Before The Sunrise
26 Reviravolta Confusa
Notas iniciais
Por favor, me desculpem o capítulo. Pra mim ele está uma merda e só estou postando porque me sinto horrível por já ter demorado demais D:, achei que vocês tinham o direito de PELO MENOS saber o que acontecia aqui.
26.Reviravolta Confusa
Lizzie
Está tudo tão escuro.
Minhas pálpebras tremeram fechadas quando me esforcei para enxergar. Abri os olhos, e tomei um susto ao ver que me encontrava num quarto desconhecido.
Cautelosa e me sentido alerta, sentei na cama de solteiro vestida com lençóis em tom pastel. Passei a mão pelo rosto; tentei me lembrar o que havia acontecido. Era tão iluminado e sem-vida ali! Olhei para a esquerda e encontrei um monte de equipamentos, todos que eu já me lembrava ter visto em filmes quando os personagens estavam no hospital.
Ah. Meu. DEUS... OK, LIZZIE, RESPIRA! Não é tão ruim assim, você está num hospital, mas não morreu, não é o fim do mundo. Inspira, expira, inspira, expira... Aaaah... Isso... Concentração.
As imagens dos mais recentes e traumáticos acontecimentos pelos quais eu tinha passado inundaram-me a mente, e eu tapei a boca, mal querendo acreditar na minha memória. O mundo dos sombrios. O resgate de Mack. A fuga com Glynda. O jacaréossauro. Bichos desgraçados, os delmos. Guellick. Guardas por todos os lados. Encurralados e capturados. Kree’Belle. Catherine ferida.
Mordi o punho, passei a mão nervosamente pelo rosto e cabelos e tentei desesperadamente me acalmar. Eu havia ido parar ali de um jeito nada elegante: depois de ter vomitado tudo o que tinha direito na rua – detalhe: BEM NA FRENTE de três meninos –, desmaiei nos braços de Catherine. Ah, que ótimo. EU QUERO MORRER!
Tentei me ajeitar melhor por baixo das cobertas beges e encostei as costas na cabeceira da cama, sempre suspirando. Só então tive necessidade de olhar para o lado direito do quarto, o qual eu ainda não havia checado. Tratei de fazê-lo.
Aiden dormia profundamente numa cadeira ao lado da minha cama; a cabeça pendida para o lado, os olhos fechados, a respiração tranqüila, pacífica, regular.
Arregalei ligeiramente os olhos de surpresa por ele estar ali, ao mesmo tempo em que meus lábios se repuxavam num sorriso automático de satisfação. Era...tão bom não estar sozinha.
– Aiden – murmurei num fio de voz.
O som mínimo incrivelmente bastou para despertá-lo. Aiden abriu os olhos sonolentos prontamente, e desviou-os para mim. Engoli em seco.
– Lizzie. – Ele inspirou fundo e, fechando brevemente as pálpebras outra vez, girou o pescoço numa espreguiçada antes de tornar a abri-las. E sorriu fraco para mim. – Que bom que acordou.
Fiz uma careta com o rangido que ecoou pelo ambiente quando Aiden empurrou a cadeira para trás, levantando-se. Ele deu pelo menos três passos até extinguir completamente a distância entre nós, a ponto de encostar-se à beirada da minha cama.
– Você está bem? – ele perguntou, fazendo-me corar de leve.
PARA DE PENSAR NO SEU VÔMITO E DIGA ALGUMA COISA, LIZZIE!
– Estou bem. – Garanti, erguendo uma mão para alisar meu cabelo caso estivesse bagunçado.
Aiden alargou um pouco o sorriso.
– Que bom. Ficamos muito preocupados com você, noite passada.
– Aaaaah... – Corei mais ainda e desviei os olhos dos dele. Tentei não imaginar todos os meus amigos sentados num banco de hospital enquanto euzinha aqui estava desacordada.
Ei, espera aí. Ah, meu Deus!Noite passada?!
– Que horas são? – perguntei com súbita preocupação.
Aiden não pareceu surpreso com a minha pergunta, mas tampouco alarmado. Estudei-o com curiosidade, enquanto o ser parava para olhar no relógio com a maior calma do mundo.
– 10h45 da manhã.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!
– Da manhã? Dez e quarenta e cinco da manhã?! – berrei, incrédula. Ele simplesmente confirmou com a cabeça, bocejou, e me encarou enquanto eu fazia cara de idiota, boquiaberta. – NÃO! – deitei na cama e escondi minha cara com o travesseiro. – Minha mãe vai me matar, mataaaaar, eu tenho certeza que dessa vez ela me MATA!
Aiden riu com o meu drama.
– Calma, Lizzie...
– Calma? COMO É QUE VOCÊ ME PEDE PARA TER CALMA NUMA HORA DESSAS, SEU LOUCO?!
Inacreditavelmente, consegui fazer Aiden gargalhar ainda mais. Fechei a cara para ele e franzi as sobrancelhas, estranhando aquela atitude e ao mesmo tempo odiando-a com todas as minhas forças. Eu ia matar Aiden se ele estivesse tentando me assustar com a falta de explicações!
– Lizzie – ele pronunciou meu nome ainda meio que rindo. Mas então, me segurou pelos ombros, e sua voz perdeu completamente qualquer traço de humor quando ele voltou a me falar, encarando-me sério: – Relaxe, ok?
Diante do olhar preocupado, fiz o que ele pediu. Soltei a respiração, eliminando assim a tensão em meu corpo. Aqueles olhos azuis podiam ser bem convincentes quando queriam.
Ele esperou eu me acalmar para revelar o motivo de tanta preocupação:
– O médico disse que você desmaiou provavelmente por uma queda repentina de adrenalina no sangue.
Arqueei uma sobrancelha para Aiden, que revirou os olhos.
– Vou explicar – continuou. – Ele perguntou se você tinha passado por acontecimentos traumáticos nas últimas horas, nós dissemos que sim, e então ele começou a tagarelar sobre... – Aiden fez uma careta. – Bem. Sabe nos filmes, quando os mocinhos ficam frente a frente com os bandidos, os dois lutam ou se xingam, mas, depois que os bandidos vão embora, uma das mocinhas desmaia?
– Aham.
– Foi mais ou menos isso o que aconteceu com você. Enquanto estava em perigo, ou quando a Catherine precisava de você – Aiden me esboçou um sorriso triste –, não deixou de correr ou ajudar. Mas, quando saiu da situação...
– Me dei conta do quanto era horrível e não agüentei. – Completei a frase por ele.
Não foi uma pergunta, mas mesmo assim Aiden não deixou de me dizer “isso”.
Suspirei. Parecia fazer sentido.
Foi mesmo só quando estava no carro de Aiden que me toquei, de repente, de todo o perigo pelo qual tinha passado. O medo, a adrenalina, o espanto, tudo veio como um jato. Eu me senti terrivelmente enjoada e tive que vomitar, assim como depois toda a preocupação sumiu, simplesmente evaporou como se nunca tivesse existido.
Levei uma mão trêmula à cabeça e fechei os olhos.
– Onde estão os outros?
Aiden olhou para mim por alguns segundos, deu de ombros e então me virou as costas. Percebi que ele ia voltar para a cadeira, e minha hipótese se confirmou quando ele a alcançou e a arrastou para frente, só parando quando a cadeira estava bem próxima à minha cama. Parecendo satisfeito com a nova distância, sentou-se, e depois ainda trouxe o assento para mais perto de mim, encostando o braço do móvel na cama.
Tamborilei os dedos no colchão impacientemente, ainda esperando ele responder à minha pergunta. Mas não me incomodei com nossa proximidade. A recente (e espero que última) viagem a Orazón tinha tornado a mim e a Aiden mais íntimos do que eu poderia sequer imaginar que um dia nós seríamos.
– Estão todos bem – ele garantiu, ajeitando-se melhor na cadeira. – Brian foi o primeiro a ir para casa, eu o levei assim que te alojaram nesse quarto. Catherine foi mais relutante, ficou chorando o tempo todo, como se seu estado fosse grave. Mesmo depois que o Dr. Curtis falou que você só tinha desmaiado e “agora estava dormindo” – Aiden revirou os olhos e eu prendi o riso. Isso é mesmo a cara da Catherine, se preocupar tão obsessivamente comigo!, pensei. – Mas umas 4h da manhã, consegui convencê-la a ir. Ela só foi por que sabia que tinha de estar em casa quando Mack e Glynda acordassem. E também porque eu falei que cuidaria de você. – Ele piscou um olho para mim, divertido.
Não agüentei mais segurar a risada e gargalhei, sentindo o clima entre mim e Aiden suavizar, tornar-se mais leve. Foi uma boa sensação.
Ele esperou eu terminar de rir, mas assim que o fiz uma nova lembrança da madrugada atingiu-me em cheio o cérebro.
Trinquei os dentes, numa mistura de ódio da minha melhor amiga e do meu melhor amigo, e também de uma súbita, excessiva e curiosa preocupação com um deles.
– Catherine sabia sobre Freddie. – Estranhei minha própria voz quando falei.
A princípio, Aiden não entendeu a que eu me referia, pois as sobrancelhas dele se curvaram para baixo e para cima, em nítido sinal de confusão. Porém, segundos depois, a compreensão cintilava nos olhos azul-piscina.
Ele hesitou. Meus lábios tremeram antes que eu pudesse continuar:
– Ele estava bêbado ontem à noite. – Baixei a cabeça. Eu já não mais entendia meus sentimentos, eles eram confusos. Ainda há pouco sentia raiva. Agora, sentia dor. – Sabe, Aiden... uma coisa que nunca imaginei foi ver o Freddie naquele estado, mesmo sabendo que ele gostava de álcool.
Respirei fundo e expeli o ar.
Eu estava sentindo uma conhecida ardência nos olhos, mas... eu queria evitá-la. Eu não queria chorar. Eu não queria o bolo que se formara em minha garganta!
– De repente, faz sentido por que ele estremeceu ao som da palavra “bêbado”, como eu notei uma vez – falei com dificuldade. Duas lágrimas pontaram-me os olhos. Eu os fechei, não as deixando escapar. – Eu não esperava isso do Freddie, Aiden... Não mesmo. E a Catherine sabia, dava pra ver pela forma com que ela olhou para ele ontem. Mas ela nunca me contou. E ele também escondeu isso de mim. Por quê?
As gotas não paravam de tentar rolar e eu sabia que, se as tivesse deixado, à essa altura eu estaria com o rosto banhado em lágrimas. Porquê, Deus, por quê?!, a pergunta martelava em minha cabeça.
Eu pensei que talvez Freddie não achasse necessário me confessar que às vezes bebia pra se acabar, talvez ele achasse até normal. Talvez Catherine tivesse descoberto por coincidência e, por desaprovar tal comportamento e por achar que eu ia ficar bolada, foi puramente pensando em mim que ela não quis me contar. Talvez fosse isso, e eles mesmos não esperassem que eu fosse ficar magoada, mas eu estava. Pensei que fôssemos amigos, e de repente descubro esse segredo entre nós.
Senti os dedos da minha mão esquerda – aquela que estava mais longe de Aiden – retorcidos e só então percebi que cravava minhas unhas no colchão como uma gata. Droga. Não era para menos. Agora me sentia totalmente doente, e o fato de eu estar num hospital parecia fortalecer a sensação. E eu, sempre que me sentia doente, sempre que entrava num hospital – pelo menos nas únicas duas vezes em que estive em um, e a adoentada era eu –, tinha alguém para apertar a mão.
Naquele momento, pareci precisar disso mais que nunca, pois a própria Catherine me apertara a mão dezenas de vezes quando eu estava meio enjoada, ou gripada... ou doente de alguma maneira. No entanto, eu me encontrava sozinha.
E não havia ninguém.
Controlei-me para não chorar e para desencravar as unhas da cama. Eu não queria que Aiden presenciasse meu choro ou percebesse minhas unhas; nenhuma das duas coisas parecia legal. Inspirei e expirei, inspirei e expirei, buscando recuperar a calma.
– Você quer dizer que... – ele tornou, depois de minutos silenciosos. – Acha que isso, de ele ficar embriagado, acontece com frequência?
Ergui o olhar para ele.
– Se ainda não percebeu, estou totalmente por fora da vida alcoólatra do Freddie – ri sem humor. – Mas tenho certeza de que não é uma vez perdida, contando as vezes em que ele faltou o colégio depois dos aniversários e das outras festinhas particulares de Stella. – Meus olhos voltaram a ficar marejados, dessa vez de raiva por eu ter sido tão ingênua, mas minha voz continuou firme. – Pensei que ele faltasse por estar exausto, embora agora pareça meio óbvio que era tudo ressaca.
Aiden suspirou. Surpreendi-me ao vê-lo com a cabeça baixa, os olhos reflexivos, como se ele estivesse preso a um dilema interior. Quando ergueu o olhar para mim novamente, parecia decidido a me contar alguma coisa.
– Lizzie. – Ele olhou profundamente dentro dos meus olhos e até congelei, prestando a máxima atenção. – Por favor... – sua voz falhou. Era uma estranha mistura entre um tom sério e suplicante. – Não fique tão zangada com o Freddie. Ele se importa muito com você. Não tem idéia do quanto.
Aquelas palavras me pegaram de surpresa, aguçando-me a curiosidade. Arqueei uma sobrancelha.
– Por que diz isso?
– Porque – Aiden desviou os olhos dos meus e prosseguiu, cabisbaixo, agora com certa amargura – quando você desmaiou nos braços da Catherine, não tem idéia de como ele ficou. Arregalou os olhos de uma sincera preocupação, depois se aproximou devagar e... pegou você no colo. – Ele parou para franzir os lábios. – Lizzie, se você estivesse lá. Eu fiquei besta com tamanha delicadeza. E então ele começou a andar até o carro com você nos braços, como se fosse um bebê; nem parecia mais que ele estava bêbado. Perguntei-me como ele conseguia carregá-la, e só então notei que o Freddie era...
Aiden fez uma pausa, parecendo procurar a melhor palavra. Eu corei, pois sabia o que ele ia dizer. Freddie tinha uns poucos músculos, nos quais ninguém reparava, exceto quando o Gilbert tinha a chance de exibi-los.
–... fortezinho. – Aiden zombou do próprio termo com um sorriso debochado, sem vontade. – E o Freddie não disse nada, nem mesmo quando entrou com você no banco de trás. Catherine, assim que se recuperou do choque, também foi para lá correndo; e eu me vi obrigado a dirigir. Ela e o Brian ficaram discutindo a viagem inteira, mas o Freddie ficou calado. Sem desviar os olhos de você e, às vezes, acariciava o seu rosto de um jeito tão...
O lábio inferior de Aiden estremeceu e ele parou de falar de repente, balançando a cabeça para os lados.
Franzi o cenho, aquilo me deixou confusa. Por um segundo, pareceu que ele queria esquecer... afastar aquelas imagens de sua mente. Eu engoli em seco enquanto meus olhos perdiam o foco e capturavam Aiden de maneira muito distante, pois eu refletia sobre o que me acabara de ser dito.
E então, toda a raiva que eu sentia de Frederick Gilbert se esvaiu de meu corpo; evaporou simplesmente para algum lugar distante. Como eu poderia odiá-lo agora, depois de ouvir como ele ficara preocupado comigo? Como, como em sã consciência eu poderia detestar alguém que cuidou de mim talvez de um jeito até mais doce do que um pai cuidaria da própria filha?
Respirei fundo. Freddie não me odiava. Na verdade, ele se importava comigo.
– Então – disse Aiden, atraindo minha atenção de volta para ele. – Ainda o odeia?
– É... acho que não. – Um projeto de sorriso tomou conta do meu rosto.
Mas meu sorriso logo se desfez, enquanto eu pensava em Catherine e em tudo o que ela já havia feito por mim. Senti vergonha de mim mesma por tê-la julgado, ainda que por um segundo. Fechei os olhos, tentando afastar os pensamentos. Mas eles persistiam, e eu estava quase chorando por causa das minhas mãos ainda completamente vazias.
– Aiden. – Forcei-me a abrir os olhos. – O que aconteceu com ele?
– Com... Freddie?
Confirmei com a cabeça enquanto o observava. Aiden ergueu o olhar para mim. Ele estava estranho desde que tinha falado sobre o jeito com que Freddie me pegou no colo.
– Ah. Bem, esqueci de dizer que o levei para casa junto com o Brian. – Ele fitou o nada. De repente, pareceu se lembrar de alguma coisa; abriu um sorriso cheio de humor e revirou os olhos. – Apesar de o Freddie estar muito preocupado com você, ficar na sala de espera sem fazer nada e, ainda por cima, cheio de cachaça... foi demais para o sono dele. Tive de levá-lo dormindo até o carro. E quando chegamos à casa do cara, o Brian ainda me fez dar a volta e entrar pela porta dos fundos, com a chave reserva escondida embaixo de um vaso de flores. Subimos as escadas e colocamos o Freddie no quarto. Advinha quem foi que o carregou de novo? Eu, claro. Freddie devia nos agradecer por tentarmos não encrencá-lo com os pais.
Esbocei um sorriso, mas não conseguia parar de pensar em Catherine ou na minha vontade de apertar a mão de alguém.
Não deu mais para segurar. A dor tomou conta de minha expressão e, quando dei por mim, cravava outra vez, e com força, os dedos na cama. Dessa vez eu usava ambas as mãos. Eu estava cansada de reprimir as lágrimas, mas eu tive certeza de que ia morrer se chorasse na frente de Aiden, que, ainda por cima, estava acabando de presenciar minhas unhas tentando agarrar-se debilmente ao colchão.
– Ahn... Lizzie. – Ele fitou minha mão direita. – Está tudo bem?
Suspirei.
– Não – admiti num fiapo de voz embargada, e forcei-me a encará-lo. – Sabe, é uma longa história. Sou meio fraca para doença, sempre que tenho uma, penso que estou morrendo. – Abri um sorriso fraco. – E acho que ficar aqui, nesse hospital, meio que me lembra, ou me faz pensar que estou doente. – Soltei o ar com a boca pesadamente. – Sempre seguro a mão de alguém quando estou e... eu sei que é ridículo.
Tirei os olhos dele, voltando a cabeça para frente. Eu o via somente pela minha visão periférica. Aiden não disse nada por alguns segundos. Olhou para a minha mão, depois para mim, depois de novo para minha mão e para mim novamente.
– Lizzie, posso te fazer uma pergunta? – ele indagou e eu assenti. – Você me considera seu amigo?
Não precisei pensar muito na resposta. Surpreendentemente.
Abri um sorriso; praticamente me obriguei a fazê-lo. Minha tristeza dificultava arduamente a tarefa.
– Ei, eu já passei várias horas ao seu lado conversando... Tá, tudo bem, a maior parte do tempo foi em outra dimensão, mas ainda assim. Você já salvou minha vida duas vezes: uma de morrer caída de um penhasco, outra de virar papa dejacaréossauro.E nós até já nos abraçamos, cara! Então, apesar da minha aversão natural a você, acho que posso dizer que quebrou essa barreira o suficiente para se autoproclamar meu amigo.
Aiden gargalhou. E o som de uma risada extinguiu outra vez a atmosfera ruim entre nós, tornando o meu sorriso mais autêntico e fazendo-nos ver a verdade nas palavras. Sim, apesar de tudo, nós éramos amigos. Amigos bem estranhos, mas amigos verdadeiros.
– Então, Elizabeth Johnson, acho que posso perfeitamente apertar a sua mão.
E, cheio de razão, ele estendeu o braço por cima da minha cama. Rapidamente agarrei-me a seus dedos e gemi, agradecida.
Era algo único e agradável, o toque de Aiden. Era reconfortante segurar sua mão, assim como era abraçá-lo... Havia alguma coisa ali, provavelmente por ele ser um mestiço. Talvez estar de mãos dadas com ele estivesse sendo, para mim, melhor do que deveria ser naquele momento. Afinal, eu estava feliz de um modo até ridículo por ter finalmente arranjado uma mão para apertar.
Fiz o coitado sofrer no início. Entrelacei nossos dedos e, com toda a força que tinha, comprimi minha palma contra a dele; querendo descontar todo o turbilhão de emoções que eu estava sentindo, das mais brandas às mais violentas. Aos poucos, aquele toque mágico fez as emoções ruins, que eram maioria, deixarem-me. E quando todas se foram, respirei aliviada.
Foi só aí que parei totalmente de fazer uma pressão agressiva, mas Aiden não se queixou nenhuma vez. Pelo contrário, parecia não estar sentindo nada.
E será que não estava mesmo sentindo nada? CARA, como nós humanas somos criaturas fracas!Xinguei baixinho, ainda olhando para nossas mãos entrelaçadas.
Respirei fundo. Hesitei antes de erguer o olhar para Aiden, e quase morri quando o fiz.
Ele tinha um sorriso de quem queria rir nos lábios, o que me fez corar. Eu devia ter suspeitado que ele estivesse observando minha mudança de expressões e, ainda por cima, se divertindo com a situação.
– Ahn... – tentei falar, as bochechas ardendo. – Espera aí! Você ainda não me disse por que é que ficou aqui em vez de um dos outros... Quero dizer, e seus pais?
– Não se preocupe com isso – Aiden deu de ombros. – Minha mãe é acostumada a não me ver na cama pela manhã de vez em quando, graças a meu surto de rebeldia quando eu tinha 13 anos. Dormi muito na casa do Cole sem avisar. Por isso, ela nem faz mais drama, entende?
Automaticamente revirei os olhos e ri.
– Rebelde...
– Ela deve até mesmo pensar que eu estou no colégio agora. Só vai pirar se eu não aparecer até as 15h30. – Ele piscou um olho para mim, depois abriu um sorriso irônico. – Rebelde?... Até que nem tanto.
– Sei. Na verdade, esse era o motivo número 1 na minha lista de “Por que eu odeio Aiden Hills” – caí na gargalhada com a recordação. Ah, Deus, parecia tão infantil agora!
Ele arregalou os olhos para mim, chocado.
– Mentira que você me odiava tanto assim! – exclamou, e eu confirmei entusiasticamente com a cabeça, divertindo-me e gargalhando outra vez. – E quais são os outros motivos?
– Huuuum... Viciado em jogos de computador... – Contei a segunda razão nos dedos.
– É brincadeira, não é? – Ele fez uma careta. – Nunca fui! Eu só jogava os jogos da moda e, mesmo assim, depois de três dias enjoava, juro! – defendeu-se.
– E como é que, em todas as vezes que te vi conversando no ano passado, você só sabia falar de Tibia?! Sendo que a moda desse jogo tinha passado há muito tempo! – Estreitei os olhos para ele.
Aiden riu exageradamente, jogando a cabeça para trás.
– Provavelmente, isso foi na época em que o Jeremy estava viciado. Ele só falava nisso! Portanto, eu e Cole acabamos ficando experts na teoria do jogo também.
Pisquei os olhos, surpresa.
Strike um, ponto para ele.
– Próximo motivo. – Aiden abriu um sorriso desafiador, me incitando a continuar.
Repuxei os lábios numa linha meio de desdém, meio de vontade de atingi-lo.
– Drogado?
– Nunca me droguei na vida.
– Bêbado?
Falei a palavra sem pensar, mas logo estava baixando a cabeça e tentando não ser dominada pela triste onda de pensamentos referentes àquilo.
Aiden balançou a cabeça lentamente.
– Não gosto de beber – murmurou. Ergui uma sobrancelha para ele, incrédula. – Quer dizer... Claro que bebo, socialmente, de vez em quando. Mas nunca fui de esvaziar uma garrafa para me acabar. Acho que só fiquei nesse estágio deplorável de “acabado”uma vez. E mesmo assim porque aconteceu uma coisa horrível que... que... pensei ser o fim do mundo na época.
Ele franziu os lábios. Eu me vi surpresa, e até meio preocupada, pelo modo como a expressão dele tinha se abalado.
– Sério? O quê, por exemplo?
– Minha namorada terminou comigo – admitiu num sussurro.
O silêncio que se seguiu foi mortal e constrangedor.
– Ah... certo – falei, completamente corada.
– Continue – Aiden pediu, passando a língua entre os lábios.
– Eeer... esnobe?
A expressão dele rapidamente voltou a ser um sorriso sarcástico e divertido.
– Ah, fala sério! – disse ele, e caí na gargalhada com o tom. – Sei que não sou o cara mais modesto do mundo, mas, se você conhecesse Jake Hanson, pensaria duas vezes antes de me chamar de esnobe.
Parei de rir na mesma hora.
Surpreendi-me comigo mesma. Achei interessante o comentário de Aiden, mas... eu não deveria ter achado.
Era estranho demais eu não ter me incomodado nem um pouco com a ofensa ao Jake. Apesar de reconfortante. Tudo bem, eu andava nos últimos dias desconfiada de que Jake era um canalha; mas podia jurar que minha paixão idolátrica por ele continuava estupidamente firme e forte. Minha falta de indignação queria dizer que não?
Bom, talvez eu simplesmente não tivesse ficado irritada por saber que era inevitavelmente verdade. Como é que o cara mais popular da escola poderia ser um poço de modéstia?! É.
Ou talvez eu devesse ser mais otimista, e o fato de não ter ficado com vontade de defender Jake ou voar no pescoço de Aiden significava que, enfim, minha obsessão por Jake Handsome tinha cessado. Ah, cara. Eu estava só começando a me encher de falsas esperanças quando o rosto perfeito do menino bronzeado e loiro mais lindo que eu já conhecera invadiu-me a mente, e entendi que não parara de gostar dele coisíssima nenhuma.
Me vi suspirando sonhadoramente à vista daquela imagem perfeita, dando-me conta do quanto sentia falta dos seus traços celestiais.
– Jake Hanson... – pronunciei o nome dele numa voz de veludo.
Aiden bufou.
– Você tem uma queda por ele.
Era claramente uma constatação. Desviei o olhar para Aiden e confirmei com a cabeça, embora estivesse um pouco receosa. Eu não achava que ele pudesse reagir muito bem ao fato de eu ser apaixonada pelo seu pior inimigo.
Aiden suspirou e balançou a cabeça negativamente.
– Se ao menos você soubesse...
Ah, claro. Os motivos para os dois se odiarem. Aqueles motivos pareciam ser mais secretos que uma coisa guardada a oito chaves. Mesmo assim, eu me perguntava se eles me fariam odiar Jake Hanson.
– Então me conte – pedi.
Outra vez o silêncio.
Os olhos azuis estavam fixados no verde dos meus, e eu observei Aiden incansavelmente enquanto ele pensava. Parecia refletir sobre se era uma boa idéia me contar. Tentei não demonstrar razões para ele me negar a verdade.
Desviando os olhos dos meus por um segundo, Aiden fitou a parede.
– Eu nunca gostei do Jake, Lizzie. Mas também não o odiava, isso foi só depois de saber do que ele era capaz. – Ele suspirou e passou a língua entre os lábios, voltando a olhar para mim. – Você sabia que os pais dele são separados?
Balancei a cabeça negativamente, desinformada.
– Pois são – Aiden prosseguiu. – Conheci a mãe dele, Miranda. Grande mulher. Pena que o Jake não sabia disso – ele esfregou a testa. – Na época em que os pais dele estavam se desentendendo, brigavam muito um com o outro. E Miranda Hanson... tem algo em seu passado de que não se orgulha. Ela era... uma mulher que fazia sexo por dinheiro, antes de ficar rica. Eu sei, difícil de acreditar, não é? O marido sempre a condenou por isso, desde que descobriu. Mas, depois que ela foi drogada numa festa e teve relações sexuais com um homem fora do casamento, teve de suportar o próprio filho dizendo: “O papai tem razão em não querer mais saber de você. Além de nascida pobre, é prostituta!”
Meus olhos se arregalaram no mesmo instante e levei uma mão ao peito.
Foi como se meu coração estivesse sendo comprimido entre duas paredes de ferro. Ele ficou pequenininho enquanto eu me imaginava mãe, ouvindo aquilo do meu próprio filho.
– Mas que horror...
– É. Eu sei disso. – Aiden apertou mais meus dedos por um segundo, e sobressaltei-me assustada na mesma hora, completamente esquecida de que ainda estávamos de mãos dadas. Ele denunciou seu divertimento com um sorriso, soltou minha mão e continuou. – Sabe a Rosie Richards lá do colégio?
– Rosalyn Richards? – perguntei e ele assentiu. – A cega?
Eu corei imediatamente com o termo usado, mas Aiden não pareceu se importar com a minha falta de delicadeza e confirmou com a cabeça outra vez.
– Essa mesma. Deve ter percebido como Jake a trata.
– Eles pouco se cruzam, mas Jake sempre é um perfeito cavalheiro quando isso acontece – disparei, na defensiva.
Aiden abriu um sorriso cheio de escárnio, ao mesmo tempo amargurado, e balançou a cabeça.
– Exatamente. Pena que não é assim pelas costas dela.
Choquei completamente.
Meus lábios se entreabriram de surpresa e pisquei os olhos, tentando acreditar.
Não! Jake não podia ser um canalha com Rosie. Qualquer um, menos Rosie! Ela não merecia desrespeito por parte de ninguém, porque ela era como uma luz no meio da escuridão. Rosalyn Richards era incrível de tão boa, pura e meiga.
Ele não tinha o direito e nunca iria ter. Porque, apesar de sua condição, Rosalyn tinha o sorriso mais luminoso e verdadeiro do mundo. Nunca se aproximava de ninguém com segundas intenções; era calma, alegre e verdadeira. Ela não suportava ver nenhum de seus amigos triste, na verdade, me disse uma vez que não suportava ver pessoas boas tristes. E me emocionou quando se preocupou com a minha tristeza.
“Fica triste não, vai...”, ela dizia para todo mundo. Já tinha dito isso para mim. Na época em que nos falávamos.
Meu coraçãozinho ficou novamente apertado no peito.
– Como ele pode... – murmurei, entredentes – ser baixo a esse nível?
– Não sei. – Aiden negou com a cabeça e suspirou. Ergui o olhar para ele. – Lizzie... agora você entende por que o odeio tanto? Ele chegava para mim e falava essas calamidades, como se não fossem nada demais. – Trincou os dentes. – Ele é um ridículo. Você já falou com Rosie alguma vez? A garota é linda, forte, um exemplo de pessoa. Não é minha amiga, e eu até entendo ela não gostar de mim, porque sou idiota às vezes... mas a admiro muito. E respeito, também.
Eu não sabia o que dizer.
Não estava acreditando a que ponto eu tinha dissimulado o cara legal à minha frente. Não estava acreditando a que ponto podia chegar o meu precioso “deus grego perfeito”, “fofo” e “meigo”, palavras que um dia eu tinha usado para me referir a Jake Hanson.
E também nem queria pensar na forma como me afastei de Rosalyn. Não tinha sido por mal, era verdade, eu simplesmente me esquecera dela, passamos muito tempo sem nos cruzar. E quando relembrei, fiquei sem graça de ir falar com ela no corredor. Mas agora estava arrependida de qualquer forma.
CARA, que vontade de matar o Jake! Eu nunca pensei que ele pudesse ser tão patife. Eu não ACREDITO que um dia eu gostei dele, ARGH, eu não consigo aceitar!...
Levei as mãos à cabeça e chacoalhei-a, escondendo meu rosto com as mãos em seguida. Aiden esperou. Eu suspirei.
– Fui uma imbecil – falei, descobrindo meu rosto e encarando-o. – Jake é mesmo um canalha. Você – apontei para o peito de Aiden – fez muito bem em se afastar dele.
Aiden chegou mais perto de mim e voltou a pegar minha mão, entrelaçando nossos dedos. Corei, mas percebi que ele pegara minha mão quase automaticamente, e só estava tão próximo a mim porque ia falar algo sério.
– Que bom que entendeu.
É isso aí, que bom que eu entendi. Repuxei os lábios para cima atrapalhadamente, concordando. Aiden achou graça no meu sorriso – quem não acharia? – e seu sorriso de retribuição foi ligeiramente maior.
De repente, a porta se abriu com um estrondo.
– Nossa, ela finalmente acordou?! Ah, isso é bom, muito bom!
Sobressaltamo-nos ao mesmo tempo com a voz da enfermeira, que caminhou até mim com um sorriso no rosto. Eu estava rezando por dentro para a maluca não comentar, zombar ou fazer piadinhas sobre o modo como eu e Aiden estávamos suspeitamente próximos, antes da nossa separação abrupta quando ela irrompeu no cômodo. É claro que eu estava vermelha até a alma.
– Muito bem, vamos medir a temperatura – falou a enfermeira, colocando um termômetro embaixo do meu braço e ainda sorrindo. – Como se sente, querida? Você deu um susto nos seus amigos, hein! – gargalhou. – E olha que foi só um desmaiozinho.
Fiquei mais vermelha ainda e revirei os olhos.
– Bom, é... Eles se preocupam demais. Mas estou bem agora.
– Ótimo! – A enfermeira-louca retirou o termômetro e bateu com o indicador duas vezes no objeto antes de erguer o olhar para mim e sorrir novamente. – Isso aí... Exatamente 36ºC. Está liberada, Srta. Johnson.
– Ah... obrigada. – Agora, quem sorria era eu.
Confesso que me surpreendi quando ela se virou para Aiden.
– Pois bem, Sr. Hills, finalmente vai poder tirar a bunda dessa cadeira e levar sua amiguinha para casa. – Piscou para ele.
Aiden gargalhou.
– Parece que sim, Trudy. – Ele abriu um sorriso luminoso para ela, o que fez meu queixo cair. – Vamos ver se a Lizzie aqui, minha amiga, não arruma mais confusão.
– Amiga – Trudy repetiu a palavra, como se refletisse sobre ela.
Só então, reparei na enfermeira. Quero dizer, reparei realmente naquela enfermeira. Ela não devia ter mais que vinte e poucos anos; era bem loira, não sei se artificial, mas gostei bastante do tom de cabelo dela. E tinha um... belo corpo. Meu Deus, ela era absolutamente linda! Não era à toa que Aiden estava dando sorrisos tão exagerados para a peça.
Trudy se virou para mim. Sua expressão ainda me fazia lembrar o quanto ela era louca, mas agora eu estava surpresa com a beleza impressionante de seus olhos caramelo-ouro.
– Garota – disse ela, sorrindo –, tem sorte de ter um amigo solteiro que se preocupa tanto com você.
Se eu achava que já tinha batido meu recorde de vermelhidão naquele dia, estava enganada. Meu rosto inteiro ardeu em chamas e me perguntei se já estava virando um camarão a olhos vistos.
– Ora, Trudy – Aiden revirou os olhos. Fitando-me pela visão periférica, prendeu o riso. – A Lizzie aqui não está interessada em mim.
– Bom. – A voz de Trudy de repente tinha perdido toda a diversão, e é claro que me assustei pela mudança súbita. Agora, ela parecia uma leoa. Chocada, fiquei muda enquanto podia ver a mudança de atitude que ocorrera no rosto da louquinha da silva. – Porque eu estou.
PARA TUDO! O quê?
E assim, mandando um beijo no ar para o meu amigo-ex-inimigo, a enfermeira-louca-tarada saiu do quarto. Deixando uma ultraboquiaberta e superconstragida Elizabeth Johnson na cama de hospital.
– Não ligue para ela – Aiden revirou os olhos e riu. – Está fazendo piadinhas desde que chegamos. – Piadinhas? Aquilo não parecia uma piadinha!, pensei. – Ei, suas roupas estão no banheiro, ok? Eu vou esperar lá fora.
Eu ainda estava na mesma posição quando ele fechou a porta, e devo ter ficado assim por um tempo. Acho que precisei de pelo menos 5 minutos para me recuperar. Depois, suspirando, saí do estado de choque e tentei recapitular o que Aiden havia me dito antes de sair.
Ei, espera aí... Ahn? O que ele quis dizer com “suas roupas estão no banheiro”?
Olhei debaixo das cobertas e me dei pelo menos mil socos na testa. MERDA, eu estava feia pra caramba com aquela camisola ridícula de hospital!
Troquei-me às pressas e fui ao encontro de Aiden. Não foi difícil achá-lo, ele estava na sala de espera. Levantou-se assim que me viu, e caminhamos lado a lado sem dizer nada até sairmos do hospital.
O cheiro de flores que inundou meus pulmões com o abrir das portas foi uma sensação de prazer imensurável. Fechei os olhos, percebendo o quanto foi bom ter deixado o antigo ambiente, que fedia a álcool e água sanitária.
– É... – A voz de Aiden soou distante e musical. Pelo tom, eu tive a impressão de que ele estava sorrindo, mesmo eu estando de olhos fechados. – Que bom que saímos dali. Não acha?
Ergui as pálpebras devagar, piscando algumas vezes. Girei nos calcanhares e encarei o dono da voz ao meu lado, incrédula.
– E eu achando que eu devia ser a que mais queria sair de lá.
– Ah, qual é – ele sorriu. – Passei muito tempo sentado naquela cadeira, tá? E depois, odeio luzes de hospital. Fico horrível nelas.
Balancei a cabeça para ele negativamente, meus lábios agora repletos de humor.
– Acho que essas palavras não fazer sentido para mim – sorri para ele de volta.
– Vai dizer que não notou o quanto fico mais pálido naquela luz? – Ele arqueou uma sobrancelha para mim. – Eu sempre tive problemas para me bronzear! Agora que sei que sou um mestiço, entendo o porquê, mas convenhamos que ainda é muito estranho um popular não ser bronzeado.
Eu ri.
– Acredite, Aiden, uma simples palidez exagerada não é problema. Infelizmente, não é tão fácil assim fazer você ficar feio – semicerrei os olhos para ele.
Aiden pareceu gostar da resposta. Arqueou as sobrancelhas rapidamente, depois revirou os olhos para mim com um sorriso travesso.
E aí foi como se, de repente, eu me desse conta da verdade no que estava falando.
Pisquei os olhos, atônita. O quadro diante de mim era o mesmo, mas eu me sentia como se tivessem alterado radicalmente a imagem para me confundir. S-será que é o mesmo Aiden?, pensei.
Era como se eu estivesse vendo-o pela primeira vez.
Aiden tinha cabelo de anjo e eu nunca tinha reparado nisso. Os fios negros como a noite escorriam grossos e macios pelo couro cabeludo, formando uma moldura magnífica para o rosto. Os olhos azuis eram como duas passagens mágicas para o céu mais bonito e límpido que se possa imaginar, além de profundos. E os lábios... Ah, Deus. Desviei o olhar para eles e o contorno dos lábios finos era perfeito, fatalmente sedutor e convidativo.
Me sentindo completamente tonta, recuei um passo trôpego.
– Você está bem? – A miragem diante de mim perguntou.
Tive que piscar antes de responder.
– Hã... T-tô, claro – respondi, insegura. Aiden sorriu.
– Então, eu estava pensando... – Ele começou, mas só entendi isso. De resto, ouvi “blábláblábláblá”. Ai, que boca perfeita... E aposto como ele deve ser mais lindo ainda sem camisa, pena que eu não estava “enxergando” direito quando tive a oportunidade de vê-lo sem. Ai, mas que droga, Lizzie, se concentra!
– Er, desculpe, me distraí... O quê?
Aiden gargalhou, provavelmente da minha cara de idiota.
– Eu estava dizendo que não vamos conseguir entrar no colégio a essa hora. O porteiro Watkins vai querer que mostremos uma autorização dos pais, e nós com certeza não temos nenhuma... Que bom que ir para o colégio nunca está na minha lista de preferências, mesmo. Mas enfim, quer tomar um sorvete?
Encarei-o incrédula.
– O quê? Sorvete?
– É, estou com vontade. E depois, eu acho que ajuda a acalmar, não acha?
***
Até que não tinha sido uma má idéia ir tomar sorvete.
Sentada naquelas cadeiras de alumínio da Ice&Cream, minha sorveteria preferida (como Aiden descobriu?), percebi isso. Também percebi, contente, que o dia estava indiscutivelmente lindo. As copas das árvores altas e verdes da Avenida Hearon balançavam ao vento no meio do céu ensolarado, e eu podia ouvir passarinhos cantando de algum lugar ao longe.
Satisfeita, levei mais uma colherada do meu sorvete de morango à boca. Aiden estava sentado bem à minha frente, saboreando o de chocolate; também um dos meus sabores preferidos, mas não tão bom quanto o de morango na minha opinião.
– Hmmmm. – Não me contive e falei, depois de todos aqueles segundos de silêncio. – Cara, isso aqui tá uma delícia.
Arqueando uma sobrancelha de modo a tornar ser rosto uma máscara de demasiada sensualidade, Aiden lançou-me um olhar questionador. Apenas sorri, eu estava feliz por ter conseguido me controlar e agora estar vendo-o apenas como o Aiden que eu conhecia outra vez.
– Não era você que não queria vir comigo? – ele disparou, divertido.
– Que bom que você conseguiu me convencer. – Abri um sorriso irônico.
Ele pareceu gostar, e seus lábios se repuxaram para cima automaticamente. Meio sem graça, desviei o olhar e voltei a tomar o sorvete. Ficamos sem dizer nada por alguns segundos.
– Isso aqui tá muito bom mesmo – ele disse de repente, referindo-se ao seu sorvete de chocolate. Ergui o olhar para a taça dele e sorri.
– Você está me deixando com vontade de tomar o seu sorvete também!
– Sério? Porque você me deixou com vontade de tomar o seu primeiro. – E rindo, o safado roubou uma colherada da minha taça, fazendo o meu queixo cair ao extremo. – Hmmm, delícia mesmo. Tinha me esquecido que o de morango era tão bom.
– Roubando meu sorvete, idiota! – exclamei.
– É. E o que você vai fazer sobre isso?
Lancei um olhar de ódio para ele, antes de furtar um pouco do sorvete de chocolate à minha frente e cair na gargalhada.
– ELIZABETH JOHNSON! Agora você vai ver!
Prosseguimos pegando sorvete um do outro e rindo como duas crianças bobas. No final, acabou que eu só comi metade do meu sorvete, assim como Aiden só ingeriu metade do dele. Ri mais um pouco quando acabamos com tudo. Acho que poucas vezes me senti tão bem.
Eu e Aiden ficamos em silêncio, fitando um ao outro, depois disso. Esboçávamos sorrisos discretos às vezes, porque a intenção ali não era nos encararmos seriamente. Sufoquei um suspiro quando ficou claro que tínhamos passado mais de dez minutos sentados sem fazer nada. Mas eu não tinha ânimo para sair, voltar para casa e encarar meus pais.
As outras duas taças de sorvete que pedimos tinham acabado de chegar, quando eu vi um carro que me chamou atenção.
Não era um carro qualquer. Era um táxi. Branco e com a placa “táxi” em cima, típico dos táxis em todo o País de Grimmes. Assustei-me bastante quando ele passou pela sorveteria em alta velocidade, fazendo voar consigo todo e qualquer tipo de papel, saia ou vestido, objetos leves e cabelo que estivessem por perto.
Só que, de repente, para a minha surpresa, o carro freou com tudo. Pouco tempo depois de ter ultrapassado o pedaço de calçada à minha frente. Observei então, chocada, quando uma garota simplesmente mais do que linda saiu do interior do veículo, murmurando alguma ordem para o taxista, e começou a caminhar decidida, precisamente na minha direção.
Ela parecia uma daquelas atrizes de cinema. Ok, que clichê, mas era a pura verdade: cabelos castanhos ondulados, perfeitos e esvoaçantes; olhos cor de chocolate, determinados e intimidadores; pele bronzeada impecável; e, para completar, pernas longas e gostosas do tipo que eu sempre quis (sei disso porque ela estava usando uma minissaia verde de marca).
A garota parecia ter exatamente a minha idade. O choque preencheu cada milímetro do meu rosto quando ela paroumesmo na minha frente. Quer dizer, como assim? Eu nem a conhecia! Não é possível que ela queira falar mesmo comigo,pensei.
Ela me lançou um olhar de desdém e apoiou as mãos com unhas bem-feitas na mesa, virando o rosto para encarar meu companheiro. Só então me lembrei de Aiden ali e desviei meu olhar, antes bem fixo na patricinha, para encará-lo. Ele estava mudo e incrível de tão pálido, os olhos parecendo estudar cuidadosamente a figura diante de nós dois.
Uh, ah. Então era com ele que ela queria falar.
– Aiden. – A garota cumprimentou repentinamente com uma voz linda e feminina, repuxando os cantos da boca. Embasbaquei com aquele som.
Aiden engoliu em seco. Os olhos azuis, geralmente tão brilhantes e cheios de vida, analisaram-na rapidamente de cima a baixo. Haviam perdido todo o brilho, qualquer traço de alegria.
– Brittany. – Ele retribuiu o cumprimento por fim, num sussurro.
A patricinha sorriu e jogou o cabelo para trás.
– Eu mesma. Quanto tempo, não, Aiden? E como tem passado? – acrescentou, num tom zombeteiro: – Já conseguiu me superar?
Não sei com o que fiquei mais espantada. Com a constatação de que Brittany McCarty (popular das populares no colégio de Mandy) e Aiden Hills eram ex-namorados, ou com o fato de Aiden estar tão paralisado após esse último comentário dela.
Brittany gargalhou diante do silêncio dele e eu remexi os ombros desconfortavelmente. Aiden ainda precisou piscar forte umas três vezes para se recuperar.
Quando o fez, abriu seu sorriso mais falso e arrebatador.
– Convencida, como sempre. Vejo que não mudou nada, Brittany. – Riu com ela; e de repente, surpreendentemente, Aiden estava tão por cima da situação quanto a ex. – E, para a sua informação, superei você há muito tempo.
Era estranho, porque o tom de voz dele era amigável, como se os dois fossem amigos se zoando. Apenas o brilho vingativo no olhar dedurava seu real ódio da situação.
– Ora, por favor, Aiden. – Brittany esboçou um sorriso maldoso, o que me fez estreitar os olhos para ela. Ao contrário de Aiden, a garota não se preocupava nem um pouco em ser discreta. – Eu sei que você não pega ninguém há séculos.
Aiden trincou os dentes.
– Você não sabe de nada, Brittany.
– Fico feliz pela nova garota, então. – Ela mostrou sua fileira de dentes brancos e perfeitos.
– Você não deveria estar no Canadá a essa altura? – Ele desconversou.
– Oh, sim, claro... Na verdade, eu estava indo para lá agora – Brittany acenou para o taxista de um jeito bem sexy, o que fez Aiden revirar os olhos. – Mas te vi parado aqui e vim só para me despedir. Viu só como você é importante?
– Quer dizer que o taxímetro tá rodando? – perguntei sem pensar.
Brittany desviou o olhar para mim e senti minhas bochechas arderem.
Encaramo-nos por um longo tempo. Não gostei de nenhum segundo daquilo e senti que ela também não. Logo a vergonha desaparecera de mim, substituída por uma ardência homicida em meu sangue.
Era a primeira vez que nós víamos, mas o ódio uma pela outra já era evidente em nossos rostos.
– Não que o dinheiro seja um problema para mim, garota – Brittany ajeitou a alça da bolsa por sobre o ombro e sorriu cuidadosamente para mim. – Mas quem seria você?
– Lizzie Johnson. – Aiden respondeu por mim antes que eu pudesse pensar.
– Lizzie? – Brittany arqueou uma sobrancelha para ele e riu. – Que nome ridículo!
Foi a minha vez de trincar os dentes.
Pude sentir a raiva queimando em cada célula do meu corpo. Minha garganta ardia de vontade de xingar a criatura desprezível à minha frente.
– Agora, Aiden – Brittany tornou a falar, ainda morrendo de rir. – Me diga, como conheceu essazinha?
– Digamos que eu e Lizzie temos muita coisa em comum. – Aiden falava num tom calmo e ignorante surpreendente, o que me fez fuzilá-lo com o olhar de pronto. De que lado ele estava, afinal?! Não viu o quanto eu acabei de ser humilhada? – E estávamos prestes a ter mais uma, pena que você apareceu para atrapalhar.
Desistindo de tentar entender as alfinetadas daqueles ex problemáticos, voltei a atenção para o meu novo sorvete, dessa vez de chocolate, enfiando uma colherada na boca.
– Tá legal. O que é que você quer dizer com isso? – Brittany indagou. Felizmente, ela tinha parado de rir, mas ainda estava com um sorriso de orelha a orelha no rosto que me dava nos nervos.
Aiden abriu um sorriso engenhoso.
– Estou dizendo, Brittany, que talvez você devesse parar de provocar a minha namorada.
Engasguei com o sorvete.
– Sua o quê?! – Brittany arregalou os olhos em minha direção.
Corei. Corei completamente e fiz uma cara de pânico que, felizmente, Brittany não viu, pois ela já fitava Aiden novamente, incrédula e nervosa.
– É, agora somos namorados – confirmou Aiden.
– Somos?! – Não consegui me conter.
Interpretando corretamente o espanto em minha fala, Brittany gargalhou outra vez, ainda mais longa e descontroladamente, de vitória. Eu me vi murchando na cadeira por entender tardiamente o plano do meu mais novo amigo, enquanto este me lançava um olhar de raiva e desespero.
Aiden moveu os lábios sem som para me dizer algo como “por favor”.
Mesmo sem saber como reparar meu erro, assenti com um rápido movimento de cabeça quando Brittany voltou a encará-lo.
– Boa tentativa. – Ela sorriu com veneno. – Ah, não, espera. Patética tentativa.
– Idiota – Aiden sibilou para a ridícula, que alargou o sorriso em resposta. – E não é nada disso que você está pensando. Acontece que eu ainda ia pedir para ela, hoje; aqui e agora. Por isso eu disse que você estava atrapalhando.
Tive vontade de rir aliviada, levantar e bater palmas com a brilhante justificativa de Aiden.ESTAMOS SALVOS!
– Ah, claro – ironizou Brittany, descrente.
Abri um sorriso maldoso comigo mesma. Hora da interpretação.
– Sério? – Tentei colocar toda a emoção e sentimento na voz falhada que fiz.
Vi Brittany arregalar os olhos para mim por minha visão periférica, mas mantive-me focada em Aiden.
Ele abriu um sorriso satisfeito, também me focando com seus olhos.
– Seriíssimo – com uma voz rouca perfeita e a dosagem certa de romantismo, o bonitão entrou no teatrinho.
Tive de segurar a vontade de rir com a expressão de Brittany. Ainda mais quando pronunciei as palavras:
– Ah, amor, isso é tão fofo.
Aiden mordeu o lábio inferior com força para não gargalhar, enquanto eu me concentrava em manter a máscara de emoção. Graças ao olhar de Brittany, que no momento estava em mim.
– Então, você quer? – Aiden falou numa voz bem teatral. Eu tinha de reconhecer que ele atuava com louvor. Prendi o riso com mais força.
– Claro que quero – respondi num fio de voz contente, um tom bem adequado.
Pensei em dramatizar geral e abrir os braços, mas tudo o que consegui foi abrir um sorriso largo e sincero de triunfo.
Durante um segundo, me senti bem. Não estava pensando na vergonha que deveria sentir, afinal, eu acabara de dizer uma inverdade super inverdadeira de que estava namorando Aiden Hills – atenção: de que EUZINHA estava namorando Aiden Hills! – para ninguém mais, ninguém menos do que Brittany McCarty, uma garota superpopular e do mal que, além de tudo, era ex-namorada ciumenta do mesmo. Não, não. Eu apenas pensava em Brittany se descabelando à minha frente e no quanto eu gostava disso.
A patricinha começou, enquanto se descabelava, a gritar alguma coisa sobre querer provas, ao que nem dei muita atenção. Eu duvidava que eu e Aiden não estivéssemos sendo convincentes pelo modo que sorríamos um para o outro, ambos em êxtase por termos derrotado e enganado a idiota da Brittany. Ele também estava com os olhos fixos em mim e me sorria de volta, como se também não estivesse dando a mínima para a ex berrando bem ao lado.
De repente Aiden se debruçava sobre a mesa entre nós, como se quisesse chegar mais perto de mim. Demorei a perceber que eu fazia o mesmo, inclinando meu corpo sobre o tampo de alumínio para poder fitar aqueles olhos azuis brilhantes mais de perto. Nem pensei muito no que eu estava fazendo. Parecia inevitável, e eu também na hora não queria mesmo evitar, que nossas testas se colidissem delicadamente e selássemos a nova amizade – mais íntima – que tínhamos com uma espécie de “riso de testas coladas” ou algo bem ridículo do tipo. Onde eu pudesse simplesmente admirá-lo mais de perto.
Ah, meu Deus, Lizzie, como você é inocente.
Extinguiram-se os centímetros que separavam nossos lábios e, para a minha total surpresa e bestificação, nos beijamos.
Mesmo sendo só um selinho, o ar esvaiu-se completamente dos meus pulmões e eu senti uma necessidade frenética de respirar forte pelo nariz. O medo e o nervosismo embrulharam meu estômago, fizeram minhas mãos tremerem, deram um nó em minha garganta; e minhas bochechas arderam como nunca antes. Meu rosto ficou quente e duro, ao passo que eu não sabia o que fazer.
Só que, desesperadora e inacreditavelmente, meus lábios não enrijeceram junto e se abriram, quase em sincronia com os de Aiden, quando ele separou os lábios dele. O hálito refrescante de hortelã que eu podia sentir minimante vindo da boca dele, através de nossas bocas entreabertas, era delirante; e eu tive certeza de que ia desmaiar ou pelo menos perder completamente os meus sentidos se ficasse muito tempo naquela situação.
Espera. Qual é a diferença?
AI-MEU-DEUS, pensei amedrontada. De todos os sentimentos juntos e confusos aglomerados dentro de mim, o medo era o prevalecente. Não! Isso não pode estar acontecendo. Ou pode?
Cara, eu tinha acabado de dar meu primeiro beijo com o meu ex-arqui-inimigo e, pelo visto, estava prestes a dar meu primeiro beijo de língua também.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!, surtei por dentro. Não ponha a língua na minha boca, nãoponhaalínguanaminhaboca, NÃÃÃÃÃO! Isso deveria ser proibido!
Ele não pôs a língua. Meus pensamentos foram interrompidos quando, de repente, os lábios de Aiden simplesmente voaram para longe dos meus. Pensei ter ouvido uma explosão bem no meu ouvido, exatamente no minuto em que a boca dele desapareceu da minha.
Abri os olhos.
Brittany estava ofegante, a mão direita erguida e corada. Aiden estava quase deitado em sua cadeira, a cara virada para o lado oposto ao de Brittany, a bochecha exposta adquirindo um tom rubro.
Pelo visto, ele acabara de levar um tapa.
– Eu não acredito – a voz da patricinha era uma mistura trêmula de rancor, incredulidade e raiva. – Eu não acredito mesmo que você conseguiu me trair desse jeito. Como pôde, Aiden Hills? Como pôde me magoar assim?
Senti meu sangue borbulhar com a compreensão e olhei para a garota a meu lado com mais ódio do que já tinha olhado para qualquer um na vida.
Aiden posicionou o queixo alinhando com o centro do corpo outra vez, lentamente. Ele ergueu os olhos para Brittany, e de repente o azul-piscina deles ficou frio como gelo.
– Trair você? – ele repetiu, incrédulo. – Brittany, foi você quem terminou comigo, lembra? Eu não te devo mais nada. Eu não sou mais seu namorado!
– Não! – Ela esperneou, os olhos cheios de lágrimas, como uma criança mimada. – Não diga isso, Aiden. Eu só estava brincando, ok? Não precisamos terminar. Volte para mim, você sabe que eu só terminei porque achei que era o melhor para nós dois, por causa do intercâmbio, você sabe! – Brittany choramingou mais um pouco e fungou. – Aiden, você sabe que ainda me ama.
Ele hesitou.
Eu percebi que, no fundo, Aiden não estava dando nenhum sinal de fraqueza em relação a poder voltar com ela. Ele estava simplesmente demonstrando um sinal de fraqueza em relação àverdade. Porque aquilo era verdade. Alguma parte dele ainda gostava dela.
Sentindo-me magoada de um jeito que não esperava, levantei-me abruptamente da cadeira. Aiden voltou à realidade com o barulho feito, o que me aliviou, então respirei fundo e girei lentamente meu corpo para encarar Brittany.
– Escuta aqui, sua vadia – falei bem devagar, chiando. – Você é surda, cega ou o quê? Ele não te quer mais. Ele está comigo agora. Então se manda, porque sua chance já passou e você perdeu.
Toda a tristeza de Brittany pareceu sumir de seu rosto enquanto ela me fitava, de um jeito que me irritou profundamente. Ela logo recuperou a sensação de superioridade, o desdém para comigo.
– Tem certeza de que não me prefere a essazinha? – A ridícula virou-se para Aiden.
É agora, me ferrei, pensei enquanto fitava minhas roupas, agora limpas e, me surpreendi, nem mais um pouco detonadas da viagem a Orazón.
Aiden também estava com as roupas dele no mesmo estado, apesar de ambos termos parecido mendigos há algumas horas. Pena que, eu sabia, mesmo se ele estivesse vestido feito um mendigo, aquele rosto lindo atraía todas as atenções e era difícil reparar no que ele estava usando. Eu até me sentiria confiante para ganhar essa batalha de Brittany, se eu fosse pelo menos tão bonita quanto ela. Porque Aiden tinha o mínimo de juízo para não se rebaixar e dizer que realmente preferia a mim. Só que, como eu não era nem de longe bonita, chegava a ser engraçado e até vergonhoso ele dizer que a predileta era eu.
Mesmo assim, fitei-o com expectativa.
Aiden se levantou. Aproximou-se de Brittany e ficou de frente para ela, tão perto que seus corpos quase colidiam.
– Britt...
– Sim? – ela sussurrou, erguendo a mão para tocar o rosto dele.
Os lábios de Aiden se retorceram e, depois, se elevaram para cima num sorriso debochado. Ele fez questão de murmurar a resposta ao ouvido de Brittany.
– Vá para o inferno.
– AAAAAAAAAAAAARGH! – A patricinha berrou, empurrando-o para longe.
– Ah, e você nem é tão bonita quanto a Lizzie, por sinal – ainda provocou, maldoso.
Fiquei durinha da silva. Cara, eu ouvi... eu ouvi mesmo aquilo? Não, só posso estar ficando louca. Sem chance do Aiden ter dito isso de mim! Ele ficou doido?
Mas tudo garantia que sim, eu tinha ouvido direito. A ceninha de “Britt”, a gargalhada gostosa de Aiden, o jeito com que ela saiu marchando para o táxi de cara fechada e batendo a porta de modo exagerado.
Ao me dar conta de que tínhamos conseguido, ri com o ser ao meu lado, tentando não pensar na vergonha que eu tinha passado, e sim no resultado. Nós tínhamos conseguido mesmo! Uau. Inacreditável!
Aiden e eu sentamos novamente nas cadeiras e comemos os sorvetes rápido demais. Quando terminamos, foi quase ao mesmo tempo. Arrisquei olhar novamente para ele, que abriu um sorriso para mim.
– Obrigado.
– Er... Não há de quê.
Foi um agradecimento sincero da parte dele e me fez sentir ótima. Retirou um pouco do constrangimento que eu já estava recomeçando a ter. Ciente de que, mesmo assim, eu estava um pouco corada, revirei os olhos e sorri comigo mesma, satisfeita.
Aiden ficou contornando a boca de sua taça vazia com o dedo, me encarando. É claro que isso me impediu de olhar para ele. Fiquei olhando pra mesa, pro meu colo... e me frustrava erguer o olhar às vezes e corar quando via ele ainda na mesma posição.
Era como se ele estivesse me estudando. Como se... sei lá. Eu fosse um experimento científico e ele estivesse, através de observações à minha pessoa, tentando provar que sua teoria estava correta.
– O que foi, hein? – perguntei enfim, impaciente.
– Olha, eu sei que não sou seu namorado de verdade, então desculpa ter feito você passar por isso e... ahn... ter te beijado.
Ah, minha nossa. O beijo.
Por que ele tinha que lembrar?
Fechei os olhos com força, tentando desesperadamente não pensar.
– Mais alguma coisa? – me esforcei para falar. Eu sabia que ele queria me dizer algo mais. – Eu sinto que você não está falando tudo.
Incrível como nem nessa situação, Aiden enrubescia. Eu ia passar a contar as vezes que ele ficava vermelho porque, minha nossa, eram raras.
Ele apenas abriu um sorriso matreiro para mim e falou exatamente o que estava pensando. Sem cerimônias, sem constrangimento.
– Até hoje você nunca tinha beijado um cara, não é?
Quase caí da cadeira. Literalmente. Joguei o meu corpo com tanta força para trás que a cadeira levantou, mas consegui firmá-la no chão novamente a tempo. Tapei o rosto com as mãos, morrendo de vergonha.
– Ai-meu-Deus! Não me diga que tá tão na cara assim.
Aiden jogou a cabeça para trás, gargalhando alto. Algumas pessoas em volta, até quem não estava na sorveteria, lançaram olhares de cega impaciência para ele, parecendo muito zangadas. Passada, percebi que não deveria ser a primeira vez que aquelas pessoas olhavam – afinal, eu e Aiden estávamos chamando atenção desde que Brittany chegara. Elas deviam realmente nos odiar.
– Imaginei pelo modo com que você ficou nervosa. – Ele voltou a um sorriso malicioso. – Ei, Lizzie, tome cuidado. Isso assustaria a maioria dos caras.
– Ah, que ótimo. – Eu não me sentia mais constrangida. Só péssima, sabendo que ele tinha razão. Suspirei e bati a cabeça na mesa. – Agora sei que, mesmo se um cara quiser me beijar, vai correr diante da minha capacidade de surtar geral.
Ele riu, divertindo-se.
– Você coloca as coisas de um jeito tão pessimista – ele refletiu. – Só o que precisa fazer é enfrentar esse medo.
– Como?
Mesmo sem poder ver o rosto de Aiden, eu soube, pelo silêncio estranho que se seguiu, que ele tinha ficado sério. Meu tom baixo demais e choroso demais o havia preocupado.
– Ei. Eu não disse que ia assustar os caras que realmente gostarem de você.
Elevei um pouco a cabeça; só o suficiente para mostrar meu rosto, mas mantive-a apoiada na mesa. Apesar de ela não ter ficado lá por muito tempo. A mão de Aiden saiu não-sei-de-onde, pegando-me o queixo delicadamente e erguendo-o até uma linha próxima ao rosto dele.
– Acontece – sibilei – que não existem esses caras que realmente gostem de mim.
Nós ficamos nos encarando por muito tempo. Nada em minha expressão dizia que eu ia me dobrar à opinião dele, tampouco a expressão dele dizia que se dobraria à minha.
– Não diga isso – Aiden balançou a cabeça lentamente para os lados.
– Por quê? É verdade, Aiden. A minha dura realidade. Eu não sou interessante, sabe... De nenhum jeito. Pior que isso, eu repilo os homens.
– E se eu dissesse que conheço alguém interessado em você? – Um sorriso dançou nos lábios dele.
Hesitei. Por acaso era alguma piada?
– Ah, é? Quem?
– Cole. – Aiden pronunciou o nome devagar.
Meu estômago deu uma volta.
– C-Cole S-Stryder? – gaguejei. – Seu amigo?
Aiden prendeu mais uma vez a risada antes de continuar.
– Ele mesmo. O negócio é o seguinte, eu sei que vocês dois tão a fim um do outro. Mas também sei que você – ele apontou um dedo para mim – é muito medrosa para chegar nele, principalmente achando que não sabe nada sobre beijar, já que a sua experiência é zero. – Fiz uma careta e ele ignorou, prosseguindo: – E também, como melhor amigo do Cole, sei que ele detesta tirar o BV das garotas. Ele sempre deixa essa tarefa para mim. – Aiden abriu outro sorriso malicioso, dessa vez para si mesmo.
– Viva. Então está dizendo que somos um casal com belas chances de dar certo! – ironizei, zangada.
– Você quer me deixar terminar? – Ele arqueou uma sobrancelha e eu cruzei os braços. – Ótimo. Na verdade, eu queria te fazer uma proposta.
Inclinei-me mais para perto dele na mesa, subitamente interessada.
– Uma proposta?
Aiden assentiu com a cabeça e mordeu o lábio inferior.
– É. O que você acha de... de... – ele respirou fundo e me fitou – de ter aulas de beijo comigo? Depois, eu te ajudo a conquistar o Cole.
Ofeguei involuntariamente.
Meu coração acelerou e minha cabeça ficou confusa, mas... ao mesmo tempo, eu estava eufórica. Era uma ótima proposta. E eu sabia que tão cedo não teria outra igual. Eu tinha que aceitar, eu precisava aceitar, mas ao mesmo tempo estava morrendo de medo.
Ergui o olhar para Aiden. Beijar ele não é tão ruim, pensei sem querer, a lembrança me atravessando como um raio e me fazendo corar. Mas talvez esse seja o problema. Oh, Deus. E aquele hálito de hortelã, o que é aquilo... E se eu pagar mico? E se isso afetar minha amizade com o Aiden, ou pior, como aCatherinevai reagir a isso, porque eu preciso contar pra ela, não é? Ai-meu-Deus. E se, e se, e se...?
E se eu recusar e ficar encalhada para sempre?
Esse último medo foi mais forte e superior a todos os outros. E foi ele que me fez decidir.
Resoluta, fitei Aiden nos olhos outra vez. Separei os lábios, molhei-os, e disse:
– Eu aceito.
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