Beautiful Curse
4 III - O Protetor.
Notas iniciais
Jasper dirigiu até San Diego, o que não demorou muito, mas foi bem estressante.
Charlotte ficou emburrada comigo a viagem toda e me ignorou como se fosse uma criança de cinco anos. E para piorar, eu agi exatamente do mesmo jeito que ela. Eu sabia que ela estava certa — é óbvio que ela está certa. Eu fiz besteira ano passado e ela tem todo o direito de estar irada comigo — até hoje.
E de algum modo, até eu estou meio irritada comigo mesma por ter feito aquilo.
Desde do que aconteceu, Charlotte se afastou de mim e eu fiquei totalmente isolada de todos no Internato. Não foi uma experiência boa, aliás. Eu praticamente dormia nas aulas e fora delas passava o tempo todo lendo a Bíblia e refletindo sobre como demônios são horríveis — ou como eu sou horrível.
Agora que fui expulsa, estou em outra cidade, e ainda acompanhada de um estranhou e uma garota que me odeia, acho que não tenho tempo para refletir em como a vida é uma merda e como eu também sou uma.
Eu finalmente iria conhecer quem era o suposto cara que Jasper servia e que o grupinho de Chloe havia mencionado antes. E sim, eu estava com medo.
Na minha frente, havia um corredor que parecia não ter fim. Estava escuro, e não havia muita coisa que eu pudesse enxergar. Eu estava sozinha. Minhas mãos tremiam e eu não fazia a mínima ideia do que esperar.
Era onde O Protetor estava.
Dei um passo à frente, mesmo que eu quisesse dar um para trás e sair dali. Eu não fazia a mínima ideia de quem era O Protetor, e sinceramente, não queria saber. Eu estava mais preocupada com a suposta teoria de Jasper sobre uma possível volta de Lilith, e também sobre Chloe e o seu grupinho que pretende me possuir com algum demônio e me usar em algo desconhecido. Eu queria fazer algo para ajudar urgentemente.
Tantas coisas acontecendo em tão pouco tempo para mim.
Respirei fundo. Não há motivos de sentir medo. Eu não vou morrer se simplesmente encontrar o Protetor, e pensamentos sobre o que está realmente acontecendo não podem me salvar.
Tudo vai ficar bem.
Com esta mentira, eu pude seguir em frente, até o final do corredor.
No fim, tinha uma luz bem fraca, talvez era a única que iluminasse o local. A luz era uma única vela, acesa dentro de um quarto totalmente escuro. Sua porta estava aberta, então eu entrei. Era onde O Protetor deveria estar. Ou onde ele deveria estar esperando por mim.
— Alyssa Wolff. — ouvi uma voz rouca dizer o meu nome. — Finalmente estou conhecendo a cria de Aleister Belluci.
Aleister Belluci. Praticamente tremi ao ouvi aquele nome.
— Você é O Protetor? — perguntei, mesmo que não enxergasse nada.
O silêncio foi a única resposta que ele me deu.
Uma ventania no local fazia os meus cabelos voarem, mesmo que eu não fizesse ideia de onde ela exatamente vinha. Era um vento gélido e forte, do que me fazia querer correr o mais longe possível dali. Isso era no mínimo assustador. Minhas pernas tremiam e a força que eu fazia para não simplesmente correr dali era enorme. Eu não deveria estar aqui. Tudo isso não passa de uma grande idiotice sem sentido.
— Alyssa Wolff. — uma voz rouca dizia. — Alyssa Wolff. — repetiu pela a última vez.
Respirei fundo. Eu teria que lidar com isso — mesmo que eu não quisesse. Preciso entender o que realmente está acontecendo aqui.
— Quem é você? — perguntei, com a voz ainda calma.
— Nada. — a voz respondeu. — Eu sou nada.
Engoli em seco. Ótima resposta.
— Quem é você? — repeti a pergunta.
— Por que isso é tão importante? — ela rebateu.
Respirei fundo.
— Quem é você? — perguntei, agora impaciente.
— Para ser digna de saber, primeiro você deve saber quem é você. — ela disse por final.
— Eu sei quem sou! — disse. — Quem diabos é você?
A voz não respondeu.
Ninguém respondeu.
A única resposta que recebi foi um silêncio absoluto. Era horrível. O único som que eu ouvi foi a minha respiração, que deixava bem clara o medo e também a impaciência que eu sentia. Também estava desapontada. Ouvi tanto do Protetor para que o mesmo simplesmente me falasse que era um nada.
Eu estava preparada para ir.
— Ás vezes — uma voz próxima de mim dizia. —, ser um mestiço não é fácil.
Olhei para o lado, vendo um homem alto e magro de capuz escuro. A única feição que eu conseguia enxergar nele eram os olhos. Um verde e outro castanho.
— Protetor. — falei, em voz baixa.
— É como me chamam. — ele dizia. — Ouvi falar de você, Alyssa Wolff. As almas do limbo costumam a te chamar de... Bem, como posso dizer... — procurava uma palavra. — Renegada. Elas te chamam de Renegada.
— Por quê?
— Como disse antes — falava —, para que você possa me conhecer e entender o que está acontecendo, primeiro precisa conhecer a si mesma.
— Isso não faz o mínimo sentido. — disse secamente. — Obviamente, eu me conheço.
Pude ouvi-lo forçar risada.
— Tem certeza, criança? — indagava. — Você nunca de fato abriu os seus olhos. Sempre presa no mundo mortal, sempre presa em agradar aos outros... Precisa enxergar. — deu uma curta pausa, olhando fixamente nos meus olhos. — Feche seus olhos.
Involuntariamente, eu fiz o que ele disse.
Eu fechei os meus olhos.
Quando eu os abri, estava em um local totalmente diferente. Era uma casa bem isolada. E eu a conhecia perfeitamente para ter a certeza absoluta que era a dos meus avós, que ficava em uma pequena cidade do estado de Utah. Eles eram Mórmons, e quase sempre tinha uma discursão quando o assunto religião e Deus era tocado.
Uma leve brisa mexia um pouco com os meus cabelos e parecia tentar compensar o fato do sol estar terrivelmente quente naquele dia. Era verão, e eles sempre foram ruins para mim.
Andei um pouco, tentando entender o que estava acontecendo. Aquilo me parecia extremamente familiar.
Entrei na casa e tudo parecia estar exatamente igual há onze anos atrás. Na sala tinha dois sofás e uma poltrona, sem TV ou qualquer aparelho eletrônico. Meus avós eram fanáticos, então nada de TV ou qualquer coisa do gênero. Olhei para o calendário da parede. Era Julho de 2004. Não demorou muito para que eu percebesse que estava presa em uma memória da minha infância.
Uma das piores memórias da minha infância.
Ouvi as vozes de duas mulheres conversando, vindas da cozinha. As segui, vendo uma mulher idosa com olhos azuis e um cabelo castanho curto, tinha uma mulher jovem na frente dela, provavelmente na faixa dos trinta, com olhos castanhos e cabelos castanhos cacheados presos em um coque. Eram respectivamente, minha avó e minha mãe. Elas pareciam não me notar, como se eu fosse apenas mais um fantasma.
— Isso é culpa sua, Andrea. — minha avó disse, com os olhos azuis fixos na filha. — Está ouvindo o que eu estou dizendo, filha? Tudo isso é culpa sua. — falou a última frase entre os dentes.
Minha mãe, cabisbaixa, pareceu não discordar da mulher a sua frente.
— Eu deveria saber. — ela dizia em voz baixa. — Eu deveria ter previsto isso e...
— Disse bem, deveria. — a outra disse irritada. — Desde que você saiu de casa aos vinte com aquele caipira imundo e se jogou no país com ele deveria saber que o fim não iria ser feliz. Como diz na Bíblia-
— Eu sei o que diz na Bíblia, mãe. — Andrea, minha mãe, interrompeu, passando a mão nos cabelos castanhos que caiam na testa. — Mas você sabe o que era pior? Eu achava que amava o Joseph durante os quatro anos que fiquei. Assim que nos casamos, eu me sentia como a pessoa mais feliz do mundo até que ele apareceu... Seu nome era Aleister. Quando menos percebi, eu estava tendo um caso e depois engravidei de um demônio. — ela suspirou, infeliz. — E você sabe o que o Joseph fez? Ele me defendeu, mesmo que eu estivesse tão errada quanto o maldito demônio. Até assumiu a minha filha com o demônio. Aquela criatura matou pessoas inocentes e só estava me usando, e mesmo assim, eu não conseguia odiá-lo.— olhou fundo nos olhos da mãe. — Eu amei um demônio. Não há coisa pior do que isso.
— Olhe — dizia a minha avó. —, você pode voltar. Sair dessa vida imunda e se purificar de vez.
— Eu não posso. — ela soava infeliz. — Eu tive uma filha com ele. Uma criança para olhar todo o santo dia e me lembrar dele.
— Ela pensa que é filha de Joseph. — disse minha avó. — E é bom que ela pense isso. Vai demorar mais para a maldição aparecer.
— Que maldição? — uma versão minha criança apareceu, interrompendo a conversa. — O que aconteceu?
Eu deveria ter uns seis anos. Era um pouco mais baixa que as crianças da minha idade e um pouquinho mais gorda do que deveria ser. Segurava um desenho que havia feito minutos atrás. Eu me lembro que ia mostrar a minha mãe a bela árvore que desenhei, mas como a minha avó estava na cozinha, acabei mudando de ideia. Meus cabelos castanho-escuros estavam presos em uma trança e o meu olhar parecia confuso quanto as duas.
Elas ficaram sem reação com a minha presença.
— Nada, querida. — minha mãe forçou um sorriso. — Por que não volta a desenhar?
— Eu tô entediada, mamãe. Não quero mais desenhar!
— Não trouxe nenhum brinquedo, Alyssa? — minha avó perguntou secamente.
Obviamente, minha avó sempre teve um grande carinho por mim. Na verdade, ela deveria ter, mas no final nunca teve.
— Esqueci. — respondi a ela.
Minha avó revirou os olhos.
— Sua mãe me disse que você já aprendeu a ler. — dizia. — Por que não vai ler a Bíblia que está na mesa da sala? Ao menos você pratica a sua leitura.
— Mas-
— Vá, Alyssa. — minha avó me cortou. — Agora.
Suspirei, sem ter muita escolha.
— Queria que você fosse menos dura com ela. — minha mãe dizia. — Ela é apenas uma criança.
— Crianças são puras, filha. — retrucou minha avó. — Essa garota é metade demônio. Jamais será pura.
Depois disso, ninguém falou mais nada.
Minha avó voltou a cozinhar, e a minha mãe a ajudou, ambas em silêncio. O silêncio era a calmaria antes da tempestade que aconteceria depois. Infelizmente, eu sabia perfeitamente o que ia acontecer. Queria gritar, berrar, fazer o máximo possível sair daquela memória apavorante, mas eu não sabia como. A última coisa que eu queria era revivê-la novamente.
Mas não havia uma saída.
— Mamãe! — um grito agudo meu veio da sala.
Não demorou muito para que a minha mãe saísse da cozinha e visse aquela cena na sala.
Um cadáver no chão. Ainda estava fresco, o que significa que foi recente. Tinha um dos olhos arrancados e havia obviamente levados algumas facadas no abdômen, já que havia um enorme ferimento lá que ainda sangrava. O único olho que restava era o castanho e esquerdo, que ainda estava aberto e olhando fixamente para cima.
Era o meu avô.
Um corvo de apenas um olho estava ao lado do cadáver, olhando para mim. E eu apenas chorava.
A partir daquele dia tudo mudou. Minha mãe se converteu a uma igreja católica, virando uma católica extremamente devota. Quando foi em Setembro daquele ano, ela me jogou no primeiro Internato Católico que a indicaram e eu fui piorando lentamente ao passar dos anos. Tudo foi piorando lentamente ao passar dos anos.
Pisquei os olhos e estava fora daquela memória, voltando a onde estava antes; perto do Protetor no mesmo ambiente escuro e assustador.
— Você o matou. — murmurei. — Você matou o meu avô.
— Sim, Alyssa. — ele confirmou. — Eu ajo em vidas de criaturas sobrenaturais para que elas se revelem como realmente são. — deu uma pausa. — E você é a renegada, Alyssa Wolff.
Eu queria dar um tapa na cara dele.
— Você destruiu a minha vida! — gritei, irada.
— Me poupe disso, garota, por favor. — O Protetor se virou. — Ninguém arruinou a sua vida. Isso é apenas uma mentira criada pelos humanos que te criaram. — ele retirou o capuz, se revelando e mostrando o seu rosto para mim. — O que vê?
O protetor tinha a pele negra e o cabelo preto e curto. Tinha uma cicatriz no olho esquerdo, o que era o seu olho castanho. Sua barba era mal feita e ele tinha um olhar assustador para mim. Os dois olhos de cores diferentes pareciam querer me matar. Ele não parecia ter mais que vinte anos de idade.
— Eu vejo O Protetor. — respondi o óbvio. — Sem o capuz.
— Me chame de Devan Pierce, por favor. — ele pediu. — Temos um problema muito grande acontecendo e agora que você sabe quem é, eu preciso de sua ajuda e de outros mestiços como você.
— Que problema?
Ele suspirou.
— Um problema que engloba três outros problemas. — ele respondeu. — Quando voltar para Jasper, diga a ele que vocês irão a San Francisco falar com alguém que ele conhece. E diga a Charlotte que ela também está nessa.
Antes que eu pudesse falar algo, ele sumiu, como se fosse pó.
[...]
Saí de lá, me dando com um Jasper e uma Charlotte conversando fora do carro. Deveriam estar esperando por mim. A expressão de tédio absoluto na face dela era extremamente clara. Provavelmente a minha expressão de dúvida com tudo que O Protetor — ou Devan Pierce — disse deveria estar tão clara quanto o tédio de Charlotte.
— E a vadia volta. — Charlotte murmura ao olhar para mim.
— Como foi? — Jasper me perguntou assim que me viu.
Eu não fazia a mínima ideia de como deveria dizer o que aconteceu ali.
— Ele pediu para irmos a San Francisco falar com alguém que você conhece. — disse a Jasper. — E que temos um grande problema.
— Vamos a San Francisco. — ele disse, entrando no carro.
Fale com o autor