ela já atendeu irada. – POSSO SABER POR QUE VOCÊ FALTOU A AULA HOJE, CATHERINE MARIE REYNOLDS?! – afastei um pouco o telefone do ouvido para não estourar meus tímpanos. – VOCÊ NÃO SABE O QUE PASSEI!
– Eu sei, eu sei! – desculpei-me desesperadamente, querendo acalmar aquela louca. – Sou vaquérrima, vaconésima, foi mal! – suspirei. – Dormi demais. O despertador não conseguiu me acordar. Ei, perdi muita coisa? Você conversou com algum dos meninos sobre a noite em Orazón?
– NÃO – Lizzie respondeu com outro grito. Este me aborreceu tanto que eu fiquei com vontade de atravessar o telefone só para meter a mão na cara dela. Grr! – MAS EU PRECISO TE CONTAR O QUE ACONTECEU COMIGO E COM O AI...
– DEPOIS! – interrompi. Minha voz já era meio urgente. – Liz... Perdia estrela. A estrela-do-mar de strass, o presente que meu pai deu para minha mãe no dia em que eu nasci! – choraminguei.
– Oh. – como a boa amiga que era, Lizzie prontamente esqueceu-se de sua vida, pronta para viver a minha. – Que horror, Catherine... Mas ela não estava com você quando saímos de Orazón?
– Estava! – surtei. – Mas não achei em canto nenhum aqui em casa! E olha que eu já revirei tudo, sem falar que o enfeite não é difícil de ver. SÓ PODE TER CAÍDO NA PRAIA!
– Que coisa horrível! – ela exclamou sinceramente.
– Lizzie, vem aqui para casa? Por favor. Nós podíamos discutir o que... Bem, sei que você não vai aprovar a idéia, mas... – mordi o lábio. – Preciso voltar lá. Para perto do portal.
– O QUÊ?! Não, nem pensar!
– Lizzie, aquela estrela é tudo para a minha mãe!
– Então eu vou com você!
– Não! – cortei-a rapidamente. – Você está de castigo, não é? – não houve resposta do outro lado da linha. – Pois bem. Significa que o único horário em que pode sair de casa é à noite, escondida, e à noite é muito arriscado! É quando os portais exercem pressão sobre mim! – lembrei.
Na verdade, aí caiu a ficha. Eu já tinha ido para aquela praia muitas vezes, mas agora entendia porque só naquela noite fui sentir a atração pelo portal secreto. Porque era noite. Porque era à noite que os portais puxavam de volta os sombrios para Orazón, ou os “Mestiços” – que eram misturas de sombrios com humanos –, ou os humanos que tinham o destino de alguma forma entrelaçado com aquele lugar horroroso. Pelo menos era o que Mack tinha dito.
– Mack disse – Lizzie cortou meu blábláblá mental – que perto da hora do portal fechar é que exerce atração maior. Então só precisamos ir, sei lá, 1h da manhã. Os portais só fecham depois que o sol nasce, não é isso?
– Bom, é... M-mas – gaguejei.
– Nada de “mas”! Eu vou com você, Catherine. Não vou lhe deixar sozinha. Não vai mesmo se livrar de mim.
Eu sorri tristemente comigo mesma. Tudo bem que no fundo estava morrendo de medo de ir só, mas não fazia sentido Lizzie ir comigo. E depois, eu nunca mais me perdoaria se a colocasse em perigo de novo...
Pensei em mencionar a ela que Mack também tinha dito que os portais entravam em ação no começo da noite, o que significava dizer que eu ainda podia sentir alguma atração à 1h da manhã pelo portal na praia, ainda que pequena. Mas não consegui.
– Tudo bem – finalmente concordei, de mau-humor, enquanto cruzava os dedos para não estar anunciando nossa sentença de morte. – Obrigada, Liz – e sorri para o fone.
– De nada. – eu tive certeza de que ela também estava sorrindo. – Daqui a uma hora vou para aí!
Depois de tudo isso, quinze minutos mais tarde, enquanto eu lia o quarto livro da série House of Night, Indomada; ouço o barulho de chaves destrancando a porta de casa.
Meu coração deu um pulo e eu agarrei meu peito. N-não! Meus pais estão viajando! Quem pode ser?
Giraram a maçaneta e de repente William e Susan Reynolds estavam na minha frente. Senti meu queixo cair. Como assim?
– Oooooooooi, filha! – os dois me cumprimentaram com vozes felizes ao mesmo tempo, como se estarem de volta em casa fosse a melhor coisa do mundo.
– O-oi... – eles riram da minha cara de boba, e felizmente a risada me fez sorrir e afinal aceitar o fato de que estavam de volta, mesmo que eu ainda não soubesse o porquê.
Corri até eles e os abracei com força.
– BEM-VINDOS DE VOLTAAAAAAA! – gritei. Minha voz agora era cheia de empolgação, e eu finalmente me dei conta das saudades que tinha sentido. – Mas, mãe, pai... O que estão fazendo aqui?
– Bem – começou meu pai –, acabou nossa temporada na casa de praia em Butlerie, e, como sabe, deveríamos ter passado mais um dia lá para amanhã pegar o vôo direto para a Europa. Mas sua mãe estava com saudades de você e quis passar o último dia aqui – dedurou, dirigindo um olhar reprovativo para Susan.
– E estava mesmo! – surtou minha mãe. – Só de pensar em passar mais um mês longe da minha filha querida, já me dá tremedeira nas pernas! – confessou num tom firme para meu pai, que revirou os olhos e sorriu para ela, assim como eu.
– Ah, mãe! – abracei-a.
Avisei que Lizzie viria mais tarde e eles não se incomodaram, claro. Sempre gostaram muito da minha melhor amiga.
Quando ela tocou a campainha, tanto Susan quanto William já estavam com roupas normais, sendo que minha mãe preparava um lanchinho para nós. Abri a porta.
– Ooo...! – ela começou empolgadamente, mas ficou muda quando viu meu pai atrás de mim — ... iiii.
Eu ri de sua expressão e William confirmou do sofá:
– É, chegamos mais cedo, Lizzie. Espero que não se importe!
– Não, claro que não, tio Willie – ela sorriu e meu pai focou sua atenção em dobrar o jornal (é, ele adora ler jornal) e o pôs em cima da mesa. Aproveitei para empurrar Lizzie pelos ombros para dentro da casa enquanto sussurrava em seu ouvido: “Danou-se. Com eles aqui, vamos ter que fingir que estamos estudando, para depois sua mãe não ficar sabendo que você não veio aqui para aprender coisa nenhuma!”
Ela revirou os olhos e sorriu discretamente, enquanto me deixava conduzi-la até a mesa de jantar. Peguei dois cadernos meus e pus um na frente de Lizzie; depois abri o livro, pronta para fingir o estudo, mas minha mãe saiu da cozinha e, limpando as mãos no avental, indagou:
– E aí, Lizzie? Como é que você está?
– Suas notas já melhoraram? – meu pai entrou na conversa.
É, eles sabiam sobre o drama de Lizzie. Por incrível que pareça, eles tinham pena da minha melhor amiga e eram bastante compreensivos. Sem falar que tinham certeza que ela ia dar a volta por cima.
– Bom... Eu ainda não tirei nenhuma nota abaixo de 6,0, mas eles já estão no meu pé – ela suspirou. – Eu não posso derrapar nem um centésimo.
– Entendo – meu pai franziu os lábios, pensativo.
– Não se preocupe, querida. – minha mãe sorriu para Liz e chegou mais perto, abraçando-a na cadeira mesmo. – Você sempre foi tão inteligente! Tenho certeza que consegue. Só precisa acreditar mais em si mesma.
– Concordo – meu pai acrescentou, também sorrindo docemente. – Não ligue muito para o que seus pais dizem. Estude por você.
O abraço de minha mãe foi carinhoso, e tanto as palavras dela quanto as de meu pai estavam carregadas de sinceridade e incentivo. Eu vi de relance os olhos de Lizzie se encherem de lágrimas, mas, quando minha mãe a soltou, já haviam voltado ao normal.
– Obrigada, vocês dois – percebi que apesar disso, a voz de minha melhor amiga estava carregada de emoção.
Minha mãe piscou e voltou a adentrar na cozinha. Meu pai se levantou do sofá e foi atrás. Da mesa de jantar, dá para se ver muito bem a cozinha, por isso nós pudemos assistir bem à cena dele agarrando Susan Reynolds pela cintura.
Revirei os olhos e escrevi em meu caderno:
Esses dois bobos apaixonados... Mas quando vamos a Orazón? Não podemos ir hoje. Não com eles aqui. Minha mãe acorda com qualquer coisa.
Cutuquei Liz e ela olhou para o que estava escrito.
Bem, começou escrevendo no caderno dela, podemos ir amanhã... Ai, que chato! A cada minuto que protelamos aumentam as chances de algum vagabundo achar sua estrela e levar para ele.
Não fala isso, por favor!, surtei, um tanto desesperada. É inverno. Ninguém vai para a praia no inverno, mesmo sendo um inverno tão pouco frio como aqui em Steklyn!
Ela pensou antes de me responder.
Hum... É, talvez você tenha razão. Amanhã então.
Nós duas paramos de escrever, distraídas pelas risadinhas da minha mãe enquanto meu pai cheirava seu pescoço. Ah, por favor!, pensei, sentindo a raiva subir por minha garganta. Eu estou com uma amiga em casa, será que eles não têm noção?!
Não consegui ficar brava por muito tempo. Eles eram tão fofos juntos... E eles ainda se amavam, mesmo depois de todo esse tempo de casados.
Minha mãe segurou firme as mãos de pai, virou-se para ele e finalmente o beijou.
Foi um beijo demorado e doce. Mesmo de onde eu estava, parecia que dava para ver a doçura exalada dele.
Derreti. Derreti completamente. Estes eram Susan e William Reynolds. Crianças totalmente felizes. Inacreditavelmente bons e simpáticos. Completamente apaixonados.
E eu naquele momento, vendo o beijo, quis que um dia alguém me beijasse daquele jeito...
Tomei um susto quando Lizzie me cutucou e olhei para baixo.
Eles são tão felizes.
Sorri e escrevi:
É, são mesmo.
Eu gosto deles, Catherine. Olhei seus olhos e vi que já estavam marejados outra vez. Eles são muito bons para mim. Às vezes, é como se fossem meus próprios pais. E não sabe o que eu daria para que Harold e Jenna tivessem a mesma personalidade.
Encontrei os olhos da minha melhor amiga novamente ao terminar de ler, e, dessa vez, nós duas estávamos prestes a chorar um rio inteiro pelos olhos.
E eu adoraria que você fosse minha irmã!, escrevi. Mas nem tudo é como queremos. Meus pais te amam, Lizzie, você sabe disso. Mas mesmo assim... Seus pais são seus pais.
Eu sei, Lizzie suspirou, não estou arrependida de tê-los como meus pais ainda. Quando eles são muito duros comigo é que me imagino filha de Willie e Susie, ela sorriu enquanto escrevia, mas eu amo muito meus pais. Com todos os seus defeitos. Não conseguiria imaginar minha vida sem Harold e Jenna, Catherine, eles também foram e ainda são muito bons para mim, exatamente do jeito que são.
Eu fiz um biquinho para ela.
Mas pelo visto meus pais são verdadeiros segundos pais para você, não é?
Ela riu.
Eles são mais que isso. Eu me considero filha de quatro pessoas.
Eu ri alto e abracei lateralmente minha melhor amiga.
Claro que minha alegria acabou quando vi meus pais olhando sem entender nada para mim, exigindo uma explicação.
– Ahn... É que a Física é muito engraçada – desculpei-me.
Foi a vez de Lizzie rir, juntamente com “tia Susie” e “tio Willie”.
Fuzilei minha melhor amiga com os olhos, mas ela logo sorriu para mim. E assim que meus pais voltaram a se concentrar na comida/jornal, eu e Lizzie voltamos a escrever bilhetinhos nos cadernos uma para a outra.
Vai para a aula amanhã?
Claro. Nós duas vamos, certo?
Certo. Ela soltou uma risadinha e então suspirou. Se bem que não sei como vou conseguir dar as caras no colégio depois de hoje.
Fiquei confusa.
Como assim?
Uma palavra: Aiden. Abafei um gritinho de espanto.
“Como assim” DUPLO! Conte tudo!
E Lizzie começou a narrar por escrito uma história que me deixou super de queixo caído. Do início ao fim.
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