Beautiful Curse
7 VI - Paranoia.
Notas iniciais
Kings, Estados Unidos da América,
Quinze de Janeiro de 2015,
1:04 P.M.
Ás vezes a realidade dói.
Ela pode não te acertar diretamente, como com um soco na sua cara ou até dizendo inúmeras verdades que você sempre ignorou, mas ainda assim doía. Doía porque é algo praticamente subliminar, algo que você sempre soube mas ignora perfeitamente. Você está na realidade, com inúmeros problemas te atacando mas só consegue focar no seu próprio egoísmo. A realidade é tão ampla e ao mesmo tempo tão pequena que chega a ser assustador.
E eu havia sido acertada por ela.
Connor Windsor estacionou em frente a uma casa de classe média-alta, em um subúrbio da cidade de Kings. Era uma casa em um tom de azul claro, uma das menores do bairro, mas provavelmente maior do que a casa em que eu morava com a minha mãe — antes do internato, claro. Era de um andar, e pelo o que percebi deveria ter a grama mais verde de todo o bairro. Poderia ser uma família tradicional americana que morava ali ou uma mãe divorciada feminista liberal de esquerda com três filhos. Ainda assim, me parecia bem comum.
Passamos a noite toda dirigindo. Cinco horas seguidas na estrada, parando em postos de gasolina para abastecer o carro ou comer alguma coisa. Incrivelmente, não falamos muita coisa. Demorou um tempo para que Jasper voltasse ao normal. Charlie e Connor — ou os irmãos Windsor — deram um líquido estranho para ele beber, que os dois diziam ser o chá de alguma planta mística. Por mais que eu achasse que a decisão mais sensata fosse manda-lo para um hospital — por Deus, ele levou um tiro —, não argumentei com eles ou falei qualquer coisa sobre. Estranhamente, Jasper melhorou, mas não ficou 100% bem. Charlie disse que ao chegar na casa dele iria fazer algo para melhorar Jasper de vez. Eu não falei nada sobre. Na verdade, fiquei quieta a viagem toda. Acho que disse algumas frases curtas, ou um “aham”, “ok” e “tá legal”.
Digamos que a realidade escolheu um péssimo dia para me acertar.
Passei a viagem toda tentando me distrair de um modo bem estranho. Eu olhava para a janela, prestava atenção nas paisagens, analisava as pessoas que andavam na rua e até comia muito quando parava em uma lanchonete em um posto de gasolina qualquer. Mas era difícil. Eu matei duas mulheres. E ainda esqueci Charlotte em Los Angeles.
Se ela me odiava, agora deveria estar fazendo planos para me matar enquanto durmo.
E eu também me odiava.
— É aqui onde moro. — Charlie sorria simpaticamente, saindo do carro, com os cachos loiros brilhando com a luz fraca do sol de inverno.
Após Charlie, Jasper saiu do carro seguido por mim.
O irmão mais velho do garoto já estava na porta, com a chave na fechadura e logo abrindo-a. Entrou lá, seguido do garoto. Charlie parecia lidar aquilo perfeitamente bem para alguém com catorze anos de idade — ele falou a sua idade em conversas aleatórias com Jasper, e eu era intrometida o suficiente pra prestar atenção em todas as conversinhas. Eu me sentia meio inferior pelo o fato de ter dezessete e estar lidando com tudo aquilo como se tivesse seis. Ou quem sabe ele sempre soube desse mundo e já estivesse me acostumado. Ainda assim, o pensamento de me acostumar com isso me parecia tão distante e impossível que eu nem conseguia chegar na ilusão de realmente acreditar.
— Bem vindos ao meu império. — Charlie sorria quando entramos na casa.
A sala era enorme. Havia uma cozinha americana lá atrás, no lado esquerdo, e escadas na direita. Uma TV de umas cinquenta polegadas estava fixada na parede direita, com um sofá cinza e uma poltrona em um tom de grafite. No lado esquerdo, um pouco mais à frente da cozinha, uma mesa de jantar circular, com seis cadeiras. Era bem moderno, sem ter nenhuma lareira ou fotos de família como as outras casas comuns americanas. Ou como a minha antiga casa.
— Vamos parar aqui por hoje e depois seguir para Los Angeles amanhã. — Connor avisou em tom menos animado que o irmão mais novo. Pôs o pé direito no primeiro degrau da escada. — Sintam-se em casa. Acho que dizem essa frase nos filmes, mas deve servir pra vocês dois.
Connor subiu as escadas, indo para o primeiro andar, apenas deixando Jasper, Charlie e eu na sala.
— Cadê seus pais? — o ruivo parecia desconfiado.
— Estão viajando na Espanha. — o garoto respondeu calmamente, sentando-se no sofá e ligando a TV com um controle remoto. — Eles sempre fazem isso depois do ano novo, e este ano resolveram passar umas três semanas na Espanha com o meu irmão tomando conta de mim.
— E por acaso eles sabem disso? Quero dizer, que estão associados ao Protetor?
— Claro. — Charlie afirmou. — Meu pai era caçador, mas resolveu se casar com uma humana e fazer família.
— Interessante. — comentou Jasper Hook, com um olhar confuso. — Você tem catorze anos e não vai à escola?
— Eu estudo em casa. — o garoto parecia nervoso. — Está bem, Hook? Desconfia de mim ou alguma coisa? Parece estar lançando uma pergunta após a outra, cara.
— Só estou perguntando, ok? — tentou disfarçar.
— Ok. — o loiro estranhava. — Pode subir as escadas e falar com Connor. Eu acho que ele pode acabar com esse problema do tiro de vez.
— E onde ele poderia estar? — andou em direção até a escada.
— No segundo quarto a direita.
— Obrigado. — Jasper disse em tom mais baixo, como se fosse obrigado, obviamente não gostava dos irmãos Windsor.
Enquanto Jasper subia a escada, eu me sentei no sofá, perto de Charlie Windsor. A TV estava no canal do Comedy Central, enquanto passava mais um episódio de South Park. O garoto deu uma risada baixa ao ouvir uma piada suja do programa. Aquilo me fez me lembrar mais de Charlotte. Quando éramos amigas e dividíamos o dormitório, ela costumava a fazer maratonas de South Park toda a madrugada de Sábado. Eu não gostava muito do programa, mas ela me fazia gostar.
— Alyssa. — disse parando de prestar atenção no programa. — Você não é muito de falar, não é?
— Na verdade, costumo a falar muito. — contei. — Eu só estou um pouco em choque.
— Descobriu tudo isso faz pouco tempo?
— Eu descobri que Lilith está atrás de mim e tudo mudou nos últimos quatro dias. — respondi.
— Oh. — parecia ter empatia por mim. — É meio horrível isso. No começo sempre parece informação demais e a cada desgraça que acontece fica bem gravado na sua cabeça. — deu uma curta pausa. — Mas você se acostuma. Tem algumas vezes que eu penso que é melhor lidar com isso do que a escola. — deu uma risada sem graça.
Tinha algo errado.
Eu me sentia mal. Bem mal. Não estava no fundo do poço — ainda —, mas me sentia muito mal. Estava paranoica também. Charlie parecia muito feliz para mim. Muito extrovertido. Lidava tão bem com aquilo e falava de um jeito tão perfeito que me fazia querer morrer toda a vez que abria a boca para dizer qualquer coisa. Sua voz era calma. Calma até demais. Ele sabia que eu matei duas mulheres ali, sabia que eu já havia feito algo muito errado. Mas era tão carismático e simpático que eu até me sentia um pouco culpada por pensar em desconfiar dele.
Apenas assistimos TV e jogamos conversa fora, como pessoas comuns.
[...]
Era hora do jantar
Connor, o mais velho, ligou para uma pizzaria pedindo duas pizzas de mussarela. Ok, talvez não fosse uma janta refinada e boa, mas ainda era algo bom para comer.
Nas minhas últimas horas aqui tive a sensação de que Lilith não iria me matar, que aquele grupinho de bruxas que me atacaram na escola nem chegariam perto de mim; era a minha própria cabeça que iria acabar me colocando em um caixão sete palmos abaixo da terra. A minha consciência estava horrível. Não só a consciência, mas todos os meus pensamentos e sentimentos. Ainda me lembrava das duas mulheres que matei, e por mais que nem as conhecesse e nem me simpatizasse com elas, ainda me sentia culpada. Eu acabei com duas vidas sem nem pensar duas vezes. Sentia medo de que a mesma força que atuou em mim naquela hora atuasse em qualquer outro momento de tensão, me fazendo fazer algo pior. E se eu matasse alguém importante? E se eu matasse de novo?
Ao menos eu me sentia culpada. Era algo bom. Seria mais assustador se eu me sentisse ótima por ter feito aquilo — exatamente como me senti na hora que apertei o gatilho.
Os irmãos Windsor estavam na cozinha, cortando as fatias da pizza. Eu estava sentada no sofá, assistindo TV, juntamente com Jasper. Ele não falou muito hoje. Connor praticamente bancou o médico e o salvou, depois disso, dormiu a tarde todinha no quarto de hóspedes, enquanto Charlie me contava algumas experiências com demônios que ele teve. Seu irmão mais velho parecia um pouco mal, e nem olhava para o meu rosto direito.
— Você melhorou mesmo? — perguntei a ele, puxando algum assunto.
— Sim.
— Eu achava que a coisa mais sensata seria te levar a um hospital. — comentei. — Mas ao menos isso funcionou.
— Não existe sensatez para enviados do Protetor como eu. — contou Hook. — Connor conseguiu remover a bala da minha perna. Não estava profundo, aliás. Foi um trauma bem pequeno. Quase que ia sendo um tiro de raspão.
— Bom saber. — falei, me sentindo um pouco melhor por ele.
— Eu liguei para Charlotte. — falou. — Umas dez vezes hoje.
— Ela atendeu?
— Dizia que o celular estava desligado ou fora de área. — ainda soava sombrio e melancólico. — Ela é a minha prima e eu falhei com ela. Assim que te levar até a San Francisco eu vou a procura dela.
— Por que você protege ela? — indaguei. — Ela tem idade o suficiente para se cuidar sozinha.
— Negócios de família. — disse. — Você não entenderia.
Ficamos algum tempo em silêncio.
— Você matou duas mulheres. — ele me lembrou, porém sem olhar para o meu rosto. Seus olhos eram fixos na TV. — Parabéns, Wolff.
— Parabéns por quê? Eu matei aquelas mulheres. Isso é errado, Jasper. — diminui meu tom de voz, não queria que os Windsor me ouvissem na cozinha. — Eu me sinto péssima.
Inexplicavelmente, ele sorriu.
— Eu sabia que você estava pirando por dentro. Estava quieta até demais na viagem. — fixou o olhar em mim. Também falava em tom baixo. — Isso é bom. Significa que a sua parte humana ainda tem controle de você. Tem que aproveitar isso antes que... — ele parou de falar, como se contasse informações demais.
— Antes de quê? — pedi para que ele continuasse. — Você me deve informações.
Ele demorou um pouco para responder. Os olhos castanho-esverdeados pareciam estarem confusos.
— É para a sua segurança. — quase sussurrava. — Temos coisas mais importantes para lidar.
— Coisas mais importantes do que eu estar andando com um estranho pelo o Estado todo que fica mentindo para mim?
Jasper bufou.
— Alyssa, isso é sério, ok? Abaixe o tom de voz ou aqueles dois podem nos ouvir.
— Você desconfia deles. — afirmei.
O ruivo assentiu.
— Connor parecia temer o irmão mais novo. Ele age de um jeito estranho. Quero dizer, os dois agem de um jeito estranho. — explicava. — Eu me lembro que ano passado houve uma tragédia em Sacramento. Um garoto que matou os pais a sangue frio e seu irmão que foi comparsa e fugiu com ele depois.
Tudo fazia sentido. Eu não estava paranoica.
— Isso significa que — Jasper acrescentava — um desses dois é um assassino e o outro é um cúmplice manipulado.
— Charlie poderia ser o assassino. — chutei. — Parece feliz demais com tudo isso, mas ele só tem catorze anos.
— E daí? — ele retrucou. — É óbvio que Charlie Windsor é o assassino. Ele parece como um psicopata para mim.
— Ok, seguindo o pensamento de que um garoto de catorze anos matou os pais a sangue frio e parece lidar com isso perfeitamente e ainda consegue controlar o irmão mais velho de dezoito — eu criava a linha de raciocínio —, esta seria a casa deles?
— Outro detalhe: eles queimaram a casa depois. — contou. — E isso significa que essa casa é de outra família que eles devem também ter matado secretamente alguns dias atrás.
— Você está paranoico.
— Eu não estou! Isso é sério, Alyssa. Esses dois podem ser enviados de Lilith!
— Jasper, eu acho que você estragou tudo isso. — Charlie se intrometeu na conversa, soando tão calmo que me fazia ficar mais insana por dentro. — Por que descobriu tudo tão rápido? Seria mais interessante te matar e roubar a garota enquanto dormem.
Então o jogo virou.
O meu sexto sentido e a paranoia de Jasper estavam certos. Foi no mínimo algo assustador. Eu me senti em um filme de terror — ou suspense —, onde sempre tem algum assassino psicopata que irá atacar a qualquer hora. Charlie era o assassino. Connor era o seu cúmplice. E eu e Jasper éramos as vítimas. E nos filmes de terror as vítimas sempre eram burras o suficiente para acabarem morrendo no final.
A realidade era uma vadia. Quando você acha que ela não pode te deixar melhor, a desgraçada resolve fazer da sua tão preciosa vida um filme de terror.
— Você trabalha para Lilith, não é? — Jasper manteve a calma, lidando com aquilo do melhor jeito possível.
— Eu não trabalho para ninguém. — respondeu o garoto, com os olhos azuis profundos e sombrios. — Sou independente. Mas, Lilith apareceu para mim uma vez. Me ofereceu uma boa recompensa para o primeiro demônio que eu achasse. Mas disse que me daria uma recompensa melhor ainda por uma chamada Alyssa Wolff.
— Qual foi a recompensa? — perguntou. — Dinheiro, imortalidade, habilidades sobrenaturais? Eu posso te dar o mesmo. Se desistir e seguir ao Protetor...
Charlie forçou uma risada ao ouvir aquilo.
— Sabe o que o Protetor me deu, Jasper Hook? Apenas sofrimento.
— Já trabalhou para ele. — afirmou.
— Eu não menti quando disse que meu pai era um caçador e trabalhou para ele. — revelou o loiro. — O Protetor só destruiu a minha família.
— Você destruiu a sua família. — disse secamente.
— Cala a boca, mestiça! — Charlie aumentou o tom de voz, pela a primeira vez saindo de si. — Você não sabe nada. Me ouviu? Você não sabe nada do que aconteceu de verdade!
O garoto tinha um revolver em mãos, e logo apontou para Jasper. O seguidor do Protetor se levantou, com as mãos para cima em uma tentativa de paz. Isso ainda deixou o Windsor em pé, com o dedo no gatilho e pronto para atirar a qualquer hora em Jasper.
Quando pensei que nada iria mudar, o jogo mudou. De novo.
O som de um tiro ecoou na sala, mas não era da arma de Charlie. O seu irmão, Connor, estava atrás, com um revolver apontando para ele. Foi uma surpresa. Um grande surpresa. O tiro foi na coxa, e logo Charlie Windsor estava no chão, sangrando, com lágrimas nos olhos e uma expressão de dor aguda que até me fazia sentir um pouco de pena dele.
Connor jogou o revolver no chão, pegando a sua mochila na mesa e a besta de Jasper. Ele parecia tão estranho antes que eu mal pude suspeitar que faria isso contra o próprio irmão. Charlie poderia ter problemas mentais sérios, mas ainda era o irmão dele. Pela a primeira vez, pude ver um olhar determinado nos olhos do rapaz, como se ele finalmente estivesse no caminho certo e 100% determinado a continuar nele.
— Vamos. — jogou a besta na direção de Jasper, que a pegou rapidamente. — Eu vou levar vocês dois a San Francisco em menos de três horas.
— Como? — perguntei.
— E se você estiver mentindo, suposto enviado de Lilith? — Jasper ainda estava paranoico.
A única coisa que o moreno fez foi abaixar a manga longa da camisa cinza até a altura do cotovelo, mostrando uma grande tatuagem de um símbolo diferente. Era um pentagrama, não invertido, porém dentro do pentagrama havia a frase: “veritas manifestetur”. E eu não fazia ideia do que ela significava.
Mas Jasper parecia saber o que era.
— Podem ir! — Charlie gritava desesperado. — Seu traidor de merda!
Connor deu um sorriso sarcástico para o irmão mais novo.
— Nos vemos depois, irmão.
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