Notas iniciais
Er... oi, pessoal *se esconde atrás de uma árvore*
AI, POR FAVOR, NÃO ME MATEM! Eu sei que demorei, mas vocês não têm ideia do quanto eu tive que estudar.
Desculpem se ele tá cheio de reflexões e com poucas falas :/'
P.S.: Esse capítulo é TOTALMENTE inspirado em House of Night. Desculpem aí, mais eu ia me MATAR se não fizesse ele desse jeito! :'D /fato.

25. Ferida


Catherine


Eu tentava arquitetar qualquer plano que fosse em minha mente, mas não conseguia.

Suspirei pela milésima vez e encostei – ou melhor, bati – a cabeça no tronco da árvore grossa a que estava amarrada. Eu e todos os outros: Lizzie, Mack, Glynda, Brian e Aiden.

Depois que todos aterrissamos (com pulos desajeitados por parte dos humanos aqui) no alto daquela montanha idiota, naquele Lugar Sagrado idiota, os guardas nos capturaram e nos fizeram de prisioneiros. Fácil assim. Glynda se desculpou, dizendo que deveria ter previsto que Huann Kippur transportaria guardas para o Lugar Sagrado, e sem dúvida a pedido de seu pai. Ótimo, mas é agora que você vem avisar, minha filha?! Eu não me conformava em pensamento.

Lizzie estava à minha esquerda e Mack, à minha direita. Minha melhor amiga estava de cabeça baixa e não pronunciava uma palavra há horas. Mas o sombrio loiro de olhos escuros e, cof, super sexy, cof, cof, parecia bem atento a tudo à nossa volta.

– Desculpem – Mack nos sussurrou pela centésima qüinquagésima vez, com uma voz culpada. – Eu deveria ter gritado e alertado vocês, mas...

– Pelo amor de Deus, pare com isso! – resmunguei na voz mais baixa que minha irritação permitiu. – Mack, você teria morrido se o fizesse! Então cala essa boca, agradece porestar vivo... e por nós gostarmos de você a ponto de te preferirvivo.

Ele pareceu infeliz com meu comentário, mas calou-se, e tornou o olhar para frente outra vez. Voltou a observar cada movimento dos guardas – que era só o que tinha feito, desde a nossa captura.

Ergui a cabeça para o céu.

Já era noite. Estava muito escuro e frio naquele lugar horroroso, que pra mim não devia ter nada de sagrado. Minha bunda doía que era uma beleza. Desde mais ou menos três horas da tarde que eu estava sentada lá, amarrada com meus amigos, enquanto escutava um bando de guardas gigantescos discutindo sobre o que deveriam fazer conosco. Acabou que eles não chegaram a nenhuma conclusão e agora estavam dormindo em suas muito aconchegantes tendas, enquanto nós ficávamos ali, tremendo de frio, já que a fogueira do acampamento tinha se apagado há alguns minutos.

Seria a hora perfeita para escapar, se não fosse pelo fato de que estávamos muito bem amarrados. Mack provavelmente poderia ter se soltado das cordas com um puxão se quisesse, pois era o único de nós que, além das cordas, também tinha correntes de ferro em forma de algema nas mãos. Coitado. Ah, e é claro que os guardas surtaram quando viram que sua linda princesa estava ajudando o fugitivo da masmorra, um mestiço e, ainda por cima, um grupo de humanos babacas! Glynda também pareceu ter ficado muito abalada por eles terem descoberto. Eu não queria ser ela. Tipo, ficar lembrada como “A Princesa Traidora” e tal... devia ser bem horrível. A única coisa boa nisso tudo era que o “jacarilo” não ia mais poder ser acusado do crime de jantar a princesa de Orazón.

Ok, Catherine, esse é um péssimo lado positivo!

De repente, ouvi alguma coisa.

Não era só o farfalhar das folhas ao sopro do vento, ou o barulho do vento em si. Era diferente. Menos natural, e mais parecido com... passos. Virei a cabeça na direção do barulho, percebendo que Mack também já o havia escutado. Ele chegava cada vez mais perto, mais perto...

Apertei os olhos, tentando enxergar melhor por entre a escuridão. Meu coração disparou loucamente com a adrenalina que agora percorria meu sangue, deixando-me alerta.

Estava pronta para gritar, quando o bicho se revelou.

Ele saiu detrás da folhagem e torceu o nariz para mim, balançando os bigodinhos. Era tão... lindo! Fofo, fofo, fofo. A pelagem era cor de caramelo, e havia algumas manchas marrom-escuras espalhadas por seus olhos, assim como uma maior e branquinha no meio da barriga. Ahn... um coelho?Pensei. Em seguida, me senti meio idiota por estar com medo de um coelho. Respirei fundo de alívio; ele não era uma ameaça.

Mack, por sua vez, arregalou os olhos e arfou.

– Kree’Belle.

Foi estranho o modo como a voz grogue dele cortou o vento.

Oh-meu-Deus!, pensei. É a coelhadele. Kree’Belle, por sua vez, torceu o nariz de novo, e em seguida correu até seu dono, jogando-se no colo de Mack.

– Aaaaah, garota! Eu senti tanto a sua falta – ele murmurou, num misto de emoção e tristeza. – Como... Deuses, você conseguiu me encontrar aqui!

A coelha fez que sim com a cabeça e eu pisquei, incrédula. Cara, ela entendia mesmo o que ele estava falando!

– Eu gostaria de te tocar, mas... – Mack olhou para as algemas e suspirou. Em seguida, baixou ainda mais a voz e se inclinou para frente, quase colidindo sua testa com a da coelha. – Você se importaria de pegar as chaves para mim, Kree? – ele apontou a cabeça na direção da tenda mais próxima.

Kree’Belle equilibrou-se com apenas uma das patas dianteiras na perna de Mack, endireitou as costas e girou o pescoço, para ver melhor a tenda atrás de si. Depois, voltou-se novamente para Mackembethor, com um olhar questionador.

– Está com o maior deles, pendurado na cinta da armadura.

A coelha não demorou a seguir as instruções do dono e, mais uma vez, eu me surpreendi. Kree’Belle entrou na tenda e em segundos estava de volta, com um molho de chaves tilintando em sua boca. Um sorriso de ansiedade estampou-se em meu rosto.

– Boa menina – Mack aprovou com um sorriso. – Não, não! – ele murmurou quando a coelha tentou lhe entregar as chaves. – Estou atado, Kree, esqueceu? Entregue a... ele.

Kree’Belle depositou as chaves na mão de Aiden, que segurou-as com alguma dificuldade. E então, começou uma série de manobras e torções na corda para chegar, de algum jeito, à fechadura da algema de Mack. Resmungamos baixinho enquanto o mestiço se debatia – e, consequentemente, como estávamos amarrados a ele, éramos atingidos e incomodados.

Finalmente, depois do que pareceu um século, Aiden conseguiu destrancar as algemas e Mack livrou todos nós da corda com um único, forte e determinado puxão.

– Uau – não pude deixar de exclamar.

– Ssssshhhhh! – O sombrio pôs um dedo em meus lábios. – Vamos. – Ele sussurrou, sacudindo a cabeça na direção leste.

Fechei a boca e assenti, levantando-me do chão com cuidado para não fazer barulho.

Glynda, Brian, Aiden e Lizzie fizeram o mesmo, e pusemo-nos a seguir Mack. Ele caminhava determinadamente pelo Lugar Sagrado, seus pés mal emitiam ruídos a cada passo. Glynda praticamente o imitava no silêncio, e Aiden só fazia um pouco mais de barulho. Enquanto eu, minha melhor amiga e meu segundo-melhor-amigo-ex-supostamente-gay – quer denominação melhor do que essa? –, por sermos humanos e desajeitados, praticamente acordávamos a floresta inteira com nossos movimentos, ao menos em comparação aos sombrios (e ao meio-sombrio).

A cada segundo, eu enviava um agradecimento silencioso aos céus por nada daquilo parecer ser suficiente para acordar os guardas.

Kree’Belle seguia seu dono de perto e eu constatei, com um sorriso extremamente egoísta, que ela fazia tanto barulho quanto eu e meus amigos, senão mais.

HAHA! Parece que nem tudo em Orazón é tão perfeito assim.

Pisquei, atônita, quando reparei o quanto aquela frase era verdadeira. Eu estava realmente esperando que a audição dos guardas fosse tão aguçada e sinistra quanto toda a força e agilidade dos filhos de Zanthon. E, no entanto, lá estávamos nós, caminhando por entre a vegetação rasteira da floresta, e eles ainda não nos perseguiam com suas armas – espadas, arco e flecha.

E se por acaso eles estão ouvindo, mas pensam que é só o vento?

O pensamento me fez engolir em seco.

Finalmente notei a árvore grande e afastada de tudo, no que parecia ser exatamente o centro do Lugar Sagrado. Perdão, árvore grande não, ENORME. Imaginei que seria para lá que estivéssemos indo, e meu palpite se confirmou quando Mack parou de frente para o gigantesco tronco marrom.

Ele não precisou tocá-lo para que o portal se revelasse, como havia feito da primeira vez, conosco e nos arredores de sua casa. Em vez disso, o redemoinho vermelho pareceu surgir do nada, devido à simples proximidade de Mack e Glynda com a árvore.

Eu e meus amigos soltamos o ar ao mesmo tempo, e eu me perguntei se pelo mesmo motivo. Eu quase podia sentir o cheiro de casa vindo detrás daquele portal e, agora, estava agradecida.

Vi Glynda virar a cabeça para Mack, que por sua vez baixou o olhar para Kree’Belle.

Eu fiz o mesmo e juro que quase morri de pena. Os olhos grandes da coelha estavam arregalados e úmidos, e eu quis chorar quando uma lágrima escapou por aqueles olhos fofos.

– Kree... – Mack se ajoelhou, porém a coelha deu um salto para trás, distanciando-se. O sombrio suspirou. – Desculpe-me. Sei que pensa que eu estou traindo você. Mas não posso levá-la, Kree, realmente não posso – ele sacudiu a cabeça violentamente, com os olhos fechados e, quando os abriu, uma lágrima escorria pelo rosto bonito. Meu coração ficou terrivelmente apertado no peito. – Eu não espero que entenda. Mas estou fazendo isso para o seu próprio bem.

Foi a vez de a coelha balançar a cabeça, com os olhos cerrados, seus gemidos indicando o quanto estava sofrendo. Então, Kree’Belle abriu os olhos novamente, e não escutei umbarulho de coelho quando seus lábios se moveram para pronunciar outro som ao vento. Mas escutei... ai-meu-Deus, escutei um...

“Eu te amo.”

Estava com as mãos na cabeça e começando a me perguntar se a havia batido com tanta força na árvore, quando ouvi Mack sussurrar de volta:

– Eu também te amo. – E a abraçou pela última vez naquela noite.

Mack ficou de pé e murmurou um “vamos” ao qual ninguém reagiu. Estávamos sinceramente tristes por Kree’Belle, e eu pensei que ia mesmo começar a chorar pra valer quando ouvimos algo.

Estacamos e nos viramos todos para o acampamento, onde havíamos estado segundos atrás. Bem a tempo de ver um guarda enorme e mal-encarado saindo de sua tenda.

Congelei de medo enquanto o homem bocejava, se espreguiçava, enfim; fazia todos os típicos rituais de quem acabava de acordar. Não faço a menor idéia do que ele pretendia fazer, e nunca descobri. Quando seus olhos se fixaram na árvore à qual não estávamos mais amarrados, a ira e o ódio apossaram-se dos olhos negros.

Ele não demorou a nos encontrar. Em um segundo, focava os olhos em mim e nos meus amigos, no outro, gritava aos céus.

– Os prisioneiros estão fugindo!

O meu pesadelo teve início naquele momento, enquanto os milhares de guardas rolavam para fora de suas tendas e assumiam posição, preparando os arcos numa velocidade assustadora e mirando as fechas em mim e nos outros.

Meu coração quis pular pela boca e eu achei que fosse morrer.

– CORRAM! – gritou Mack, enquanto milhares de flechas eram disparadas às nossas costas.

– AAAAAAHHHHH! – eu e os outros começamos a gritar, aterrorizados, tanto pela necessidade de fazê-lo que tinha sido reprimida até o momento, quanto pelo horror decorrente da ótima pontaria dos guardas.

Eu me mexia constantemente, pois sabia que alguma coisa ia me acertar se eu parasse. As flechas passavam de raspão por mim, atingindo em cheio os lugares em que eu havia estado nos segundos anteriores.

Mack fez Kree’Belle correr para se salvar, e empurrou Aiden para dentro do portal, berrando qualquer coisa como “eu não sei para onde devemos ir, VAI PRIMEIRO!”. Em seguida, vi ele e Glynda desaparecerem pelo vermelho-escarlate. Quis chorar de medo e passei os dedos nervosamente pelo cabelo, arrependendo-me amargamente de ter sido a última da fila.

Eu ainda estava a 5 passos do portal quando Brian entrou lá, relutante, e eu vi Lizzie girar para trás, somente para conferir minha presença. Eu corria em ziguezague feito louca, tentando desviar das flechas.

– Cather... – Lizzie começou, mas a impedi de terminar. Alcancei-a, girei-a pela mão e a empurrei na direção do redemoinho.

Apenas tinha colocado a primeira perna para dentro do portal quando ouvi um dos guardas gritar:

– Gey Hi Mudi’Arno Akelzani!

Senti algo me atravessar o corpo enquanto a dimensão tumultuada se fechava atrás de mim, e, naquele momento, pensei que tivesse me partido em duas.

***

– Estamos bem? – Reconheci a voz de Aiden quando meus pés tocaram e afundaram na areia fofa de Steklyn. – Estamos bem! – ele bradou e ergueu as mãos para o céu, dando soquinhos no ar, em êxtase.

Eu fechei os olhos involuntariamente e não consegui mais abrir. Minhas pernas fraquejaram e eu não sabia por quê. Eu deveria estar bem, mas estava com o corpo inteiro entorpecido, enjoada e com uma dor de cabeça dos diabos.

– 1h40 da manhã – falou Brian. – Cara, isso é tão sinistro! O tempo não passa mesmo aqui!

– Engraçado, podia jurar que ouvi um dos guardas pronunciar o encantamento que faz os objetos comuns atravessarem dimensões sem seus donos. – Agora, era a voz de Mack. Mesmo sem ver, eu podia jurar que ele estava sorrindo.

Senti-me observada quando dois olhos finalmente se fixaram em mim, e a pessoa arfou.

– Droga, Catherine!

Fui notada bem a tempo, porque dessa vez minhas pernas cederam e eu teria ido ao chão, se o ser não tivesse me segurado. Pelos braços excessivamente musculosos, era meio óbvio que meu salvador fosse o sombrio. Mas meu raciocínio estava tão lento que demorei pelo menos três segundos para percebê-lo.

Ouvi todos à minha volta soltarem exclamações de horror ao som das palavras de Mack, mas eu mal dei importância. Porque, no momento em que ele me tocou, eu senti a dor.

O torpor em meu corpo voou para longe e eu gritei o mais alto que pude, de sofrimento. ERA HORRÍVEL! Eu agora podia sentir a flecha dentro de mim, e arregalei os olhos. O ar extinguia-se completamente de meus pulmões. No local onde o infeliz objeto estava, cortando minha barriga, soube que partes dos meus órgãos haviam sido dilaceradas, e o sangue que sentia escorrer por meu corpo completava minha agonia.

Eu percebi que seria melhor morrer do que suportar aquela tortura.

Levei as mãos à boca e desmoronei completamente nos braços de Mack. Eu não podia movimentar um músculo, tudo doía e minha cabeça estava me matando. Fechei os olhos com força, implorando a volta do torpor.

Mas ele não veio.

O sono começou a pesar de modo brutal. Eu não ia conseguir lutar contra isso. No momento, só queria paz, porque a dor era insuportável e eu precisava de cura. E eu tinha esperança de que o sono me trouxesse essa cura! Sabia que não tinha mais forças. E nem queria.

Isso, vou fechar os olhos... Fechá-los e encontrar paz no adormecer, eu só quero que a dor passe, eu só quero que a dor acabe, e...

– CATHERINE! NÃÃÃÃÃO!

A voz de Lizzie foi um choque e eu abri os olhos abruptamente, arfando. Dei de cara com minha melhor amiga a meu lado, sacudindo-me violentamente os ombros e com o rosto banhado em lágrimas. Só aos poucos fui percebendo que não era só ela, todos estavam histéricos à minha volta e berravam de medo e preocupação.

– MATENHA-A ACORDADA! SE ELA FECHAR OS OLHOS AGORA, PODE NÃO VOLTAR! – A voz de Mack era estranhamente alta e embargada. Notei então que ele estava na minha frente, ajoelhado aos meus pés, um passo ao lado de Lizzie.

Olhei para ele, que tinha posto uma das mãos no tronco incrivelmente grosso da flecha, logo depois da ponta. Eu só sabia gemer. E então ele quebrou a madeira ali, fazendo a parte dentro de mim se mexer, e eu puxei o ar com força, endireitando a coluna. Teria gritado, mas nada além de ar saiu de minha garganta. Eu já não tinha forças para emitir o barulho.

Voltei a olhar para minha melhor amiga, e então percebi que eu estava sentada numa espécie de tronco de árvore, e o que me sustentava em pé, ou melhor, sentada, eram justamente as mãos de Lizzie em meus ombros.

– Catherine! – Lizzie soluçava, mas de repente sua voz perdeu qualquer sombra de falhas. – Escute, você tem que me ouvir agora! NEM PENSE em fechar esses olhos de novo, tá me entendendo? VOCÊ NÃO VAI MORRER!

– Li-Lizzie – murmurei, derrotada. Minha voz era rouca, fraca, mesmo eu mal podia ouvi-la... sem vida. – Eu não vou agüentar a dor, não vou... – Toquei a barriga, ignorando o pesar do gesto e o fato de minha mão quase não ter me obedecido. – Fechar os olhos faz a dor ir embora – suspirei e fechei as pálpebras, a dor insuportável já cedendo um pouco. – Eu quero paz. Sim, eu quero... Deixe-me ir, amiga.

– NÃO! – outra vez fui brutalmente sacudida e teria bufado, se pudesse. – Catherine, VOCÊ ESTÁ DELIRANDO? Olhe pra mim, olhe para mim! – implorou a desesperada, e forcei-me a abrir os olhos. – Eu não vou deixar você ir, amiga!

Vi os olhos de Lizzie Johnson se encherem de lágrimas, mas, se por dentro sua alma sucumbia, por fora ela era a ordem e determinação em pessoa. Eu nunca a havia visto daquele jeito antes.

Pensei num motivo para ficar viva, qualquer um.

– Catherine, por favor, eu te amo... Não abra mão de tudo. Não deixe a morte sugar a vida de você. Não ainda.

Minha visão ficou negra e turva após as últimas palavras dela. Foi involuntário, eu não tinha ordenando nem minimamente às minhas pálpebras que voltassem a se fechar.

Um filme da minha vida começou a passar pela minha cabeça. Eu me vi criança novamente e estava de mãos dadas com meus pais, éramos só nós 3, como sempre havia sido... E então a imagem mudou e eu estava com cinco anos de novo, brincando de boneca com Tiffany, uma amiga que não via há anos. Sorri, e meu cérebro se transportou sozinho para quando eu ganhei a gincana besta do colégio no fundamental e Brian e Lizzie, lá presentes, vieram me abraçar e começaram a gritar como retardados.

As lembranças foram se tornando cada vez mais fortes e lindas, e eu percebi tarde demais que as lágrimas já me banhavam o rosto. Minha primeira bicicleta. Meu primeiro beijo com Johnny Hunt. O dia em que meus pais brigaram tão feio que William quase saiu de casa, mas foi impedido por um beijo desesperado de Susan antes que o fizesse. E, finalmente, quando minha avó Mary morreu, e me disse segundos antes de nos deixar:

“Você é uma menina linda, Catherine, e nada me daria maior desgosto no céu do que vê-la desistir da vida. Seja forte. Lute por sua existência até o último minuto, assim como eu lutei! Seja forte todos os dias... Seja forte...”

Abri os olhos.

Respirei fundo e o esforço me custou caro, rasgando o restante das células inteiras em meu corpo. Meus olhos até lacrimejaram, mas ignorei.

– Não vou abrir mão de tudo.

Fitei Lizzie outra vez. Ela sorriu e descobri, naquele instante, que minha vida era meu bem mais precioso. Eu não ia desistir dela. Não ia deixar que a tirassem de mim. Eu seria forte. Por todos que amava. Mas, principalmente, por vovó Mary e minha melhor amiga.

Mack foi para trás de mim.

– Catherine. – Ele disse, e quase respirei aliviada por sua voz estar agora mais tranquila. – Escute, vou ter que tirar isso de você.

Gemi de medo e apertei a mão de Lizzie com toda a força que me restava, a qual não era muita.

– Como? – Aiden perguntou e me assustei com o tom dele, acostumada aos gritos.

Ele estava ao lado de Brian e muitos passos atrás de Lizzie, mas, pelos comentários, deduzi que estaria vendo muito bem a situação em minhas costas. Nem em um milhão de anos eu teria coragem de baixar o olhar em mim mesma e ver a situação abaixo da flecha.

Mack hesitou.

– Vou ter que expor o tronco... Consequentemente, a parte anterior dos seios.

Arregalei os olhos para demonstrar um pavor silencioso, já que só de pensar em falar me dava calafrios.

– Está tudo bem, Catherine – Lizzie acariciou meu ombro e sorriu para mim. – Pense em Mack como um médico.

Um médico... É, eu conseguia pensar em Mackembethor como um médico. Assenti com a cabeça. Ele havia cuidado bem de Liz na primeira vez que caímos em Orazón, e...

Meus pensamentos foram interrompidos quando, de repente, meu tomara-que-caia cor-de-rosa foi rasgado com um violento puxão. Não pude deixar de gritar de frustração e vergonha, o que me rendeu mais dor.

– OLHEM PRA LÁ! – Lizzie prontamente gritou para Brian e Aiden, que, assustados e envergonhados, obedeceram-na virando a cabeça.

Mack começou a tirar a flecha de mim e, não sei de onde, tirei forças para gritar outra vez. Foi um grito alto e gorgulhante. Eu novamente quis me matar a suportar aquela agonia.

Então, ele, hesitando por um momento até que eu me calasse, puxou a flecha de uma vez, fazendo-me perder completamente as forças e cair sobre Lizzie, que ergueu meus ombros até me deixar sentada novamente e soluçou. Ela chorava muito. Mack também tremia atrás de mim por me fazer sofrer, eu conseguia sentir. Eu não queria gritar, mas sentia necessidade... Apesar de que, naquele momento, eu não me sentia mais capaz de pronunciar um “A”

– Força, Catherine, força – choramingou Liz.

– GLYNDA!

A voz de Mack ecoou pela noite tenebrosa.

A princesa demorou um pouco para responder. Eu podia sentir os olhos dela em minhas costas, e soube que estava atrás de mim, como o sombrio.

– Mack... – por algum motivo, eu sabia que Glynda estava arregalando ligeiramente os olhos tristes ao falar com ele. – O corte é muito profundo, estamos no mundo humano e, além disso, atingiu órgãos vitais. E-eu não vou conseguir curar tudo...

– Tente.

Eu ouvi Mack se aproximar dela e, como estava “vendo” as coisas na minha cabeça, imaginei que ele a segurava pelos ombros, tentando fazê-la ver o desespero em seu olhar.

– Por favor, Glynda, você nunca vai saber se não tentar.

Seguiu-se uma respiração profunda e, de súbito, uma mão delicada e quente estava em minhas costas.

Meus olhos se abriram e eu inspirei automaticamente pela boca, dessa vez não mais em busca de alívio, e sim por tê-lo encontrado. A dor de cabeça foi embora, e um torpor leve voltou enquanto eu tinha uma vaga noção do que Glynda estava fazendo.

Tudo, todas as células que haviam sido danificadas em mim começavam a se curar. Eu podia sentir coisas colando, se regenerando e, lentamente, por fim, sendo revestidas novamente pela camada de pele que deveriam.

O corte foi diminuindo, diminuindo... Até que o senti fechar.

Despertei com violência naquele segundo, começando a arfar vigorosamente e amando a sensação libertadora de fazer aquilo sem nenhum tipo de dor. Ri como boba.

Ouvi vários suspiros de alívio ao mesmo tempo com minha risada.

– Você está bem? – Lizzie perguntou, e eu balancei entusiasticamente a cabeça em resposta.

– Sim – ri outra vez. – Sim, estou bem!

Vi Aiden e Brian, que ainda estavam cobrindo os olhos, relaxarem os ombros.

Só então me lembrei de que ainda estava sem blusa.

Corando, observei a peça de roupa caída no chão. DROGAAAAAAA!, choraminguei em pensamento. Eraumtoptão lindo!Em seguida, me permiti analisar meu corpo.

Respirei fundo ao constatar que estava bem. Bem mesmo. Uma cicatriz vermelha e fininha cortava meu peito, e eu agradeci silenciosamente pelo talento de Glynda. A única coisa que me assustou foi o sangue. Havia sangue em toda parte. No tomara-que-caia destruído, no meu tronco, na minha calça jeans que graças a Deus era escura, nas minhas mãos, nos meus braços...

Mack percebeu meu olhar preocupado para mim mesma.

– Não se preocupe – sua voz era serena, tentando me passar confiança. Girei para trás para olhar para ele, que sorriu. – Um banho ali – apontou para a praia – vai resolver tudo.

– E... hã... – tentei ignorar o fato de eu estava sem blusa (embora com o sutiã no lugar, AINDA BEM que ele não tinha sido arrancado junto) e limpei a garganta. – Como arrumo outra parte de cima?

Mack riu.

– Acho que posso ajudar nisso, também.

Eu fiquei feliz por ele não olhar para mim com malícia, sua expressão era apenas calma e profissional. Ele parecia mesmo um médico. Ou, talvez, também pela certa alegria que continha seu rosto, um marido aliviado pela esposa ter sobrevivido a uma cirurgia grave.

Queria abraçá-lo outra vez, como fiz no dia em que nos conhecemos, mas limitei-me a sorrir de gratidão para ele. Senti-me uma vadia sorrindo para um cara que estava me vendo só de sutiã, mas a sensação ruim logo desapareceu. Valeu à pena.

Torci ainda mais o pescoço na tentativa de encontrar Glynda, também atrás de mim. Ao conseguir, sorri para ela.

– Obrigada.

Glynda assentiu, lançando-me um sorriso triste. E seu gesto pareceu ser a gota d’água de seu esforço. O corpo dela caiu para trás, exausto, e Brian se remexeu inquieto, ainda com os olhos tapados; e eu soube que ele teria ido pegá-la, se Mack não tivesse sido mais rápido.

– Você está bem?! – o sombrio perguntou, preocupado. Com razão. Glynda parecia completamente desmaiada nos braços dele.

Suspirei de alívio ao ver a sombria respirar fundo.

– Sim, estou – ela respondeu, os olhos tremendo levemente por trás das pálpebras fechadas.

***

Algum tempo depois, eu já estava reconstruída.

Toda a asneira e paranóia filosófica da minha quase-morte havia passado. Eu já tinha me banhado no mar e estafa satisfeita, sem mais manchas de sangue endurecidas no corpo. Eu não tinha parado para pensar antes, mas agora parecia óbvio que isso – me banhar no mar – só fora possível porque meu corte não estava mais nem um pouco aberto. Se estivesse, o sal marinho em minha ferida teria terminado de me matar.

A cicatriz ainda estava lá, mas toda vez que eu olhava parecia clarear. Eu sorria diante da constatação de que ela estava sumindo. Deus, era fantástico esse tal poder da cura das filhas de Naluah!

Brian e Aiden – pasmem! – ainda estavam com as mãos nos olhos, e eu estava começando a realmente admirá-los pelo esforço. Caramba! Era como se eles estivessem tentando provar que eram dignos da minha confiança, ou que me respeitavam. Sorri e balancei a cabeça para os lados comigo mesma, afinal, que imaginação fértil! Eles deviam ter outro motivo. Fosse o que fosse, a única diferença era que eles agora estavam sentados com a mão na cara, cansados de ficar em pé.

– Já podemos abrir os olhos agora? – Aiden perguntou impaciente.

– A Glynda está bem? – Brian indagou pela 300ª vez, e eu revirei os olhos.

– Minha nossa, Brian! Estou bem – Glynda respondeu, sentada no pedaço de tronco ao meu lado, também pela 300ª vez.

Ela estava mesmo bem, ao menos agora. Eu esperava, com calma, Mack terminar de enrolar o pano hospitalar em volta da minha cintura, concluindo assim minha “blusa”.

Nunca imaginei que tivesse um bolso naquela bermuda verde de mato, mas não é que tinha?! E, pelo visto, o maluco guardava sua espécie de gaze-sombria lá. Não poderia ser mais conveniente.

Mack acabou de enfaixar meu tronco, como se eu fosse uma múmia, e rasgou a parte final do pano; dobrando-o e guardando as sobras dele no tal bolso. Em seguida, apressou-se em enfiar a pontinha por baixo da “blusa” feita, meio que lacrando meu mais recente tomara-que-caia improvisado.

– Muito obrigada mesmo – lancei-lhe um sorriso iluminado. – Por tudo.

– De nada. – Mack suspirou, cansado, mas me retribuiu o sorriso.

– Meninos, podem abrir os olhos agora – eu disse, me virando para eles e prendendo uma risada.

Brian e Aiden destaparam a cara e se levantaram com algum esforço.

– Aaaiii... – grunhiu Aiden, massageando as costelas.

– Ficamos felizes que esteja bem agora, Catherine. – Brian me abriu um sorriso aliviado e sincero.

– É, ficamos morrendo de medo que... – Aiden começou, mas parou ao se dar conta do que ia dizer.

Tentei não me emocionar, mas foi impossível. Sorri para os dois.

– Fofos – acusei, revirando os olhos.

Brian e Aiden ficaram terrivelmente corados. Ah, tudo bem, acho que entendo. Quer dizer, eles acabaram de me ver só de sutiã. Que estranho.

Passei uma mecha do cabelo para trás, tentando esconder o constrangimento súbito.

– Ahm, pessoal – Brian pigarreou e olhou o relógio. – Acho melhor sairmos daqui.

– Ótimo. – Lizzie bufou. – Preparar os pés para uma caminhada longa de novo!

– Espera – Aiden arregalou os olhos. – Vocês vieram andando até aqui?!

– AHAM – eu, Brian e Lizzie berramos para ele com caretas impacientes ao mesmo tempo.

– Minha nossa! – ele pôs a mão na testa, parecendo seriamente surpreso.

– E você veio como, animal?! – quis saber Brian.

Aiden não respondeu. Apenas caminhou em direção à calçada, atiçando nossa curiosidade. Não deixei de acompanhá-lo com meu olhar por um minuto, até que ele subiu no asfalto e tirou do bolso um objeto que não consegui identificar. Só me dei conta do que era quando ele apontou a coisa numa direção específica.

Um carro apitou e piscou seus faróis duas vezes, e eu senti meu queixo cair.

CARAAAAAAAAA, QUE TIPO DE MÁQUINA DISFARÇADA DE CARRO ERA AQUELA?!

– Ah. Meu. Deus – Lizzie arfou.

Aiden sorriu e se virou para nós novamente.

– Alguém quer uma carona?

– CARONA? Oh! – Brian caiu para trás e teve que ser segurado por Glynda, numa cena cômica. Não agüentei, caí na gargalhada.

– É claro que queremos! – eu resolvi responder à pergunta, levantando a mão com ansiedade.

Andamos até o Chevrolet, Brian na dianteira e eu logo atrás. Quando o vento frio da noite atingiu meu rosto, acabei por me lembrar da recente cena constrangedora naquela praia. Engoli em seco, tentando organizar meus pensamentos, mas a vergonha já me dominava. As cenas cruzavam o meu cérebro, imaginei-me como teria ficado aos olhos deles seminua, fazendo de cada passo uma tortura...

Aiden esperou, encostado na porta traseira direita do veículo, enquanto nos aproximávamos. Quando o alcançamos, abriu um sorriso satisfeito. Ele deu meia-volta e caminhou em direção à traseira do carro, eu bem sabia que ele estava indo para o banco do motorista. Meus lábios tremeram e, quando me dei conta, já tinha exclamado, num ímpeto:

– Tirem a camisa!

Ele parou e girou o corpo, ficando de frente para mim outra vez, e arregalou os olhos. Assim como Brian.

– O quê?!

– Er... vocês me viram sem blusa. – Cruzei os braços, obrigando-me a soar firme e autoritária, como se fosse mais uma ordem do que um pedido. – Não tenho o direito?

Tudo bem, sei que é completamente diferente ver uma mulher sem blusa de um homem sem camisa! Mas eu sabia que, quanto mais inferiorizasse a relevância daquele acontecimento, mais cedo esqueceria e menos mal me sentiria com ele.

Os dois se entreolharam e, inacreditavelmente, atenderam meu pedido. Brian passava a camiseta cor de caramelo pelos ombros e Aiden fazia o mesmo com sua pólo azul-marinho.

Brian só pareceu se arrepender da decisão, um pouco, quando a ausência da peça revelou sua magreza e a pele lisinha. Não me incomodei com nada, até aí era... normal. Mas, quando Aiden tirou a dele...

AI, MINHA NOSSA SENHORA DAS ADOLESCENTES EXCITADAS!

Pisquei, querendo saber se aquela imagem era real. Tudo bem que o peitoral de Aiden não era tão definido quanto o de Mack e o dos guardas, mas eu estava realmente despreparada para o que ia ver.

A pele do mestiço brilhava de forma discreta à luz da lua, dando um ar incrivelmente mais sexy à cena. Os músculos pálidos eram firmes, e pareciam ter sido cuidadosamente esculpidos por um artista. Percebi que estava boquiaberta e obriguei-me a recuperar o juízo, mas ele não viria tão cedo.

Não consegui deixar de sorrir para Aiden, aprovando seu corpo. Ele apenas revirou os olhos, como se dissesse: “eu sei que sou gostoso”. E PÕE GOSTOSO NISSO!

– HAM-HAM! – Lizzie pigarreou tão alto do outro lado do carro que me assustei, virando-me para ela bem a tempo de ver sua cabeça por sobre o teto do veículo. Como é que ela foi parar ali? – Vamos? – falou com raiva, antes de entrar pela outra porta traseira e batê-la.

Nossa! Por que será que além de não gostar do Aiden, ela faz questão que ninguém mais aprecie a gostosura dele?

Fiz de conta que punha uma parte de cima imaginária para comunicar aos meninos que podiam vestir a camisa outra vez. Fiquei com medo de que minha voz falhasse, caso resolvesse falar.

Entrei pela porta mais próxima e fiquei ao lado de Lizzie no banco traseiro. Segundos depois, Aiden abria a porta do motorista e Brian punha o cinto no banco do carona. Difícil mesmo foi convencer Mack e Glynda a entrarem no carro. Eles encaravam o veículo com desconfiança – ai, Deus! –, com certeza nunca tinham visto um carro na vida.

– É só fechar – tentei orientar Mack quando ele entrou por último, encarando a porta como se fosse algo complexo.

Sem dizer nada, ele agarrou o encosto preto colado na mesma e a fechou – com uma força descomunal. BANG! Me agarrei ao braço da minha melhor amiga com o susto.

Aiden pôs as mãos na cabeça e a girou para trás na mesma hora.

– COM MENOS FORÇAAAA!

– Desculpe. – Mack murmurou, constrangido.

Aiden voltou-se novamente para o volante, resmungando baixinho frases e xingamentos que não entendi e, provavelmente, nem queria entender.

Ele deu a partida no carro e nós arrancamos.

Pensei que seria um imprensado com quatro pessoas no banco de trás, mas até que não naquele carro estupidamente espaçoso.

***

Nós logo chegamos à minha casa, a primeira parada.

– Bom, é aqui vocês ficam – Aiden girou o pescoço para fitar a mim, Mack e Glynda.

Depois de muito debater, tínhamos decidido que eles deveriam ficar temporariamente na minha casa. Parecia ser a única solução, já que meus pais estavam viajando e, portanto, eu era a única que tinha condições de abrigar aquelas duas figuras provavelmente assustadoras de pais. Quero dizer, não é todo dia que se vê uma garota vestida de princesa e um cara sem camisa, com uma bermuda feita de mato...

– Até mais – falei ao sair do carro. Eu já me sentia totalmente recuperada e sem nem sombra de dores. Planejava agradecer ainda mais a Glynda quando ficássemos a sós.

Caminhei até a entrada de minha casa e destranquei a porta, consciente da presença de Mack e Glynda bem atrás de mim. Fi-los entrar, e começava a apontar e explicar onde ficavam os dois quartos de hóspedes acima das escadas, divertindo-me com as expressões bestificadas dos dois, quando me virei para acenar pela última vez para meus amigos... e logo vi algo que não tinha notado.

Lizzie me encarava, de modo apelativo, com seu vidro aberto. De início não entendi por que, mas logo me dei conta da situação. Ela ia voltar para casa sozinha com dois homens num carro. Ahn... isso soa meio assustador até para mim, quanto mais para minha melhor amiga fresca e neurótica. Certo, então eram dois caras dos quais eu me recusava a desconfiar, e tinha quase certeza que não abusariam da Lizzie sexualmente nem na China.

Mas nunca se sabe!

– Ahm... – comecei, apertando os lábios, e Mack e Glynda automaticamente pararam no topo da escada e se viraram para mim. – Vão subindo e façam os trajetos que eu disse, ok? – falei, já passando meu corpo para fora de casa outra vez, sem deixar de encará-los. – Abram a porta assim como eu fiz com essa aqui, e sabem como é uma cama, não sabem? Pois bem. Quero ver cada um na sua quando eu voltar. Ah, e não toquem em mais nada além da maçaneta e da cama!...

Dei-lhes mais algumas instruções antes de retrancar a porta de casa e correr para o descolado veículo azul-marinho. Enfiei-me no banco de trás, fechei a porta e olhei para frente bem a tempo de ver Aiden e Brian com os pescoços girados para trás, me encarando. Apenas Lizzie parecia feliz, sorria ao meu lado.

– Ahn... Catherine. Que diabos você pensa que está fazendo? – interrogou-me o dono da máquina.

– Eu juro que não entendo essa menina! – Brian, dramático, levantou as mãos para o céu em sinal de “por-que-comigo?”. – CATHERINE REYNOLDS, você acabou de ser ferida, tem dois malucos que não sabem de NADA do mundo humano na sua casa, então posso saber como é que você não está cansada e ainda por cima quer que eles destruam tudo, enfiada nesse carro?!

– Nossa, calma, Brian! – sorri matreiramente, divertindo-me com o olhar assassino dele. – Mack e Glynda não vão destruir nada, eu já mandei eles não tocarem em qualquer coisa que não fosse a maçaneta de seus quartos e a cama. E, depois, ah, eu só acho que vou ficar muito deprimida se for para casa agora! Queria dar uma voltinha com vocês um pouco... – fiz biquinho. – Por favor! Aiden, só até você deixar todo mundo em casa. Depois, vem para cá outra vez e aí pode ir para a sua. Eu pago até a gasolina se você quiser!

Aiden franziu a testa para mim, mas não disse nada. Arrancou, e Lizzie suspirou de alívio quando o carro voltou a movimento.

– Obrigada – ela murmurou para que só eu pudesse ouvir.

– De nada. – Respondi no mesmo tom, sorrindo para ela.

Deitei a cabeça no encosto e deixei meus pensamentos vagando, enquanto observava a paisagem pelo vidro mais próximo de Lizzie, o qual exibia a urbanização. De certa forma, me recusava a olhar pela minha janela, com vista para o litoral que eu queria esquecer. Também às vezes conversei potoca com todos ali naquele carro, querendo afastar certas imagens da minha mente.

Até que avistei algo chocante.

Esfreguei os olhos e, ao constatar que era real, arregalei-os.

– PARE O CARRO! – berrei.

Minha voz era tão urgente que, mesmo se saber o motivo por trás de minha ordem, Aiden obedeceu, assustado.

– Por quê?! – ele vociferou, enquanto eu atropelava Lizzie para sair pela porta dela. Sem me dar ao trabalho de responder à sua pergunta, saí para a rua vazia e bati a porta.

O frio da noite instantaneamente me atingiu outra vez, mas o ignorei. Concentrei-me em marchar até a figura que eu havia avistado através do vidro.

A pessoa estava longe e de costas para mim enquanto caminhava, porém o som dos pneus com a freada brusca de Aiden devia tê-lo chamado atenção. Pois ela agora olhava para mim enquanto eu me aproximava.

Podia ser loucura. A rua estava mal-iluminada e eu apenas pensava ter reconhecido a blusa do sujeito, um homem, e seu corte de cabelo estiloso na escuridão. Eu apenas podia ver a parte branca de seus olhos agora, mas isso mudou ao chegar mais perto.

Sim, era ele. Meu melhor amigo homem.

Frederick James Gilbert.

– O que está fazendo aqui, Freddie? – perguntei preocupada, cruzando os braços para ele.

Freddie sorriu como um babaca, e passou a mão pelos cabelos desarrumados, bagunçando-os ainda mais. Ele estava com uma garrafa de sei-lá-o-quê numa das mãos, que era o que mais me alarmava.

– Nada, Catherine. Só curtindo a noite, aí! – A voz grogue e o bafo de bebida que atingiu meu rosto, quando ele falou, me deram vontade de vomitar. Tossi, fechei a cara, e, a contragosto, dirigi-lhe a palavra novamente:

– Bêbado outra vez? – murmurei entredentes.

Ele fez uma careta para mim e soluçou.

– Chata!

– É sério, Frederick. Já conversamos sobre isso! – disparei, irada, apontando na direção em que tinha deixado o carro. – Está vendo só aquele carro ali? A Lizzie está lá, pense no que ela diria se te encontrasse nesse estado deplorável!

Os olhos dele rapidamente mudaram, entristeceram.

Eu me arrependi. Observei, calada e culpada, enquanto Freddie passava os dedos pelos cabelos novamente, nervoso.

– Eu... não... eu... ela... Ela não pode me ver!

– Freddie... – sussurrei, parando para tocar-lhe o rosto.

Ele desviou o olhar para mim. Mantive-me firme, compreensiva. Acariciei seu rosto até que o pânico se dissipasse de seus olhos e a calma, lentamente, voltasse.

– Desculpe – ele suspirou, fechando as pálpebras.

Senti meu coração se apertar no peito. Freddie virou-se para trás e arremessou a garrafa; o vidro quebrou-se na escuridão. Obriguei-me a pronunciar as palavras.

– Por que foi desta vez?

– É uma garota. Não, duas. Não sei ao certo, é... confuso. – Ele jogou tudo num jato, respirando com dificuldade.

Suspirei e voltei a olhá-lo nos olhos.

– Freddie – murmurei. – Por favor, venha comigo.

Ele não respondeu.

Então peguei-o pela mão, tendo a sensação de que estava conduzindo um robô enquanto caminhava novamente na direção do carro de Aiden. Percebi que todos estavam saindo do veículo, tanto o motorista quanto Brian e Lizzie.

Eles arregalaram os olhos para mim ao se darem conta de quem eu trazia.

– Fre...? – Lizzie começou, fazendo a figura atrás de mim estremecer.

Rapidamente pus um dedo em meus lábios. Ela se calou, e os outros dois garotos atrás dela fecharam as bocas entreabertas.

– Ele vem com a gente. Agora vamos embora – eu disse com simplicidade.

Enfiei Freddie no banco traseiro, entre mim e Lizzie, e então partimos outra vez. O clima ficou pesado e estranhamente silencioso. Ninguém se atreveu a pronunciar uma palavra.

Em algum momento, desviei o olhar para ver como estavam as pessoas ao meu lado.

Freddie parecia imerso em seus dilemas interiores, seu olhar era frio e distante. Lizzie, por outro lado, estava começando a ficar meio verde.

Espera aí. Verde?!

Minha melhor amiga de repente sobressaltou-se e levou as mãos à boca.

– PARE O CARRO! – dessa vez foi ela quem ordenou para Aiden, ainda com a boca tapada.

– Ah, não, outra vez?! – irritou-se nosso motorista.

– Aiden, pare o carro A-GO-RA, a não ser que queira o banco traseiro sujo!

Dito e feito. Aiden deu uma freada ainda mais brusca que a anterior, tão forte que me fez colidir a testa contra o encosto do banco do passageiro, e, no caso de Freddie, ele voou pelo espaço que separava os dois bancos frontais.

Lizzie abriu a porta do carro com um gesto abrupto, e rapidamente saiu de lá. Ela deu a volta no veículo e começou a andar em direção à rua. Preocupei-me; assim que saí do estado de choque, abri a porta do meu lado e fui segui-la. Ao começar a correr, notei que Freddie estava bem atrás de mim.

– LIZZIE! – chamei.

Não obtive uma resposta. No segundo seguinte minha amiga caía de joelhos no asfalto e se dobrava sobre o próprio corpo, vomitando até os pulmões.

Obrigando-me a ignorar o enjôo, corri até ela e a alcancei. Rapidamente erguendo-a, passei um de seus braços por meu ombro. Lizzie olhou para mim com os olhos quase fechados e indecifráveis, a única coisa que pude diferenciar neles foi o sono.

– Cathy... – Ela murmurou o meu nome.

E aquela foi última coisa que eu ouvi de seus lábios frágeis, antes de minha melhor amiga apagar nos meus braços.

Notas finais
EU QUERO PEDIR A COMPREENSÃO DE VOCÊS AGORA!
Final do ano, muitas provas e recuperação está aí. Aqui no meu colégio (de loucos, vale ressaltar que ele é o MELHOR DO ESTADO) o ano letivo termina em outubro - no meu caso, NOVEMBRO por causa da recu. Ou seja, É O FINAL DO ANO MESMO!
E preciso estudar. Não há mais previsão para os capítulos da BTS e vocês vão ter que me ajudar de um jeito: POSTANDO REVIEWS. Gente, agora é sério. NUNCA, SOB HISPÓTESE ALGUMA, pensem em deixar de postar nesse momento! EU PRECISO DE VOCÊS! São os reviews que me dão inspiração para escrever os capítulos, e eu vou precisar de MUITA inspiração já que não terei tempo.
Beijos. POR FAVOR, LEVEM A SÉRIO!