Beatrice e Matheus
6 Amigos
Notas iniciais
A segunda metade do ano de 2007 foi complicada para Beatrice. Pensava ter sido abandonada pelo pai, o que era, para ela algo muito difícil de aceitar. Por outro lado – e talvez por causa disso – aos onze, Bia se viu cercada pelos melhores amigos que poderia pedir, amigos que faziam de tudo para ela se sentir melhor. Não adiantava muito, entretanto, pois Bia tinha uma personalidade forte e emburrada, mas, ainda assim, seus amigos faziam um grande esforço.
Em setembro, no feriado prolongado da independência, Júlia deu sua contribuição. Chamou Bia para passar o fim de semana na praia. Fez um comentário sobre o surf onde a parte mais legal serem as quedas, porque, depois delas, ficar de pé é gratificante. Típico de Júlia, fazer comentários positivos sobre tudo, enquanto Bia imaginava se ela não fazia uma metáfora brega de sua situação.
Depois disso, na virada do ano de 2007 para 2008, quando Alexandre decidiu não passar o ano novo com Bia e a mãe, foi a vez de Valentina entrar em ação. Passaram o réveillon juntas, na festa de sempre e com as pessoas de sempre. Não havia nenhum motivo para sentir-se envergonhada, mas não ter o pai ali era um motivo de derrota para Bia. A família dela era só mais uma destruída com o passar do tempo.
— Bia, minha primeira promessa de ano novo vai ser não deixar ninguém te machucar tanto assim de novo – gritou Valentina, superando o barulho dos fogos e de tantos desejos de feliz ano novo.
Se a promessa era só para o ano corrente, então tudo bem. Porém, fosse ela vitalícia, era equivocada. Bia, como qualquer outra pessoa, tinha sua parcela de sofrimento aqui na Terra. Mas não vamos adiantar as coisas. Muito de bom ainda vai acontecer até outro coração partido. E é normal: é só a vida sendo cíclica.
Matheus sempre esteve ao lado de Bia em qualquer ocasião, então quando ela mais precisava dele, ele não podia ausentar-se. Numa quarta-feira de aula, no dia seguinte ao seu aniversário de doze anos, Bia tinha chegado na escola reclamando sobre mais uma ausência do pai. Alexandre deveria ter aparecido para jantar com Bia e Clarisse, a mãe dela, mas não foi. Tudo o que ela ganhou do pai foi uma ligação. Uma desculpa, claro, mas ela estava cansada de ficar em segundo lugar, preterida pelos problemas da faculdade ou da indústria. Ela passou o dia todo de cara fechada por causa disso.
— Eu não sei como é passar pelo que você está passando – Matheus abordou a amiga no final da aula, no hall de entrada da escola. – Não faço ideia de porque você ainda está tão chateada depois de quase um ano. Mas todo mundo está tentando te deixar melhor. E ninguém mais sabe o que tentar. Então, se você está dando uma de Bela Adormecida, eu posso até te beijar para ver se você acorda.
Ele soltou acidentalmente a última parte, arrependeu-se e saiu correndo para o carro da mãe.
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