Because I Love You 2 .
39 O Natal realmente rendeu emoções.
Notas iniciais
Um ranger e passos... Passos lentos e trêmulos, o som do salto alto chocando-se contra o chão, uma, duas, três, quatro vezes conforme se aproximava até finalmente parar. E então o silêncio, o silêncio dominou de forma perturbadora o quarto banhado somente pela luz da lua, enquanto Afrodite encarava o rosto inexpressivo de sua irmã, agora parada no centro do lugar.
Após notar o comportamento estranho da mulher e uma movimentação suspeita, Apolo subiu seu olhar ao dela, encarando as antes grandes pupilas negras, agora pequenas em meio ao azul claro dos olhos, Afrodite não o olhava e sim a um ponto fixo a suas costas. Ainda abaixado, tirou suas mãos das coxas dela lentamente e virou ao pescoço, olhando para trás. Seu corpo gelou, as mãos pararam ainda no ar, pouco acima da pele que antes tocava. Ártemis estava ali, parada pouco a frente da porta, os olhos vidrados e o rosto congelado em uma expressão vazia, como se fosse um robô em pane.
Não sabiam ao certo o que sentir. Na verdade nem dera tempo o suficiente para sentirem algo, ainda estavam estáticos, digerindo o que acontecia ali quando a ruiva finalmente se moveu no centro do quarto. Os olhos pasmos tornaram-se assustadoramente insanos enquanto recuava alguns passos até alcançar a porta e batê-la com força exagerada, fechando-a com um estrondo, aquilo fora o suficiente para despertá-los do transe.
Apolo ficou de pé em um pulo e cambaleou até estar encostado á mureta também, ao lado de Afrodite, deixando seu corpo repousar sobre a estrutura por não ter forças o suficiente para manter-se ereto sozinho, suas pernas estavam moles como gelatina, um frio subia pela coluna até a nuca.
— Mas que merda é essa? — Esbravejou abrindo os braços e apontando para os dois, incrédula.
O silêncio se estendeu por mais alguns segundos, somente as respirações aceleradas eram ouvidas, Apolo ainda não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo novamente. Engoliu em seco e piscou diversas vezes certificando-se daquela realidade, torcendo para ser somente uma alucinação, uma alucinação bem ruim.
— Há, ninguém vai dizer nada?!
— Ártemis... — O nome saiu rasgando sua garganta, como se quisesse se convencer de que ela estava mesmo ali.
— Sim, Apolo, esse é meu nome, agora será que pode me explicar que merda toda é essa?!
— Achei que estivesse obvio... — A voz de Afrodite surgiu pela primeira vez, levemente arrastada e rouca.
Ártemis rangeu os dentes dentro da boca, sua mandíbula travada e os olhos faiscando encarando agora a mulher sentada sobre a mureta — o vestido ainda levantado e os cabelos desgrenhados — se um olhar cortasse, Afrodite estaria em pedacinhos naquele exato momento.
— O que foi? — A espeça sobrancelha negra se arqueou e um sorriso malicioso estampou sua boca vermelha e inchada, manchada de batom. — Achei que já fosse grandinha o suficiente para entender o que acontecia aqui, irmãzinha.
Se fosse qualquer outra noite, sério, qualquer outra noite, Afrodite se sentiria terrivelmente culpada e pediria desculpas a sua irmã. Há, mas hoje? Não, não quando a elevada quantia de álcool em seu organismo lhe privava do remorso e a única coisa cujo seu corpo gritava era excitação, excitação e uma raiva horrenda por ter de reprimir aquilo.
Seria errado manda-la voltar mais tarde e continuar o que faziam?
— Olhe só pra você... — A voz de Ártemis estava com carga excessiva de nojo. — Com esse batom manchado e o vestido dessa forma porque estava se pegando com o namorado da irmã... É mesmo uma perfeita vadia.
— Há... Então você sabia o que estava acontecendo aqui?
Cínica, o cinismo transparecia em sua voz, Ártemis rosnou e avançou sobre ela, porém Apolo finalmente se fez útil e moveu-se com rapidez, á segurando antes que tocasse as mãos em seu alvo.
— Ei, ei, calma!
— Não me peça calma! — Gritou enquanto se debatia, tentando a todo custo soltar-se. — Você é uma vagabunda! Com tantos homens no mundo por que tinha de se jogar logo pra cima do meu? Você disse que não daria mais encima do meu namorado!
— Tecnicamente não somos namorados... — Apolo falou mais pra si mesmo que para qualquer outro presente naquele quarto, porém ela conseguira escutar.
Parou de se debater e o encarou com uma expressão de nojo maior que a direcionada anteriormente a Afrodite.
— Não, você não disse isso... — sorriu seu humor, o olhar incrédulo. — Por favor, retire o que disse.
Apolo engoliu em seco e se afastou lentamente, passou a mão pelos cabelos em um claro sinal de nervosismo e dividiu seu olhar, revezando entre Afrodite e Ártemis. Azul e verde. Confusão e razão. O errado e o certo. Estava entre a cruz e a espada, seu corpo tenso, travado, Afrodite capitou na hora o tão conhecido olhar que lhe fora lançado tantas vezes antes: confusão, quase suplica, um nítido “me desculpe” transparecendo por cada canto daquela expressão.
Suspirou cansada. Não é como se esperasse que fosse diferente. Apoiou suas mãos na mureta e impulsionou seu corpo para cima, levantando-se, tateou calmamente o tecido de seu vestido preto, o puxando para baixo colocando-o em seu devido lugar. Os outros dois apenas observavam atentos a seus movimentos. Afrodite correu seu dedo indicador e o polegar pelas laterais dos lábios, limpando ao excesso de batom e afundou ambas as mãos nos cabelos em seguida, os jogando para os lados, para frente, e por fim, para trás, deixando as madeixas escuras escorregarem de maneira desleixada, porém incrivelmente sexy.
Respirou fundo e deu de ombros pegando sua taça sobre a mureta, entre seu dedo do meio e o anelar, levantando como se brindasse algo, porém não havia nada dentro da taça além de seu cigarro ainda aceso.
— Bom, que seja... Eu preciso de mais vinho e imagino que os pombinhos tenham muito o que conversar, irei deixa-los a sós.
Estava cansada daquele jogo, cansada de Apolo, cansada do que sentia por ele lhe machucar tanto ao mesmo tempo em que lhe deixava nas nuvens. Pela segunda vez fôra posta a teste e pela segunda vez falhara miseravelmente, agiu de maneira estupida.
Você não cansa de ser burra?
Era só o que conseguia pensar quando um gosto mais que amargo dominou sua boca, certamente psicológico, o gosto amargo do desapontamento fugindo de sua cabeça e transparecendo no corpo. Já sabia aonde aquele circo todo ia dar, como em um disco arranhado tudo estava fadado a se repetir: Seria mais uma vez a vilã do conto de fadas, a bruxa má, a madrasta — só que mais gostosa. — Sorriu sem muito humor de seu pensamento miseravelmente narcisista.
— Peço para deixarem suas coisas em seu apartamento, Artie, já sei o que isso significa. — Pegou seu cigarro de dentro da taça e o tragou profundamente uma ultima vez, jogando-o varanda abaixo em seguida, assoprou a fumaça para cima e sorriu o mais cínico que conseguiu. — Espero que tenham um Happy End, casal Disney.
Caminhou lentamente, nariz empinado e postura ereta, os passos lentos e sofisticados — perfeitos como os de uma supermodelo — embora por dentro estivesse acabada, quebrada pela segunda vez. Seus dedos tocaram a maçaneta, mas antes que a girasse por completo uma voz rouca a privou:
— Fui eu quem veio atrás dela.
A voz de Apolo estava séria, firme, não receosa como seu olhar de segundos atrás. Afrodite ficou imóvel com os dedos ainda envoltos na superfície gelada, o olhar no chão.
— Eu quis beija-la antes, quis beija-la agora e não hesitei em fazer...
Seu coração estava acelerado, um sorriso estupido insistindo em romper as barreiras que montara, derrubando-as facilmente como uma bola de destruição leva abaixo um prédio em ruinas. Não queria se deixar iludir, mas como não se deixar iludir?
— Fui um covarde antes e não pretendo ser novamente, então se quer culpar a alguém Ártemis, culpe a mim.
Apertou a maçaneta com mais força e mordeu o lábio inferior para tentar conter o sorriso, em vão, já que o mesmo quase rasgava sua boca de tão intenso. Nunca pensou que ouviria aquilo, não da boca dele, não em frente a sua irmã.
— Você só pode estar brincando. — Ralhou Ártemis, incrédula. O sorriso sumiu de seu rosto no mesmo momento. — Pense bem no que acabou de dizer Apolo, você está mesmo afirmando que me trocou por uma vadia de quinta? Que fez isso por livre e espontânea vontade e que não se arrepende? É isso que está dizendo?
Tentou manter-se firme, tentou não tremer e conter o ardor que dominava seus olhos e nariz, mas aquilo machucava, droga, aquilo machucava como ser marcada a ferro. Independente do que estava acontecendo ali Ártemis era sua irmãzinha, sua irmã mais nova e que estava completamente correta quando afirmava aquilo: era mesmo uma vadia de quinta. Deus! Havia traído sua própria família, seu próprio sangue e o fez mais de uma vez!
Mas como resistir? Como negar ao desejo que sentia? Como deixar de trai-la para trair á seu próprio coração? Sentia-se miserável, mas no final seguia o que seu peito implorava dolorosamente desde o colegial, aceitava de boa vontade a esmola que Apolo estava disposto a lhe dar, mesmo sabendo que quando a noite terminasse se sentiria imunda e desvalorizada. Aceitava porque no momento em que estavam juntos, seu coração gritava de felicidade, aquilo era o suficiente, o pouco bastava.
— Não, eu não disse isso, é claro que me arrependo.
E como se as palavras de Ártemis já não fossem o suficiente, Apolo completou aquela tortura. Afrodite arrependeu-se amargamente de não ter saído por aquela porta quando teve a chance. Seu corpo inteiro tremeu e a garganta pareceu comprimir, apertando-se e quase lhe privando da respiração, se até aquele momento estava conseguindo se conter, não aconteceria mais.
É claro que se arrepende, é claro... claro, claro!
Travou a mandíbula e segurou com força a maçaneta girando-a de uma vez enquanto sentia seu rosto pinicar conforme as lagrimas escorregavam sobre a alva pele. Abriu a porta com força e ouviu o sorriso sarcástico de sua irmã escoando pelo quarto, não olhou para ela, simplesmente caminhou, soluçando com força assim que o primeiro passo foi dado, porém antes mesmo que saísse por completo do cômodo, fôra trazida bruscamente de volta por um puxão em seu antebraço. Tudo girou, suas pernas bambas permitindo que o corpo despencasse contra o tronco de Apolo facilmente.
— Deixe-me terminar... — Ele pediu.
Os olhos azuis acolhedores, um sorriso terno no canto dos lábios enquanto a mão livre subia, acariciando sua bochecha, secando o cantinho de seu olho. Afrodite respirava apressadamente ainda perdida em emoções, suas lagrimas sessaram pela confusão, o cérebro embargado, sem saber ao certo o que sentir. Apolo a apertou com força ao notar que ela não tentaria reagir, mantendo seu rosto oculto contra o peito e com o braço a apertou com força na cintura, afagando seus cabelos com a mão direita.
— Me desculpe por demorar tanto... — Sussurrou, encostando o queixo no topo de sua cabeça, os lábios tocando de leve as madeixas escuras. — Desculpe por lhe machucar e demorar tanto para notar o que estava tão claro esse tempo todo.
Afrodite nada respondeu, seu coração marretava as costelas, às mãos tremulas o apertaram com força na cintura enquanto voltava a chorar agora que uma nova emoção fizera-se presente de forma arrebatadora. Felicidade.
— Então, Ártemis, como disse antes: eu me arrependo sim de uma coisa.
Afrodite conseguia ouvir os pés de sua irmã batendo contra o chão de forma impaciente, a respiração pesada, liberando lufadas de ar.
— Pense bem, Apolo, pense bem no que está prestes a fazer...
— Eu me arrependo de ter ficado com você por todo esse tempo.
O coração de Afrodite saltou, um soluço escapou enquanto o segurava com mais força, Apolo retribuiu ao contato, apertando-a mais em seus braços como quem quisesse protege-la, deixando claramente transparecer um “está tudo bem”.
— Me arrependo e não lhe culpo, a culpa disso é toda minha, simplesmente não queria ver, sabe? Mas... Desde o principio ela teve esse poder absurdo sobre mim, ela conseguia tudo de mim tão fácil, porque... — Sorriu radiante. — Porque ela sempre teve tudo de mim. Por mais que eu negasse, por mais que minha cabeça fizesse querer o correto, você era o correto, a boa garota que me ajudou quando estava na pior e eu lhe agradeço muito por isso, porém... Acho que já está claro o que meu coração pediu por todos esses anos.
Afrodite não acreditava no que estava escutando, aquilo devia ser um sonho, sim! Um sonho muito bom, mas que infelizmente logo acordaria. Não queria acordar, queria ficar ali, sentindo aquele calor contra seu corpo o coração contra seu peito, ouvindo as doces palavras que esperara por toda a vida para escutar.
— Então... — Apolo continuou. — Espero que me desculpe por toda essa confusão, de verdade eu gosto muito de você e não quero que fiquemos mal, mas... Eu amo a outra pessoa e creio que não podemos mais ficar juntos.
Ártemis sorriu completamente incrédula, sem nem um pingo de humor.
— Você ama outra pesso...? Você está dizendo que a ama? Está dizendo que ama a minha irmã e terminando comigo? Têm certeza disso?
Apolo respirou fundo e acolheu melhor a mulher em seus braços, afundando o rosto nos cabelos negros e inalando profundamente aquela fragrância maravilhosa — Camomila — logo sendo embargado, sentindo seu corpo relaxar.
— Nunca tive tanta certeza em minha vida... — Sussurrou, os olhos ainda fechados enquanto parecia mil vezes mais leve, livre de um peso que o acompanhara por grande parte da vida.
Não viu o que aconteceu, mas escutou passos pesados e apressados, seguidos de uma batida alta da porta, e então... Absoluto silêncio.
Pensou em falar algo, mas resolveu deixar daquela forma por mais algum tempo, temia o que vinha a seguir e preferiu aproveita-la daquela maneira, agarradinha a seu corpo, toda encolhida, indefesa... Suspirou longa e preguiçosamente, sentindo seus pulmões serem preenchidos pelo oxigênio e o nariz recebendo o delicioso aroma que tanto almejara.
Sentia-se mau por Ártemis, não queria de forma alguma machuca-la, não a ela, não a pessoa que por tantas vezes lhe dera apoio e carinho, mas a verdade é que não estava arrependido. Fora por seus medos e inseguranças que as coisas chegaram a esse ponto e estava orgulhoso de finalmente por um fim aquilo, estava orgulhoso por de correr, por parar de ser um covarde e finalmente assumir o que estava completamente claro para quem quisesse ver...
Era apaixonado por Afrodite.
Sorriu enquanto afundava o rosto dentre os cabelos negros e cheirosos, apertando-a mais em seus braços. Sentia-se redondamente feliz, não entendia o porquê de correr tanto desse sentimento se agora que assumira, era como se estivesse completo.
— Falou sério?
Um murmúrio baixo lhe tirou de seus pensamentos, abriu aos olhos com a boca ainda apoiada a cabeça dela. Sua vozinha estava baixa, abafada contra seu peito, porém carregada de inseguranças, Apolo sentiu seu coração apertar.
— Nunca fui tão sério em toda a minha vida. — Tratou de passar toda sua segurança naquelas palavras.
Ela precisava, precisava da certeza, conseguia enxergar o quão sensível Afrodite estava, o completo oposto do que costumava ser e sentia-se mau por ser o causador daquilo, não pôde deixar de sentir-se um lixo assim que imaginou por quantas vezes ela ficou naquele estado por sua culpa...
— Eu amo você. — Sussurrou apertando-a mais forte. — Me desculpe por lhe machucar tanto e demorar tanto, eu amo você.
Afrodite soluçou alto, as mãos o apertando com mais força na cintura enquanto mexia a cabeça, deixando somente sua testa apoiada contra o peito dele e fitando ao chão intensamente. Apolo pensou em falar algo, mas ela foi mais rápida:
— Deus, eu esperei tanto por isso... Eu amo você. Também amo você.
Seu coração doeu em ouvi-la tão frágil, aquela voz esganiçada como se fosse liberada por entre dentes e mandíbula travados... Mas ao mesmo tempo sentiu-se profundamente feliz, uma carga de felicidade despencou sobre seu corpo, atingindo-o em cheio de maneira avassaladora, como um raio que corta ao céu e choca-se ao topo de uma colina, desenfreado, sem se importar com os possíveis danos. Estava em ecstasy, um misto de emoções, um misto de sentimentos tão diferentes, que pareciam corretos no momento.
— Esperei tanto para ouvir... — A voz sofrida de Afrodite lhe arrancou de seus devaneios. — Deus, eu esperei tanto que agora... Eu não sei o que, eu não sei nem o que fazer.
Estava completamente encantado com toda aquela entrega que nunca pensou em ver, com aquela carga de sentimentos despostos na voz que nunca pensou em escutar. Seus olhos já ardiam e o coração estava acelerado como nunca estivera na vida.
— Eu, eu não sei como devo agir, quer dizer, como vamos ficar? E Ártemis, eu... Deus, você disse mesmo o que eu pensei que disse?
Sorriu da confusão que a mulher parecia passar, afastou-se um pouco dela e segurou seu queixo com cuidado, levantando sutilmente o rosto, trazendo aqueles olhos azuis e intensos — agora mais frágeis do que nunca — de encontro aos seus.
— Não pensa em nada agora... — Sussurrou, seu coração mais acelerado que anteriormente enquanto observava o rosto choroso entre suas mãos, nariz vermelhinho e bochechas rosadas, o cantinho dos olhos úmidos assim como as bochechas. Sorriu negando com a cabeça. Tão perfeita.
Afrodite assentiu diversas vezes, os olhos vidrados nos seus enquanto as sobrancelhas caiam em uma expressão de dor. Suas testas se encontraram, colando-se uma a outra enquanto os olhos conversavam de maneira silenciosa, milhões de segredos sendo revelados, milhões de palavras sendo ditas.
Apolo inclinou-se ligeiramente para frente, esfregando seu nariz contra o dela e lhe arrancando um risinho baixo, sorriu em conjunto, seus olhos presos agora sobre a boca vermelha e entreaberta absurdamente próxima a sua. Não aguentando mais prolongar, cortou a pouca distancia que ainda restava entre os dois e a beijou, os lábios se tocando de maneira terna, com carinho e calma, o primeiro beijo que compartilhavam sem pressa, sem gana, mas o que continha mais sentimentos... Tantos sentimentos que seu corpo arrepiou tentando digerir as inúmeras sensações.

Pela primeira vez, sentiu-se completo durante um simples beijo.
( . . . )
Piper estava estática enquanto encarava completamente boquiaberta a cena a sua frente: Quatro cadeiras jogadas ao chão, quatro pessoas em pé, braços esticados e mãos espalmadas contra a mesa, os rostos congelados em expressões espantadas, assim como o restante dos convidados que permaneciam sentados.
— Como assim estão namorando?! — Athena repetiu e Poseidon franziu ao cenho, claramente bêbado de mais para digerir tão rápido quanto sua companheira.
— Não grite como se esse fosse o maior problema aqui, casar, mãe?! — Annabeth devolveu no mesmo tom enquanto Percy parecia tão perdido quanto seu pai.
Piper finalmente reagiu aquilo e correu os olhos pela mesa, buscando por Jason que tinha a mesma expressão do outro lado, levantaram-se ao mesmo tempo e foram até a confusão.
— Ei, ei, vamos acalmar os nervos aqui, família... — Pediu enquanto tocava delicadamente o ombro de sua amiga, Annabeth puxou o braço com força se desvinculando dela.
— Como escondeu algo assim por tanto tempo, mãe?
— Eu escondi? Enquanto ao seu relacionamento com o filho do meu futuro esposo? — A postura de Annabeth se retesou por um segundo, braços encolhidos ao corpo e ombros levantados. — Ah, Imagino que não fosse importante meu consentimento.
— Nós íamos falar, só estávamos esperando o momento certo.
— Faço de suas palavras as minhas.
O clima estava pesado, Piper agora se mantinha imóvel enquanto olhava de maneira desesperada para Jason, que por sua vez, devolvia o olhar da mesma forma. Sabia que Annabeth contaria toda a verdade durante o jantar e estava ali justamente para apoia-la, mas a situação tornou-se mais complicada que o esperado.
— Escuta gente, eu acho que devemos manter a calma e conversar...
— Não acredito que estavam juntos durante todo esse tempo! — Athena ignorou completamente seu comentário. — Eu o deixava dormir em seu quarto!
— O que tem de mais nisso?
— O que tem de mais? Acho faziam bem mais que dormir!
Annabeth se calou e seu rosto corou violentamente entregando-a por completo, e se sua mãe somente suspeitava dos fatos, naquele momento obteve sua resposta.
Piper estava entrando em pânico, às mãos sobre a cabeça, os dedos entrelaçados em seus fios de cabelo, quase os arrancando fora enquanto somente observava. Sentia-se terrivelmente impotente, sua função ali era ajudar, mas estava quase tão surpresa quanto os outros. Assistia como espectadora a situação piorar a cada segundo, implorando em pensamentos para que Thalia passasse por aquela porta e desse um de seus gritos assustadores fazendo com que todos calassem a boca e colocassem o rabinho entre as pernas. Aquela era a função da durona do grupo e todos sabiam que Piper era a mais molenga.
Revezava seu olhar entre Athena e Annabeth que não paravam um segundo de bater boca enquanto Percy e Poseidon continuavam parados em suas exatas posições desde que receberam a noticia. Respirou fundo e abriu a boca tentando mais uma vez apartar aquilo, porém antes mesmo que uma palavra fosse dita, sentiu o vento bater contra sua bochecha esquerda ao mesmo tempo em que algo zunia contra o ouvido e os olhos acompanhavam o vulto negro, que por pouco não a acertara antes de fazer-se em pedaços contra a parede.
Arregalou aos olhos, espantada e visou o disco de vinil que anteriormente tocava uma musica clássica agora em pedaços no chão. Todos pareceram tão espantados quanto ela e o silêncio finalmente se fez presente no local, os olhares não mais direcionados a discursão familiar e sim a ruiva que respirava pesadamente, completamente enfurecida, seu corpo ainda ligeiramente inclinado para frente por conta do arremesso.
— What the fuck?! — Piper gritou, seu coração acelerado. — Por um acaso está tentando me matar?!
Ártemis a fuzilou com os olhos, seus dentes a mostra, fechados, a respiração pesada e ruidosa escapando por entre as brechas deles, os cabelos ruivos caindo desarrumados sobre sua testa enquanto o peito subia e descia rapidamente.
— Eu odeio essa musica! — Esbravejou apontando para os cacos no chão. — Odeio essa cidade, odeio o natal e odeio sua mãe!
Piper arregalou aos olhos.
— Mas o que minha mãe tem a ver com iss-... — Correu os olhos desesperadamente pela mesa, olhou cada convidado, um por um, nada de Afrodite, nada de Apolo. Fechou aos olhos com força e torceu para que não fosse o que estava pensando. — Onde Apolo está?
Ártemis não falou nada, não com sua boca, mas os olhos a entregaram completamente. Ela deu as costas e caminhou rumando a sala de estar, pegou sua bolsa sobre o sofá e saiu da casa batendo a porta com força.
Piper ainda estava imóvel, tentando digerir tudo o que acabara de acontecer quando ouviu passos vindos do topo da escada. Não olhou, mas sabia muito bem quem estava ali, agora ao seu lado, colocando a mão sobre seu ombro.
— Escuta, filha, eu... posso explicar-...
Deu um passo para frente e afastou-se de sua mãe, olhou para o rosto espantado de todos presentes ali, encarando seu namorado por fim.
— Mas que merda de Natal é esse?!
( . . . )
“Já estou aqui embaixo.”
Leo finalizou e enviou a mensagem, seu olhar ainda focado no aparelho que tinha em mãos, deixando o rosto fortemente iluminado pela luz que irradiava da tela. Estava frio em NY, mas a ultima coisa que seu nervosismo deixava sentir era a temperatura.
“Estou descendo.”
Sorriu ao receber sua resposta, inclinou o corpo para trás, escorando-se ao corrimão da escada e guardou o celular de volta no bolso de sua calça jeans, mantendo as mãos lá juntamente. Olhou para o céu por um segundo enquanto se deixava sorrir de maneira boba, as estrelas estavam bonitas aquela noite, mesmo que ofuscadas pelo tom nebuloso das nuvens espalhadas pela escuridão do céu.
Ouviu um pigarreio vindo um pouco atrás e desceu seu olhar do céu, encarando agora algo que brilhava mil vezes mais que qualquer estrela. Reyna estava maravilhosa com aquele sobretudo marrom caqui; usava botas de neve e uma calça colada e escura; nas mãos um par de luvas negras e sobre seus cabelos longos e lisos, pendia uma touca de esquimó. Adorável, mil vezes adorável.
Era engraçada a forma que Reyna tinha aquela personalidade durona e carrancuda, mas grande parte do tempo era incrivelmente fofa, como uma criança fazendo birra.
— O que está olhando? — E lá estava sua personalidade...
Leo sorriu e negou com a cabeça.
— Nada, só um pouco perdido com sua beleza.
As bochechas dela coraram e um bico surgiu em seu rosto. Suspirou completamente apaixonado.
— Você está adorável... — Continuou, enquanto caminhava até sua bicicleta, tirando-a do tripé e segurando-a agora com suas próprias mãos, entrono do guidão. — Mas não acho que esteja tão frio assim... — Sentou-se em seguida.
Reyna caminhou até ele enquanto dava de ombros, passou as pernas em torno do ferro, sentando-se na garupa — que Leo colocara recentemente, justamente para ela.
— Diga-me isso amanhã, Valdez... — Sorriu, divertida. — Quando estiver doente e catarrento e eu, bem, estarei deitadinha em minha cama lendo um bom livro, perfeitamente saudável.
Perdeu-se um pouco naquele sorriso, naquele olhar. Os olhos negros brilhando de maneira divertida e carismática. Sempre ouvia pessoas elogiarem olhos azuis, verdes e esquecerem completamente dos escuros, mas a verdade é que os negros tinham seu valor, os olhos de Reyna eram os mais lindos que já havia visto na vida. Tão intimidadores e fortes, mas ao mesmo tempo delicados e meigos.
— Está me chamando de catarrento? — Cerrou aos olhos.
Ela gargalhou e negou com a cabeça, encostando o rosto em suas costas enquanto os bracinhos o rodeavam na cintura. Suspirou e sorriu voltando a olhar para frente, não importa quantas vezes acontecesse, sempre que Reyna fazia aquilo seu coração acelerava e era justamente por isso que não vinha busca-la de carro, tipo, nunca, Festus que lhe perdoasse, mas enquanto pudesse ter aqueles braços ao redor de seu corpo, não o usaria tão cedo.
— Mas então... Depois de tanto suspense, será que finalmente posso saber aonde vamos? Eu dispensei o natal em família por você.
Novamente seu coração acelerou. Não sabia dizer se para Reyna o natal era tão importante quanto era para ele, já que considerava o natal a data mais importante e maravilhosa do ano, digna de se passar ao lado de pessoas especiais, de pessoas que realmente amamos e quando Reyna aceitou sair em sua companhia, sentiu pela primeira vez desde aquela noite no ponto de ônibus, que o que nutria por ela tinha uma chance sim de ser reciproco.
— Não, apenas relaxe e aproveite o passeio.
Reyna bufou e pôde sentir o bico formando-se nos lábios da garota, pressionados contra sua pele.
— Você é um pé no saco...
— Olha o que fala, estamos no natal.
— Véspera. — o corrigiu.
Revirou aos olhos e sorriu, negando com a cabeça. Finalmente tomou impulso com o pé direito, tirando-o do chão e o colocando no pedal para dar inicio as pedaladas. A noite estava calma, as ruas vazias e silenciosas como nunca vira antes; todas as casas enfeitadas e iluminadas, conseguia ouvir as risadas conforme cruzava algumas delas. O asfalto escuro estava úmido por conta da chuva que ocorrera anteriormente, a camada de água sobre ele refletindo as luzes dos postes. Olhou para sua sombra e sorriu ao ver a silhueta daquele corpinho encolhido, agarrado ao seu, os cabelos negros voando conforma o vento batia. Reyna já não tinha mais medo de andar com a bicicleta, para falar a verdade ás vezes ela até o xingava alegando que era muito lerdo e pedalava devagar de mais.
— Não vai dormir ai, em... — Alertou enquanto virava em uma das ruas, subindo na calçada fazendo o corpo dela dar um pequeno saltinho.
— Não vou... — Sua voz estava baixa e calma. — Já estamos chegando?
— Sim, só mais um pouquinho.
Ela assentiu e esfregou a cabeça contra suas costas, apoiando a testa ali agora. Seu nariz estava gelado, conseguiu sentir.
— Está com frio?
Fez um som nasal negando.
— Mas aposto que você está.
Estava mesmo, o vento que recebia por conta de estar em movimente só faltava congelar seus cílios, o rosto estava frio e os lábios secos, devia ter colocado algo mais quente, mas não assumiria aquilo para a Sra. Dona da razão.
— Claro que não, posso correr pelado por ai se quiser.
Reyna gargalhou negando com a cabeça.
— Por favor não faça isso seria traumático.
— Certo. — Sorriu também.
Seguiram o resto do caminho em silêncio, simplesmente apreciava o som da respiração calma dela a suas costas, apreciava o calor de suas mãos, toda vez que ela as movia para aperta-lo mais forte. Deus, estava mesmo muito apaixonado por aquela garota.
— Chegamos. — Anunciou assim que parou de pedalar.
Reyna abriu aos olhos novamente, sendo desperta pela voz de Leo depois de tantos minutos em silêncio, a verdade era que estava quase dormindo mesmo. Desencostou sua cabeça das costas dele e bocejou olhando em volta. Estavam em um parque, a grama verdinha, bem aparada e úmida no topo, brilhava em contraste as luzes natalinas postas ao redor de cada árvore espalha pelo lugar.
— Uau, vamos fazer um piquenique?
Leo assentiu com a cabeça e desceu da bicicleta, ia fazer o mesmo, mas ele não permitiu, portanto permaneceu sentada enquanto era puxada ainda encima da bicicleta.
— Vamos sim, mas não será aqui.
— Não?
— Não.
— Então aonde?
— Segredo.
Bufou e cruzou aos braços abaixo dos seios.
— Você é mesmo um grande...
— Olha a boca!
Revirou aos olhos e decidiu que ficaria calada, ao menos por hora, já que ele não diria nada de qualquer forma. Aproveitou o momento para observar o local, era realmente muito bonito, simples, porém muito bonito. As árvores bem podadas assim como a grama; banquinhos de madeira acomodavam um ou dois casais que estavam também por ali também.
Sorriu com a cena, será que fariam algo como aquilo? Estava um pouco ansiosa, era tudo muito novo. Claro que já havia saído com outros caras, mas eles sempre a levava em restaurantes caros ou baladas sofisticada, suas intenções claras de impressiona-la falhavam miseravelmente por serem tão previsíveis e desinteressantes.
— Tá, agora terei de pedir para fechar aos olhos. — Leo falou parando de puxa-la.
Reyna franziu a testa voltando o olhar para ele.
— Por quê?
— Porque é uma surpresa, não quero que veja agora.
— Eu odeio surpresas... — Suspirou e segurou a barra de sua touca, puxando-a para baixo até que cobrisse os olhos. — Está bom assim?
— Hm... Não sei, pode me ver?
— Não.
— Não confio em você...
Reyna revirou os olhos e suspirou longamente.
— Pare de ser idiota e me leve até o lugar, não estou vendo nada... — Tentou convencê-lo, já que era a verdade, não conseguia ver um palmo a sua frente. — Leo?
Não obteve resposta, tudo estava em silêncio total, não conseguia se quer escutar a respiração dele.
— Ah, sério? Você me trouxe a um parque desconhecido para brincar com a minha cara? — Bufou frustrada, suas mãos já subindo de encontro a touca para tirá-la dos olhos quando sentiu o contato de algo quente e macio contra seus lábios.
Primeiramente se assustou, o coração acelerado por conta da surpresa, mas assim que sentiu dedos gelados em suas bochechas entendera do que se tratava. Sorriu e negou com a cabeça, enfiando seus dedos por entre os cachos e trazendo-o para mais perto.
— Espero não estar beijando um estranho... — Murmurou em meio aos lábios dele. Leo gargalhou e afastou-se levantando sua touca para olha-la nos olhos.
— Que insulto, meu beijo é incomparável!
Reyna lhe mostrou a língua enquanto o menino abaixava sua touca no local novamente, vendando-a.
— Certo, já que não tentou me socar quando lhe beijei, quer dizer que realmente não está vendo nada.
— Eu lhe deixaria me beijar se pedisse... — Sorriu assim que escutou a respiração dele acelerar um pouco mais contra sua nuca, confirmando que estava perto. — Uh, se alterou só com isso Valdez?
— Não me provoque...
— Eu gosto de provoca-lo.
Novamente nada além de silêncio, porém desta vez a bicicleta continuava em movimento, o que provava que ele estava presente ainda. Passaram-se alguns minutos assim, Leo pedia para ela abaixar a cabeça em determinados momentos e Reyna o fazia, sentia algumas folhas roçarem em seu rosto e pernas e o som de água corrente parecia mais perto a cada segundo.
— Já posso olhar? — Sussurrou.
— Ainda não, se acalme. — Ele sussurrou em resposta.
— Não peça para uma mulher se acalmar, nunca funciona! E por que diabos estamos sussurrando?
— Não sei, você quem começou eu só entrei no embalo.
Ia continuar a debater sobre sussurros quando Leo finalmente parou de empurrar a bicicleta. Reyna escutou o som do tripé sendo posto ao chão novamente e o de água correndo próxima. Abriu a boca eufórica, mas antes que pudesse perguntar se já podia olhar, ás mão de Leo foram mais rápidas e seguraram sua touca delicadamente por trás, puxando-a para cima.
Reyna abriu os olhos aos poucos, acostumando-se com a claridade repentina que era lançada contra eles. Piscou algumas vezes até recuperar o foco e finalmente ver o local. Seus olhos deviam estar brilhando naquele momento, a expressão era a de total fascínio.
O local era simplesmente perfeito! Mesmo estando em meio a tantas árvores, o céu era aberto ali, como se a mata se fechasse em um circulo somente ao redor, o protegendo. A grama era maior e mais escura, fofinha. Havia uma grande e larga árvore na beira do lago, ela era baixa e tinha uma corda com um pneu preso á ponta, amarrado em um de seus grossos galhos; uma mesa de madeira com dois brancos presos, bem abaixo dela. Fantástico. Mas aquilo era o de menos, aquele lugar maravilhoso era o de menos comparado a sua surpresa ao ver o que as pequenas luzes natalinas, que brilhavam intensamente presas de uma árvore a outra formavam.
“Leyna is real?”
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