Bebês
1 Capítulo umnico
Um bebê de olhos azuis da primeira fileira agita seus pézinhos gordos no ar. Dois ou três mais para a esquerda balançam as mãozinhas, descobrindo aos poucos a estranheza de seus dedinhos flexíveis. Alguns dormem em silêncio. A maioria só se balança, de barriga rosada para cima, como uma tartaruga virada, soltando risadas agudas pelas bocas macias feito pétala de rosa.
Eles são produzidos às dezenas, centenas, talvez milhares por hora. Postos no mundo como produtos feitos por uma fábrica que não descansa. Até então, naquele quarto, ninguém era ninguém. Nem de ninguém, nem tinha os olhos de tia Catarina, ou o nariz de vovô Santiago. Eram todos apenas pequenos e frágeis pedacinhos de carne recheados de amor. E ouro. Quilos gordos de ouro.
Quem terá sido a primeira pessoa, às vezes alguém pensa, que descobriu o baú de tesouro escondido dentro de um bebê molenga?
Ninguém sabe responder.
Não se trata de uma bestialidade, como você deve imaginar. Há, é claro, as devidas circunstâncias e situações para que tal atrocidade aconteça. Não se abre corpos de bebês por abrir, mesmo que dentro deles estejam transbordando pedaços grosseiros de ouro bruto. Você o faz pela economia. Pelo bem do país. Pelo progresso de uma nação.
Pergunte a um desses senhores de bigode farto e anéis brilhantes e ele vai soltar um suspiro pesado, que balança a sua barrigona, e vai exclamar com todo o pesar: foram tempos difíceis, minha senhora, como foi, ainda dói de lembrar!
A população sofria, agarrada aos nacos de barro da cova de miséria que as grandes corporações haviam cavado, e para onde escorriam lentamente, em um declínio de pobreza e desespero. Não havia dinheiro para transitar, comida que chegasse às bocas dos humildes ou salário que garantisse dois dedos de água.
O fantasma do estilo de vida sofisticado dançara na frente de seus telespectadores como uma odalisca atrevida rebolando com moedas de ouro nos quadris, para em seguida fugir na calada da noite deixando seus amantes com nove hipotecas da casa caídas debaixo da papa gordurosa de seus pescoços suínos e suados.
Quem foi a primeira pessoa, sempre há alguém a imaginar, que descobriu dentro dos bebês a resposta para a maior das desgraças financeiras que já caiu sobre o país?
Quem foi a primeira pessoa, sempre pensamos sozinhos, que abriu o filho para pagar a prestação da televisão?
Durante o mais apertado dos momentos de sufoco, em que senhoras refinadas, envergonhadas, reutilizavam seus rolos de papel higiênico, o sistema de notícias interno anunciou, exaltado: Uma nova descoberta da ciência pode solucionar a crise financeira do país!
O programa, patrocinado pelo próprio presidente, com os tantos mil de fundos de imposto que lhe restavam, mostrava um passo-a-passo, com direito a desenho à giz, feitos por um cientista explicando o mistério da vida. Como se dá a reprodução, como bebês eram formados a partir do útero da mãe, como se desenvolvia, como era milagrosa essa divisão de células e como bebês eram recheados de ouro até a goela, até que o leite materno fosse ingerido em tal quantidade que o metal se dissolvia por completo e desaparecia dentro do intestino recém-formado do tamanho de uma salsicha.
Mas, atenção, minhas senhoras, caso sejam feitas incisões, veja bem, nesta parte da carne, não deve ser difícil, o tecido ainda está mole, entrando no umbigo, atravesse até o outro lado, e abra com o instrumento apropriado, um bom alicate que sirva, deve ter a mão firme para não danificar o produto, por via das dúvidas procure a ajuda do profissional de saúde da família ou de um açougueiro de confiança, usando o material cirúrgico adequado a carcaça poderá ser encaixada de volta sem problemas para o enterro, siga as instruções do meu livro. Em uma extração bem sucedida o lucro é de dois a três quilos de ouro puro, meus caros, faremos uma pausa para os comerciais, não troquem de canal, logo mais ensinaremos a melhor forma de preparar a pele para a incisão, e atenderemos dúvidas da platéia, quebrar os ossos: facilita ou complica a extração?, assistam a seguir, e comprem meu livro.
Naquela a noite, toda a população parou, bestificada. Como era possível, pensavam, escondidos no cômodo da casa que fosse mais distante da porta e da insistência dos cobradores, sentados sobre os cus que estouravam de dívidas, devendo a alma para cada vez que precisavam respirar, que uma resposta tão óbvia demorasse tanto para ser descoberta? Os bebês, é claro! Esses pequenos tesouros! As maravilhas do Criador! Mamães beijaram as cabeças carecas dos seus nenéns, extasiadas, colocaram seu macacão de algodão mais bonito e os levaram ao abatedouro no dia seguinte.
Quem teria sido, a comunidade indagava, de berço vazio e contas quitadas, o gênio a descobrir tamanha maravilha perdida dentro de um pedaço de carne gordo?
O cientista falador e bem vestido do comercial precisou explicar a muitos pais eufóricos ainda de mãos avermelhadas e pegajosas de sangue pela rua que, infelizmente, nada tinha a ver com a pesquisa. Agradecia muito pela oportunidade de divulgar essa reviravolta na ciência e na economia, mas que apenas leu os relatórios que a agência lhe mandou pelo correio algumas semanas antes, decorou palavras grandes e treinou gestos que parecessem inteligentes. Ainda fez graça para a plateia repetindo alguns “analisemos que desta sua forma indubitavelmente perspicaz” e “métodos ortodoxos e astuciosos oriundos de procedência incógnita”, convidando-os a darem uma passada para ver sua nova peça de teatro em cartaz.
Então quem, o apresentador de peruca nova perguntava, quem tinha revolucionado a história?
Procuraram em centros de pesquisa, laboratórios, grandes cadeias de exames. Havia sempre algum rapaz que ouviu falar sobre um homem, talvez pelo norte, ou nas regiões montanhosas, ou alí perto da padaria, que andava pesquisando isso, e esse homem sempre dizia que tinha aprendido anotações com um outro, que usou as ideias de outro, que leu a tese de um terceiro, sempre arrastando a trama da cadeia e envolvendo nomes e setores e empresas diferentes. Ninguém sabia quem começou tudo. Ninguém queria levar o crédito.
A economia estava salva, o mundo estava em paz.
Mas quem?, eu pensava, quieto no meu quarto, lá pelo quinto ou sexto maço de cigarro, copo de uísque na mão. As propagandas de facas (cerre costelas como se fossem manteiga!) soavam em alguma televisão nos apartamentos de baixo, altas como patadas de dinossauro graças aos home theathers novos.
Já não havia mais escolas porque acabaram as crianças a serem ensinadas. Nos prédios de letras e matemáticas colocaram cadeiras de massagem e construíram um spa para as ex-mamães esfoliarem suas cútis.
Algumas fábricas de fraldas e berços foram queimadas nas primeiras noites após a Grande Descoberta por papais eufóricos e de bolsos pesados. Nos escombros e cinzas ergueram-se imensos e prepotentes prédios onde famílias levavam suas jovens garotas logo após o escorrer do primeiro sangue, já que, embora fossem inúteis demais para valer um grama de ouro já eram capazes de produzi-los e trazer alguma felicidade às suas casas. As meninas, algumas tão novas que ainda tinham um buraco na gengiva pelo dente de leite perdido, esperneavam, histéricas, até serem gentilmente dopadas por algum doutor e amarradas na maca onde esperavam de pernas abertas por uma pica esterilizada que lhes fecundasse para que em meses gerassem mais ouro vivo.
Livros de história foram escritos sobre a Grande Crise que afetou o país e sobre os Tempos Dourados que vieram a seguir. Detalhavam a mudança nas casas dos patriotas de quartos cheios de pelúcias e chocalhos para uma sala de jogos com sinuca e piscina aquecida no quintal, chamando isso de progresso. Um conhecido filósofo, gordo como as vacas que iam para o abate e de dentes de ouro reluzentes enfiados nas gengivas, escreveu em seu memorando “bem-aventurada é a nação que tem as graças de reeguer-se sob o pequeno preço de caixões de meio metro”.
Em pouco tempo um em cada cinco cidadãos tinha na garagem mais de um Porsche. Ninguém tinha filhos. Todos tinham contas bancárias gordas e pequenos investimentos que já não mais choravam ao serem penetradas pela Economia.
Mesmo nesses tempos eu ainda gosto de sentar no meu apartamento vazio, de luzes desligadas, com a segunda garrafa de uísque e maços e guimbas de cigarro se desdobrando pelo chão.
Um pacote bem-feito reluz com o brilho do ouro do outro lado da minha casa, sempre conseguindo aparecer no meu campo de visão, não importa o quanto eu me esconda. Levo a garrafa à boca e bebo o quanto preciso pra não sentir mais esse arrepio gelado na espinha e mais uma vez meto a mão no bolso das calças pra apertar o pé esquerdo da sapatilha branca de algodão número 6. A única que sobreviveu, porque taquei fogo em todo o resto. Aperto a sapatilha e ouço o comercial lá em baixo, “agora você mesma, dona-de-casa, pode abrir seus bebezinhos sem ter todo o trabalho de ir até um centro especializado!”. O arrependimento e o álcool fazem meus olhos arderem como o inferno. Em meio a tantos fantasmas que mal andam e mal falam tudo o que consigo pensar é: quem? Quem descobriu a cura da economia? Quem foi o herói da nossa história?
Quem foi o primeiro bastardo a ouvir um choro no meio da noite, pegar uma faca e abrir o próprio filho?
Fale com o autor