Because Of All
7 I Noticed Tonight That The World Has Been Turning
Notas iniciais
Sem enrolação, só leiam ♥
Mesmo que só duas semanas tivessem se passado, já esfriava. Era o começo do outono, e na Inglaterra isso é mais frio que o nosso inverno. Principalmente no Chadwick, que ficava nos arredores de Liverpool, ou seja, mais ao norte do país.
As coisas começavam a se assentar, e eu já me acostumava com tudo.
É, quase tudo...
– Oie. – fui atingida pelas costas pela Bi, que me deu um abraço logo em seguida.
– Oi. – disse, com um sorriso.
– Cadê o Rick, hein? – esboçou um sorriso malicioso.
– Não sei, ele faltou hoje na aula. Ontem ele disse que não estava se sentindo muito bem, acho que está doente. – disse, e nos sentamos em uma mesa vaga.
– Ok. Eu já volto. – levantou-se e foi pegar sua comida enquanto eu esperava, na mesa.
Depois que ela voltou, eu me levantei para pegar a minha.
Esbarrei com o Lucas no caminho. Sua expressão estava meio estranha, meio ausente.
– Oi, Lu! – falei com entusiasmo, abraçando-o. – Você anda sumido!
– É, — concordou – essa semana inteira eu fiquei vinte e quatro horas por dia no departamento de direito, tentando conseguir a minha bolsa. Vamos ver no que dá, né? – ele deu um meio sorriso que definitivamente era inexpressivo.
Decidi deixar pra lá, ele só devia estar cansado de tudo isso.
Então veio um graveto ambulante saltitando em sua direção.
– Oi, Lucas! – disse animada, com uma voz aguda. Abraçou-o. Sua pele era clarinha, e ela tinha cabelos não muito compridos, lisos e escuros, com franjinha. – Oi! – virou-se para mim e estendeu sua mão. – eu sou a Sarah. – tinha uma expressão simpática.
– Oi, tudo bom? Sou a Ana. – cumprimentei-a, e sua expressão mudou totalmente.
O que antes parecia quase meigo virara pura falsidade disfarçada com um sorriso retardado.
– A famosa Ana! – comentou, com falsa empolgação. Eu corei de leve, e Lu também. Nada muito perceptível. – O Lucas fala tanto de você!
Pois de você ele não disse nada, vadia.
– Que bom. Acho que eu diria o mesmo se ele não estivesse tão ocupado ultimamente. – sorri. Ou, ao menos, tentei. Olhei para ele, vendo se causou algum efeito. Ele ainda estava estranho, mas agora ainda mais incomodado. – Aliás, porque vocês não sentam pra almoçar com a gente? – apontei para a mesa na qual a Bia estava.
– Eu já almocei. – falou ele, rápido. – Desculpa, tenho que voltar para o departamento. A gente se vê.
Então ele foi embora, e a tal Sarah atrás dele. Eu fiquei parada, meio boquiaberta, por um tempo, até que decidi voltar para a mesa.
– Quem era aquela? – perguntou Bia. Dei de ombros.
– Uma tal de Sarah. – ela ficou quieta, entendendo meu mau humor “repentino”.
Eu saía da aula da tarde ainda irritada. O dia no geral tinha sido uma merda. E mais, eu estava com zero vontade de ir à academia.
– Oi! – um Rick animado me encontrou no caminho. Desfiz minha expressão mal humorada e coloquei um sorriso no rosto.
– Oi, sumido. – falei, um pouco mais animada — Por onde andou?
– Passei em Liverpool. O meu primo holandês estava na cidade, e já fazia uns três anos que eu não o via. – contou. Eu sorri fraco. – O que foi? – me olhou, preocupado. – porque está desanimada?
– Ai... – suspirei. – não sei. Some days just ain’t so easy. – ele esboçou um sorriso aflito.
– Quer passar lá no meu dormitório pra jantar? – era quinta-feira, mas eu não tinha nada para fazer.
– Claro, dar uma distraída. – sorri. – só que eu ainda tenho que ir à academia.
– Tudo bem, eu também. Você já vai ter tomado banho as sete e meia? – assenti. – te vejo às sete e meia. O meu quarto é o 102.
Ótimo, do outro lado da Ala Norte. Que legal (notem a ironia).
– Oi, mais uma vez. – ele abriu a porta já sorrindo. Deu-me um beijo na bochecha, me pinicando de leve com sua barba de três dias.
Cara.
Se eu achava que ele era cheiroso normalmente, agora eu quase envidrei o menino pra usar de perfume.
– Oi pra você. – eu disse. Ele ainda estava com o sorriso bobo na cara. – Que foi?
– Ahn? – ele pareceu sair de um transe – é... Nada. É que você tá linda.
Acho que eu fiquei vermelho extintor de incêndio naquela hora.
– Você também. – não soube o que falar. Mas era verdade. Ele estava com uma camisa branca um pouco mais desabotoada do que o que seria decente e um jeans. Mas estava perfeito.
Eu estava nervosa. Não por qualquer coisa que provavelmente você está pensando. Eu não me sentia nervosa com ele nem nada.
Mas por duas razões simples.
Em primeiro lugar porque a Bia me encontrou a caminho de lá. Mas já que ela não comentou nada sobre eu estar arrumada demais ou qualquer coisa do tipo, era melhor eu deixar isso pra lá.
O problema mesmo era que aquilo estava com muita cara de encontro pro meu gosto. Não era pra ser assim, era pra ser um jantar descontraído entre amigos.
Eu. Não. Podia. Me. Envolver.
Mas por algum motivo isso não entrava na minha cabeça...
Ele arrastou a cadeira pra trás para eu sentar. Fofo. Vi que íamos comer almôndegas de peru. Dei uma olhada em volta. Seu dormitório era diferente do meu. Além da mesa de jantar, tinha um sofá e uma mesa de centro mais baixa, virados para uma pequena sacada.
Acho que é porque o meu quarto ficava no térreo. Mas anyway...
– Não liga não... – começou. – eu tentei fazer algo gostoso, mas não se compara à sua comida.
Eu sorri e fiquei quieta. Então provei um pedaço.
– Você... – não sabia o que falar. Eu queria bater nele, mas não ia fazer isso. – é um idiota. – um sorrisinho confuso se formou em seu rosto. – Isso tá delicioso.
Ele sorriu mais.
– Você é fofa. – admitiu. Estava com MUITA cara de encontro... – eu só queria te deixar feliz.
Lindo.
– Sabe o que ia me deixar feliz? – aproveitei a oportunidade. – se a gente fosse sentar no sofá e comesse na mesa de centro. É claro, se você quiser... – não soube se aquilo soou um pouco rude. Eu só queria descontrair mais as coisas.
– Eu ia adorar. – pegamos nossos pratos e levamos para a mesa de centro.
Ele passou na cozinha e pegou duas taças e a garrafa de vinho. Eu sentei no tapete, porque me pareceu ainda mais confortável e informal. Ele encheu as taças até a metade.
Tomei um gole. – você sabe escolher vinhos. – elogiei. Ele deu um sorriso tímido.
– Brigada. – por alguns instantes, ficamos em silêncio, sem saber do que falar, apenas comendo. – Então... Porque veio para cá pra Inglaterra? – puxou assunto.
– Eu sempre quis sair do Brasil. – confessei. – e sempre quis fazer faculdade fora, também. Quando a Bia e o Lucas disseram que iam vir para cá... Só me pareceu a oportunidade perfeita. – pensei um pouco antes de prosseguir. – O que fez você querer fazer gastronomia?
O fato de ele não ser diretamente saído do colegial me intrigava.
– Eu fazia engenharia, aqui no Chadwick. – começou. – mas sempre adorei cozinhar. E, infelizmente, demorou cinco anos inteiros para eu me tocar que eu não devia ter feito engenharia, pra começo de conversa. – assenti – Eu só soube que não era a coisa certa quando eu acabei a faculdade e simplesmente não soube o que fazer...
– Eu não sei o que vou fazer quando esse ano acabar. – admiti. – Eu só vou fazer o que eu sentir que é certo, sabe? – Rick assentiu. – Por isso que eu estou preocupada em me envolver com qualquer coisa aqui. É que eu não sei se vou querer voltar pro Brasil e ficar um tempo por lá. Ou se eu vou ficar aqui já direto. Ou então se vou mudar pra outro lugar, sabe? – assentiu novamente. – eu só não quero ninguém machucado nessa história. Nem eu, nem ninguém.
Ele pareceu entender a mensagem. Ler as entrelinhas.
POV Rick:
Eu tentei mascarar a total e completa confusão que eu estava sentindo naquele momento.
Eu achava que ela estava na minha, e dando em cima de mim. E, no meio de um encontro, a garota me vem com essa?
Se ela não estava a fim de se envolver com ninguém, porque raios ela estava agindo assim comigo?
POV Ana:
– Falando nisso... – ele mudou de assunto antes que eu precisasse fazê-lo, para minha sorte. – ontem eu estava me lembrando da primeira vez que me apaixonei. – eu sorri, porque era meigo. Mas também me trouxe memórias de quando eu me apaixonei pela primeira vez, o que me deixou desconfortável.
– Só isso? Não vai me dizer quem foi a sortuda? – perguntei.
Abriu um sorriso meigo, que eu não soube dizer se foi porque eu a chamei de “sortuda” ou porque ele estava se lembrando da aventura retardada que é se apaixonar pela primeira vez.
Fale com o autor