Before The Sunrise

19 Patricinha Contra a Parede


Notas iniciais
Uma palavra: TENSO.

19. Patricinha Contra a Parede


Freddie


Terça-feira, dia 28 de maio. Hora do almoço no colégio West Side.

Eu estava tão perdido na minha conversa com Trevor que tinha até me esquecido de continuar a procurar Lizzie. Eu sabia que ela tinha vindo ao colégio, tanto ontem como hoje, pois Nicole e Kayla – que estudavam na mesma sala dela – me garantiram. Também não tinha visto Catherine. Bem, aquilo parecia significar que as duas estavam enfurnadas juntas na biblioteca (era para lá que elas iam quando queriam conversar em particular), então tudo o que eu precisava fazer era subir as escadas. Ainda tinha que me explicar sobre a noite da festa de Stella.

Mas, como eu disse, já estava completamente distraído.

– NÃO DIGA! – berrei para Trevor enquanto caía na gargalhada, morrendo de rir das piadas dele sobre Jake Hanson.

– Trevor, é sério, PARA COM ISSO, EU NÃO AGUENTO MAIS! – Brian gritou logo depois, levando as mãos à barriga, que, eu sabia, logo podia explodir de tanta risada.

Trevor sorriu para nós, e disse com um ar arrogante:

– Eu sei que sou demais.

– AHAHAHAHA! Caras, preciso ir ao banheiro... – falei sem fôlego, enquanto enxugava uma lágrima de riso excessivo. Só mesmo o Trevor!

– Claro – eles me disseram ao mesmo tempo com vozes engraçadas, como se a qualquer momento pudessem cair na gargalhada de novo.

Atravessei nosso grande refeitório e logo cheguei ao corredor dos banheiros. Para a minha sorte, não havia ninguém transitando por lá, embora eu soubesse que, se abrisse a porta do banheiro feminino, ia dar de cara com mil garotas se olhando no espelho enquanto ajeitavam o cabelo e/ou retocavam a maquiagem.

Revirei os olhos com o pensamento. O delas só viva lotado!

Continuei caminhando rumo ao masculino, mas, antes que eu pudesse passar de uma vez pela porta do banheiro das mulheres, uma delas saiu de lá.

Foi tudo tão rápido que colidimos. Mas não antes que eu pudesse ter tempo de reconhecê-la.

Era Riley Mitchell.

– AI! Olha por onde anda, seu...!

Ela ergueu o olhar para mim. Confesso que entristeci ao reconhecer os olhos castanhos frios e arrogantes de uma patricinha mimada.

Não eram mais os olhos doces e brilhantes que conheci por uma noite.

Riley ficou muda ao me ver. E então percebi alguma coisa mudando em seu olhar – transformando-se rapidamente num sentimento que não pude reconhecer, pois a porta do banheiro feminino começou a abrir novamente.

Mais do que rápido, empurrei-a pelos ombros até o banheiro masculino, escancarando a porta com o impulso e adentrando lá antes que a garota recém-saída do feminino pudesse nos ver.

Soltei um suspiro de alívio ao constatar que o lugar estava vazio e olhei feio para Riley.

– O QUE É ISSO? – ela me indagou numa voz alterada.

Não me deixei intimidar por seu tom e fui direto ao ponto.

– Acho que você sabe. AGORA ME CONTE TUDO O QUE ACONTECEU NAQUELA NOITE!

Riley tentou fugir, mas eu a segurei pelo braço. Sabia que era mais forte do que ela.

– Não tente – rosnei entredentes. – Você só sai daqui depois que me disser tudo!

Ela sacudiu o braço, livrando-se de meu aperto; e semicerrou os olhos para mim.

– Eu não quero...

– Como sabia onde eu morava? – interrompi.

Ela gargalhou como se a resposta fosse a coisa mais óbvia do mundo.

– Você me contou, ora essa! Do jeito que estava drogado, contaria qualq...

– EU ESTAVA DROGADO?! – saltei para trás.

Riley desmanchou o sorriso malvado. Sua expressão demonstrou culpa e arrependimento por um segundo, mas logo voltou a ficar neutra. Não me importei, pois reparei que, apesar disso, seus olhos ainda refletiam o que era realmente verdade dentro dela.

– É. – Ela murmurou, baixando os olhos. – Não sei se você se lembra, mas o comprimido que tirei da minha bolsa... – estremeceu – ganhei com uns caras que sempre dão drogas para mim e as meninas. Bom, nunca provo, e sei lá exatamente o que era, mas sem dúvida...

Eu não conseguia ouvir mais. Eu não queria ouvir mais.

Riley continuava a sussurrar palavras ininteligíveis enquanto eu associava mentalmente o que ela tinha acabado de dizer. Que ela tinha me drogado. Drogado! Logo eu, Frederick Gilbert, que resisti tão bem e longamente aos “pozinhos mágicos” esquisitos, tentadores e prejudiciais que me ofereceram mais de uma vez.

Trinquei os dentes.

– Não tinha o direito de fazer isso.

– Olha, eu sinto muito, está bem? – surpreendi-me ao ouvir o som falhado e choroso escapar por seus lábios. – Eu só não podia correr o risco de você se lembrar de tudo o que...

Ela não completou a frase. Lágrimas escaparam por seus olhos e Riley cobriu o rosto com as mãos.

Diante de tal reação, senti a raiva congelar dentro de mim. Eu fiquei lá, parado feito um idiota, sem ter muito que fazer.

Quando ela voltou a me olhar, percebi que já não se incomodava mais em esconder seus sentimentos. Raiva. Frustração. Medo. Culpa. Pena. Impotência...

Vergonha.

– Eu sei que foi errado – Riley continuou, a voz falha. – Nunca me droguei, sempre tive medo por mim mesma, não foi justo forçá-lo a fazer algo que... – ela engoliu em seco. – Pelo menos fui à sua casa entregar você. Eu sabia que seus pais não iam entender se eu parecesse tranqüila, então resolvi atuar um pouco e fingir que estava preocupada. Aí... fiquei nervosa, e quando fico nervosa começo a chorar – ela revirou os olhos. – Em outras palavras, exagerei. Nem quero saber o que eles devem ter pensado de mim.

A voz de Riley soou pensativa ao final da frase. Inesperadamente, eu sorri comigo mesmo ao lembrar o que meus pais pensaram dela.

– Pode ter certeza de que nada bom. Eles pensaram que você estava grávida! – Não consegui me segurar. Soltei uma alta gargalhada ao pronunciar as palavras. – Dá pra acreditar?!

Continuei a rir enquanto Riley me encarava, por algum motivo, abismada.

– Mas por que é que você está rindo?!

Parei imediatamente.

– Porque eu nunca faria com você – dirigi meu olhar e voz mais determinados para ela.

– Oh, é mesmo? – ela debochou. – Então me diga, Frederick Gilbert, por acaso você se lembra de tudo o que aconteceu com você até chegar em casa naquela noite?

Fiquei subitamente muito sério, enquanto o significado daquelas palavras lentamente fazia sentido em minha cabeça.

O. Quê?

– Quer dizer que nós... – minha voz tremia tanto que eu era incapaz de terminar a frase.

Nós nos encaramos muito sérios durante três segundos.

Então, Riley soltou uma alta gargalhada.

– NÃO acredito que você caiu mesmo nessa! – ela bradou enquanto ria com prazer.

Soltei a respiração, tremendamente aliviado.

– QUE SUSTO, DROGA! – gritei, ainda mais alto que ela, quando o alívio se transformou em raiva. – Riley, sua...!

– Espera – ela me interrompeu. Arqueei uma sobrancelha para o tom perfeitamente normal. – Vamos sair daqui, por favor, não quero que alguém entre e me veja no banheiro masculino!

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela me empurrou para fora do banheiro, usando minhas costas para abrir a porta – como antes eu tinha feito com ela.

– ESPERA digo eu! – falei quando já estávamos no corredor. – Não se importa que as pessoas nos vejam?

Riley piscou, como se não tivesse visto por tal ângulo.

Olhou para os lados, preocupada, e então olhou novamente para mim.

Não tenho idéia da expressão que ocupava meu rosto naquele instante, só sei que algo em meus olhos pareceu enchê-la de determinação.

Ela balançou a cabeça para os lados lentamente.

– Não. – Deu de ombros. – Sabe... um bêbado me disse uma vez que eu não precisava ficar com caras populares. Aquilo doeu no meu ego, que estava antecipando a dor de uma pequena perda de reputação – ela me deu um sorriso fraco. – Mas a pessoa tinha razão. Pensei direito e acho que vou morrer encalhada se esperar a vida toda por metidos arrogantes que já estão completamente “apaixonados” por Stella D’Amore.

Eu ri e ela acrescentou:

– Sei que você estava se referindo à minha vida amorosa, mas se eu posso sair com um cara comum, acho que também posso conversar com caras comuns. Ou ser amiga deles.

Eu ergui a cabeça e olhei bem para Riley.

Seus lábios estavam repuxados para cima e as íris castanhas brilhantes sorriam para mim.

– Você mudou. – Eu afirmei.

– Ainda não o suficiente. – Ela balançou a cabeça para os lados, como se reprovando a si mesma, e suspirou. – Desculpe ter sido arrogante quando trombamos hoje mais cedo. E pelo que te fiz no dia da festa, também. – Ela parou para me olhar mais fixamente. – Meus esforços foram em vão, Freddie. Sei que você ainda se lembra de muita coisa que eu não queria que lembrasse. Mas a questão é que... você tem razão. Eu não tinha o direito. Especialmente porque você me ajudou numa hora em que eu muito precisava, e só recebeu ingratidão em troca...

Riley baixou a cabeça.

– Me perdoe.

E então eu senti algo que só aquela garota, em toda a minha vida, foi capaz de me fazer sentir por uma patricinha.

Compaixão.

Aproximei-me e ergui-lhe cuidadosamente o queixo entre meu indicador e polegar.

– É claro que eu te perdôo... Blair. – Sorri, tendo resolvido chamá-la pelo nome de seu gosto para ver ser a animava.

Riley balançou a cabeça para os lados novamente e me retribuiu o sorriso.

– Por favor. Me chame de Riley.

Senti meu sorriso se alargar. Aquelas palavras, vindas dela, pareciam mais um jeito de dizer “eu quero ser eu mesma agora”.

– Tudo bem então, Riley.

– Você é muito legal, Freddie Gilbert. Quer ser meu primeiro amigo comum?

Eu soltei uma alta gargalhada.

– Bom, primeiro vamos ter que esquecer tudo o que já aconteceu entre a gente.

– Esquecido! – Riley fez um gesto de como se estivesse apagando metade do cérebro com uma borracha e jogado-a fora. – Vamos começar do zero!

– Oi, eu sou o Frederick Gilbert – zoei, revirando os olhos.

– Prazer, Frederick! Meu nome é Riley Mitchell – surpreendi-me por ela ter me seguido na brincadeira e a encarei com um olhar de “tá-falando-sério?”, enquanto ela, em resposta, simplesmente limpou a garganta e arregalou os olhos de modo impaciente.

– Ahn... Pode me chamar de Freddie? – minha “continuação” de conversa soou mais como uma pergunta.

– Tudo bem então, Freddie. Nossa, você é bonito! Espero que também tenha amigos bonitos, pode me apresentar a eles? – Ela brincou, enquanto dava o braço para mim e eu caía na gargalhada. Riley também riu antes de voltar para sua voz normal: – Ah, qual é, vamos! Você sabe que eu estou procurando um namorado. A não ser que queira se candidatar ao cargo.

Engoli em seco e olhei para ela, que fingiu não ter percebido meu nervosismo.

Riley só foi olhar para mim longos segundos depois, como se para ver por que eu ainda não a tinha conduzido até minha mesa e apresentado meus amigos homens como ela queria.

– Ah, tudo bem – concordei, desvencilhando-me dela. (Não é por nada não, mas que brega andar como se fôssemos casados!) – Mas sem braços dados, ok?!

Ela riu.

– Dã-ã, é claro. Obrigada.

– Por nada – sorri.

E respirei fundo antes de voltar para o refeitório, com Riley ao meu lado. Todos os olhares voltram-se rapidamente para nos encarar enquanto eu me aproximava da mesa de um Brian e um Trevor boquiabertos e dizia:

– Ahm, oi, pessoal. Já conhecem a Riley Mitchell?

Notas finais
AAAAAAAAAAAH, emocionei fácil!