Beautiful Mess
14 Capítulo 13 - Trégua... Ou quase isso
Notas iniciais
Capítulo 13 – Trégua... Ou quase isso
Hallie POV – Quinta-feira
O dia estava quieto demais. Desde que coloquei os pés para fora da cama hoje, tudo estava... Normal. Nada de graças durante o café da manhã, nenhuma ação repentina realizada com o intuito de me deixar com as pernas bambas e o coração batendo de forma errática durante o café da manhã... Simplesmente nada!
Colin está anormalmente quieto, e isso geralmente não é bom sinal.
Depois da cena que ele armou na cozinha na noite anterior, passei o resto da noite e boa parte da madrugada me preparando psicologicamente para o que poderia me aguardar no dia de hoje, e também preparando meus próprios meios de dar o troco. Colin estava muito enganado se saiu daquela cozinha ontem achando que, apenas por ter me deixado completamente balançada ontem, ia me fazer jogar tudo para o alto. Se ele é cabeça dura quando o assunto é perder, eu sou mil vezes mais, e minha mente atualmente está transbordando de ideias, as quais eu estou morrendo de vontade de colocar em prática, apenas para ver até onde iremos chegar com toda essa história.
Mas a falta de iniciativa dele hoje acabou me deixando com o pé atrás e me fez pensar duas vezes antes de soltar qualquer comentário de duplo sentido e provocativo que eu tivesse ensaiado para o café. A normalidade com que estamos nos relacionando hoje simplesmente não deixa brechas para transformar nenhuma das minhas ideias em realidade. Em alguns momentos, parece até errado querer perturbar essa paz que se instalou em um apartamento que vinha parecendo um covil habitado por duas pessoas sexualmente frustradas e com a tensão nas alturas durante os últimos dias. Não que a paz tenha realmente importado em algum momento, anteriormente. Só parecia que o clima não estava propício para toda aquela história completamente idiota de provocação que nós dois resolvemos aderir.
Porque a essa altura, eu tenho certeza de que eu não era a única jogando aqui. Pode não parecer, mas minha mente funciona de maneira eficiente. Se Colin entrou tão rápido no meu jogo, pouco tempo depois da ideia de Mariana surgir em minha vida, é porque alguém plantou uma ideia similar na cabeça dele.
E ninguém mais óbvio do que Kayden. Tenho que fazer uma nota mental para agradecê-lo, ou amaldiçoa-lo por isso mais tarde. Depende do rumo que as coisas tomarão.
Mas independente de Mariana, Kayden, possível plano de provocações e a sexta-feira misteriosa que se aproxima, o que realmente importa agora é que, por algum motivo, o dia de hoje parece diferente.
Respirei fundo e soltei o ar lentamente, observando a janela que eu observava nos últimos minutos embaçar quando minha respiração quente bateu na superfície fria. Estava um dia meio feio em Bristol, e apesar de não estar chovendo, e não existirem indícios de que água cairia tão cedo, o vento rigoroso que balançava minhas cortinas e entrava pela pequena fresta de janela que eu havia deixado aberta não era algo que me chamava para fora. E quando se está enfiada dentro de casa desde cedo, sem absolutamente nada para fazer, não existe desculpa: Chegou a hora de arrumar o quarto.
E é isso que eu estava fazendo desde que voltei do meu café da manhã estranhamente normal com Colin. Eu estava arrumando aquilo que eu chamava de quarto, mas mais parecia um cenário pós-desastre natural. Roupas de cama sujas estavam jogadas em um canto do quarto, com todas as outras peças do meu guarda roupas que precisavam ser lavadas. A última caixa de livros que eu havia trazido de Londres esperava em cima da minha escrivaninha para ser aberta e organizada no pequeno espaço da minha estante que ainda suportaria livros – e eu tinha certeza de que grande parte do conteúdo daquela caixa teria que ir para a estante da sala. E para completar, as roupas que haviam acabado de sair da secadora esperavam para serem passadas e guardadas. E antes da minha pausa para pensar na vida e encarar a bela vista do meu quarto, era isso o que eu estava fazendo: passando e guardando as mais variadas roupas. E era isso que eu ia voltar a fazer agora. Afinal, minhas roupas com certeza não iam serem passadas e guardadas por uma força sobrenatural que ficou com pena e resolveu me ajudar, não importa o tamanho da minha preguiça, muito menos o tamanho d meu ódio por passar roupa. São em momentos como esse que eu mais sinto falta de casa.
Peguei mais uma pilha de blusas dentro do cesto de roupas limpas que eu havia pegado naquela manhã e posicionei sobre a tábua cinza horrível que estava montada entre minha cama e meu guarda roupas, e tentei me concentrar na tarefa que eu desempenhava. Mas naquele momento, nem o pensamento motivacional de “quanto mais rápido você passa-las, mais rápido você termina” estava tirando a minha mente do assunto Colin.
Eu só não conseguia entender por que, um dia antes da tão falada sexta-feira, ele havia resolvido ficar na dele.
Me pergunto se, por algum motivo, ele cansou de toda essa ideia basicamente sem fundamento. Se ele, assim como eu, estava pensando em largar tudo, esquecer a sexta-feira, ignorar os conselhos péssimos de Mariana e Kayden – ou quem quer que conversasse com ele sobre isso, apesar de eu ter quase total certeza de que sim, é o Kayden – e fazer tudo do próprio jeito.
Passei o resto da minha incrível jornada de dar um trato no quarto perdida em ideias que consistiam basicamente em muitos “e se”. E por todo o tempo que passei no quarto, por mais estranho que pareça, meu colega de quarto não me incomodou uma vez sequer.
*
Depois de terminar de passar e guardar as roupas, resolvi que meus sapatos precisavam de limpeza. E depois de reorganizar todos os pares que eu possuo, juntar a roupa suja no cesto, esvaziar e desmontar a última caixa de livros e organizar tudo o que cabia em meu quarto, ainda coloquei uma roupa de cama nova, estiquei a colcha e tratei de tirar o pó do resto dos móveis do meu quarto. Resumindo, o lugar estava um brinco.
E eu estava exausta e cansada. E faminta, porque eu não tinha comido nada desde o café da manhã, e tinha ficado tão perdida em pensamentos envolvendo Colin, em conjunto com o meu faxinão, que esqueci de sair e procurar algo para comer. Para ajudar, meu companheiro de apartamento sempre atencioso simplesmente não deu sinais de que estava vivo, e não veio me chamar para almoçar, o que só me deixou mais encucada com todas as minhas suspeitas, e é claro, com mais fome.
Fiquei sentada na beirada da cama, olhando a parede branca e a porta de mesma cor em minha frente, enquanto ponderava minhas opções. Eu poderia ir tomar um banho e me livrar daquele suor horrível, colocar roupas limpas e cheirosas e depois ir até meu mais novo catálogo de lugares favoritos para pedir comida – ainda em desenvolvimento – e ver se algum dos restaurantes ainda estaria funcionando às duas da tarde, algo bem improvável, já que por ali a maioria parecia ficar aberto apenas até uma e meia, e depois reabrir para o jantar. Eu também tinha a opção de ir até a cozinha, fazer um almoço rápido, mas decente, e depois de lavar a louça suja e arrumar a cozinha, ir finalmente tomar banho. Ou eu ainda podia ir até o armário onde guardávamos os alimentos não saudáveis e repletos de sódio e ingredientes industrializados, pegar alguma coisa, e ir comendo enquanto ia para o banho.
Vou pegar um pote de Pringles e ir comendo enquanto vou para o banho.
Mal me levantei com a clara intenção de ir ao guarda roupas e pegar uma troca e uma toalha, quando ouvi batidas discretas, mas firmes, em minha porta. Tentei suprimir o sorriso, e também o sentimento de alívio que tomou conta de mim. Pode parecer besteira, mas eu realmente estava ficando preocupada com a falta de presença de Colin durante o dia, e a parte neurótica da minha mente já estava me levando por caminhos obscuros, onde eu começava a pensar que havia feito alguma coisa que o deixou puto, e ele resolveu me ignorar.
Tenho quase certeza de que essa opção está fora de questão, mas dado nosso histórico de relacionamento, é sempre bom não duvidar. Apesar disso, as batidas na porta confirmavam a minha teoria de que não, ele não estava puto comigo. E isso era bom.
Não tive nem tempo de me afastar do guarda-roupas e minha porta já havia sido aberta, revelando um Colin com cabelos grudados na testa – resultado do suor que tomava conta de aparentemente seu corpo todo – que tentava sem sucesso tampar os olhos.
– Como você não respondeu às minhas batidas, resolvi arriscar e entrar. Tá vestida, né? – Perguntou, e eu revirei os olhos, rindo e voltando a minha atenção para a tarefa que havia sido interrompida.
– To, Cols, pode entrar. E destampar os olhos. – Falei. No mesmo instante ouvi meu colchão ranger, indicando que ele havia acabado de se jogar em minha cama. Peguei o que precisava para o banho e fechei o guarda-roupas, virando-me para meu colega de quarto com uma expressão curiosa, enquanto caminhava até a cama para me juntar a ele.
– Vai me dizer onde passou grande parte do dia, ou isso é tipo algum segredo? – Perguntei, enquanto largava as coisas que tinha nas mãos em cima do criado-mudo e empurrava Colin para o lado, para ter um espaço para sentar. Ele se arrastou para o lado e me deu um sorrisinho convencido.
– É tipo um segredo... Mas é um segredo que você, senhorita, está autorizada a saber. – Falou. Arqueei as sobrancelhas.
– Devo me sentir especial? – Perguntei, e ele balançou vigorosamente a cabeça.
– Ah, sim, você deve se sentir extremamente especial. – Falou. – Ainda mais porque, bem, o segredo não é bem meu. Mas visto que grande parte do nosso esquadrão suicida já tá sabendo, é meio lógico compartilhar a situação com você.
Concordei com a cabeça e olhei-o com expectativa. Ele ficou me olhando sem dizer nada.
– Você não vai me contar? – Perguntei. Ele chacoalhou a cabeça, como se estivesse perdido em pensamentos.
– Sim. Desculpa, tava só pensando em qual seria a melhor maneira de começar o assunto sem te chocar. Como cheguei a conclusão de que não tem jeito de fazer isso, vou apenas começar pelo começo. – Falou. Eu sorri.
– Dizem que é sempre uma boa alternativa. Começar pelo final tende a deixar as coisas um pouco confusas. – Falei, e ele deu um risinho debochado, enquanto me mostrava a língua.
– Engraçadinha. – Falou, antes de respirar fundo e me encarar mais seriamente. – Ok, hoje, logo que eu acordei, recebi uma ligação de Miles. Eu imediatamente imaginei que alguma coisa estava errada porque sério, parece que ele não sabe que o celular tem como função principal realizar ligações. Ele simplesmente nunca liga pra ninguém. Então, quando ele me ligou, e durante os poucos segundos que conversou comigo, pediu pra eu encontrar ele no parque universitário porque ele precisava de uma corrida pra “clarear a mente”, eu sabia que alguma coisa estava bem errada com ele. Porque outra coisa que ele simplesmente não faz, é correr. A não ser quando ele tá nervoso, ou com alguma coisa grudada na cabeça.
“Assim que ele desligou, sem me deixar falar praticamente nada, eu pulei da cama, troquei de roupa, engoli uma xícara de café e saí. Eu queria ter te deixado um bilhete, ou coisa parecida, mas eu realmente fiquei preocupado. Não que eu achasse que ele tivesse sofrido um grave acidente, ou algo do tipo. Era óbvio que ele estava bem, porque se não estivesse, ele não teria me ligado e me pedido pra sair com ele pra correr. Mas o Miles é um cara fechado, e quando ele pede companhia pra clarear a mente, a situação tá séria. Quando eu cheguei no parque, ele já estava no meio de uma volta. Nós corremos por quase uma hora sem falar nada, até que paramos pra beber água e ele começou a me falar do que estava mexendo com a cabeça dele.”
Ele fez uma pausa e me olhou. Eu devia estar com cara de quem estava morrendo de curiosidade, porque ele deu um sorrisinho e continuou quieto, me encarando. Levei aquilo como um pedido de “me pergunte o que aconteceu em seguida, por favor”.
– E o que estava mexendo com a cabeça dele? – Perguntei, incapaz de me segurar, mesmo que a sessão “teimosia” do meu cérebro estivesse me pedindo para aceitar o desafio implícito no silêncio de Colin e esperar ele retomar a história por conta própria.
Ele me deu um sorriso satisfeito.
E então ele me contou tudo o que havia acontecido, e o clima no quarto mudou drasticamente. Conforme ele ia relatando os detalhes da conversa com o amigo, o sorriso brincalhão ia sumindo de seu rosto, e sua expressão, sendo substituída por uma de tristeza e preocupação. A minha não deveria estar diferente. Por um momento, deixei toda aquela história de provocações e da grande sexta-feira de lado. Miles estava passando por um momento difícil, e eu podia não conhece-lo há muito tempo, mas no período que passamos juntos, ele se tornou especial para mim, assim como cada um dos outros meninos, e eu sabia que nesse momento, ele era mais importante e precisava tanto da minha ajuda, quanto da do resto de seus amigos.
– Você ficou muito chocado? Quando ele contou que gosta do Drew? – Perguntei. Ele negou com a cabeça, encontrando meus olhos. Os seus refletiam um misto de sentimentos, mas eu tinha certeza de que choque, repugnância ou rejeição não estavam entre eles.
– Na verdade, não. Eu conheço Miles há tanto tempo... Não foi difícil juntas os pauzinhos quando ele começou a agir diferente. Eu e Kayden meio que já imaginávamos. Estávamos até falando sobre isso outro dia... Imaginando quanto tempo ia demorar pra ele admitir. Então não, eu não fiquei chocado. Mas fiquei triste. Não pelo que ele admitiu, longe disso... Fiquei triste, e mais do que triste, preocupado, por ver o jeito que ele ficou depois que me contou. – Ele falou, sem desviar os olhos dos meus, uma expressão de dor cruzando seu rosto. – Ele não teve coragem de me encarar depois que me contou, Hallie. Ele simplesmente se fechou depois que as palavras deixaram sua boca. Ele se afastou, se encolheu, como se estivesse com medo de que de uma hora pra outra a nossa amizade ia acabar e eu ia começar a destratar ele.
Peguei a mão dele que descansava ao meu lado na cama e coloquei-a em meu colo, entrelaçando nossos dedos.
– Não é nada com você, Cols. Ele só está assustado. Não deve ser fácil pra uma pessoa admitir uma coisa dessas. Você conhece a sociedade de hoje. Todos julgam muito, todos se metem onde não são chamados... Ele só está com medo de ser excluído. De sofrer, de perder os melhores amigos...
Ele concordou com a cabeça, passando seu olhar do meu rosto para as nossas mãos.
– Eu sei disso. Mas mesmo assim não consigo deixar de me preocupar. Eu sei que é uma coisa grande, esse lance de “sair do armário”. E eu sei que vai passar, que ele vai se aceitar. Mas mesmo assim, eu sei como o mundo funciona. Sei que nem todo mundo aceita coisas desse tipo. E eu vejo o Miles como um irmão. Tudo o que eu não quero é que ele sofra uma vez que ele admitir isso pra todo mundo. – Ele falou, e eu concordei. – É por isso que eu acho que precisamos todos dar o máximo de apoio pra ele agora. Eu já disse pra ele que as coisas entre eu, ele e os meninos não vai mudar. Eu também já falei que vou estar aqui pra conversar sempre que ele precisar, e que ele tem meu apoio infinito. E eu sei que ele acreditou. Mas quando ele foi embora ele estava tão pra baixo... Como se ele tivesse perdido o rumo. Como eu disse, eu sei que leva um tempo pra aceitar esse tipo de coisa, mas tudo o que eu não quero é que ele fique enfiado no quarto dele, se escondendo do mundo, com medo de ser rejeitado por mim, pelo Kayden, por você e pela Mari... E principalmente pelo Drew.
Concordei, sem saber bem o que dizer. Ficamos um tempo em silêncio, até que ele voltou a falar.
– Por isso vim falar com você. Eu sei que você sabe que eu não sou lento nem nada do tipo, e já notei o que vem acontecendo aqui em casa. O que vem acontecendo entre a gente. E por mais divertido que seja ficar te provocando toda hora, e ver você me provocando de volta... Eu acho que a gente devia deixar isso de lado. Pelo menos hoje à noite. Pelo Miles. Conhecendo o garoto, sei que ele vai querer se trancar no quarto a noite inteira, e eu acho que como amigos dele, precisamos demonstrar nosso apoio. Deixar claro que a gente tá aqui, pra ele, não importa a situação. A Mari e o Kayden já estão sabendo da história, e eles mesmos sugeriram que a gente saia hoje pra jantar. Todos nós, inclusive o Drew e o Miles. Mostrar que nada mudou, apesar do que chegou ao nosso conhecimento hoje. Amanhã a gente pode retomar a nossa rotina... – Ele falou, com um sorrisinho sapeca. – Mas hoje, acho que a gente deveria estar lá pro Miles.
Concordei, sorrindo. Até aquele momento, eu achei que era impossível eu me apaixonar mais pelo Colin. Achei que ele já tinha atingido seu limite de fofura, apenas por ser quem ele é comigo no dia a dia. Mas vê-lo agindo assim, todo preocupado com o amigo, querendo estar presente e ajudar... É simplesmente a coisa mais bonita e fofa que eu já presenciei no universo.
Durante todo o tempo que conheço Colin, nunca pensei que ele pudesse ser algo além daquele garoto insuportável que arrancava a cabeça das minhas barbies e passava tinta verde no meu cabelo enquanto eu dormia. E vê-lo assim, hoje, colocando as pessoas importantes para ele em primeiro lugar, e seus interesses em último... Só me fez ver o quanto eu estava errada sobre ele nos últimos anos.
Diante daquilo, seria um delírio meu pensar apenas em mim e querer continuar com as provocações, pelo menos naquele momento. Perto da situação com Miles, aquilo era um grãozinho de areia. E de qualquer maneira, amanhã já seria sexta-feira, e nós teríamos um dia inteiro para continuar com os nossos joguinhos, até descobrir exatamente o que Kayden e Mari estavam planejando. Sem falar que ele havia acabado de admitir que havia percebido, e que também estava jogando. Naquele momento, todas as minhas dúvidas foram sanadas, e eu tive certeza de que nosso relacionamento tinha mudado, tanto do meu lado quanto do dele. Afinal, ele não admitiria que também me provocava, se não estivesse sentindo nada, não é?
– Então combinado. Vou avisar o Kayden que nós vamos. – Ele falou, tirando o celular do bolso e digitando rapidamente. – Eu sei que você já estava toda pronta pra tomar banho e tal, mas vai ser muito abuso meu pedir pra ir primeiro? Eu realmente to começando a me sentir desconfortável com todo esse suor grudado no meu corpo. Fazia tempo que eu não corria tanto. – Falou, e talvez por estar preocupada com a situação Miles e repassando toda a nossa conversa na cabeça, ao mesmo tempo em que saltitava internamente de alegria por ter finalmente tido uma confirmação de que sim, senhoras e senhores, Colin McDanner estava interessado em ser mais que meu amigo, eu não protestei e apenas confirmei com a cabeça. Ele sorriu, enquanto guardava o celular de volta no bolso, e antes de se levantar e marchar para fora do quarto, levou minha mão – que ainda estava entrelaçada a sua – até sua boca e deu um beijo nela. Sorri com o ato, assistindo enquanto ele deixava meu quarto e fechava a porta.
Assim que escutei a porta do banheiro se fechando, e a água começando a correr, me levantei e comecei a literalmente saltitar pelo quarto.
Colin havia acabado de admitir que, sim, nós estávamos participando mutuamente dos joguinhos de provocação. Ok, isso estava óbvio. Mas vê-lo admitir uma coisa dessas desencadeou uma festa de borboletas no meu estômago. Uma coisa é tirar suas próprias conclusões, outra é ouvir da boca do seu crush que você também é o crush dele.
Peguei meu celular na velocidade da luz e liguei pra Mariana. Ela atendeu no segundo toque.
– Você já ficou sabendo do Miles? – Perguntou, antes que eu pudesse falar qualquer coisa.
– Siiiiim, fiquei. Tenho que admitir que fiquei chocada num primeiro momento, mas depois de ver toda a preocupação do Colin com ele, e com a situação em geral, fiquei apenas triste e com uma vontade imensa de pegar ele no colo e dizer que vai ficar tudo bem. – Eu disse, enquanto me jogava na minha cama novamente.
– Sei como é. Estou me sentindo assim também. – Ela disse, suspirando. – Vocês vão no nosso “jantar de apoio moral ao Miles”, não é? Não que a gente vá usar esse termo pra se referir ao jantar. Ele não precisa saber que estamos tentando animá-lo. Afinal, o intuito do jantar é mostrar pra ele que ta tudo normal. – Ela concluiu, e eu concordei com um murmúrio.
– Vamos sim. Só estou esperando o Colin terminar o banho pra poder começar a me arrumar. – Falei e suspirei. – Às vezes eu queria que esse apartamento tivesse mais de um banheiro. Ia salvar muito tempo.
Mari riu.
– Mas se tivesse mais de um banheiro, amiga, você não ia poder ter a satisfação de ver o Colin saindo de toalha, ou sem camisa, enquanto você espera do lado de fora pra poder tomar banho. – Ela disse, e dessa vez quem riu fui eu.
– Ah, isso acabou de me lembrar o motivo de eu ter ligado.
Eu consegui imaginá-la franzindo as sobrancelhas em sinal de confusão.
– Não foi pra falar sobre o Miles? Ou simplesmente pra falar sobre como você me ama e eu sou sua melhor amiga no universo? – Perguntou. Revirei os olhos.
– Pra falar do Miles... Ok foi um dos motivos. Pra dizer que eu te amo e que você é a minha melhor amiga no universo? Não, já te disse isso ontem de manhã. Liguei pra falar de uma coisa muito mais importante. – Falei, parando a frase ali pra deixar um ar de mistério.
– E você tá esperando o que, exatamente, pra me contar? Vamos, mulher, desembucha!
Ri, enquanto rolava na cama como uma adolescente boba e apaixonada.
– Colin finalmente admitiu que notou meus joguinhos de provocações e que está participando deles. Ou seja, admitiu que tá me querendo, em outras palavras. – Falei, sentindo uma vontade súbita de sair pulando pelo quarto novamente. Que patético.
– O QUÊ? – Mariana berrou no telefone. – Não acredito que essa desgraça de menino fez isso! E a sexta-feira? E a super hiper mega surpresa que eu e Kayden passamos a última semana preparando? Eu te pedi pra esperar, Hallie! – Ela falou, ao mesmo tempo em que tirava o celular do ouvido e berrava algo do tipo “o seu amigo cabeça de bagre acabou de melar todo o nosso plano Kayden. Agora não vai mais rolar o lance das baladas e dos goo goo boys. Vamos ter que reformular” e eu tive que fazer força pra não gargalhar. – Eu vou MATAR o Colin. Sério mesmo.
– Isso foi você admitindo que você e o Kayden tinham tudo armado? E que história é essa de goo goo boys? – Perguntei, sorrindo feito boba.
– Ignore tudo o que você ouviu. A grande sexta-feira ainda vai acontecer, eu só vou precisar reformular tudo. Conhecendo você e o Colin, a minha linha de “vamos fazer ciúmes um no outro” não vai funcionar, agora que ele já fez a sua alegria e admitiu que te quer. Vou ter que ir pra uma linha mais comportada de acontecimento... Mas isso não importa. O que realmente importa é que eu quero bater nele. – Ela falou, e eu fui obrigada a rir.
– Ai Mari, não fica brava com ele! Juro que foi por uma boa causa. Além do mais, eu já estava ficando sem ideias pra provocação. Eu literalmente já fiz de tudo... E creio que ele também. – Falei, e antes que ela falasse “besteira, tem muita coisa pra se fazer ainda”, expliquei exatamente porque Colin tinha me contado, e porque tínhamos decidido deixar o nosso jogo de lado pelo menos por hoje – e talvez permanentemente, pois por algum motivo, eu sentia que as coisas estavam prestes a mudar sem a necessidade das nossas constantes provocações. Por mais que elas fossem divertidas, eu realmente queria dar o “próximo passo” logo. Eu simplesmente não aguentava mais. E agora sabia que ele também não.
– Eu consigo ouvir toda a sua melosidade e paixão pelo telefone. Devo dizer que estou ficando enjoada. – Ela falou, assim que terminei de explicar a situação e comecei a balbuciar sobre como o Colin se tornava cada dia mais perfeito, e eu realmente estava apaixonada, e não tinha mais volta, e aquele monte de blá, blá, blá. – Por isso, vou tomar a liberdade de desligar o telefone antes que eu vomite, e vou começar a me arrumar. Te vejo em algumas horas. E por favor, nada de agarrar o garoto, ou deixar ele te agarrar. Vocês podem ter acabado de admitir algo importante um para o outro, mas eu ainda tenho uma sexta-feira planejada – ou pelo menos tinha – e os critérios iniciais permanecem. Partir pra ação, só a partir de amanhã. Ordens dos Cupidos.
– Sim, senhora! – Falei, batendo continência, mesmo sabendo que ela não podia ver. Ela se despediu brevemente e logo a linha havia ficado muda. Coloquei o celular de volta no criado ao mesmo tempo que ouvia o chuveiro desligar. Respirei fundo e fiz uma força sobrenatural para esconder meu sorriso idiota, enquanto pegava a toalha e a troca de roupas antes de sair do quarto.
Eu havia acabado de pisar fora do quarto quando ouvi a porta do banheiro abrir. Virei-me, caminhando diretamente para o banheiro tentando ajeitar o monte de coisas que eu carregava nas mãos. Sem olhar por onde andava, dei de cara com um objeto duro, mas ao mesmo tempo macio. Molhado, com cheiro de lavanda. E que respirava. Subi vagarosamente meu olhar, até dar de cara com um Colin ainda molhado, com os cabelos escorrendo e grudados na testa, os olhos mais azuis do que eu já havia visto em toda a minha vida e com apenas uma toalha enrolada na cintura.
Apenas. Uma. Toalha. Enrolada. Na. Cintura.
Senti o ar ficar preso nos meus pulmões, enquanto arregalava os olhos e ficava lá, parada, praticamente colada a um cara quase inteiramente nu, que olhava pra mim e sorria de forma safada. Tento me mexer, mas parece que minhas pernas viraram gelatina, e tenho a sensação de que se eu me mexer, vou cair. Sem falar que estou tão colada a ele, que qualquer movimento brusco pode resultar em uma toalha sendo jogada no chão, sem intenção.
Jesus Cristo, e se essa toalha cair?
Impressão minha ou de repente a temperatura aumentou?
Ficamos nos encarando por alguns segundos. Ele, sorrindo para mim como quem sabe exatamente a reação que está desencadeando tanto em meu corpo quanto em minha mente. Eu, olhando-o de cima a baixo, ainda sem saber se me mexo e derrubo a toalha, ou se fico ali, perigosamente perto, sentindo o cheiro de sabonete misturado a seu perfume natural, e vendo as gotas que caem do seu cabelo escorrendo de forma torturante e vagarosa por seu peitoral extremamente bem esculpido.
Por um momento me sinto completamente tentada a dar um passo para trás e rezar com todas as minhas forças para que aquela toalha caia.
– Sabe, acho que se você tirar uma foto, dura mais. – Ele diz, quebrando o silêncio quase constrangedor que havia se instalado e me trazendo de volta para a realidade. Tento, em vão, me convencer de que não, eu não estou corando.
– Achei que você tinha dito que a gente ia dar um tempo... Sabe, nessa onda de provocação? – Falei, me concentrando ao máximo em não largar minhas coisas ali no chão mesmo e arrancar aquela toalha eu mesma, enquanto o empurrava contra a parede mais próxima e finalmente, finalmente colava os meus lábios com o dele. A única coisa que me impedia de tal ato obsceno no momento era a honra que eu estava comprometida a ter com o último pedido de Mariana, visto que eu e Colin meio que havíamos estragado todo o plano mirabolante dela e do Kayden ao admitir nossas provocações.
Ele continuou sorrindo, enquanto erguia uma das mãos e passava pelo meu rosto de modo lento, traçando uma linha desde a minha bochecha até meu pescoço. O gesto, somado a sua pele quente por conta do banho recém tomado entrando em contato com minha pele fria, me fizeram estremecer, e por um momento achei que o gemido que eu vinha segurando ia sair de forma vergonhosamente alta, ali no meio do corredor.
Quem diria que depois de admitir as coisas ele ia ficar mais ousado, hm?
– E a gente tá dando um tempo. Juro que não saí assim do banheiro de propósito. Eu só fiquei tão afoito por um banho depois da nossa conversa intensa e reveladora, que eu nem passei no quarto pra pegar roupa. Dei sorte de ter esquecido minha toalha no banheiro ontem, se não nem com isso eu estaria. – Ele falou, balançando a toalha com a mão livre e soltando um risinho.
Um gemido baixo acabou escapando dos meus lábios diante da visão completamente provocadora que era ter um Colin praticamente nu na minha frente, brincando com a toalha de modo tão ousado, dando a entender que sim, ele ia deixa-la cair.
– Estou certa de que, no momento, eu ia preferir a segunda opção. – Falei, baixo, mas sem desviar os olhos dos dele. Foi a vez dele de soltar um som baixo, porem bem sugestivo, do fundo da garganta.
Sorri. Afinal, ele não era o único que podia brincar aqui.
– Eu estou realmente adorando toda a situação aqui e tal, mas eu preciso tomar banho. E você precisa colocar uma roupa, agora. Fiz uma promessa pra Mariana, e essa eu não pretendo quebrar. – Falei, relutante, enquanto me afastava dele. Ele suspirou, mas concordou, enquanto segurava a toalha bem no nó para que ela não caísse. Fiquei dividida entre me sentir decepcionada e aliviada por ela ter continuado no lugar. Deus sabe o que eu ia fazer se ela tivesse simplesmente... Escorregado.
– Isso, boa ideia. Não queremos nos atrasar, não é? – Ele falou, enquanto nos cruzávamos no corredor, e ele caminhava em direção ao quarto. – Afinal, a noite hoje é sobre o Miles. E essa cena no corredor nem devia ter acontecido, porque nós tínhamos um combinado.
Revirei os olhos, ainda sorrindo, enquanto caminhava até o banheiro.
– Foi você quem resolveu aparecer de toalha no corredor, querido. – Falei, enquanto entrava no banheiro.
Enquanto fechava a porta, pude ouvi-lo dizer, com um tom malicioso na voz.
– Fazer o que, se eu não consigo resistir a ver você toda vermelhinha, todas as vezes que eu te provoco?
Tranquei a porta sem responder, porque eu realmente não vi a necessidade. Encostei-me na porta, encarando meu reflexo no espelho. Um sorriso grande, as bochechas completamente vermelhas.
Acho que nunca fiquei tão feliz em toda a minha vida.
*
Por um milagre divino, consegui tomar banho, passar maquiagem e arrumar o cabelo sem ficar parando a todo momento para repassar o acontecimento do corredor. Ao mesmo tempo que eu me sentia completamente constrangida pelos pensamentos impuros que tive envolvendo Colin e sua toalha, também me sentia completamente alegre ao ver que uma simples frase minha tinha efeito similar nele.
Coloquei a roupa simples que tinha levado até o banheiro – quando separei, não sabia que iríamos sair – apenas para voltar para o quarto e escolher algo mais decente. Por mais tentador que me parecesse andar apenas com a toalha extremamente curta que eu usava para me secar no banho, na esperança de trombar com Colin novamente no corredor, eu sabia que se isso acontecesse, nenhum de nós ia conseguir se segurar. E eu realmente não queria enfrentar a ira da Mariana por chegar atrasada no restaurante e ainda por cima tendo como motivo a quebra da minha mais recente promessa para ela.
O dia estava milagrosamente mais quente. Não quente do tipo “vamos colocar um vestido”, mas quente do tipo que me permitia colocar uma blusa mais leve e levar um casaco nas mãos, caso esfriasse mais.
Coloquei uma calça jeans clara, rasgada nos joelhos, bem colada. A blusa tinha mangas que iam até meus cotovelos e tinha um decote em V bonito na frente, mas não chegava a ser vulgar ou extremamente chamativo. Escolhi meu scarpin preto favorito e finalizei o look com uma jaqueta de couro azul bic, sentindo-me extremamente satisfeita com o que havia arrumado em menos de cinco minutos.
Peguei um lenço branco para colocar no pescoço, escolhi uma bolsa pequena apenas para guardar carteira, celular e maquiagem para retoque, e depois de passar um perfume e ajeitar o cabelo mais uma vez, saí do quarto.
Já que a porta de Colin estava aberta, e o quarto escuro, tive certeza de que ele já estava na sala me esperando. Chequei o relógio apenas para ter certeza de que eu não estava absurdamente atrasada, e me surpreendi ao ver que estávamos ambos adiantados, um acontecimento inédito.
Cheguei na sala e dei de cara com o meu colega de quarto esparramado no sofá, concentrado em qualquer joguinho do seu celular. Fiquei encostada na parede que findava o corredor, apenas observando-o e esperando que ele me notasse. Bons cinco minutos se passaram até que ele aparentemente perdeu no joguinho e bloqueou o celular, finalmente se levantando, como se estivesse pronto para ir me chamar, e dando de cara comigo.
– Pronto? – Perguntei, enquanto me desencostava da parede e caminhava em direção a ele. Ele continuou em silêncio, enquanto me encarava de cima a baixo, os olhos brilhando.
– Você vai vestida assim? – Perguntou, com uma voz absurdamente rouca que eu tenho certeza de que fez meu ovário explodir.
Demorei alguns segundos para responder a pergunta, analisando o meu look todo de novo, tentando descobrir o que poderia estar errado.
– Vou sim. Por que, tá feio? Seja sincero, eu posso trocar de roupa voando se estiver esquisito. – Falei, e ele negou com a cabeça, um sorrisinho torto surgindo em seu rosto.
– Não, não. Tá perfeito assim. É só que... Essa sua blusa sempre foi tão decotada? E esse jeans... Jesus Hallie. Você tá tentando me matar? – Perguntou. Foi minha vez de rir com malícia.
Apesar de não ter me vestido pensando em chamar a atenção dele, é bom saber que consegui, de qualquer maneira.
– Pode ser que essa fosse a intenção sim... Mas certeza absoluta, você nunca vai ter. – Falei, dando uma piscadela. – Agora vamos, não quero chegar atrasada. Essa noite é sobre o Miles e nós estamos falhando miseravelmente em deixar nossos assuntos de lado e nos dedicar a ele.
Colin concordou, ainda meio perdido enquanto me olhava de cima a baixo, e vendo que ele não ia se mexer tão cedo se eu continuasse ali olhando para ele, ajeitei a bolsa no braço esquerdo e comecei a andar em direção à porta, pegando a chave e destrancando a mesma.
Se eu mexi os quadris um pouco demais enquanto caminhávamos até o elevador, e depois até a garagem, com certeza não foi com a intenção de provocar Colin. E o meu sorriso obviamente não foi de satisfação ao ouvi-lo murmurar, com a respiração falha, que eu ainda seria a ruína dele.
*
Assim que chegamos ao restaurante, levei uma bronca básica da Mariana. Não apenas eu, mas Colin também. Kayden até tentou parecer decepcionado com o amigo, por ele ter estragado todo o plano, mas no final das contas acabou sorrindo e disse que já estava na hora. Até Mariana acabou se rendendo e admitindo que até ela já estava ficando cansada da tensão que pairava no ar toda vez que eu e Colin estávamos no mesmo ambiente. Decidi manter para mim o pensamento de que provavelmente, as coisas só piorariam dali em diante, dadas as novas circunstâncias do nosso... Rolo, ou o que quer que fosse.
Miles e Drew chegaram pouco tempo depois, e se eu não soubesse do que havia acontecido hoje mais cedo, diria que estava tudo as mil maravilhas, e que Miles estava feliz e saltitante como sempre. Mas quem quer que olhasse bem para o rosto dele conseguia ver a apreensão, o medo de não ser aceito, de ser rejeitado pelos próprios amigos.
Decidi naquele momento deixar tudo o que havia acontecido entre eu e Colin nas últimas horas guardado em uma pequena caixinha, que eu abriria apenas quando chegasse em casa, e me dedicar totalmente a um amigo que claramente estava precisando.
Enquanto ele ia atrás da atendente para nos arrumar mesas no restaurante mexicano mais badalado do perímetro universitário, e Drew sumia por um instante para atender uma ligação de sua mãe, Mariana não perdeu tempo e deixou claro para mim e para os meninos que uma vez que Miles se sentisse completamente seguro com quem ele é, e estivesse certo de nosso apoio, nós íamos começar uma operação cupido com ele e com Drew. Apesar de eu ainda ter minhas dúvidas sobre o fato dele vir ou não a corresponder os sentimentos do Miles, os meninos nos asseguraram que não existiam dúvidas nesse quesito. Drew já se sentia da mesma maneira há muito tempo, só precisava de um empurrãozinho para perceber com clareza. E é claro, Mariana, com o seu complexo de conselheira amorosa, resolveu que nós iríamos ajudar ambos nesse processo. Não posso dizer que me oponho à ideia. Algo sobre imaginá-los juntos parece simplesmente sensacional. Posso ter descoberto sobre a situação há pouco tempo, mas já apoio o casal. Eles combinam, e agora fica difícil imaginá-los como apenas amigos.
Passamos grande parte da noite rindo e conversando como sempre fizemos. Ninguém olha para Miles de maneira diferente, ou faz algum comentário que remeta ao acontecimento do dia. Consigo ver no rosto dele que ele sabe que Colin me contou, e que Kayden contou à Mari, mas também consigo ver o alívio em seu rosto por ver que, apesar dos apesares, toda a interação da noite não está sendo forçada, ou planejada para fazê-lo se sentir melhor. Tudo está sendo como sempre foi. Tudo vem fluindo naturalmente.
Em um momento, enquanto os outros meninos compartilham histórias do seu primeiro ano de faculdade e riem de como eram inocentes e inexperientes, Miles se levanta, dizendo que precisa atender o celular. O que é claramente uma desculpa, já que eu ouvi ele reclamando baixinho sobre ter ficado sem bateria há alguns minutos atrás.
Colin seguiu o amigo com o olhar enquanto ele ia para o jardim de inverno atrás do restaurante. Trocando um olhar com ele, indiquei que ia ver como Miles estava, e ele agradeceu apertando minha mão por baixo da mesa. Avisei aos outros que ia ao banheiro rapidamente, e eles estavam tão perdidos em sua conversa que nem notaram quando fui para o lado oposto ao do toalete.
Atravessando a porta, coloquei o casaco, pois a temperatura tinha caído rapidamente desde que havíamos chegado ali, e o jardim era bem aberto, com uma ventilação bem generosa. Miles estava de pé no deck principal, os braços apoiados no corrimão de madeira, os olhos na lua, embora eu soubesse que seu pensamento estava longe.
Aproximei-me de vagar, colocando as mãos no bolso da calça, e parei ao seu lado. Fiquei apenas observando a lua, que estava cheia e brilhante. Sem falar nada, dei a ele o tempo que precisava, sabendo que quando se sentisse confortável, iria falar comigo.
– Você acha que as coisas vão ser diferentes agora? – Ele perguntou, virando-se para mim. A apreensão estava de volta em seu olhar, embora o medo e o receio tenham sumido completamente. Sorri serenamente, passando toda a positividade que eu conseguia com o meu olhar.
– Por que seriam? – Perguntei. Ele balançou a cabeça, parecendo meio perdido, sem saber bem o que dizer.
– Não sei... Eu tenho essa sensação de que, por algum motivo, as coisas vão mudar. Que vocês podem estar aqui agora, dizendo que está tudo bem, mas que no minuto seguinte vão se afastar. Que toda essa história vai acabar chegando no ouvido do Drew uma hora ou outra e eu vou acabar perdendo o cara que, acima de tudo, é meu melhor amigo. – Ele voltou a me olhar, parecendo um pouco mais aliviado após vocalizar seus medos. – Eu só quero que tudo continue sendo como sempre foi.
Me aproximei um pouco mais e pegando seus braços, virei-o de frente para mim. Olhei bem nos olhos dele, sabendo que ele precisava, acima de tudo, sentir a sinceridade das minhas palavras.
– Nada vai mudar, Miles. Sabe por quê? – Perguntei, e ele negou com a cabeça. – Porque, apesar de tudo, você ainda é o mesmo. Você continua sendo aquele Miles alegre, sincero e simpático que me acolheu como se eu fosse sua própria família quando eu cheguei aqui. Você continua sendo aquele garoto que passou por todos aqueles bocados que acabaram virando histórias marcantes com os três patetas lá dentro que você escolheu pra serem seus amigos durante um dos períodos mais emocionantes e complicados da vida de qualquer jovem. Porque quando eu, o Kayden, o Colin, olhamos pra você, vemos apenas nosso amigo Miles. Não o Miles que descobriu gostar do Drew, mas o Miles que se tornou um dos meus melhores amigos em pouco tempo. Sei que nós não passamos tanto tempo juntos quanto eu passo com o Kayden, ou com a Mari, mas você tem um lugar super especial no meu coração, e nada que você tenha descoberto sobre você mesmo vai tirar de mim esse sentimento. Não importa de quem você gosta ou não, se você está nos padrões da sociedade ou não. Cada um tem o direito de gostar de quem quiser, e eu e o resto do nosso “esquadrão suicida” vamos continuar amando você do jeitinho que você é, independente de qualquer coisa. – Vi um pequeno sorriso aliviado surgir em seu rosto, e pode ter sido impressão minha, mas seus olhos estavam um pouquinho molhados. Desci minha mão para a sua e dei um aperto que apenas confirmava tudo aquilo que eu havia dito. – E é por isso que eu tenho certeza de que absolutamente nada vai mudar entre a gente. Não estou dizendo que vai ser fácil por aí, mundo a fora, porque ambos sabemos que não é. Mas quaisquer que sejam as situações que você venha a enfrentar, quero que você saiba que a gente nunca vai te abandonar, ou te desprezar. Vamos estar aqui sempre que precisar. Não falo apenas por mim, mas também por toda a galera lá dentro. Nós te amamos, e nada vai mudar isso.
Puxei-o para um abraço, que ele retribuiu instantaneamente, me apertando contra ele de uma forma que expressava toda a gratidão e alívio que ele estava sentindo diante das minhas palavras.
– E quanto ao Drew... Não se preocupa. Sei que vocês vão chegar lá. E nós também vamos estar aqui pra te ajudar nessa jornada. Afinal, não se deixa um cara como o Drew, que se importa com você mais do que com qualquer coisa no mundo, passar, não é? Além do mais, vocês dois juntos seriam uma gracinha. Já consigo até imaginar o casamento. – Eu disse, quebrando o clima um pouco emocional demais, e finalmente fazendo-o rir.
– É bom saber que tenho pessoas como vocês na minha vida. Sei que não vai ser fácil, que eu tenho um longo caminho pela frente e que muita gente vai tentar me dizer que sou errado, mas eu já dei o primeiro passo. E saber que vocês estão comigo desde o início, ter a certeza de que vou sempre poder contar com vocês daqui pra frente... Não sei nem como expressar minha gratidão. – Ele falou, se soltando do abraço e enxugando o rosto. – E obrigada pelas palavras legais sobre o Drew e eu. Espero que você esteja certa.
– Eu sempre estou certa. – Falei, e ele riu de novo. – E se estou dizendo que nós vamos fisgar seu boy magia, é porque nós vamos. Vai ser um esforço coletivo. Agora chega de carga emocional, vamos lá pra dentro que nós estamos pagando um rodízio de comida mexicana, e eu quero comer até meu estômago explodir.
Ele passou o braço em meu ombro, enquanto eu passava o meu por sua cintura, e nós começamos a caminhar de volta para o restaurante.
– Que bom que não moro com você. Não quero nem ver a reação química que todos os burritos que você comer hoje vão te causar durante a madrugada. Pobre Colin. – Ele falou rindo, e eu, indignada, dei um tapa em seu braço, mas não pude deixar de rir. – Falando em Colin, ele também é um boy magia e tanto. Você já reparou no jeito que ele olha pra você? Sinto informar, mas você não é a única que consegue ver um casamento aqui. Faço das suas palavras as minhas, e digo que um esforço coletivo já está em andamento pra juntar vocês dois.
– Ah, é? – Digo, sorrindo, enquanto nos aproximamos da mesa.
– É. Já temos nome do ship e tudo mais. – Falou ele, e nós dois rimos.
Tomamos nossos lugares novamente na mesa, e o clima fica mais leve e feliz. Colin me olha com um sorriso tão bonito e sincero que sinto minhas pernas ficarem bambas e o meu coração batendo um pouco descompassado.
Podemos não ter praticado a nossa arte da provocação hoje, mas não posso dizer que me decepcionei. Esse foi um dos dias mais bonitos que tive desde que cheguei a Bristol. É um daqueles que eu sempre vou desejar poder imprimir e guardar em uma caixa de lembranças especiais, onde eu posso olhar sempre que sentir saudades.
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