Beautiful Curse
3 II - Vestidas de Preto.
Notas iniciais
Estávamos correndo.
O meu coração batia acelerado juntamente com a minha respiração estava totalmente desregulada. A flecha não conseguiu manter Charlotte — ou a criatura que estava dentro dela — parada nem por um minuto. Ela corria atrás de nós, poderosa e pronta para destruir tudo que estivesse em seu caminho.
Uma descarga de adrenalina estava sendo disparada em todo o meu corpo, e eu tinha a sensação de que se ela me atacasse, eu atacaria de volta — mesmo que essa atitude pudesse ser impulsiva e irracional.
De algum modo, eu me importava com a situação da minha mãe agora.
Jasper Hook, um suposto enviado de um tal Protetor, corria um pouco mais à frente de mim. Possuía uma besta moderna em mãos e a sua cara não era de ser alguém muito simpático. Ele não era veloz, mas ao menos parecia tentar ser. Eu não fazia a mínima ideia de quem ele era, e nem se eu deveria confiar nele, mas ele é o primo da Charlotte e parece saber o que está acontecendo.
Quando estávamos quase descendo as escadas do primeiro andar, percebi que já não tinha mais para onde ir.
Jasper parou de correr, mas mesmo que a situação fosse assustadora, ele não parecia desesperado. Parecia estar 100% bem, ao contrário de mim, que provavelmente deveria estar com uma cara de desesperada.
Um grupo de garotas nos cercava. Elas eram no mínimo... Incomuns. Poderiam tipos físicos e traços completamente diferentes, mas usavam a mesma roupa e possuíam o mesmo tipo de atitude assustadora. Dei um passo para trás, tentando analisar a situação. Charlotte se juntou a elas, e agora sorria. Um sorriso falso e doentio, que entrava na minha mente e me fazia querer morrer.
Uma leve brisa de inverno passava entre nós, e este fora de fato o único minuto em que ficamos em puro silêncio, nos encarando. Parecia ser bem mais longo e assustador do realmente que era. Eu mal conseguia pensar direito. As coisas aconteciam muito rápido.
Sete garotas nos cercavam. Usavam um vestido longo com um capuz negro, e todas usavam óculos. Suas expressões eram frias e mórbidas, o que seria digno para um filme de terror.
Mas a vida é praticamente um filme de terror.
— Jasper Hook e... — dizia a mais baixa delas, tirando os óculos escuros e revelando os olhos verdes. Seu olhar foi para mim. — Alyssa Wolff, certo?
Preferi não confirmar nada.
— O que você quer, Chloe? — Jasper perguntou, com os olhos fixos na garota. Disse o nome dela com desprezo. — Não me diga que-
— Shh, caçador, apenas fique quieto. — Chloe o interrompeu, agora andando em minha direção. — Eu quero falar com a mestiça.
Chloe se aproximou de mim e retirou o chapéu, olhando fixamente no meu rosto. Parecia analisar cada milímetro da minha face. Seus olhos verdes eram elétricos e profundos, e tive a sensação de que eles iriam me matar caso eu continuasse os olhando. Eu estava ao ponto de empurrá-la e fazer alguma coisa estúpida, mas fiquei quieta, sem saber o que esperar daquela situação.
Uma gota de sangue da minha mão caiu no chão. Obviamente, socar o espelho antes não foi uma atitude inteligente. O som do sangue caindo no chão pareceu ser uma bomba em meio e um silêncio tão profundo como aquele. O meu coração batia tão rapidamente que eu jamais pensaria que seria possível um coração bater tão rápido assim. Minhas mãos suavam, e a sensação de não poder pensar em algo inteligente era apavorante.
— Realmente, — Chloe dizia, se afastando de mim. — Charlotte foi uma opção melhor de possessão. — as outras garotas riram.
— Eu vou te matar. — Jasper dizia entre os dentes, encarando a garota.
Ela riu.
— Fique quieto, sotaque inglês. — zombava. — Foi bom te conhecer, mestiça. — disse para mim, virando as costas. — Mate-a. — ordenou para uma das garotas.
— Não! — ele protestou. — O Protetor me mandou para leva-la, Chloe. Você não pode simplesmente matar toda a mestiça que achar. Isso é idiota e sem sentido algum.
Ela não disse uma única palavra.
Eu tive a sensação de que iria morrer naquela hora.
Um grito agudo ecoou em todo o local. Vinha de Chloe. A mesma estava no chão, de joelhos, com lágrimas nos olhos e sangrando muito. Tinha uma flecha em seu peito. Eu paralisei ao ver aquilo. Olhei para Jasper, o causador do ataque, que estranhamente, sorriu com aquela cena. Mas era um sorriso vazio. Não parecia ser real para mim.
Jasper acertou outras duas garotas em pouquíssimo tempo e correu na direção de Charlotte, agora com uma faca na manga — literalmente. Ela o jogou na parede, irada, mas ele lançou uma faca bem na direção do abdômen da mesma. Tinha uma boa mira, boa até demais. Aquilo foi no mínimo, incrível.
Ela caiu no chão, e eu percebi que todas as outras quatro garotas não feridas do grupinho da Chloe caíram no chão ao mesmo tempo, exatamente como Charlotte. Eu não tive muito tempo para pensar nisso. Pensar na possibilidade que talvez ela fosse um tipo de força para o grupinho não era algo que eu tinha tempo naquele instante.
Jasper se levantou e correu na direção de uma Charlotte desmaiada e a carregou.
— Vamos vazar daqui. — disse para mim. — Agora.
Olhei para ele, assustada, porém sem escolha alguma que não fosse segui-lo.
Descemos as escadas na correria, e por mais que eu temesse tropeçar em algum degrau, eu acabei não tropeçando de fato. Quando descemos todas as escadas, eu percebi algumas freiras andando calmamente e conversando entre outras, como se nada disso estivesse acontecendo. Parecia que estávamos em realidades diferentes.
Estávamos fora do Internato e ele foi ao primeiro carro vermelho, abrindo a porta de trás, colocando o Charlotte lá. Era um carro vermelho, provavelmente dos anos 90, e não estava em um bom estado. Ele se sentou no assento do motorista e eu me sentei ao do lado.
A partida foi dada e logo estávamos longe dali.
[...]
— Charlotte vai ficar bem? — perguntei a ele, antes de tomar um gole de Coca-Cola.
Deveria ser umas duas horas da tarde, e estávamos em uma lanchonete pequena, bem longe do Internato. Charlotte estava no carro, ainda apagada no banco de trás. Não falei muita coisa com ele. Estava assustada demais para conseguir fazer alguma pergunta sobre o que realmente tinha acontecido no Internato horas atrás.
Jasper estava com os olhos cor de mel fixos no cigarro na sua mão esquerda e realmente parecia estar bem distraído apenas com isso. Ele era alto, usava uma jaqueta de couro e tinha uma barba rala no queixo. Provavelmente deveria ter por volta dos dezoito ou dezenove anos, o que não era muito mais velho que eu, que fazia dezessete hoje. Usava uma touca cinza, que deixava alguns cachos ruivos bagunçados caírem na sua face.
— Sim. — ele respondeu, ainda com o olhar fixo no cigarro. Deu uma última tragada e moveu o seu olhar para mim. — Desculpe-me pelo o que aconteceu mais cedo, no orfanato. Deve ter sido muito assustador para você lidar com As Escolhidas pela a primeira vez.
— As Escolhidas? — falei. — É assim que aquelas garotas vestidas de preto se chamam?
Jasper assentiu.
— São apenas bruxas seguidoras de Johanne Murray. — ele dizia calmamente. — Creio que nunca ouviu falar dela.
— Johanne Murray era o quê? — indaguei, curiosa.
— Uma necromante. — seu olhar desviou para a janela ao lado da nossa mesa. — Seguidora de uma filosofia de matar todos os mestiços como você.
Engoli aquilo em seco.
— Charlotte era uma mestiça então.
Ele assentiu novamente.
— Elas são poderosas. Eu aposto que Chloe não morreu hoje. — dizia indiferente. — Elas voltarão e virão atrás de você. Até conseguiram criar uma espécie de véu entre os mortais e humanos no Internato, para que eles não vissem o conflito. Isso é uma magia muito poderosa.
Suspirei. Então a minha mãe não viu nada do que aconteceu.
— Mas Charlotte vai ficar bem? — perguntei. — Foi tudo tão estranho hoje.
— Eu só quero que saiba que a pessoa que te atacou hoje e te fez ser expulsa não foi Charlotte. Foi um demônio. Eu não tenho certeza de quem esse demônio realmente é, e nem quero saber. — ele respirou fundo, agora olhando para mim. Parecia que tinha algo a mais. — Quando o Protetor me mandou aqui, ele me pediu para resgatar uma mestiça. De início, achei que fosse ela, já que estudava lá. Mas... Era você o tempo todo.
— Quem é esse tal de Protetor e qual o problema que ele tem com demônios como eu? — fiz a milésima pergunta. — Isso não faz sentido.
— Pare de perguntar, por favor. — Jasper pediu. — Você vai conhece-lo. Se tivermos sorte, chegaremos em San Diego ainda hoje. — deu uma curta pausa. — Você era amiga da Charlotte?
— Eu era. — respondi. — Nos afastamos muito no ano passado.
A conversa foi interrompida com uma garota entrando na lanchonete.
— J-Jasper? — a loira perguntou olhando para o caçador.
— Finalmente. — disse Jasper, olhando para a garota. — Você está bem?
— Chloe e aquelas vadias acabaram me pegando de verdade? — Charlotte se sentou ao lado do primo. — Não acredito.
E eu pude ter certeza que ela voltou ao normal só de ouvir aquela frase.
A Charlotte que eu conhecia era ácida, sarcástica e ás vezes tinha uma tendência de ser arrogante. Ela sempre pintou o cabelo de loiro platinado — apenas eu sei que a cor de cabelo dela natural é castanho claro —, usava roupas escuras, falava palavrões e bebia desde os treze. Não era uma boa influência, claro. Mas quando eu estava no Internato, ela era a única pessoa que me entendia. Se não fosse ela, provavelmente eu teria me matado ou feito coisa pior. Tudo estava bem entre nós até acontecer o maldito desastre do ano passado.
O desastre foi quando nos afastamos e criamos ódio uma da outra.
— Sim. — Jasper confirmou. — Elas queriam realizar um pequeno plano em você. — olhou para o abdômen da garota. — Você se curou da facada que dei. Significa que o demônio foi embora.
— Merda. — ela murmurou, parecia ignorar a minha presença. — E quem será a próxima bonequinha de testes do grupinho ridículo da Chloe?
— Alyssa. — o ruivo respondeu, olhando para mim.
— Ela?! Sério mesmo? — a loira perguntou para Jasper. — Pensei que Chloe fosse mais inteligente em suas escolhas. Essa idiota não vale nem pra uma possessão. — deu uma risadinha forçada.
— Desculpe pelo o que aconteceu, ok? — disse, tocando no assunto do desastre. — Já faz um ano, você deveria parar com...
— Eu jamais irei esquecer daquele dia, entendeu, Alyssa? — ela me olhava com raiva. — Podemos estar juntas nessa, mas eu juro que jamais irei te perdoar pela a desgraça que você fez.
O clima ficou tenso.
— Quantos pedidos de desculpa você quer que eu dê? — disse, irritada. — Eu fiz de tudo e parece que você só sabe reviver a droga do passado!
— Eu morri naquele dia também, sabia? — ela aumentou o tom de voz, chamando a atenção. — A antiga eu boba que te apoiava em qualquer droga que você fazia morreu naquele dia.
O clima tinha ficado tenso.
— Parem, por favor. — o outro pediu, olhando para nós sem entender nada. — Temos coisas maiores para resolver.
A loira bufou, irada.
— Vou voltar para o carro. — ela disse, sem olhar para mim. — Não estou afim de conversa.
Antes que nós dois falássemos qualquer coisa, Charlotte saiu, batendo a porta da lanchonete com força. Uma garçonete olhou para nós, juntamente com alguns clientes do fundo, com um olhar perplexo.
— Olhe, eu não quero saber o que diabos aconteceu entre você e ela. — dizia Jasper. — Mas eu preciso falar com você para saber se está preparada.
— Preparada para o quê?
Ele demorou um pouco para responder.
— As coisas estão indo muito mal ultimamente, sabe? — iniciava. — O Protetor acha que tem algum confronto entre algumas criaturas sobrenaturais aqui da Terra, mas eu temo que seja algo muito maior do que alguns mestiços irritados lutando com lobos ou bruxas. — deu uma pausa. — Eu acho que o Apocalipse está chegando.
Eu quase ri da cara dele.
— Apocalipse? Sério? — tentei não forçar um riso. — Jesus vai voltar e nos mandar para o Inferno, certo?
— Não esse Apocalipse. — desmentiu. — Lilith está chegando. Eu acho que foi a própria que possuiu Charlotte mais cedo.
Lilith, a primeira mulher.
Eu ouvi falar sobre ela. Todo o mestiço já ouvira falar da história da primeira mulher, antes de Eva, que havia se rebelado contra a luz e escolhido a escuridão, tornando-se a primeira Succubus e gerando quase todos os demônios atuais.
Mas eu nunca acreditei que fosse verdade.
— E se ela estiver vindo... — disse, mesmo que não acreditasse nisso. — O que ela iria querer?
— A maior riqueza existente. — respondeu o ruivo. — As almas de cada ser vivo da Terra. E ela usará mestiços como você para isso.
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