Beautiful Curse
9 VIII - Bem vindas ao Coven.
Notas iniciais
Internato Católico para Damas, Los Angeles, Estados Unidos da América,
Sete de Dezembro de 2013,
9:35 A.M.
Srta. Wolff foi levada para diretoria com duas freiras de cada lado.
A garota tinha os cabelos escuros e longos presos em um rabo de cavalo e vestia o uniforme da escola, desta vez perfeitamente arrumado, já que ela havia ido a coordenação uma vez antes por vestir o uniforme inadequadamente. Tentava seguir os passos rápidos e desesperados das freiras, enquanto se perguntava por que havia sido chamada pela a própria diretora, Elsa Stevens, quando justamente não havia feito nada de errado. Vestia o uniforme, não foi encontrada em lugares da escola onde não devia estar, não respondeu a nenhuma professora e não estava com alguma bebida alcoólica, como havia acontecido antes algumas vezes.
— Por que a Sra. Stevens me chamou? — perguntou as freiras, curiosa e também temendo o que viria.
— Ela só disse que queria falar com você, criança — respondeu Irmã Lea, uma mulher alta e acima do peso, com um olhar gentil e provavelmente a única freira em todo o internato que Alyssa se simpatizava e queria confiar. — Não faço a mínima ideia razão do chamado dela.
— Não responda a esta imprudente, Irmã Lea — retrucou secamente a outra freira. A chamavam de Irmã Suzanne, uma idosa mal humorada de quase setenta anos, que todas as garotas do internato faziam piadinhas pelas costas. — Essas jovens de hoje não passam de um bando de desviados, principalmente esta aqui.
Alyssa revirou os olhos. Não é à toa que todos chamam Irmã Suzanne de primeira múmia da história ou dinossaura com deficiência, o que fazia a Wolff rir aos seus onze anos de idade. Com quinze, o único efeito que as piadinhas infantis causam na jovem é a irônica concordância.
Irmã Lea e Suzanne não falaram mais alguma palavra, apenas levaram a aluna para a diretoria, como foram mandadas pela a própria diretora.
Ao chegar na diretoria, as freiras se retiraram e Alyssa pôde ver uma Sra. Stevens sentada na mesa, com um olhar irado — mais irado do que naturalmente era. O cabelo castanho preso em um coque estava bagunçado e os olhos azuis da mulher pareciam que estavam ao ponto de matar alguém de verdade. Nem a sala de tons neutros, estantes com mil livros sobre educação cristã, versões da Bíblia em inúmeros idiomas e até a estátua da Virgem Maria conseguia fazer o ambiente ser mais pacífico ou suavizar Elsa Stevens. Na verdade, só fazia parece-la pior do que já era.
— Sra. Stevens? — Alyssa tentou chamar a atenção da diretora.
— Srta. Wolff — disse a mulher. — Você é amiga da aluna Charlotte Brenner, certo?
— Hã, sim — respondeu a aluna.
— Ela namora alguém?
— Não — mentiu Alyssa. — Nunca namorou, na verdade.
— Já te falaram que você é uma péssima mentirosa, Srta. Wolff? — a diretora se levantava da cadeira e andava em direção da garota na sua frente, sem esconder mais o sotaque alemão forte. — Diga a verdade.
— Estou dizendo a pura verdade.
A garota foi surpreendia por um tapa forte em seu rosto, dado pela mulher irada na sua frente. Deu um passo para trás, com pura surpresa em seus olhos negros. Colocou a mão sobre o lugar do tapa, que já deveria estar começando a ficar vermelho.
— Eu me lembro do dia que a sua mãe veio para aqui falar comigo pela primeira vez — contava Elsa. — Ela se sentia tão assustada, sabe? Traiu o marido na lua de mel na Escócia com um desconhecido e disse que ainda o amava. Então acabou engravidando dele e teve um monstro como filha — deu uma curta pausa, olhando fixamente nos olhos de Alyssa. — E sabe o por que ela quis te matricular aqui? Ela não te aguentava mais, Srta. Wolff. Queria se sentir menos culpada achando que você teria uma chance aqui, que talvez você achasse o caminho da luz. — deu uma curta pausa. — Mas vejo que jamais sairá das sombras, igual a outra aberração que chamamos de Srta. Brenner.
Alyssa praticamente paralisou. Então a diretoria sabia. É claro que ela sabia. É óbvio que a sua mãe havia contado. Por que se iludiu achando que sua mãe realmente se importou com ela e iria proteger aquele segredo? Inexplicavelmente, ela entendia a sua mãe. Ela sentiu medo de Alyssa. Ás vezes, a própria Alyssa sentia medo de si mesma.
Mas o que mais a assustou foi Elsa referindo a própria filha como aberração.
— Charlotte é sua filha! — exclamou. — E ela não é uma aberração!
— É o que todas as aberrações falam — comentou a alemã. — Responda a minha primeira pergunta ou irei mandar Charlotte para um convento. E ambas sabemos o quando ela vai odiar caso isso aconteça.
— Você está blefando.
— Vocês duas se dividem o quarto desde que eram crianças, então eu acho que a minha filha já te contou do que sou capaz, não? — a mulher disse. — Por que se ela não contou, então eu preciso ser mais forte ainda.
— Se eu contar, o que vai acontecer? — a adolescente perguntou com medo do que aconteceria.
— Nada. Eu prometo, nada irá acontecer.
Alyssa respirou fundo. Charlotte não poderia ir a um convento. Se ela já se sentia péssima em um Internato Católico, imagine em um convento, sem poder fazer todas as coisas que ela justamente adora e virar uma freira. Era impossível imaginar Charlotte Brenner como freira. Seria cômico em uma outra situação, mas naquela era deprimente.
— E-Ela namora M-Mia. Mia Wilson. — respondeu, gaguejando.
Elsa parecia satisfeita e ao mesmo tempo arrassada.
— Vá embora, Alyssa. — mandou.
— O que vai acontecer com Charlotte?
— Apenas vá embora. Ordem da diretora.
[...]
San Francisco, Los Angeles, Estados Unidos da América,
Dezessete de Janeiro de 2015,
1:35 P.M.
Eu me sentia péssima.
Timothy Johnson me olhava de longe, com seu olhar calculista, como se estivesse me julgando em sua mente esquisita. Connor estava ao lado dele, parecendo que não se importava com nada e ninguém ali, com sua besta em mãos e os olhos azuis melancólicos em um lugar bem distante; onde eu desejaria estar, mesmo sem fazer ideia de onde seja. Jasper falava alguma coisa com Scott Johnson, o filho nerd e estranho de Timothy, e quando finalmente terminou de falar andou em direção do carro, com a cabeça abaixada. Estava sem a sua touca, mas devia ter um maço de cigarros baratos no bolso.
Eu estava sentada no banco de trás do carro, com uma mochila cinza e nova, cheia de pertences novos, roupas e algumas coisas de propriedades supostamente mágicas que Timothy havia me entregado. Eu deveria estar tremendo de medo. Nunca me imaginei como uma pessoa medrosa, antes de isso tudo, eu até costumava a me imaginar como alguém relativamente corajosa. Digamos que o meu histórico de responder e sempre questionar pessoas que eu deveria respeitar me ajudou a me imaginar corajosa. Mas agora eu me sentia como aquele típico cara medroso dos filmes de terror.
Charlotte estava no banco da frente, ignorando a minha existência como sempre fazia. Eu não me surpreendi muito com isso. Ela também tinha uma mochila igual a minha, mas a dela parecia diferente. Charlotte tinha um tipo de superpoder de sempre parecer diferente em todos os sentidos. Não diferente no sentido ruim da palavra, mas ela sempre conseguia se destacar e chamar a atenção. Se todos fossem e se vestissem iguais, Charlotte ainda ia ser diferente.
Quando Jasper entrou no carro, eu senti um pouco mais segura. Ok, Jasper não era a pessoa mais confiável ali. Ok, ninguém era confiável ali. Scott Johnson e seu pai me pareciam sair de um filme de terror dos anos 80, onde Timothy era o professor maluco e psicopata e seu filho era o típico nerd inútil secretamente psicopata. Connor atirou no próprio irmão e não deu a mínima para isso e Charlotte... Bem, Charlotte deveria estar planejando a minha morte. Mas por mais que Jasper escondesse inúmeras coisas de mim e me deixasse extremamente irritada por isso, ele é o enviado do Protetor. Ele iria me ajudar.
— Vocês estão prontas? — ele perguntou, mesmo que soubesse da resposta.
— Se eu responder “não” por acaso mudaria alguma coisa? — Charlotte interrogou.
— Infelizmente não. — Jasper falou em voz baixa.
Ele deu a partida no carro, deixando a residência de Timothy Johnson. Eu olhei para trás, vendo ele, seu filho e Connor olhando para nós enquanto sumíamos da visão deles. Senti um calafrio. Alguma voz na minha cabeça dizia que algo ia dar errado. O problema era que as coisas já estavam erradas, então tal pensamento não seria nenhuma novidade.
— Por que você está seguindo ordens dele? — questionei a atitude de Jasper Hook, olhando-o fixamente em seus olhos pelo retrovisor do carro.
Ele engoliu em seco. Pude ver a sua prima segurar um sorrisinho pela minha pergunta. Demorou um pouco para que ele abrir a boca e falar algo.
— É o meu dever.
— E o senhor responsável ataca novamente — Charlotte comentou sarcasticamente.
— Melhor encerrar esse assunto — ele tentava terminar a conversa.
Pensei um pouco. Não queria discutir com ele de novo, igual a dois dias atrás. Ia ser um discursão inútil.
Até porque ele está escondendo algo.
— Eu pensei que o seu dever fosse proteger a Wolff, primo. E digamos que leva-la ao coven de bruxas que obviamente sabem do nosso plano ia ser algo muito burro — comentou a Brenner, aparentemente feliz por deixar Jasper naquela situação.
Demorou para que ele falasse alguma coisa. Charlotte sabia dos corvos, claro. Nos últimos dois dias que passamos na casa de Timothy Johnson, ela raramente falou com o primo. Então conclui mentalmente que ela já sabia dos corvos há muito tempo, sem falar que sempre tinha um clima tenso entre ela, Jasper e Chloe Jordan, a suposta líder do clã de bruxas.
Só de pensar que eu veria Chloe de novo eu quis simplesmente sumir dali.
Após saímos do bairro nobre, pude ver Jasper suspirar, como se tivesse tirado algum peso de suas costas.
— Finalmente — murmurou.
— Finalmente o quê? — Charlotte Brenner indagou.
Ele acelerou o carro.
— Vocês realmente acharam que eu ia ser burro o suficiente para leva-las para o clã da Chloe? — ele disse, olhando indiretamente para mim pelo retrovisor. Por mais que a pergunta fosse para mim e pra Charlotte, ele me fez achar se fosse unicamente para mim.
— Você sendo irresponsável? Isso não é uma coisa que se vê todo o dia — a loira fingiu estar surpresa.
— Quando eu e Alyssa estávamos naquele hotel de estrada, tinha três mulheres torturando um cara — Jasper contava para a prima. — Uma delas me deu um tiro. Então Alyssa virou uma Succubus e matou duas delas — pude ver Charlotte me olhar surpresa. — O homem fugiu, claro, mas ele prometeu que iria fazer alguma coisa para recompensar a sua “salvadora” — fez aspas com as mãos. — Digamos que eu consegui o número ele ontem e pedi a recompensa. — pela a primeira vez, pude ver Jasper sorrir vitorioso ao terminar de falar.
— E o que o Protetor acharia disso? — sua prima perguntou.
— Que eu estou fazendo o meu trabalho. Proteger você e Alyssa.
— E se Timothy ouviu a sua conversa com ele? — questionei. — Isso não daria muito certo.
— Então estaríamos muito ferrados — o Hook falou por final.
Ele continuou a dirigir por uns vinte minutos e durante esse tempo, Charlotte falou algumas vezes com o primo e fez algumas brincadeiras. Isso me surpreendeu um pouco. Desde que a deixamos em Los Angeles, há uns três dias atrás, ela mal olhava para a cara de Jasper direito. Ás vezes eu me pegava de madrugada com o pensamento de que ela talvez estivesse tramando a minha morte.
Quem sabe a atitude de Jasper a fez perceber que ele ainda valesse a pena, afinal, ele é o seu primo.
O enviado do Protetor estacionou o carro na frente de uma lanchonete qualquer na estrada, saindo rapidamente do carro. Eu saí em seguida e Charlotte foi por último, tomando uma distância relativa de mim. Percebi que ele usava um relógio de pulso e não demorou um minuto para que fosse olhar as horas no relógio, obviamente impaciente e esperando alguém.
Eu não fazia muita ideia de como seria o homem que as mulheres estavam torturando naquele dia. Na verdade, eu nem sabia como ele ainda estava vivo. Jogaram piche nele. Ainda me lembro perfeitamente dos berros dele, do jeito que ele implorava por ajuda e também consegui ver a dor e sofrimento em seus olhos. Mas eu também sabia que ele fez algo de errado. Aquelas mulheres estavam apenas se vingando — e eu matei elas.
Tudo que consegui imaginar foi o que ele havia feito para receber isso.
— Ele está vindo — Jasper avisou, olhando para alguém saindo da lanchonete.
Um homem alto e com a cabeça abaixada andava em nossa direção, segurando uma lata de cerveja barata em sua mão esquerda. Quando ele levantou o seu rosto, eu quase tive um susto. Nem parecia que há três dias queimaram a sua pele jogando piche nele. O cabelo castanho estava arrumado e os olhos azuis pareciam calmos. Vestia calça jeans, uma jaqueta marrom e botas qualquer. Parecia um típico cara do interior do Texas que veio passar alguns dias na Califórnia.
— Jasper Hook — ele disse ao olhar o enviado do Protetor. — Essas são as garotas?
— São — confirmou o outro. — Espero que saiba como camufla-las mesmo.
— Claro que sei. Não sou de mentir.
— Isso nós veremos — Jasper soava desconfiado.
— Você é a garota que matou duas mulheres ali, não foi? — o homem olhava para mim.
— Sim — confirmei pela primeira vez desde que matei sem gaguejar. — Fui eu.
— Foi incrível o que você fez lá — ele elogiou como se fosse algo correto. — Tá passando nos noticiários o estranho caso da morte delas, aliás. Até agora não fazem a mínima ideia de quem matou ou como elas foram mortas. Alguns policiais suspeitam do gerente do hotel. — pareceu conter uma risada pela a última frase. — Ridículo, não?
Engoli em seco. Falaram de mim na TV. Ok, eles não falaram exatamente de mim, mas falaram do que fiz. Agora eu não faço a mínima ideia porque pensei que as mortes daquelas mulheres não seriam descobertas ou comentadas. Claro que seriam. Quase nenhum assassinato é passado em branco; principalmente um assassinato daquele tipo.
Por um segundo pensei o que aconteceria caso a polícia desse um jeito e finalmente descobrisse que fui eu. O que aconteceria caso eles descobrissem sobre Incubus, Succubus ou até a suposta volta de Lilith. O caos que iria acontecer... Seria como se o mundo virasse de cabeça para baixo.
— Sim — respondi após uma breve demora. — Muito ridículo.
— Este é Mike — Jasper apresentou o homem para mim e Charlotte. — Mike, estas são Alyssa e Charlotte. Ambas são filhas de Incubus.
Mike sabia de todo aquele submundo. Talvez ele tenha aceitado as sombras há muito tempo ou três dias atrás. Isso explicaria o fato dele estar fisicamente normal, como se nada tivesse acontecido na noite que ele fora torturado pelas três mulheres.
— Vai ficar com elas? Você ainda não me disse essa parte do plano — Mike falou para o enviado do Protetor.
— Elas vão ficar com você — contou o Hook. — Eu vou ficar fora hoje. Preciso resolver um assunto.
Mike assentiu, falando com Charlotte e a levando para dentro da lanchonete. Eu deveria segui-los, mas fiquei no lado de fora, com Jasper e seu carro velho.
— Por que não foi com eles? — o ruivo me perguntou.
— Que plano seu é esse? — ignorei a pergunta dele.
— Não posso contar — ele disse secamente.
Suspirei, infeliz e também me segurando para não discutir com ele de novo.
— E tem alguma coisa que você possa contar? — por mais que me segurasse, eu ainda soava como se estivesse irada; até porque estava mesmo.
Ele demorou um pouco para me dizer alguma coisa.
— Acho que não — falou sem nem olhar mais para mim. — Isso é para o seu próprio bem, Alyssa.
— Por que você nunca me diz nada?! Pensei que já que você foi enviado para me proteger deveria ao menos me contar alguma coisa.
— Vou só te dizer duas coisas — Jasper começava. — Primeira: Tenha cuidado com o Mike. Segunda: Não esconda o seu lado sombrio hoje.
— Por que está me dizendo isso?
— Porque algo ruim vai acontecer hoje, Alyssa — ele soou melancólico. — E se você fosse com Charlotte para aquele clã ridículo, iria acontecer algo pior ainda.
Não trocamos mais nenhuma palavra. Ele apenas entrou no carro, deu a partida e foi embora, me deixando ali com muitas dúvidas e raiva.
Respirei fundo e andei em direção da lanchonete, indo me juntar a Mike e Charlotte. Quando entrei no lugar, os dois estavam sentados em uma mesa do fundo, conversando animadamente. Por mais que não fosse mais amiga de Charlote faz uns dois anos, ainda a conheço perfeitamente para saber de que ela também não foi com a cara dele. Estava apenas fingindo algumas risadas e tentando tirar o máximo de informações dele possíveis, apenas para usar isso depois.
Me sentei na cadeira ao lado dela e pude vê-la infeliz com aquilo.
— Estão com fome? — Mike perguntou, olhando para nós duas.
Infelizmente, não deu tempo para responde-lo.
As luzes da lanchonete apagaram todas de uma vez, fazendo que todos os clientes e funcionários ali ficassem assustados com a repentina falta de energia. Então as luzes voltam novamente e caem de novo. Depois voltam e se apagavam pela terceira vez. Enquanto as luzes piscavam, eu conseguia sentir uma brisa fria no local. A brisa rapidamente se tornou uma ventania forte, que fazia inúmeros objetos voarem. A porta da lanchonete se abriu, mostrando-me o último rosto familiar que eu queria ver naquele momento.
— Olá, mortais inferiores — Chloe Jordan entrou no local, seguida por suas seguidoras, todas vestidas de roupas negras. — Estou procurando por Alyssa Belluci e Charlotte Welsh. — ela deu ênfase aos sobrenomes.
Eu tremi ao ouvir o Belluci saindo da boca de Chloe.
Estranhamente, todas as pessoas ali estavam com um olhar perdido no nada, como se não fossem mais elas mesmas. As respirações de todas pareciam sincronizadas e elas praticamente não se moviam mais. Era assustador. Como se todos ali fossem automaticamente controlados pelo clã de bruxas, como se eles nem tivessem poder sobre si mesmos. Mike, o suposto assassino que se sentava na minha frente, parecia estar exatamente como os outros. Olhei para Charlotte, assustada, percebendo que nós duas éramos as únicas pessoas ali que o suposto feitiço não havia funcionado.
— Aqui — ele disse apontando para Charlotte e eu. — Elas estão aqui.
Chloe sorriu, como se tivesse ganhado uma batalha. Ela olhou para mim de longe, com suas irises verdes me ameaçando, tentando criar tanto medo em mim que para que eu não lutasse com ela.
Se ela não queria que eu lutasse, então talvez eu pudesse ser temida pela líder do clã.
Enquanto ela e seu clã andavam na minha direção, me lembrei do que Jasper havia falado antes de partir. Não confie em Mike, ele disse. Por Deus, ele estava certo. Mike, sob esse feitiço ou sei lá o que, falou ao clã onde Charlotte e eu estávamos. Não esconda seu lado sombrio hoje, ele disse. Chloe queria me deixar com medo. Ela não queria que eu lutasse. Ou ela me temia, ou tinha mais alguma coisa que eu não sabia acontecendo.
Meu lado narcisista se manifestou pela primeira vez, me fazendo achar que Chloe me temia.
— Alyssa — Chloe falou ao me ver, já bem próxima de mim. — Vejo que Jasper não pode te salvar agora — esboçou um segundo sorriso vitorioso.
Naquele momento, eu não fazia ideia do que deu em mim.
Saiu uma rajada de vento das minhas mãos, fazendo todos que estavam na minha frente praticamente voarem e ficarem contra a parede parados, como se algo os impedisse por algum tempo. A minha expressão devia ser de puro susto, mas tive que pensar e agir mais rápido do que isso. Puxei Charlotte — mesmo que fosse contra a vontade dela — e corri em direção do banheiro feminino, trancando a porta e com milhões de pensamentos fluindo no meu cérebro.
— O que diabos você fez?! — Charlotte quase gritou, com uma expressão irada em seu rosto.
— Eu te salvei você! — exclamei mais alto do que ela. — Agora o que vamos fazer?
— Eu não vou te ajudar — ela revelou secamente. — Vou te entregar para a Chloe e dar um fora desse inferno.
— O seu primo não ficaria feliz com isso — lembrei.
— Como se Jasper se importasse com alguma coisa que eu fizesse — ela disse. — Ele não passa de um falso. Todos são falsos, principalmente você — deu ênfase nas duas últimas palavras.
— Esquece isso, Charlotte! — gritei, irritada. — Isso já faz mais de um ano. E aliás, nem foi grande coisa.
— Cala boca, sua falsa! — ela gritou. — Você destruiu a minha vida!
— Por que a sua mãe te fez terminar com a sua namoradinha? Sim, isso destruiu a sua vida mesmo — debochei.
Ela chutou a porta, irada. Abaixou a cabeça e depois chutou novamente. Terminou com um terceiro chute, levantando brevemente o olhar para mim e depois desviando. Seus olhos estavam marejados e ela segurava o choro o máximo que podia.
— Mia morreu naquele dia! — gritou, quase chorando.
— M-Mas ela tinha sido transferida naquele di-
— Ela matou a Mia! — ela já chorava. — Aquela merda de Internato com aquela maldita conseguiram cobrir totalmente o caso, subornaram a família da Mia dizendo que ela roubou uma arma e se suicidou dando um tiro no peito. — deu uma curta pausa. — Eu morri naquele dia também, Alyssa. E a culpa é toda sua.
Não tive tempo de falar mais nada. A porta caiu e demos de cara com Chloe e seu clã enfurecido.
— Vocês não podem fugir do clã — ela piscou os dedos, me fazendo sentir estranha. — Ninguém pode fugir do clã.
Me senti sonolenta, como se passasse dias sem dormir. Em poucos minutos, caí no chão, um pouco antes que Charlotte, que tinha sua maquiagem preta e forte totalmente borrada pelo o choro. Talvez Chloe tivesse lançado algum feitiço de sono apenas por estralar os dedos. Tentei fazer alguma coisa, usar o meu lado sombrio, mas foi totalmente inútil. Não consegui.
— Bem vindas ao Coven, Charlotte Welsh e Alyssa Belluci. Vocês vão adorar — disse Chloe por final.
Apenas caí em um sono profundo.
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