Beautiful Curse
8 VII - Os olhos de um Delator.
Notas iniciais
Internato Católico para Damas, Los Angeles, Estados Unidos da América,
Cinco de Setembro de 2005,
10:31 A.M.
O sol brilhava naquele dia, iluminando todo o internato e trazendo um ar mais harmonioso.
Uma menina abriu a porta traseira do carro com dificuldade. Tinha algumas sardas no nariz fino e a pele pálida provavelmente deveria ser a única coisa em todo o internato que não era iluminada pelo o sol. Sua mãe, Sra. Lopez, tinha um crucifixo em seu pescoço e tentava forçar uma expressão feliz. A mulher só queria acalmar sua filha, mostrando que aquele lugar poderia ser ótimo. Ela saiu do carro, entrando com a menina no colégio interno. Levava uma mala pequena, onde estava as roupas da criança e algumas bonecas.
Outras jovens chegavam no internato com seus pais. Suas idades variavam. Iam desde novatas de sete anos de idade até veteranas de dezessete, preparadas para o último ano de estudo. A grande maioria eram ricas, e as diferenças físicas de grande parte delas não era tão grande. Quase todas possuíam uma pele clara, cabelos longos, crucifixo em seus pescoços e pareciam serem boas garotas. Havia exceções, umas com piercings, outras com olhares tristes e umas que deveriam ser umas vagabundas adolescentes. Eram apenas uma má influência e estavam ali para serem consertadas e por fim, salvas.
O Internato Católico para Damas foi feito para unir meninas diferentes de todo o Estado — ou país — apenas com a mesma fé em comum. Era a coisa principal que fazia o Internato Católico para Damas reunir tantas garotas em uma escola só: todas iriam se unir pelo o aprendizado da sua única e verdadeira crença.
Para Andrea Lopez, aquela teoria era linda.
Quando entrou pelos os portões, ela não pode negar que o local era lindo. Nas paredes, ilustrações da Virgem Maria, Jesus e outros santos. Um chafariz de águas cristalinas e algumas árvores estavam ao lado da passagem para a entrada do internato.
Agora que havia se convertido para o catolicismo, precisava salvar a sua filha dos pecados. Alyssa tinha apenas sete anos de idade e já estava perdida. Toda a vez que olhava para a face da menina, Andrea Lopez via o inferno. Era como se tudo voltasse de novo. Como se ele voltasse de novo, sussurrando em sua orelha e fazendo o seu coração bater mais rápido de medo e encanto por ele.
— Sra. Lopez. — a diretora Elsa Stevens, uma mulher de olhos azuis controladores, na faixa dos quarenta anos. Seu sotaque alemão era fraco, porém não invisível. — Vejo que não desistiu e trouxe a sua filha.
Andrea deu um sorriso amigável a diretora.
— Eu preciso ficar no caminho, Sra. Stevens. Não posso desistir da minha nova fé. E guiarei a minha filha se for possível.
— Lindo de se ouvir isso. — comentou a diretora. — Você se chama Alyssa Wolff, certo? — perguntou a menina.
Alyssa assentiu, repreensiva com o internato.
— Irmã Lea! — chamou uma das freiras. — Leve agora essa menina e as outras novatas do segundo ano para seus respectivos dormitórios.
Uma freira jovem, alta e um pouco acima do peso andou em direção da Sra. Stevens, e parecia ser a única pessoa realmente amigável ali. Andrea ainda se sentia insegura de deixar sua filha naquele lugar, mas aos poucos a sua insegurança diminuía — mas nunca ia embora. Pensou mil vezes em mandar Elsa Stevens se ferrar, e desistir de tudo aquilo, mas ela não iria se render a ele. Não novamente. Precisava seguir em frente e finalmente conseguir a redenção pelo o que fez.
Tudo que Andrea Lopez queria era um perdão.
— Venha comigo, querida. — disse a freira amigavelmente a Alyssa.
— Não! — a garota se negava, começando a choramingar. — Mamãe, me tira daqui! — a garota chorava sendo levada pela a freira. — Eu não quero ficar aqui! Eu quero ir pra casa!
Por mais que fosse quase impossível de ignorar, Sra. Lopez conseguiu.
Logo a freira levou a menina.
— Como você está forte, Sra. Lopez! — a diretora afirmou. — É assim que se lida com o diabo quando ele tenta te fazer ceder por alguma coisa que ele quer.
— Ás vezes é difícil acreditar que ela é o diabo, Sra. Stevens. — confessou a mulher, com a voz soando triste.
— Pelo o que me contou — a diretoria dizia —, o que você fez na sua lua de mel na Escócia foi algo errado. E essa menina foi um grande erro. A melhor coisa que pode fazer é ver se ela ainda tem alguma parte mortal nesse corpo e alma e demônio e fazer essa parte se redimir.
— E como sabe tanto? — perguntou Andrea, curiosa.
— Digamos que eu conheço bem isso. — disse sombriamente.
Quando Alyssa chegou no seu dormitório, a menina já havia parado de chorar.
Não passou mais de vinte minutos naquele local e já era a coisa que mais detestava em todo o mundo. Odiava as freiras, a diretora e até as outras alunas que viu. Queria estar com a sua mãe, voltar a sua escola antiga e ficar o mais longe possível do internato. Seu lugar não era ali.
Tinha duas camas de solteiro no dormitório, cada uma encostada em uma parede branca e estranhamente dava uma impressão de vão ao quarto. O calendário de 2005 com a imagem de Jesus era duas vezes maior que a única janela do quarto — que tinha grades, que para Alyssa, estragava a bela vista que proporcionava. A garota teve que se segurar para não chorar novamente. Aquele lugar era terrível.
Uma outra garota estava sentada na cama da esquerda, com duas malas na sua frente e em mãos um livro do Harry Potter — Alyssa só assistiu os três filmes lançados. Os cabelos longos e lisos da menina eram em tom de castanho-claro, e pareciam ser dourados com a luz do sol batendo nela. Por mais que estivesse sentada na cama, ainda parecia ser bem mais alta que Alyssa, porém bem mais magra. Talvez fosse um ou dois anos mais velha que a novata, mas ela não tinha muita certeza disso.
Quando entrou no quarto com a sua mala, a loira percebeu sua presença.
— Olá. — disse fechando o livro e deixando em cima da sua cama. Levantou-se e olhou para a novata na sua frente. — Meu nome é Charlotte, e o seu?
— Alyssa. — respondeu timidamente.
[...]
San Francisco, Estados Unidos da América,
Quinze de Janeiro de 2015,
9:54 P.M.
Os ventos estavam fortes.
Connor estacionou o carro, saindo dele e rapidamente olhando para o céu, como se a natureza estivesse errada. Já estávamos em San Francisco e eu não fazia a mínima ideia do que iria acontecer depois. Connor era um assassino frio que matou o próprio irmão — que também era um assassino frio — sem sentir culpa alguma, e por causa de uma tatuagem Jasper confiava nele.
Tudo o que eu queria era que Lilith aparecesse logo e terminasse com isso.
— Tem algo estranho no céu! — Connor gritou, como se não pudesse falar normalmente.
Connor tinha a cabeça quase raspada, então seu cabelo não voava na ventania — totalmente diferente das suas roupas. Era algo forte e fora do comum. Um furacão talvez. A única janela do carro aberta era a esquerda do banco de trás, que na verdade só era uma brechinha aberta. Essa única brecha já mostrava uma pequena quantidade do caos que estava lá fora.
— Fique ai. — Jasper ia abrindo a porta.
— Por que eu deveria ficar aqui? — indaguei irritada. — Está me subestimando?
— Pode ser Lilith lá fora. — o ruivo disse vagamente, saindo do carro e fechando a porta.
Assim que saiu do carro, e mesmo que o enviado do Protetor usasse uma touca cinza com poucos cachos ruivos, ainda fazia o seu cabelo voar até demais. A ventania pareceu ficar mais forte, e a sua touca cinza voou para longe. Jasper tentou correr para pegá-la mas logo mudou de ideia olhando para o céu. Sua expressão mudou de repente, como se algo estivesse lá em cima.
Então eu saí do carro.
Meus cabelos se bagunçaram totalmente e daria um trabalho maior depois para penteá-los, mas eu não me importei. Olhei para o céu, e por mais que esperasse algum sinal de um furação ou até quem sabe uma nave alienígena, mas era algo mil vezes pior.
— Volte para o carro! — Jasper gritou para mim. — Você está louca, Alyssa?
— O que é isso? — gritei de volta para ele.
— Volte para o carro! — repetiu.
Connor correu em direção do veículo e rapidamente entrou nele, e não demorou alguns segundos para que Jasper me jogasse dentro do carro e logo entrasse, fechando a porta rapidamente. Eu não tinha muita certeza se ele sentia pânico ou medo — quem sabe essas duas coisas fossem quase iguais. Só sabia que eu sentia a mesma coisa.
Meu coração batia tão rapidamente de medo que eu mal conseguia entender o que estava lá fora.
— Por que você me empurrou? — perguntei irritada.
Connor ligou o motor, aumentando a velocidade e dirigindo.
— Você é louca? — ele perguntou quase gritando. — Quando vai aceitar que todos estão à procura de você e que eles não pensariam duas vezes em te entregar para Lilith?
— Eu não sou frágil, Jasper. — retruquei aumentando o tom de voz.
— Você nem sabe dos seus poderes, então sim, você é frágil e precisa aceitar isso! — ele gritava, mais bravo que eu.
— Eu mal te conheço, por que iria seguir tudo o que você fala? — gritei.
— Porque eu fui enviado para que você não seja morta, Alyssa! — os olhos de Jasper estavam irados. — Eu sou mais treinado que você e o meu dever é te fazer passar dos dezoito anos viva.
— Você teve sorte de nascer livre e se meteu no meio de tudo isso. Por Deus, Jasper, você não tem direito nenhum de dar ordens! — meu sangue fervia. — Sempre me esconde as coisas e depois quer que eu siga tudo que você mand-
— Parem de gritar! — Connor me interrompeu, também irritado. — Resolvam os seus problemas estúpidos depois, caralho. — xingou por final.
Depois disso, Jasper nem olhou na minha cara.
O ruivo virou a cara e olhava para a janela, e de algum modo, eu sentia como se tivesse falado algo muito errado. Como se eu tocasse em uma ferida que nem sabia que ele possuía.
Connor dirigia rapidamente, como se estivesse fugindo de algo — até porque nós estávamos. A ventania não era apenas um fenômeno natural. Era algo sobrenatural. Algo que nem se um grupo de cientistas mais influentes da atualidade conseguiriam explicar. Aqueles olhos vermelhos... Fixos em mim, como se quisessem me avisar algo. A lua cheia era a única coisa que brilhava e eu juro por tudo que é sagrado que eu vi corvos. Muitos corvos. Era como se todos os corvos existentes resolvessem estar em um mesmo lugar.
Todos eles tinham aqueles malditos olhos vermelhos, como se estivessem me vigiando, avisando algo e me julgando ao mesmo tempo. Era assustador. Surreal.
Isso pode soar narcisista, mas eles pareciam estarem apenas me observando — não Jasper ou Connor.
Ficamos vinte minutos na estrada. Vinte minutos em puro silêncio que eu me consumia secretamente em milhões e milhões de perguntas que não seriam respondidas tão cedo — ou talvez nunca. Eu não tinha muita certeza se as coisas continuariam desse jeito ou se a tendência era piorar a cada dia que passava. Como Jasper disse antes — ou gritou —, sua missão era me deixar viva até os dezoito anos. Bem, falta quase um ano para para o meu próximo e tão agudado aniversário.
E eu o temo mais do que deveria temer.
Connor estacionou o carro, e onde estávamos a ventania já havia parado. O Windsor abriu a porta e saiu do veículo, parecendo um pouco mais calmo que que estava minutos atrás, quando gritou para que Jasper e eu parássemos de discutir. Percebi que estávamos em um bairro nobre, e cada casa ali parecia mais como se fosse uma mansão. Estranhamente, eu não estava maravilhada com aquilo como estaria em outra ocasião. Eu não me importei. Se jogassem uma bomba ali, eu não daria a mínima.
O que está acontecendo comigo?
Jasper saiu do carro rapidamente, como se não quisesse ficar ao meu lado. Eu não dei a mínima pra ele. Quando saí do veículo, segui Connor e o enviado do Protetor, que já estavam na frente da porta, esperando para que alguém abrisse. O moreno já havia apertado a campainha antes e já aguardava. Eu não fazia ideia do que iria encontrar ali, só tinha certeza de que não seria algo bom.
Um homem de meia idade abriu a porta, e a sua expressão era amigável.
— Alyssa Wolff. — disse o meu nome, fazendo uma reverência estranha. — A renegada. — deu uma curta pausa, dando espaço para que nós três entrássemos na casa.
A sala era enorme. As paredes eram em um tom de amarelo bem claro, o que de algum modo, me fazia sentir mais calma estando ali. Duas janelas enormes, uma no lado direito e outra no lado esquerdo, que davam para uma vista incrível. Havia uma lareira no fundo, duas escadas em cada lado que davam a um primeiro andar, pinturas incríveis na parede que me faziam interessar por arte e seis cadeiras no centro criando um círculo, o que foi a única coisa que não combinou muito com o ambiente. O tapete em forma de círculo entre as cadeiras era igual a tatuagem de Connor Windsor: um pentagrama com a frase veritas manifestetur.
— Sou Timothy Johnson e já fui um enviado do Protetor anos atrás. Hoje, sou apenas um pesquisador de criaturas sobrenaturais. — contou o homem. — Aliás, sentem-se. Preciso conversar com vocês e a mestiça que meu filho trouxe.
— Qual mestiça? — perguntei.
— Uma jovem loira de maquiagem forte. — respondeu Timothy vagamente.
Olhei para Jasper, e por mais que ele percebesse o meu olhar, acabou me ignorando.
Jasper e Connor foram os primeiros a sentarem nas cadeiras, seguidos por mim. Timothy Johnson não disse muita coisa, apenas subiu as escadas e chamou a outra mestiça. Eu temia que fosse ela. Provavelmente deveriam haver mais mestiças loiras com maquiagem preta e forte. A Califórnia é um Estado muito grande para só ter uma. Não tinha que ser justamente ela. O pensamento de que Charlotte estava em Los Angeles até agora querendo me matar me acalmava mais do que pensar que ela havia conseguido chegar até aqui e que iria me matar a qualquer segundo.
Quando Timothy desceu as escadas, ele não estava sozinho.
Charlotte me olhava de longe, com um sorrisinho estampado em seu rosto, como se quisesse provar que não precisava de mim — ou de Jasper. Como se ela pudesse se virar sozinha e ainda fosse mil vezes melhor do que eu um dia seria. Seus olhos azuis olhavam fixamente para mim, o que me dava raiva e ao mesmo tempo uma vontade de simplesmente desaparecer.
Esqueci que Charlotte Brenner é melhor em ser uma Succubus do que eu.
Jasper arregalou os olhos por pouco tempo e parecia estar mais surpreso do que eu estava. Ver a prima que ele achou que ainda estava em Los Angeles já tinha chegado a San Francisco antes... Aquilo era uma surpresa.
Ao lado da mestiça, estava um garoto, provavelmente da minha idade. Ele usava óculos e usava uma camisa de De volta para o Futuro, e de algum modo, não me simpatizei nada com ele.
— Essa é Charlotte Brenner, a mestiça. — Timothy nos apresentou a ela. — E esse é o meu filho, Scott.
Scott sentou ao meu lado, e eu pude perceber que ele não parecia nada com o pai. Timothy Johnson era alto, com o cabelo preto curto e olhos verdes, que sempre pareciam estar analisando todos ali ao mesmo tempo. Tinha um nariz grande e reto, rugas de expressão e seu rosto era extremamente quadrado. Usava uma camisa social com uma gravata cinza e um paletó preto por cima, como se estivesse em uma reunião de uma empresa. Já Scott se vestia do jeito mais largado possível, com uma camisa de De Volta para o Futuro e uma calça jeans encardida. Ele tinha cabelo castanho ondulado, raspado nas laterais. Era alguns centímetros mais baixo que Charlotte e tinha um nariz arrebitado. A única coisa em comum com o pai era o óculos e o olhar que parecia estar te analisando e procurando o seu primeiro ponto fraco para te derrubar na primeira oportunidade que tivesse.
Por mais que fossem fisicamente diferentes, eu não me simpatizava com nenhum dos dois.
— Devo saber por que o Protetor nos chamou aqui? — Jasper perguntou a Timothy, em um tom levemente ameaçador. Pelo o visto, ele também não gostou muito dos dois.
Por mais que Timothy Johnson devesse sentir-se ameaçado ou levar aquilo extremamente a sério, ele apenas sorriu.
— O Protetor quer que as duas mestiças aprendam mais sobre seus poderes. — por mais que sua voz soasse calma, ele ainda analisava todos pelo o olhar. — O clã de Johanne Murray atualmente é a maior ameaça que temos e provavelmente Lilith estão usando-as para encontrar essas duas.
— As que vestem negro? — perguntei, não conseguindo mais ficar quieta.
— Parece que já se encontrou com elas. — ele me analisava separadamente. — Não foi?
Jasper me olhou pela a primeira vez depois da discursão, como se eu estivesse falando algo que não deveria.
— Sim. — ignorei o olhar dele, sem citar que Charlotte foi possuída graças a elas. — Faz poucos dias.
— Interessante. — comentou o Johnson. — Como já as viu, deve saber do que são capazes.
Assenti, como se fosse um sim.
— Aonde quer chegar com isso? — Jasper soava tanto ameaçador quanto desconfiado.
— Eu estava pensando em mandar as duas mestiças como intrusas entre o clã das bruxas. Talvez elas possam chegar na liderzinha do clã delas, a tal da Chloe Jordan. Com isso, as duas podem descobrir como Lilith se comunica com o clã e destruir e esse modo de comunicação. — explicou tudo, como se fosse algo comum e extremamente fácil de se fazer.
Ao ouvir aquilo, eu me assustei.
— O Protetor realmente concordou em uma loucura dessas? — Jasper perguntou. — Elas não são bruxas. Chloe perceberia isso facilmente.
— Chloe só consegue sentir se uma criatura é sobrenatural ou não. — Charlotte resolveu falar. — Ela não diferencia uma bruxa de uma Succubus. — deu uma curta pausa. — Estou dentro.
— E você, Alyssa Wolff? — Timothy esperava uma resposta minha.
Jasper olhava para mim repreensivamente, como se quisesse que eu falasse um não.
— S-Sim. — gaguejei, respondendo à sua pergunta.
— Ótimo. — disse Timothy, levantando-se da cadeira. — Você duas vão depois amanhã de ônibus para Los Angeles. Enquanto ficarem aqui, em San Francisco, precisam aprender todas as lições básicas para sobreviverem lá.
[...]
Eu estava no quintal, aproveitando o silêncio enquanto os outros deveriam estar com Timothy Johnson, discutindo outras coisas. Eu tinha a sensação de que a minha cabeça ia explodir. Nos últimos quatro dias eu senti como se tudo perdesse o sentido. Como se eu fosse outra pessoa.
Olhei para o céu, vendo que não havia mais corvos e que já estava em sua cor normal.
Talvez aquilo fosse um aviso.
— Olá, Alyssa. — disse Jasper inesperadamente, se aproximando de mim.
Me virei e ele estava próximo de mim, com um cigarro entre o seu dedo indicador e o do meio, indo dar uma tragada. Eu não sabia exatamente o que estava acontecendo lá dentro com Timothy. Só tinha uma ideia de que deveriam estar discutindo sobre o plano. Eu deveria estar lá, mas já não tinha muita paciência para isso. E Jasper deveria estar lá também. Presumi que estivesse uma fera e falando que todo o plano não fazia sentido.
Mas ele estava ali, bem na minha frente.
— Pensei que você estivesse com os outros lá dentro. — falei.
Ele se aproximou de mim, ficando ao meu lado e observando o céu.
— Discutir com aquele cara é horrível. — ele contava. — Não importa o que eu diga, Timothy sempre tem algum argumento pra me desbancar. Ele simplesmente não põe na cabeça que esse plano é ridículo.
— Não é tão ridículo assim. — retruquei. — Até que é uma boa ideia.
Ele olhou para mim como se eu estivesse falando merda.
— O Protetor me enviou para te proteger até que faça dezoito anos. — o ruivo dizia. — Se você morrer durante esse tempo ou ser gravemente ferida, isso significa que eu também serei. Ou até uma coisa pior. O Protetor pode me banir de novo dos vivos e me mandar par- — ele notou que falou demais, rapidamente se calando. — Droga, apenas esqueça.
— Banir dos vivos. — não esqueci como ele pediu. — Você está morto, Jasper? Ou será que é um Incubus ou alguma coisa dessas? Já sei que mentiu sobre ser humano.
Ele deu um passo para trás, jogando o cigarro na grama e pisando nele, para apagar o fogo.
— É uma longa história. — falou secamente. — Você não deveria saber.
— Saber o quê? — aumentei o tom de voz. — Lilith está atrás de mim e depois amanhã eu vou para o clã daquelas bruxas. A última coisa que eu preciso é você me escondendo coisas! — eu soava irritada. — Que tipo de enviado é você?
Ele suspirou, passando a mão nervosamente pelos os cachos ruivos.
— Sabe os corvos no céu algumas horas atrás? — o enviado do Protetor lembrava o acontecimento. Eu assenti em resposta. — Eram elas. Eu conheço Chloe perfeitamente. Ela e o seu clã ridículo tem delatores e eles são os corvos. Por isso que esse plano jamais vai dar certo, porque é bem provável que algum corvo esteja nos espionando e logo vá mostrar ao clã o que viu. — deu uma curta pausa, levantando o olhar. — E tem um corvo no céu agora, nos observando.
Levantei o olhar, fixando-o no mesmo ponto que o de Jasper também estava.
Um corvo voava no céu, com seus olhos cor de sangue fixos em nós.
Fale com o autor