Beautiful Curse

6 V - Dançando com o Diabo.


Notas iniciais
Olá pessoas :) Capítulo polêmico, então, se preparem...

Internato Católico para Damas, Los Angeles, Estados Unidos da América,

Sete de Dezembro de 2013,

10:03 AM.

— Dezesseis. — dizia Charlotte, com um sorriso estampado no rosto.

— Por que está tão feliz? — perguntou a garota ao lado, olhando nos olhos negros da outra. — Pensei que odiasse aniversários.

Mia Wilson era uma garota de dezesseis anos, apenas dois meses mais velha que Charlotte. Era um pouco mais baixa que as outras, com cabelos da cor negra, ondulados curtos na altura dos ombros. A morena era um pouco acima do peso, e sua pele era de um tom amarelado pálido. Os olhos tinham um tom de castanho claro.

Charlotte Brenner era magra e alta, e quase sempre parecia uma super modelo — até porque ela já trabalhava secretamente em agências de modelo, graças a mãe desesperada e o padrasto explorador. O cabelo era pintado de loiro platinado, e sua pele era branca e avermelhada. Usava uma camisa do Led Zeppelin.

Se perguntassem a uma das duas sobre o que eram, provavelmente iriam responder com a típica frase: “Somos grandes amigas”. Isso era polêmico, errado, uma vergonha para as famílias delas e mancharia a imagem do Internato. Quando se era secretamente a filha da diretora, como o caso de Charlotte, aquilo era duas vezes pior. Estaria manchando o nome dos Brenner e todo o trabalho que fizeram para inaugurar o Internato perfeito, sessenta anos atrás. Elas eram uma abominação e deveriam esconder isso para o bem do mundo.

Aquilo não era uma novidade para Charlotte. Se esconder nunca fora uma. Se escondeu a sua vida toda, e provavelmente iria morrer se escondendo. A única pessoa que a conhecia além das mentiras que contava, era Mia. A sua amiga, Alyssa, até que conhecia um pouco, mas não o suficiente.

— Vai fazer quase um ano que estamos juntas. — lembrou a outra. — Vai ignorar isso e continuar fingindo ser a filha perfeita para a sua mãe?

— Eu não finjo isso, Mia. — Charlotte dizia. — Eu sou.

E de fato, ela realmente ela.

Charlotte era atlética, tirava as melhores notas, era a melhor aluna das aulas de música, matemática e filosofia. Cantava como um anjo, era gentil e educada, fazia parte de uma família rica e misteriosa para a maioria das alunas da escola e era considerada uma das mais bonitas de todo o Internato. Jamais trouxe um único desgosto para a família. De fato, ela era a filha perfeita. Mas ainda assim a sua mãe tinha vergonha e queria consertar algo — consertar a filha que parecia não ter defeitos.

— Pode fingir que isso não existiu? — Mia perguntou, olhando nos olhos negros da outra.

Ela se aproximou de Charlotte e selou seus lábios em um beijo lento.

A porta do dormitório se abriu repentinamente, antes que Charlotte pudesse responder a pergunta da namorada. Rapidamente, Mia terminou o beijo e se distanciou da outra, apavorada. A imagem da diretora do Internato, Sra. Stevens, olhava para as garotas com uma expressão horrorizada, como se tivesse acabado de assistir um filme de terror.

Charlotte não sabia se sorria doentiamente, por a sua mãe estar vendo a filha perfeita como realmente é, ou se chorava e implorava perdão, porque as consequências iriam ser piores do que ela imaginava.

— Olá, Sra. Stevens. — disse a Brenner, enfatizando o sobrenome de casada da mãe com desdém na voz. — Pode fazer o favor de sair do meu dormitório e me deixar continuar o que estava fazendo?

Sra. Stevens mal sabia como começar a bronca. Apenas trancou a porta, certificando de que ninguém iria ver aquela cena caso precisasse intervir com algo mais rígido.

— O que diabos é isso? — disse em voz baixa, porém em um tom tão autoritário e assustador que fazia Charlotte querer chorar e se arrepender. — Você, com ela? — se segurava o máximo possível para não gritar e fazer com que todos ouvissem aquilo. Ninguém iria saber sobre essa vergonha. — Isso é uma abominação, Srta. Brenner.

Mia estava encolhida, no canto.

— E você, Srta. Wilson? — a diretora se aproximava da aluna. — O que o seu pai diria dessa abominação? — disse a última frase lentamente, sussurrando apenas para a garota, na tentativa de tortura-la (o que deu certo). — Aposto que foi você que levou a Srta. Brenner para o mal caminho, não é?!

— Chega! — Charlotte interrompeu, irada. — Você não irá continuar a falar essas merdas para ela, mãe.

— Não somos mãe e filha na escola. — lembrou a diretora, olhando irada para a aluna.

— Nunca fomos mãe e filha. — lembrou, entre os dentes.

— Ainda bem que a Srta. Wolff me avisou dessa sua imundice. — a diretora falava, soando até agradecida com isso.

— Alyssa? — perguntou, sem acreditar. — Ela te contou?

A diretora sorriu.

— Não desconfiava da sua amiguinha, não é? — dizia sorrindo.

Charlotte nunca sentiu uma corrente de raiva tão grande passando em seu corpo.

Era uma mentira. Só poderia ser. Alyssa jamais faria isso, ela era a única pessoa fora Mia que Charlotte realmente confiava. Alyssa Wolff era a sua melhor amiga, a única pessoa que de fato compreendia toda a dor que Charlotte havia passado — algo que a sua namorada, Mia, nunca entendia bem. Ontem, a Brenner se lembra de ter finalmente contado a Alyssa sobre o relacionamento que tinha.

E a desgraçada a apunhala pelas costas, contando isso para a diretora, vulgo sua mãe.

— Quero que terminem, agora. — a mulher ordenou. — Aliás, Charlotte, eu vou te mandar para um psicólogo. Isso nem ao menos é certo! Eu acho que talvez um hospício...

— Chega. — a garota a cortou, secamente.

Srta. Stevens nunca se sentiu tão desesperada e desapontada como naquela hora. A sua filha perfeita... Agindo assim? Parecia uma piada. Uma das horríveis, aliás. Demorou um pouco para falar mais alguma coisa e ter que lidar com aquilo.

Aos poucos, uma ideia eficiente de como acabar com aquilo se formava na cabeça dela.

— Chega das suas imundices. — retrucou a outra irada, porém com a voz fria e desapontada. — Eu aguentei o máximo que pude. Todos aqueles seus comportamentos estranhos, aquelas perguntas... Sempre dizem que as crianças que leem e perguntam eram as piores sabe? E você era exatamente assim. Sempre foi umas das piores. — forçou uma risada. Estava completamente desesperada para que a filha melhorasse. — Então você cresce. Eu sempre suspeitei, mas você era tão perfeita na aqui, no Internato... Nem parece ser uma pecadora. Mas você deve ser purificada. — deu uma longa pausa, descendo sua mão até o cinto. As duas adolescentes observavam aquilo atentamente, e de algum modo, sabiam que algo iria acontecer. Algo muito ruim.

E quando aconteceu, ainda assim Charlotte ficou chocada.

Odiava ser pega de surpresa. Agora sabia disso perfeitamente. Ela se sentia mais segura quando estava sobre todos, sendo a mais inteligente, a mais bonita e também, a mais poderosa. Charlotte Brenner sempre estava no poder — mesmo que ninguém percebesse isso. Estar no topo era a única garantia que jamais iria ser pega de surpresa, que jamais iria ser impotente ou sofrer.

Mas naquele instante, ela jamais havia se sentido tão impotente.

O som do tiro ecoou pelo o quarto. Mia não pode conter um grito — e nem deveria conter um. Ela caiu no chão, com o peito sangrando. Charlotte não pode conter as lágrimas, odiava chorar, mas foi involuntário. Correu na direção da garota, e quando pegou o corpo dela, já estava começando a ficar frio. Foi instantâneo, mas mesmo assim, a Brenner mal conseguia processar aquilo direito. Ela também não queria processar aquilo. Foi rápido demais. Sempre era rápido demais.

Mia ainda estava com os olhos abertos, mesmo que o seu coração já nem batesse mais. Foi fraca demais até para passar um tempo batalhando pela a sua própria vida. O olhar parecia congelado em medo e susto, e a última coisa que Charlotte queria era olhar para ele por mais um minuto. As lágrimas caiam e já estava em um ponto que a garota nem se importava mais. Mia não respirava e seu coração já não batia fazia minutos. Ela morreu.

— Oh, querida... — murmurava sua mãe, se aproximando da filha e a abraçando. A frieza pela a morte da garota era clara. — Você não tem culpa disso, sabe? É o demônio que está em você. O seu pai era um demônio. Para se purificar e ser tão pura como uma Brenner você deve cortar essas pecadoras da sua vida. — se referiu a Mia por final.

Charlotte não teve escolha que retribuir o abraço — mesmo que friamente — e fingir acreditar na mãe. Nenhuma palavra saiu da sua boca. Ela não queria falar. Nunca mais iria falar. Agora percebera o que realmente estava acontecendo. Depois de dezesseis longos anos, finalmente entendera quem Elsa Brenner Stevens era.

Ela era uma psicopata. Uma manipuladora. Alguém que mataria qualquer pessoa a qualquer hora. Que se declarava santa mas sempre carregava uma arma.

Charlotte entendeu que o seu pai não era o demônio, e sim sua mãe.

A partir daquele dia, ela aprendeu a dançar com o diabo.

[...]

Los Angeles, Estados Unidos da América,

Catorze de Janeiro de 2015,

1:07 AM.

Charlotte já deveria estar no oitavo drink, talvez o nono, já que perdera a conta há um tempo.

A única coisa que guiava o seu corpo na festa era o som da música eletrônica — que ela particularmente achava horrível — e os flashes coloridos de luz no meio da escuridão da festa. Tudo que tinha em sua cabeça era que queria ficar ali até o sol nascer. Aquilo deveria estar fazendo-a feliz. Ao menos deveria. Fazia um tempo desde que ela tivera a certeza que sentia felicidade.

A maquiagem forte escondia um pouco os seus olhos. A única coisa que ela não queria era voltar para o seu querido primo e a maldita Alyssa Wolff, e continuar aquela viagem inútil para San Francisco que O Protetor os pediu para fazer. A última coisa que ela queria fazer era seguir regras — novamente. Se Lilith quer voltar, que volte, Charlotte não dava a mínima. Mesmo que isso tivesse custado o seu corpo antes, mas agora ela estava muito bêbada para analisar isso direito.

ELa só queria escapar da realidade.

— Hey. — Um garoto a segurou pelo o braço, com um sorriso malicioso estampado em seu rosto.

— Hey. — a loira forçou um sorriso, olhando para ele.

— Então — ele começava, com os olhos castanhos brilhando. —, qual o seu nome?

— Charlotte.

— George. — disse seu nome, ainda sorrindo. — Quer que eu te apresente para um amigo meu?

— Pode ser. — soou indiferente.

George a levou para um local mais afastado da festa. Charlotte percebeu que tinha alguns adolescentes a adultos bêbados, praticamente desmaiados e alguns casais ali. A expressão de indiferença estava estampada no rosto da garota. Ela de fato não se importava. Queria apenas ficar bêbada e fazer algo que O Protetor e todo esse mudo sobrenatural mandou ela fazer.

Ela queria matar a realidade.

— Este é Scott. — George apresentou um garoto no canto.

Scott estava sentado no canto, olhando para toda aquela situação meio assustado. Charlotte achava que ele parecia um hibrido de um nerd com um indie — justamente um dos dois tipos de pessoa que ela quase nunca se simpatizava.

— Oi. — Scott disse, olhando para Charlotte.

Ela não disse nada.

— Vou deixar vocês dois aqui. — dizia George. — Aliás, esta é a primeira festa de verdade do Scott, então ele parece meio por fora, sabe? — sussurrou para a garota antes de sair.

Após a saída de George, Charlotte não teve escolha que não fosse ficar ali com o garoto estranho. Ótima situação em que ela estava. Se sentou ao lado dele sem dizer uma única palavra, apenas ficou encarando o teto e indiretamente analisando o garoto.

Scott não parecia ter mais de dezoito anos, provavelmente deveria ter dezessete, igual a Charlotte. Tinha uma pele branca avermelhada e olhos castanhos escuros, e usava óculos quadrado preto. O cabelo era raspado na lateral e ele tinha pouquíssimos fios ondulados caindo na testa. Ele tinha uma ou duas espinhas no canto do queixo, mas nada que chamasse a atenção. Usava uma camisa preta do Arctic Monkeys e uma camisa xadrez escura por cima, com um cara de quem queria ir embora logo.

— Você é uma Succubus, não? — perguntou a Charlotte, praticamente sussurrando.

Ela se surpreendeu. O híbrido imundo de um nerd com um indie sabia algo.

E isso nunca era bom.

— O que quer dizer com isso? — ela perguntou agora fingindo estar desinteressada, e sem olhar para ele.

— Quero dizer que você é uma criatura das sombras. — Scott explicou calmamente, como se fosse comum. — Talvez uma mestiça ou sei lá.

— Isso é estúpido. — comentou. — Está bêbado por final? — perguntou por final.

— Eu sinto a sua energia, e até ouvi falar de você. Charlotte Brenner a prima de Jasper Hook, certo? — Scott olhava fixamente para ela. — Meu pai é Timothy Johnson, um dos aliados do Protetor.

Charlotte teve que fazer o máximo possível para não demonstrar a surpresa que sentia.

Ele era o filho da pessoa que Alyssa e Jasper iriam encontrar a pedido do Protetor.

Ali achou a oportunidade perfeita.

— Pode me levar até o seu pai? — perguntou. — O Protetor me enviou para lá. — mentiu por final.

Talvez Timothy Johnson saiba como leva-la abrir as portas do Inferno e fazê-la ressuscitar Mia Wilson.

Notas finais
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