Bia odiava se atrasar. Era sempre a primeira a chegar aos lugares, no limite adequado da inconveniência. Todavia, em padrões recifenses, meia hora não é atraso. Normalmente as pessoas saem de casa no horário estipulado para o início da festa e ela detestava isso. Mas já tinha passado meia hora desse prazo. E seu pai nem tinha chegado em casa ainda.

Por isso ela ficou emburrada, como normalmente ficava quando não conseguia o que queria. Sua mãe tentava lhe animar, mas isso só a deixava ainda mais estressada. E Beatrice tinha andado muito mau humorada, demais para a mãe ainda insistir em acalmá-la.

Existiam alternativas ao plano original de Bia ir para a festa da melhor amiga, Júlia, com o pai, mas elas não eram viáveis. Eles jamais deixariam a filha pegar um taxi, era muito perigoso. Clarisse, a mãe, poderia levá-la se não tivesse torcido o tornozelo fazendo qualquer coisa radical para se sentir jovem novamente.

No outro dia, Bia encontrou a solução: Clarisse teria ido com ela. Júlia tinha deixado claro que não queria nenhum pai ou mãe na sua festa, mas suas mães são amigas de infância. Elas poderiam ter passado a noite conversando e bebendo vinho no apartamento.

Como sempre, as melhores ideias vêm nas piores horas.

E Bia foi à festa, afinal. Uma hora e meia atrasada, mas ela chegou lá.

– Tem certeza que não quer jogar Verdade ou Desafio com a gente, Bia? – Valentina chamava a cada cinco minutos. Bia não respondia. – Tudo bem, a gente começa sem você.

Saiu do salão e sentou-se à borda da piscina, ainda um pouco irritada. Ela não queria jogar esse jogo idiota que é usado como uma desculpa para beijar os outros sem ser julgado, digamos assim. Júlia foi quem teve a ideia. Ela se achava velha demais para não ter dado o primeiro beijo ainda. Bia discordava, Júlia tinha feito doze anos no dia anterior.

– Não está muito frio aqui fora para você deixar seus pés na água assim?

Bia surpreendeu-se com a súbita aparição do melhor amigo. Sim, ela podia chamar Matheus assim. Qual outro nome daria para quem estava sempre por perto e a entendia mais que ela mesma?

– Não me incomoda – replicou.

A água a acalmava. Não se sabe de onde isso veio, mas a água fria sempre surtiu esse efeito. Provavelmente Alexandre teria alguma explicação científica sobre hormônios ou algo parecido, mas Beatrice estava deixando de se interessar por isso. Pensar no seu pai provocou nela uma careta.

– O que foi, Bia?

Balançou a cabeça para os lados em negativa, como sempre fazia quando queria afastar alguém de seus problemas. Ou quando queria esquivar-se de alguém querendo saber deles.

Mas era Matheus.

Ele abraçou-lhe e ela se permitiu desabar em seus braços. Tentou não chorar, não para passar uma imagem de durona, mas para não precisar explicar nada a ninguém. Contudo, uma ou outra lágrima escaparam.

Ela não precisou dizer nada para Matheus entender que tinha alguma coisa errada. Mesmo assim, desabafou porque era bom para ela. Explicou tudo a ele. Além do seu mau humor habitual do último ano, a raiva que sintia pelo pai crescia cada vez mais. Ele vivia ausente e apesar de ter acontecido durante sua vida inteira, agora isso a incomodava. E ele não podia mais pagar com historinhas.

– Eu gosto das histórias – foi o único comentário de Matheus.

Ele tinha um sorriso idiota nos lábios enquanto Bia mantinha uma expressão surpresa. Ela não acreditava que era tudo o que ele tinha para dizer. Mas não deveria. Não era surpresa nenhuma ele fazer piadas idiotas para descontrair.

– Pelo amor de Deus, Mati – Bia entrou na brincadeira. – Ninguém aguenta mais me ouvir falar tanto. Eu aposto que quando a gente começar a estudar química eles vão querer explodir o professor. Ou me explodir!

Matheus não falou nada e Bia aceitou isso como uma rendição e daí surgiu uma conversa. Em algum momento, ele comentou que deviam voltar para o salão, pois não é educado deixar a aniversariante de lado. No entanto, Bia queria ficar mais um pouco para se acalmar, então pediu para ele ir na frente.

Antes de sair, Matheus lhe um beijo. Na boca, o primeiro.