Because I Love You 2 .
40 Uma última pergunta.
Notas iniciais
Aos poucos, foi assim que Thalia abriu aos olhos. Seu corpo estava cansado de mais para que o fizesse com pressa, as pálpebras pesadas de maneira que parecia não ter dormido um segundo se quer. Primeiramente, tudo estava embaçado, sua cabeça ainda grogue, o raciocínio lento pela sonolência e exaustão. Os fechou novamente e tornou a abri-los, agora já mais consciente, levou a mão até eles, os esfregando de maneira lenta, até que sua visão ficasse 100% mais uma vez, e só então, deu-se ao luxo de olhar ao redor.
Lençol pelo chão; muitos de seus travesseiros, roupas, sapatos, todos espalhados pelo lugar. Como estava observando tudo àquilo de cima, deduziu estar deitada em sua cama, portanto, aquele devia ser seu quarto.
Mas por que toda aquela bagunça?
Foi só então que a ficha caiu. Virou-se de súbito na cama, tão rápido que sua cabeça até mesmo rodou, deixando-a desorientada por um ou dois segundos, mas logo que recobrou a consciência passou a tatear desesperadamente o espaço ao seu lado, em busca de mais um corpo por ali. Estava tão imersa e até um tanto insegura que nem se quer considerou olhar para o espelho no teto ao invés de tudo aquilo, mas de todas as formas, conseguiu sua resposta.
Vazia.
Estava vazia. Respirou bem fundo e abrigou todo aquele oxigênio nos pulmões, assim que sua cabeça foi impiedosamente atacada, completamente tomada por memórias da noite passada. Suas costas caíram sobre o colchão novamente, exaustas,as mãos foram de encontro aos olhos os tampado, privando do ardor causado pela luz. Cada toque, cada palavra, os beijos, as sensações, tudo circulava tão fresco em sua memória que seu corpo já estava esquentando, a pele arrepiando, os pelos de sua nuca por um segundo se eriçaram.
Nico esteve ali.
Esteve ali noite passada e lhe fizera uma serenata, declarou-se a ela na frente de seu apartamento, na frente de toda a vizinhança. E Thalia? Bem... Thalia havia cedido. Havia cedido à todas ás suas vontades e sentimentos, cedeu ao que seu corpo e alma imploravam desde a noite do baile quando recobrara suas memórias, mas não o fazia por conta do rancor. Sim, todo aquele rancor que corria por seu corpo e lhe corroía o coração, que lhe privava de qualquer aproximação, mas não só ele... Insegurança, medo, desconfiança, esses eram exemplos do conflito que vivia internamente. Mas tudo isso para que? No fim, havia realmente cedido. Havia cedido porque acima de tudo, acima de toda a negatividade, o que sentia por Nico gritou mais alto. E aquilo a irritava, aquilo a destruía por dentro, odiava-se profundamente por ser tão fraca.
Apertou a palma das mãos contra seus olhos e grunhiu enquanto liberava de uma só vez o oxigênio de seu corpo, deixando-o escapar pelas brechas de seus dentes serrados. Sentia-se fraca, estúpida, afinal, o quão idiota podia ser?
“Quando acordar estarei aqui.”
Aquilo era ridículo, havia mesmo acreditado nele pela segunda vez? Insistido naquele maldito erro de crer nas palavras vindas da boca do Di Ângelo?
Sorriu seu muito humor, pelo visto ele continuava cumprindo perfeitamente bem as promessas.
Sentiu seu coração apertar no peito. Foi algo automático, impossível de conter, uma dor fraquinha bem lá no fundo. Ardia, queimava, como se tivesse acabado de puxar a casquinha de uma ferida quase totalmente cicatrizada, fazendo-a voltar a sangrar, retardado todo o processo.
Ainda com a palma das mãos contra os olhos, tornou a abri-los, visualizando por entre a brecha dos dedos o próprio reflexo estampado ao espelho. Envergonhou-se do que estava sendo mostrado ali. Seu corpo despido, os cabelos bagunçados — conseguia ver até mesmo marcas em algumas áreas como pescoço e seios. Cada marquinha, da menor e mais clara a maior e mais escura, o estado ao qual se encontrava naquele momento, aquele seria o lembrete do pior erro que cometera.
Noite passada foi á casquinha que Thalia teimou em arrancar fora.
Estava quase curada por completo, faltava apenas mais uma noite, tinha de ser forte por somente mais uma droga de noite e estaria cicatrizada por completo, mas havia falhado miseravelmente nisso. Tornou todo seu esforço anterior inútil, do que adiantou as horas chorando em silêncio para que parecesse forte na frente dos outros? Do que adiantou todo aquele teatrinho de não sentir nada quando na verdade estava quebrada por dentro? Do que adiantou a maldita viagem para supera-lo se na primeira noite que o viu jogou tudo para o alto?
Agora era tarde de mais, o estrago já estava feito, sua ferida aberta novamente e mais dolorida do que nunca,porque... Além de ter fraquejado, experimentado dos ternos toques, dos doces beijos, das maravilhosas sensações que adormeceram seus neurônios noite passada, teria de viver com a ausência dele. Teria de almejar desesperadamente que aquilo acontecesse novamente, ansiando por mais, dia após dia, o que não aconteceria... Nico iria embora.
Nico já havia ido.
Rosnou, esperneou, praguejou, martirizando-se por sua fraqueza. Poderia ficar o dia inteiro daquela forma, enfurnada no quarto, jogada na cama entre seus travesseiros, deixando seu coração ser tomado pela dor da decepção pela segunda vez, enquanto olhava para o espelho e envergonhava-se do próprio reflexo, e o faria, se não tivesse escutado um estrondo vindo do andar de baixo.
Foi impossível conter a excitação e, surpresa, talvez? Não sabia ao certo o que sentia, mas foi algo como uma grande energia cortante que tomou todo seu corpo, em um choque, lhe fazendo saltar da cama e cambalear por conta de a fraqueza repentina nas pernas que quase a fez cair de boca no chão. Mas equilibrou-se antes, segurando em sua estante e não pôde conter um sorriso um tanto masoquista no rosto. Lembrou-se da promessa que Nico havia feito noite passada, de lhe deixar com as pernas bambas.
Bem, ao menos essa ele cumpriu.
Caminhou lentamente, soltando-se aos poucos do móvel que lhe amparava, até recobrar a estabilidade motora. Quando sentiu-se segura o suficiente para andar sozinha, o fez bem devagar, passo a passo até estar de frente a cama, onde haviam diversas peças de roupas jogadas ao chão — por conta de sua crise anterior. Aquilo era algo que vinha acontecendo com certa frequência desde que começara a fumar, quando ficava muito nervosa, ansiosa, que seja, seu corpo começava a tremer e a frequência cardíaca subia, só parando quando sentia a nicotina nos pulmões.
Respirou fundo e sentiu de longe o cheiro que exalava da jaqueta de Nico, se perguntava como aquele aroma permaneceu ali mesmo depois de tanto tempo. Abaixou-se com um pouco de dificuldade por conta de suas pernas molengas e a pegou, vestindo-a junto de uma calcinha aleatória — a primeira que encontrou — realmente não se deu ao trabalho de procurar a melhor peça do seu guarda roupas. Estava em casa.
Daquela forma seguiu, saindo do quarto e ganhando o corredor. Seus olhos arregalaram assim que cruzou a porta, dando de cara com aquela bagunça toda. Tá, era verdade. Thalia tinha sim, de certa forma, um pequeno toque de limpeza e aquilo a fez tremer sobre as estruturas. O longo e vermelho tapete que cobria o chão do extenso corredor estava completamente torto, de forma que entrava pelo vão abaixo das portas, invadindo aos outros cômodos. Quadros, jarros, vasos de flores, tudo estava aos cacos encima dos fios tecidos. Molduras quebradas, fotos amassadas, mobilha arrastada.
Caminhou completamente espantada em meio aquela zona, parecia que um furacão, ou até mesmo um terremoto, havia passado por ali. Como estava descalça, achou que o melhor seria seguir na ponta de seus pés, evitando as áreas com mais destroços, pulando um ou dois caules de rosa que ainda continham espinhos, até chegar ao fim do corredor.
Já sobre o primeiro degrau da escada rotatória, soltou um longo suspiro aliviada e observou por seu ombro o corredor destruído logo atrás. Certa inquietação cruzou seu corpo, aquele desconforto na nuca. Assim que checasse o barulho que vinha do andar abaixo, trataria de arrumar aquela zona, com certeza.
Desceu aos degraus rapidamente e quando viu, ainda da escada, a figura ali parada de costas enquanto preparava algo sobre o balcão, sua inquietação pareceu multiplicar. Thalia respirou fundo e tentou manter-se em pé já que suas pernas tornaram a tremer só em observar as costas pálidas dele, riscadas, marcadas por um vermelho tão intenso que achou loucura só em considerar a força que havia feito noite passada para deixa-lo naquele estado. Nico estava sem camisa e calças, usava somente uma cueca boxer preta.
— Há, você acordou!— A voz dele á assustou, fazendo-a dar um salto e descer de maneira destrambelhada os degraus restantes da escada.
Thalia encostou-se ao corrimão, mantendo seus braços atrás do corpo, as mãos sobre o ferro gelado. Assentiu com um aceno de cabeça e esboçou um de seus melhores e quase imperceptíveis sorrisos forçados. Não queria deixar transparecer o quão abalada estava pela presença dele ali, embora sua cabeça estivesse prestes a explodir em um misto de emoções que não conseguia ao menos distinguir.
Ele não havia ido embora.
— Desculpe assusta-la, não foi minha intenção e também desculpe por invadir sua cozinha, mas eu pensei que seria, sei lá, pensei que poderia fazer algo para comermos, já que cheguei ontem e bem... — Nico pigarreou e coçou sua nuca, ele parecia estar tão desconfortável quanto ela. — Reparei que não havia nada pronto, o que estranhei já era véspera de natal e...
Parou bruscamente de falar ao notar que já estava ha um bom tempo tagarelando, Thalia somente observava tudo com uma de suas sobrancelhas arqueadas e os braços agora cruzados abaixo dos seios. Ah... Seios. Foi impossível impedir seu olhar de pairar sobre o vale entre eles. Thalia não estava usando nenhuma blusa e muito menos um sutiã por baixo da jaqueta de couro, o que a deixava bastante exposta, mas não totalmente. Nico conseguia ver somente a pele branca e a lateral dos seios medianos, já que o resto estava coberto pela jaqueta e os cabelos negros dela.
Engoliu em seco e tentou olha-la nos olhos, mas parecia impossível, o corpo de Thalia o atraia como um imã atrai ao metal, o puxando, forçando-o a admirar cada curva que era exposta pela ausência de roupa. Nico sabia que não estava sendo discreto, mas aquela força era mais forte que ele. Observou tudo, desde a barriga branquinha aos quadris e coxas grossas. Deuses...
Thalia pigarreou e imediatamente voltou o olhar para cima, encarando a expressão engraçada no rosto dela, sobrancelhas arqueadas e um olhar desafiador, algo como “perdeu algo aqui?”. Balançou a cabeça espantando todos aqueles pensamentos impuros que circulavam por sua cabeça e tornou a virar-se de frente para o balcão.
— Bem, como estava dizendo. Pensei que poderia preparar algo para comermos. Pelo que eu me lembro, você... — Sentiu seu rosto esquentar por um momento e o coração acelerar pela súbita lembrança. Aquela manhã... A manhã seguinte a sua primeira noite juntos.— Se me lembro bem você gosta bastante do café da manhã e achei que poderíamos toma-lo juntos.
— Não quero que pense que estamos como antes.
As palavras dela vieram frias como um cubo de gelo e dolorosas como um tapa.
— Não se preocupe, eu sei que não estamos como antes e isso é só um café da manhã, Thalia. Acho que seria uma boa chance para conversarmos e colocar as coisas em pratos limpos.
Ela não disse nada e Nico preferiu levar aquele silencio como seu consentimento. Olhou para a bandeja a sua frente, fitando o que havia preparado e não pôde evitar a risada. Qual é? Aquilo nem era um café da manhã de verdade! Queria sim ter feito algo bem saboroso, waffles ou ovos com bacon, como da ultima vez, mas não havia nada na casa de Thalia, nada mesmo, zero. Os armários eram todos vazios, a geladeira só continha refrigerante e comida congelada. A única coisa a qual encontrou foram maçãs. Ah sim, muitas maçãs. Thalia tinha um estoque interminável de maçãs sobre a fruteira, o que resultou em: Suco de maças com maçãs cortadas para acompanhamento.
Tocou o material gelado da qual a bandeja clara era feita, tentando criar coragem para virar. Thalia iria rir, com certeza iria rir e acha-lo ridículo, um completo idiota, mas por um lado, desejou aquilo. Queria vê-la com aquele sorriso lindo e sincero no rosto mais uma vez, como na noite passada.
Depois de tanto hesitar pegou a bandeja em mãos e virou-se de encontro a Thalia novamente. Não pôde evitar sentir-se surpreso ao vê-la sentada a mesa, contradizendo sua forma fria de agir anteriormente. Thalia estava sentada na cadeira da lateral, seu corpo debruçado sobre a mesa e o queixo apoiado sobre o vidro enquanto girava um copo de cristal de frente ao rosto, assistindo seu reflexo distorcer a cada nova volta.
Nico perdeu um segundo simplesmente apreciando, não contendo um suspiro ao observar atentamente aquela carinha de sono que ela estava. Os olhos azuis em um tom claro e sereno, um pouco inchados; sua boca macia e rosada contraída em um bico enorme e adorável; as bochechas coradas e seus cabelos negros revoltos jogados de maneira desleixada sobre o ombro direito — mas isso não evitava que algumas mechas rebeldes caíssem sobre seus olhos, obrigando-a a vez ou outra soprar uma pequena lufada de ar para cima, tirando-os de sua visão. Thalia era perfeita. Ela era perfeita em todos os sentidos da palavra e Nico sentia-se um lixo, odiava-se de maneira extrema por tê-la feito sofrer um dia. Mas iria consertar aquilo, com certeza iria consertar tudo.
Colocou a bandeja sobre a mesa, o que atraiu a atenção dela. Thalia desencostou a cabeça do vidro e o fitou; depois a bandeja que segurava, então manteve desta forma: revezando o olhar entre os dois de tempo em tempo. Ela estava completamente inexpressiva, seu rosto paralisado e sério até que os lábios se contraíram como se tentasse reprimir um sorriso, o que não conseguiu fazer, já que no segundo seguinte estava gargalhando alto.
— Mas o que o-o que é isso?— Perguntou com dificuldades.
Nico semicerrou aos olhos, completamente descrente daquela reação.
— Como o que é isso? Não está obvio? É o café da manhã.
Ela riu mais um pouco, jogando a cabeça para trás antes de responder:
— É isso que vê? Eu só vejo um pomar de maçãs.
— Não seja cruel, eu me esforcei, está bem? Não tenho culpa se sua cozinha só tem maçãs.
Thalia não parava de gargalhar e Nico podia vaguear pelo mundo inteiro por anos a fio que não encontraria um som mais agradável que aquele. Talvez apenas seus gemidos. Ela trouxe o rosto para frente novamente e apoiou a testa nas mãos enquanto ria sem parar. Ele apenas observava a tudo quieto, em absoluto silêncio, temendo que o menor movimento a fizesse ficar séria mais uma vez.
Queria ter uma câmera consigo para registrar aquele momento eternamente.
Um pequeno sorriso de satisfação surgiu no canto de seus lábios. Como sentia falta desses momentos, da paz que lhe tomava só em vê-la sorrir daquela forma gostosa. Thalia foi parando de rir aos poucos, respirando fundo e passando uma das mãos sobre os olhos para secar as lagrimas ali acumuladas.
Ela estava ofegante e com o rosto vermelho quando inclinou-se um pouco sobre a mesa e pegou um dos pedaços da maçã fatiada, levando a sua boca que ainda esboçava um pequeno sorriso. Ela o mastigou rapidamente e olhou para Nico com os lábios contraídos.
— Minha barriga está doendo. — Resmungou de boca cheia.
Nico sorriu completamente encantado. Pegou um pedaço de maçã também e o levou a boca.
— É o que ganha por rir da minha comida.
— Sua comida? Não sabia que precisava se formar em culinária para cortar maçãs.— Rebateu com a sobrancelha erguida.
—Ouche! Por que tão cruel?
Thalia não respondeu, apenas sorriu

e voltou a pegar outro pedaço da fruta, comendo sem reclamar desta vez.
O resto da refeição– se é que podemos chamar assim — seguiu daquela maneira, um clima leve e agradável, entre piadas e risadas. Porém, Nico sabia que o clima não seguiria daquele jeito eternamente e não conseguiu conter o desconforto quando deparou-se com a bandeja vazia sobre a mesa. Havia chegado à hora.
Com o canto dos olhos checou Thalia, que tinha o copo entre os lábios, saboreando despreocupadamente o liquido de cor âmbar ali contido. Goladas lentas e calmas, sua expressão era de satisfação total. Ela devia gostar mesmo de maçã.
— Eu sinto seus olhos em mim, Di Ângelo. O que quer falar?
Virou seu rosto um pouco vermelho por ter sido pego em fragrante, ficando de frente a ela e pigarreou antes de se pronunciar:
— Bem, eu acho que podemos conversar agora, certo?
Thalia deu um risinho e colocou o copo agora vazio sobre a mesa, ficando de frente a ele também. Apoiou-se nos cotovelos e sorriu de lado.
— Certo, mas não será tão simples assim.
Nico não gostava nem um pouco daquele sorriso debochado e olhar desafiador que dominavam a expressão de Thalia. Sentia-se intimidado de certa forma, porém, não correria mais, no fim de tarde estaria indo embora de NY e queria colocar tudo nos conformes antes de partir.
— Como assim? — Remexeu-se desconfortável.
— Que tal um jogo? — Thalia prosseguiu. Correu os dedos por seus cabelos e os jogou ao lado oposto do ombro, Nico engoliu em seco assim que teve a visão privilegiada de seus seios novamente.
Balançou a cabeça e tentou manter-se focado, voltando a fitar-lhe os olhos.
— Um... Jogo?
— Sim, um jogo. Pensei que gostasse deles.
Resolveu ignorar toda aquela ironia.
— Hm, tudo bem. No que está pensando?
— Algo bem simples, como na vez da piscina, lembra? — Nico assentiu brevemente. — Um pergunta o outro responde, e então o que respondeu tem direito a pergunta e o que perguntou deve responder, bem simples.
Perdeu-se um pouco em pensamentos até entender o que ela estava dizendo, seria realmente bem simples.
— Okay. Regras?
— Nada de mentiras. Sempre a verdade sincera e concreta, sem rodeios, resposta imediata e direta. — Ela não estava perguntando, estava afirmando, mas Nico estava realmente satisfeito com as regras.
Sem mais jogos, sem mais modo de defesa, apenas a verdade que ele tanto almeja.
— Parece bom pra mim.
Thalia sorriu e inclinou-se um pouco sobre a mesa, pegando o outro copo de suco que ainda estava intacto. Ela não pediu, simplesmente passou a beber despreocupadamente e acenou com a mão em sua direção. “Pode começar” murmurou.
Nico sentiu um friozinho na barriga. Tinha tantas perguntas, qual fazer primeiro?
— Qual o significado da tatuagem?
Thalia arqueou uma das sobrancelhas, parecia surpresa por sua primeira escolha. Ela nem hesitou em afastar o copo dos lábios e sorri descontraidamente.
— Achei que estivesse claro, ela é bastante auto-explicativa, mas okay. “O que me nutre também me destrói” Ou seja, tudo o que me faz bem, de alguma forma acaba me machucando.
Sentiu uma pontada em seu peito. Foi inevitável não voltar ao dia em que a abordara no estacionamento e a pedira em namoro de repente. Conseguia ler o medo nos olhos de Thalia ao mesmo tempo em que via a excitação, felicidade. Ela hesitava por insegurança, temia de ser ferida e Nico prometeu que não o faria, somente para no dia seguinte descumprir da pior maneira possível.
— Quando a fez?
— Ei, calminha ai garotão. É minha vez agora. — Thalia o lembrou.
— Certo, eu só... — Respirou fundo e passou a mão por seus cabelos, afastando a franja. — Certo, o que quer saber?
Preparou-se para o pior, os olhos de Thalia o fitavam com divertimento e aquilo estava lhe dando calafrios.
— Que produto você usa no seu cabelo?
— O quê? — Aquilo era sério?
— O cabelo, qual produto você usa?
— Eu não sei, um shampoo qualquer e está mesmo me perguntando isso?
— Sim. Como faz para ficar dessa maneira?
— Ei, por que está fazendo outra pergunta?
— Você já fez a sua.
— Claro que não.
Thalia revirou os olhos e deu mais um gole em seu suco.
— “Está mesmo me perguntando isso?” — Deixou sua voz dois tons mais grave numa tentativa de imitá-lo.
— Aquilo não valeu!
— Mas é claro que valeu. As regras são simples Di Ângelo, uma pergunta uma resposta, as siga.
Resmungou alguns palavrões e endireitou-se na cadeira, teria de tomar cuidado para não deixar passar mais uma pergunta assim, por bobeira.
— Ta bem, eu passo um creme e uso uma touca térmica.
Corou enquanto cruzava aos seus braços e tentava não olhá-la. Estava envergonhado, mas prometeu que não mentiria e não iria o fazer, não desta vez. Cumpriria a todas as suas promessas, pois como diz o ditado: Errar é humano, persistir no erro é burrice.
Thalia crispou aos lábios enquanto reprimia o sorriso para que não cuspisse o suco fora. Levantou o dedo indicador pedindo por um tempo e logo depois engoliu ao liquido que mantinha na boca, prosseguindo:
— Eu sempre soube.
Nico revirou os olhos.
— Quando a fez?
— Pouco depois de o baile.
— EI! Isso não vale. — Protestou.
— O que queria? Um livro de recordações com fotos, data e hora? Eu não disse nem uma mentira. Por que sempre que sorri arqueia somente a sobrancelha direita?
Nico corou um pouco com aquele comentário, ela reparara nisso? Nem mesmo ele havia notado.
— Eu não sei... É algo automático, talvez. Para onde fugiu aquela noite?
— Las Vegas.
— Las Vegas? — Não conteve o espanto.
— PEH! — Imitou o som de uma buzina enquanto bebia mais um gole do suco. — Não é sua vez ainda, espere a próxima rodada. Basebol ou basquete?
Revirou aos olhos, sem paciência. Que tipo de perguntas eram aquelas? Thalia não estava levando a sério.
— Basquete. Por que foi para Vegas?
— Para esquecer você. Chocolate branco ou preto?
Nico ficou estático. “para esquecer você” Como ela ousava disparar aquilo com tanta naturalidade e seguir com uma pergunta estúpida como se não fosse nada de mais?
— Por que está fazendo isso?
— Ei, é minha vez de perguntar...
— Não, Thalia. Por que está fazendo isso? Achei que os jogos tinham acabado.
— Como assim acabado? Estamos jogando um agora. — Falou o obvio dando mais um gole, Nico pegou o copo da mão dela e colocou na outra extremidade da mesa. — Ei! Meu suco...
— O que houve com o “sem rodeios”?
— Não sei se notou, mas quem está fazendo rodeios aqui é você. Eu respondo a verdade, rápido e direto. Disse uma pergunta e uma resposta, Nico. Não impus regras sobre o que perguntar e, por favor, me devolva meu suco.
Encolheu aos ombros e suspirou longamente, sentindo-se completamente derrotado. Pegou ao copo e o colocou ao alcance dela, voltando a sentar e fitando ao seu reflexo na mesa.
— Branco. Por que tentou me esquecer?
— Porque você partiu meu coração em dois. O que gostaria de ganhar no Natal?
Riu seu humor, aquilo era ridículo. Só ele estava abalado? Só ele sentia seu peito pesar como chumbo? No começo temia as perguntas, mas agora tudo o que mais queria era esclarecer as coisas. Contar a ela toda a verdade, sobre seus sentimentos, confessar o quanto estava arrependido e deixar claro o quanto a amava. Mas Thalia não lhe dava a chance porque ela sabia disso; não queria escutá-lo e deu um jeito de o fazer. Foi um completo idiota por cair nessa, devia ter desconfiado.
Mas como disse anteriormente, não se deixaria abalar. Levantaria a cabeça e enfrentaria Thalia de frente. Iria quebrar aquelas malditas paredes que ela insistia em construir ao seu redor e alcançaria seu coração mais uma vez, nem que fosse a ultima coisa que faria.
— Seu coração. — Respondeu e viu quando o sorriso presunçoso sumiu dos lábios rosados a sua frente. A expressão de Thalia fechou e o copo parou a meio caminho dos lábios. — Você ainda sente algo por mim?
Ela piscou duas vezes antes de colocar o copo sobre a mesa e fita-lo intensamente.
— Raiva, rancor, magoa, dentre outros. Por que ainda não foi viajar?
Ah... Então de repente as perguntas mudaram, huh? Teve que fazer muito esforço para conter seu sorriso.
— Porque tenho coisas mais importantes a cumprir. Tirando as coisas ruins ainda sente algo por mim?
— Sinto muita vontade de te beijar agora mesmo. — Seu corpo inteiro arrepiou com aquela resposta, com o tom da voz.
Nem em mil anos esperaria por essa.
Thalia sorriu ao notar o efeito que exercia sobre ele. Seu olhar superior e sorriso prepotente voltando a todo vapor, enfeitar-lhe o rosto enquanto sutilmente inclinava-se sobre a mesa, apoiando os braços nela e inclinando o corpo, ficando perigosamente próxima. Seus olhos brilhavam, faiscavam de maneira intensa e intimidadora.
— Você quer me beijar?
Seu coração acelerou de forma desenfreada. A respiração pesada passou a fluir naturalmente contra os lábios dela, aqueles lábios, tão lindos, macios, fodidamente convidativos. Por estar naquela posição à jaqueta deixava seus seios agora completamente expostos. As mãos de Nico coçaram almejando tocá-la de uma vez, sentir sua pele febril, beijá-la e levá-la a loucura ali mesmo naquela cozinha. Mas então entendeu o que estava acontecendo. Ela estava tentando contornar a situação, estava o atacando da maneira mais baixa que podia para que não fosse atingida. O modo de defesa ainda estava presente.
— Quero, quero muito, desde a primeira vez que lhe vi. Por que fica tentando me afastar?
— Estou sentindo o cheiro do que comeu no café da manhã diretamente de sua boca, não acho que afastar se enquadre no momento. Então por que não beija?
Engoliu em seco. Oh, meu Deus, aquilo era tortura. Thalia estava seminua, praticamente encima dele. Os cabelos negros desgrenhados e mais lindos do que nunca, cheirosos — Nico conseguia sentir o cheiro invadir suas narinas sem permissão. Ela usava somente calcinha e uma jaqueta de couro, que por sinal, lhe pertencia. Faz idéia do efeito que Thalia lhe causava quando usava suas roupas? Como se tudo aquilo já não fosse o suficiente, ter uma garota trajando apenas peças intima e jaqueta devia ser uma de suas maiores fantasias da vida, e ao ser Thalia Grace a estar daquela forma, tornava tudo ainda mais sexy e excitante.
Estava tentado, Deus, como estava tentado. Teve de usar todo o autocontrole que tinha e não tinha em seu corpo para levantar-se do banco e afastar-se um pouco dela.
— Porque você está querendo fugir de minhas perguntas. O que você realmente nutre por mim, Thalia?
— Eu já lhe disse isso, por que continua repetindo a mesma pergunta? — Ela parecia frustrada.
— Porque não está sendo sincera, Thalia. Seja sincera, me diga, qual a pergunta que queria ter feito desde que começamos a jogar?
Ela crispou aos lábios, seu queixo tremeu enquanto os olhos brilhavam ao serem cobertos por lagrimas.
— Por que você me traiu?
E lá estava. Direta como uma flecha, certeira, cortando ao ar e acertando diretamente seu peito. Nico sentiu a garganta fechar enquanto assistia a garota a sua frente desmoronar em questão de segundos. As lagrimas desciam de maneira exagerada por suas bochechas pálidas e pouco rosada. Thalia cambaleou para trás e encostou-se no balcão da cozinha enquanto tampava aos olhos com as mãos tremulas e soluçava alto.
— Droga! Por que me traiu? Por que partiu meu coração? Eu lhe dei ele, Nico. Eu lhe dei ele de mãos beijadas a única coisa que você tinha de fazer era cuidar para que não o ferissem. Então por quê? Por que logo você o feriu? Por que me machucou tanto quando eu só estava disposta a amá-lo da forma mais sincera que pudesse?
A essa altura já chorava também, mordeu o lábio e engoliu em seco enquanto dava um passo à frente, aproximando-se, mas parando bruscamente assim que o corpo de Thalia se encolheu contra a bancada. Encolheu-se, tem noção disso? Como se o contato com ele fosse feri-la, como se ele fosse uma ameaça. Nico sentia-se um lixo.
— Me desculpe. — Foi tudo o que saiu e tão baixo que mal escutou ao pronunciar.
Esperou tanto por aquele momento, exigiu dela aquilo e não sabia ao menos o que dizer. Não tinha o que dizer, não havia explicações para o que tinha feito.
— Me desculpe, me desculpe. — Usou aquilo como mantra, estava tremendo inteiro enquanto a observava. — Eu sinto muito.
Thalia negou com à cabeça diversas vezes seguidas, seu corpo foi abaixando-se aos poucos, as costas escorregando pelo mármore do balcão até estar sentada no chão. A pele exposta contra o piso frio não parecia incomodá-la já que permaneceu ali, imóvel, encolhida contra a parede. O rosto oculto contra os joelhos enquanto chorava de maneira desesperada, alta, sem tentar conter o sentimento que lhe sufocava. Ela gritava, esperneava, murmurava coisas que Nico não conseguia entender, era como se soltasse tudo o que havia contido por todos os meses de uma só vez.
— Eu preciso de mais! — Sua voz não passou de um murmúrio. Fraco, frágil. — Eu preciso de mais que isso.
Nico levou sua mão tremula até o rosto, tampando a boca enquanto assentia – mesmo sabendo que ela não veria o ato. Estava em choque, completamente desamparado com aquela cena, assustado ao extremo.
— Eu, eu sei que precisa... — Falar foi à tarefa mais difícil da sua vida. A voz saiu tremula, ofuscada. — Eu sei que precisa, Thalia. Eu sei que sim.
Queria poder fazer algo, mas sinceramente não sabia o que fazer. Não tinha palavras o suficiente que fizesse a dor dela passar. “Me desculpe, eu sinto muito” O quão estúpido foi por achar que aquilo resolveria tudo?
— Então faça algo, droga! — Ela gritou. Alto, sua voz repleta de raiva, rancor, todos os sentimentos ao qual descrevera anteriormente estavam inclusos claramente ali. — Ou vá embora de uma vez! Me diga por que diabos insiste tanto? Por que não desistiu como eu pedi? Não vê o mau que me faz ficar perto de você? Não vê o poder de destruição que tem na ponta de seus dedos? Você é uma kriptonita ambulante, Nicolas. Ficar perto... Me mata aos poucos de maneira lenta e dolorosa.
Ela subiu a cabeça e falou tudo aquilo o olhando nos olhos. Seus dentes trincados embora a expressão predominante fosse de dor, de magoa. As bochechas estavam encharcadas e o nariz vermelho como os olhos, o corpo de Thalia tremia por inteiro. E foi ali, vendo os olhos azuis que há tempos atrás lhe roubara o coração e a razão, foi ali, presenciando toda a dor que a causou. Foi naquele momento que ele soube exatamente o que fazer.
Não precisava de milhões de palavras, precisava apenas de três.
Cortou a distância que existia entre os dois, cruzando a cozinha a passos rápidos, não permitindo a Thalia emboçar alguma reação. Abaixou-se de frente a ela e a rodeou com seus braços, apertando-a forte, abrigando-a contra seu peito. Thalia tentou por diversas vezes o empurrar pelos ombros, mas não permitiu que ela cortasse o contato. A apertou, a apertou com força, mas acima de tudo, com ternura. Deixou que ela ouvisse seu coração, fez silêncio para que pudesse ouvir o dela. Aos poucos, respiração, pulsação, a freqüência cardíaca entrando em sincronia.
— Eu sei que sentir muito não vai curar o mau que lhe causei. — Murmurou contra os cabelos dela. Ao ouvir sua voz, o coração de Thalia tornou a ficar desengonçado, novamente ela tentou afastar-se e novamente não permitiu que fizesse. — Eu sei disso, Thalia. Mas eu amo você. Amo de mais para deixá-la ir, sou egoísta por isso, sei que sim, mas te amo de mais para me importar.
Novamente imóvel. Thalia não disse nada, não moveu um músculo se quer. Seus braços caíram, largados ao lado do corpo, moles, enquanto os de Nico ainda a mantinha contra ele.
— Você me pergunta por que continuo insistindo e eu respondo: Por que eu amo você. Amo de mais para deixá-la ir, mas se pedir eu irei o fazer porque também te amo o suficiente para deixá-la livre. Sua felicidade está acima da minha, na verdade, sua felicidade é a minha. Então, como disse ontem, enquanto você sorrir estará de bom tamanho para mim. Se para conseguir isso eu tenho de ir embora, tenho de ficar longe, irei fazer mesmo que me mate por dentro, porque você estará sorrindo...
Aquilo era doentio. Nico nunca pensou que seria possível amar alguém aquele ponto, que seria real. Mas era a prova viva de que sim, era possível amar uma pessoa acima de tudo e todos, acima de si mesmo.
Afrouxou o aperto de seus braços ao notar que Thalia não tentaria nada. Afastou-se um pouco e o corpo dela por pouco não despencou para frente. Thalia estava mole, fitava fixamente o piso de forma que teve de ampará-la para que não caísse, segurando-a pelos ombros, mas ainda mantendo uma distancia respeitosa.
— Era tudo o que eu precisava falar para você, eu precisava que me ouvisse e olha só... Você fez ainda mais. — Sorriu e subiu o rosto dela de encontro ao seu com o polegar e indicador. Os olhos de Thalia estavam opacos, a boca entreaberta em uma expressão impassível, congelada. — Me deu uma ultima noite para saciar a saudade que já sinto sem ao menos ter partido. — O polegar correu agora pelas bochechas e canto dos olhos, numa tentativa falha de secar as lagrimas que molhavam um rosto tão belo. — Me deu o prazer de presenciar por uma ultima vez o seu rostinho de sono após acordar, me deu o prazer de ouvir sua gargalha exagerada e do sorriso discreto ao malicioso. Me permitiu ver o olhar de compaixão, de diversão, de raiva, rancor. Você me deu o prazer de apreciá-la por completo por uma ultima vez e eu não poderia pedir melhor presente de natal.
O silêncio seguiu por minutos intermináveis. Nico só conseguia escutar a água que pingava pela torneira entreaberta e caía de encontro ao inox da pia. A verdade era que enquanto ainda observava o rosto impassível de Thalia, já sabia... Sabia que tudo havia acabado ali. Á ultima coisa a fazer em NY encontrava-se encerrada, sua historia com Thalia... Tinha acabado de escrever o ponto final.
Mas não queria levantar, não queria perder o contato daquela pele quente, não queria que aqueles olhos opacos e sem vida fossem os últimos que veria antes de partir. Não queria dizer adeus, mas tinha que o fazer.
Escorregou o dedo por toda a extremidade do rosto delicado que tocava, antes de afastá-lo por completo. Thalia novamente não esboçou reação alguma. Nico levantou-se lentamente do chão e a observou agora de cima. Estava tão frágil, vê-la ajoelhada contra o chão daquela maneira partia seu coração. Respirou bem fundo e fechou aos olhos enquanto girava em seus calcanhares, dando as costas a ela. Seus olhos queimavam de maneira insuportável, assim como o nariz pinicava exageradamente. Mas não choraria, ainda não...
— N-não. — Seu corpo inteiro congelou e arrepiou quando o contato da mão dela contra a sua se fez presente. — Na-não, não, não... Não ainda não, não assim.
Thalia estava ligeiramente inclinada sobre o chão, à mão apertava com força a sua. Ela levantou-se de vez e ficou perigosamente próxima.
— Ainda não... —repetiu. — Tenho... Eu tenho uma última pergunta para lhe fazer, lembra-se? É minha vez.
Nico assentiu enquanto tentava lembrar-se de como se respirava. Seu coração batia tão rápido que parecia querer sair pela garganta.
— Você desistiria de sair da cidade e ficaria comigo?
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