Clarisse não é boa em aconselhar. Quando era mais nova, suas amigas evitavam contar-lhe seus problemas, pois sabiam da sua condição. Ela pensava que a maternidade lhe traria tal habilidade, mas aconteceu o inverso. Os conselhos da mãe eram os que Beatrice mais rejeitava.

Assim sendo, Clarisse ficou, tanto quanto pôde, calada durante o desentendimento entre Bia e Matheus naquelas férias.

Deve haver um código universal declarando a obrigação das mães em tentar prover ou manter a felicidade dos filhos. Todas elas fazem o possível e, se possível, o impossível, a fim de cumprir com seu dever. E Clarisse não era diferente. Não considerava a decisão de Bia não falar com Matheus prudente. Então, ela tentou. Pediu para Olívia conversar com a prima sobre o assunto. Bia não a ouviu. Era uma criança de 12 anos, mas se considerava madura, conforme a explicação de Olívia. Pediu para Guilherme, mas eles não tinham tanta intimidade. Pediu, até, ao próprio Matheus para dar um fim nessa briguinha, mas ele não quis.

Por fim, cabia a ela convencer a filha a voltar a falar com o melhor amigo.

— Beatrice, eu acho que você deveria conversar com Matheus — mencionou enquanto preparavam-se para a festa de réveillon.

De forma alguma foi uma abordagem boa, mas Clarisse não sabia como fazê-la. Sempre chamou Bia de Beatrice. Nomeou a filha para ser chamada por um nome e não por um apelido tão comum, que fora atribuído por Alexandre. Também não era de ficar fazendo voltas para chegar num ponto. Se queria dizer alguma coisa, não tinha necessidade de falar um monte de outras abobrinhas para chegar lá. Soou um pouco rude.

A resposta de Bia foi um “está certo, mãe” num tom irônico habitual a adolescentes.

Ela sabia que Clarisse estava certa, assim como Olívia, Guilherme e até Isabelle. Todos eles passaram os últimos dias tentando convencer os amigos a deixarem de pirraça. Não aguentava mais ignorar Matheus. Ela só não queria dar o primeiro passo. Estava conhecendo uma coisa chamada orgulho, mas não sabia o quão perigoso ele era.

Mas não demorou muito e a briga estava encerrada. Durou apenas um dia e meio. Na virada do ano, enquanto todos abraçavam-se e desejavam as boas novas, eles fizeram as pazes. Seria não só mal educado, como também esquisito da parte de Bia e Mati se eles não se abraçassem na queima de fogos.

Matheus deu o primeiro passo.

— Tudo bem, amarelo é sódio — comentou, apontando para os fogos de artifício — mas não tem só amarelo.

Bia sorriu de orelha a orelha. Abraçou Matheus mais uma vez, mais que o abraço educado de feliz ano novo.

— Azul claro é formado por cobre e laranja é cálcio. Isso é tudo o que eu sei.

Foi quando Bia percebeu quão bobo era prolongar uma briga com Mati por causa de alguém como Caio. Eles são melhores amigos; sempre brigam, mas nunca passam muito tempo brigados.

— Feliz ano novo, Bia. — Ele desejou quando ainda estavam abraçados.

— Feliz ano novo, Mati.