BeastHunter D
1 Prólogo
Notas iniciais
Comprimento (cascos)
1 casco = 25 cm
Massa (varós)
1 varó = 2kg
Soldado vermelho— Um dragão vermelho áptero. Besta reptiliana gigantesca, com 92 cascos de altura quando de pé em duas patas. A cauda comprida e pesada usada para chicotear tem 30 cascos de comprimento pesa cerca de 70 mil varós. Tem as escamas vermelhas e placas ossudas saindo da cabeça, costas e cauda. Desprovido de asas, já foi visto matando humanos. Carnívoro, agressivo e muito perigoso. Apenas um espécime avistado até hoje.
19º dia do mês Negro de XX97
O laboratório era iluminado por duas lâmpadas de vapor de mercúrio de alta pressão, presas em cantos opostos da sala retangular. Encostado nas paredes de pedra do porão do castelo onde estava localizado, estavam inúmeras estantes repletas de vastos livros empoeirados, pergaminhos, manuscritos de pesquisa, frascos de substâncias variadas e muita poeira. No canto entre as prateleiras abarrotadas de livros, uma placa na parede, de cor verde-esmeralda, nela gravada o lema da alquimia.
No centro da sala estavam algumas mesas de trabalho, colocadas em paralelo, onde jaziam mais livros, frascos, béqueres e provetas, maçaricos, pinças e até mesmo corpos costurados, experiências momentaneamente abandonadas por uma urgência maior. Ao redor das mesas, a equipe mista de alquimistas, fármacos e filósofos das mais variadas nacionalidades trabalhava agilmente desafiando as leis da morte.
Sob a mesa principal repousava Drika, a garota recém-nascida, de cabelos e olhos negros, frágil manifestação da vida. Ou quase. O parto havia acabado meia hora atrás, porém a bebê, diferente do esperado, não chorou. Permaneceu imóvel. Quase uma boneca de porcelana, exceto talvez pelas manchas negras que maculavam seu corpo. A equipe chegou à conclusão que era devido a uma deficiência no sangue, incurável. Provavelmente já teria morrido sob condições normais, mas sendo filha do casal de Virtino e Karytta Salvatore, membros elementares do projeto BEAST, a equipe dispôs de todo seu tempo para lutar pela garota. Essa era a segunda gravidez de Karytta, a primeira foi natimorta, o que levou o casal a se afundar em uma tristeza profunda. Eles não suportariam aquilo novamente. Karytta não suportaria.
Carvender olhou para Virtino. Ele segurava a mão de Karytta, desmaiada devido ao trabalho de parto. Acenou chamando-o para perto. Virtino levantou e caminhou com pesar nos olhos:
— Ela vai morrer em breve. Não sabemos como curá-la. — disse, com o semblante sombrio.
— Nem mesmo o tratamento de Ge Hong deu certo? — O recém-pai estava desesperado.
— Nem mesmo, Tino. Estamos prestes a tomar medidas drásticas, mas precisamos da sua autorização. — Carvender não queria dizer aquilo, mas eles estavam ficando sem mais opções.
— Está falando de usá-la como cobaia, Carvender?! Ela é minha filha, não um desses homúnculos que temos para pesquisa! – Ao gritar, Virtino percebeu sua exaltação. Respirou fundo e tentou se acalmar — Além disso, o procedimento BLOOD ainda não está completo.
— Não disse isso, ninguém falou de cobaia! Ela está morrendo, droga! A gente precisa fazer algo! Isso é uma emergência e nossa pesquisa experimental pode ser a melhor chance que ela tem de sobreviver, você sabe muito bem disso, porque se não fizermos nada, ela vai morrer! E exatamente, não está completo ainda porque não testamos em nenhum humano vivo ainda.
— Mas iremos testar, num dos prisioneiros condenados a morte daqui a duas semanas, para ver se é seguro e conclusivo. Eu não vou entregar minha filha para a droga de uma experiência, ela pode morrer se algo dar errado!
— De fato vamos, mas ela não tem duas semanas, Tino. Eu sei que não é fácil tomar essa decisão, mas você sabe que é o certo a se fazer! Ela vai morrer de qualquer jeito, essa é a melhor chance dela!
— Karytta não concordaria... – disse, olhando para a esposa deitada inconsciente.
— Mas ela não pode responder agora. Desculpe, mas a decisão é sua. Vamos, Tino. E Karytta não gostaria que sua pequena filha morresse, isso sim! – Carvender exclamou olhando diretamente nos olhos cor de mel de Virtino, num gesto apelativo. Mesmo na penumbra do laboratório, seus olhos ainda cintilavam como sempre – Só diga sim e começamos a trabalhar.
— Droga! – bufou e xingou, amaldiçoou os deuses com lágrimas nos olhos, não iriam lhe tirar outra criança, eles não tinham o direito – tudo bem então! Faça o que tiver que fazer! Mas escute bem, Carvender. — apontou o dedo no rosto de Carvender e falou com frieza — É melhor que salvem a minha filha ou você vai se arrepender muito disso!
Carvender mal ouviu a resposta e já saiu organizando os outros alquimistas e fármacos, explicando o que seria feito e os efeitos colaterais. Alberto Magno preparou uma solução com arsênico que usava para conservar os homúnculos, Connie Oak adicionou solvente de terebintina na mistura, Ge Hong cuidava para que tudo estivesse em seu devido lugar na hora de colocar a agulha na garota. Virtino acompanhava de perto o desenrolar da operação, ciente do que tinha feito, mas andava para um lado e para o outro do laboratório de pedra, não deixando sua esposa sozinha.
Duas horas se passaram, o sangue de Drika fora totalmente substituído por um sangue artificial superpotente criado pela equipe. Esse sangue era um dos cinco experimentos cruciais que o projeto BEAST tem como objetivo, projeto que há anos vem se desenrolando naquela masmorra. Ele deveria funcionar como uma panaceia, um elixir dentro do indivíduo capaz de curar todas as doenças e fortalecê-lo, uma tentativa de prolongar a expectativa de vida humana, pedido realizado pelo próprio Sol vivo, isso é, o Rei de Smaragdina. Porém, tal fluído ainda estava em estágio de testes quando fora injetado no pequeno bebê.
Como reação ao procedimento, as manchas negras em sua pele sumiram gradativamente, e as cerdas escuras de seu cabelo se esmaeceram como efeito do sangue, alcançando uma cor leitosa. As maçãs coradas e febris do rosto da neném empalideceram. Porém, a garota finalmente foi reanimada e chorou. Karytta havia acordado há pouco e tratou de cuidar e amamentar a sua garotinha.
BLOOD ainda não estava completo, mas graças ao experimento com Drika, ele pode ser aperfeiçoado e concluído futuramente. Aquela ocasião indiretamente se demonstrou um grande avanço para o projeto BEAST. Nos meses seguintes, a garota continuou em observação mas, para a felicidade do casal Salvatore, nunca houve nenhuma complicação de saúde. Ela cresceu forte e saudável e os acontecimentos que marcaram seu nascimento se tornaram apenas uma vaga lembrança com o tempo.
* * *
14º dia do mês Plúmbeo de X196
Drika levantou da cama improvisada ao som da trombeta da oitava hora. Nos primeiros minutos acordada, era difícil manter as pálpebras abertas, como se houvesse areia no cantos dos olhos. Limpou-os, lavou o rosto e se vestiu. Desde que se entendia por gente, isso é, há oito anos, uma vez por mês ela devia descer as escadas até o mais profundo salão do castelo de Conditoris, onde seus pais e outras pessoas trabalhavam para o Rei. Ela nunca entendeu direito o motivo, mas sempre considerava uma aventura descer até aquele laboratório mal iluminado e cheio de livros, que a garota amava xeretar e tentar ler, mesmo que não entendesse todos.
Descendo as escadas do dormitório até onde o laboratório na masmorra, onde a luz não chegava mais e as cores tremulavam devido às tochas presas à parede antiga de pedra, ia repassando tudo que sabia sobre o laboratório na sua mente. Desde pequena, seus pais trabalhavam com outras pessoas de jaleco naquele local escondido, numa pesquisa que era muito secreta, mas seu pai tinha dito que era muito importante. Ia andando distraída quando quase trombou com Karytta:
— Olá, mamãe.
— Olá, minha princesinha – a mãe acariciou os cabelos brancos da filha – Já estava indo buscá-la. Pronta para ser pesada e medida pela tia Connie?
— A balança é muito gelada pros meus pés, mamãe. — a garota fez uma cara de choro que quase derreteu o coração da mãe.
— Mas você consegue — sorriu gentilmente afagando os cabelos alvos da filha — São só alguns minutinhos.
— Mas por que tenho que ser medida?
— Eu já te contei, você sabe bem. Quando você nasceu, você passou por uma condição muito especial. Foi nesse dia que você ganhou esses cabelinhos de nuvem, sabia? Você nasceu com os cabelos pretos como asa de corvo, mas agora eles são brancos como as asas de uma garça. E eu fiquei tão feliz quando você chorou.
— Eu sei, eu sei. Condição especial. Sempre dizem isso – a garota falou em tom manhoso.
— Vamos, Connie e Carvender estão esperando. – a mãe sorriu, seus olhos eram tão escuros quanto o da filha, o próprio retrato do universo.
— Tá bom, mas depois eu vou querer algum livro de presente – Drika abraçou o braço da mãe e a acompanhou.
* * *
Alberto foi até a prateleira, procurou o frasco de potassa cáustica e adicionou ao tanque de onde Drika só conseguia ver a silhueta de uma criatura. Seu pai aproximou cabos e jogou no tanque, e puxando uma chave-de-força, liberou eletricidade na criatura, que se agitou no tanque. Malya tomava nota de tudo ao lado de Virtino. Drika estava tão fascinada assistindo a cena que não prestava atenção em Connie que falava com ela:
— Toc toc – a alquimista de jaleco cutucou a testa da garota para que ela prestasse atenção – Perdeu alguma coisa ali, Drika?
— Ah, desculpe, tia Connie. – um leve rubor tomou conta de suas bochechas – O que eles estão fazendo?
— Um experimento do projeto SYNTHESIS, mas não tem que se preocupar. Agora levante os braços e respire fundo – a garota obedeceu. Parou de olhar para o tanque com a criatura e olhou para a doutora de cabelos castanhos claros, sardas e olhos verdes – Sabia que logo logo a pesquisa BEAST vai terminar e você não vai mais ter que vir aqui em baixo no porão?
— Sério? – Drika ficou surpresa, era a primeira vez que ela ouvia algo sobre isso. Olhou para sua mãe – Isso é verdade, mamãe?
— Sim, meu bem. SYNTHESIS está nos seus pontos finais e TRANSMUTATION está quase. Assim que completarmos tudo certinho, finalmente teremos concluído o projeto BEAST. O Sol vivo ficará orgulhoso da nossa equipe – sorriu revelando covinhas que Drika não havia herdado.
— Com certeza, o que nós fazemos aqui é muito importante. Vai revolucionar o reino de Smaragdina. Podemos estar perto de criar a verdadeira panaceia, capaz de curar todas as doenças, sabia? Já pensou que incrível? – Connie falava enquanto passava uma fita métrica ao redor da cintura de Drika.
— É mesmo? – os olhos da criança brilhavam entusiasmados – Todas as doenças?
— Sim, todas! E grande parte disso se deve a você, sabia? Sei que é chato ficar descendo aqui no porão todos os meses, mas nós aprendemos e progredimos muito com você, Drika. – tirou a fita e anotou no caderno o resultado – Hmmm, parece que você emagreceu.
— Como assim graças a mim, tia Connie? – Karytta olhou para a colega de laboratório com olhar de reprovação, como se a outra houvesse falado demais, mas Drika não reparou – Eu sou importante?
— Claro que é – apontou para Carvender com a balança de metal e mudou de assunto – Vá lá para medir seu peso e altura. Você está crescendo, vai virar uma mocinha em breve.
— Vou ser bonita, forte e inteligente que nem a minha mãe – A garota de cabelos brancos e olhos negros exclamou. Ao ouvir isso, Karytta sorriu.
* * *
Drika havia acabado de ser pesada. Carvender espetou o indicador da mão esquerda da garota com um alfinete e a deixou para estudar a gota de sangue no microscópio. Ela pôs o dedo na boca e caminhou até perto do tanque com a criatura estranha, onde seu pai lia alguns pergaminhos.
— O que é esse bicho, papai? – ela olhava atentamente sem deixar nada.
— É um animal que Zósimo está tentando criar. – Apontou para o colega de laboratório – com o que você acha que ele se parece, amorzinho?
— Ele tem um corpo de leão, mas tem cara de pássaro. Eu nunca vi nada assim. Que engraçado.
— É porque eles não existem. Esse é o primeiro. Estamos trabalhando para que ele exista. – ele disse calmamente – o nome dele é grifo.
— E por que vocês estão criando um grivo? – ela parecia confusa em sua curiosidade infantil, o dedo furado na boca e uma mecha branca sobre os olhos.
— Grivo não, grifo. Eu sei, é um nome estranho. Que nem Zósimo. Vai ver ele gosta de nomes assim. Estamos tentando criar montarias que voam para podermos viajar mais rápido de um lugar para o outro e assim ajudarmos mais pessoas.
— Então o... – ela parou e disse devagar- ... O grifo vai voar? Eu quero voar em um. Eu posso, papai?
— Hmm, eu não sei. Pode ser perigoso. – ele olhava pra cima pensativo, como se estivesse imaginando a cena — Mas se sua mãe deixar, tudo bem. Mas agora está na hora de você subir para dormitório. Daqui a algumas horas eu e sua mãe voltamos para lá, ok?
— Aaah, tá bom. – ela parecia chateada, ficar sozinha por horas era muito frustrante para uma criança – Mas voltem logo.
— Pode deixar, agora vá lá – apontou para a escadaria e ela foi, sem antes pegar um pergaminho na mesa de Connie para passar o resto da tarde lendo tentando entender.
Ao subir as escadas, passou por vários soldados feridos sendo levados em macas. Essa cena já era bastante comum, mas ela sempre se espantava ao vê-los dilacerados pela guerra. E pior, uma guerra contra a natureza. Sua mãe havia contado a verdade por trás daquela guerra e ela se lembrava bem.
A família real possuía um palácio de verão numa cidade chamada Tilacídia, localizada na margem do rio Cynocepha. Centenas de anos atrás, quando aquela área foi ocupada, era apenas uma floresta cheia de mamíferos carnívoros, considerados pragas para a criação de animais, especialmente ovelhas, e antigo Rei Magnus Smaragdina ordenou que as cinco famílias mais nobres do reino estimulassem a caça desse animal até que sua existência fosse banida. E fizeram assim.
Vinte e dois anos atrás, quando Tilacídia já havia há muito se tornado um importante centro comercial e lar do palácio real de verão, houve um tremor próximo da cidade. Uma fenda se abriu no chão da floresta próxima e derrubou um pedaço da montanha de rocha escura. O antigo Rei Amilcar Magnus Conditoris estava na região com o seu primogênito, o atual Rei, e um jovem escudeiro. Foram averiguar a situação quando se depararam com um uma besta gigantesca de pelo negro, que tinha corpo de tigre e cabeça de lobo, mais escuro que a própria noite.
O príncipe se precipitou e tentou atacar a criatura, perdendo sua perna e sua mão direita no processo. Só sobreviveu porque o escudeiro morreu protegendo-o enquanto o velho Rei o tirava de lá. Desde então, o reino está em guerra contra a criatura, todos os meses mais soldados são enviados para tentar matá-la, nunca tendo sucesso. Nem mesmo os maiores guerreiros tem força contra ele, o chamado Demônio Negro de Tilacídia, ou simplesmente Tilacídio Negro.
Drika não entendia porque continuavam insistindo em atacar, se não tinham forças, e se o animal nunca havia feito nada a não ser se defender dos ataques externos. Acha um desperdício de tempo, e pior, um desperdício de vidas. Sua mãe havia dito que o atual Rei é bastante teimoso e arrogante, não sendo a toa que baixou um decreto se proclamando o Sol vivo, e por isso derrotar a criatura que tirou seus membros era "questão de honra".
* * *
Seus pais retornaram ao quarto. Encontraram Drika deitada no chão lendo o manuscrito de alquimia chamado "As Seis Chaves", que ela havia pego escondido no laboratório. Era complexo demais para que ela entendesse tudo, mas a jovem insistia em ler mesmo assim, só pelo prazer de ler. Virtino pigarreou para que a garota notasse a presença deles. Ela levantou e correu para abraçá-los. Eles estavam sorrindo, mas ela logo notou que era forçado. Eles estavam preocupados com algo.
Seus pais estavam passando muito tempo no laboratório-masmorra, muito mais tempo que o normal. Virtino estava com a barba nascendo (havia esquecido de aparar com a navalha de tão preocupado com BEAST) e o cabelo bagunçado. Karytta estava com olheiras abaixo dos olhos. Estavam cansados sim, mas tinha algo a mais.
— O que foi, papai? – perguntou olhando para ele.
— Hã? Ah, meu amor, é que nossa pesquisa está quase terminando, mas aparentemente não agradamos o Rei totalmente. – O pai respondeu carinhosamente.
— Por que?
— Acho que ele queria mais que podemos oferecer, nuvenzinha. O Rei queria usar a ciência para seus interesses próprios, e eu e seu pai não concordamos com isso. Não foi para isso que trabalhamos a nossa vida inteira. A alquimia deve ser usada para o bem de todos. – foi a vez da mãe responder – mas não se preocupe, vai ficar tudo bem. Nós vamos embora do castelo amanhã cedo. Vamos ter uma casa só nossa agora, sabia?
— Uma casa só nossa? – ela parecia animada.
— Sim, e você vai ganhar uma cama de verdade – o pai disse, acariciando os cabelos da garota. – Mas vai ter que acordar cedo para juntar as suas coisas, tá bom?
— Eu e seu pai vamos buscar nossas coisas no laboratório e organizar. Ao tocar da nona hora, saímos de Conditoris. Vamos morar perto de Gálvia. – Karytta completou – E vamos finalmente poder passar mais tempo junto.
— Uaau! Vou ter uma casa e uma cama de verdade – Drika quase que brilhava de empolgação, mas de repente ficou quieta e cabisbaixa, e seu pai notou.
— O que foi, Drika? Não gostou da novidade? – Ele perguntou.
— Não, papai, eu amei isso. É só que... – ela parecia em dúvida – É que agora eu nunca vou poder voar num grifo. – Ela foi tão sincera que os pais riram.
* * *
No dia seguinte, eles já partiam. Quando o sino da nona hora tocava, eles atravessavam o arco abobadado de pedra, parte das enormes muralhas que protegia toda a capital, as muralhas da Deusa Mãe. Buscavam um novo começo. Em um novo lugar. O casal deixava para trás suas crenças, suas antigas vidas, todos seus anos de trabalho. Deixavam para trás a cidade de Conditoris. O local onde se conheceram, onde se amaram e onde sua filha nasceu. Deixavam para trás os colegas de laboratório, suas pesquisas, tudo.
Drika estava debruçada no fundo do banco da humilde charrete que balançava com os buracos do caminho, apoiando o rosto com os braços e observando enquanto os muros da cidade se afastavam e ouvia o clangor dos seus pertences misturando-se aos cascos dos cavalos. Ela deixava para trás tudo que entendia como mundo. Fora nas torres do castelo onde nascera, onde fora criada, onde se divertira e onde se entediara. Onde passara horas e horas todos os dias lendo enquanto seus pais e os outros pesquisadores trabalhavam nas galerias subterrâneas. Ela deixava para trás o único lugar que ela já havia chamado de lar.
Com o passar das horas, a paisagem urbana se modificava e ia ficando cada vez mais distante. As casas e construções humanas aos poucos se tornavam mais raras, dando lugar a grandes planícies gramadas e bosques frondosos. O Sol já havia passado duas posições do meio do céu quando eles pararam para comer alguns cereais e esticarem as pernas. A parada foi breve e logo partiram novamente.
* * *
No segundo dia de viagem, os belos bosques e clareiras já não eram mais comuns. A paisagem agora era de florestas vastas e escuras, árvores altas e cascas amendoadas. A vista possuía agora tons mais frios, e Drika ficava entusiasmada vendo tudo aquilo, mesmo quando os bosques tinham árvores retorcidas e secas. Ela se sentia meio dolorida pelo chacoalhar da estrada, antes pavimentada com pedra, mas agora, distante do reino, era de terra batida.
Haviam dormido na própria carruagem nas noite anterior, por isso ambos estavam meio doloridos, mas Virtino assegurou que chegariam ao destino deles ainda no cair da tarde. Conforme ele explicava para a filha, morariam em uma cabana rústica herdada do irmão do pai dele, numa floresta chamada Karaorman, praticamente desabitada, próxima do vilarejo de Gálvia. Era pequena e isolada, mas era tudo que tinham. E deveria bastar. Vamos ser muito felizes lá, você vai ver.
* * *
27ºdia do mês Oliva de X196
Fazia pouco mais de um mês que moravam na pequena choupana. Drika já estava bem adaptada à nova rotina fora das torres do castelo, ao seu novo quarto (com uma cama de verdade), seus pais sempre em casa e bastante espaço para brincar. Estava muito feliz naquele lugar, embora quisesse sair pra explorar o bosque em volta da casa também. Seu pai dizia que poderia ser perigoso e instruiu-a a ficar apenas dentro de seu lar.
Naquele dia em especial, o dia estava bem nublado e escuro, mesmo durante a tarde. Garoou desde que o Sol nasceu no horizonte, mas pouco depois da vigésima hora, havia se tornado um temporal. Raios retumbavam no céu densamente nublado, clarões adentravam por entre as frestas iluminando em tons branco-azulados. A tempestade rugia lá fora, o vento e a chuva incessantemente fortes faziam a cabana tremer como se fosse de brinquedo.
Drika estava em seu quarto, sentada na cama com medo, abraçando os joelhos. Era a primeira vez que vivenciava uma tempestade dessas, fora da proteção dos muros de pedra do castelo de Conditoris, e era como se o mundo estivesse caindo lá fora. A luz de sua lamparina projetava sombras oscilantes na parede. Resolveu ir até seus pais, talvez os trovões fossem menos assustadores quando não se estava sozinha.
Sentou na cama e calçou suas pantufas rosas e felpudas. Estava com o cabelo penteado e repartido ao meio e preso com laços rosas, formando madeixas nas duas laterais do rosto e pijama de cor creme. Pegou a lamparina sob o criado-mudo e saiu do quarto, tampando os ouvidos sempre que os clarões de raios a surpreendiam, anunciando o tenebroso som dos trovões. Chegou na escada e começou a descer. Seus pais estavam na cozinha conversando, podia ouvir a melódica risada de sua mãe. Desceu o primeiro degrau. O segundo. O terceiro. Estava descendo o quarto degrau quando a casa tremeu inteira e Drika ouviu som das madeiras da casa se partindo.
Ouviu seus pais gritando. Acelerou o passo. Desceu praticamente correndo escada abaixo. Ao chegar no portal que levava à cozinha, encontrou pedaços de madeira por todo o local, o cômodo inteiramente arruinado, parte da lateral da casa havia sido arrancada brutalmente e a chuva e o vento agora entravam pelo rombo. Viu seus pais caídos, cobertos de sangue e escombros, levantou os olhos para fissura onde antigamente costumava ser a parede e a janela da cozinha e então viu aquilo. A coisa mais aterrorizante que vira em toda sua vida. Um olho gigantesco a observava. Não havia sido um trovão, sobretudo o vento que levara a baixo aquela parte da casa. Não. Uma criatura escamosa, vermelha e colossal havia feito aquilo.
Suas presas eram do tamanho de Drika, no mínimo. Não conseguia ver o final da besta devido à escuridão da noite tempestuosa lá fora, mas julgou que o corpulento ser deveria ter, por inteiro, mais de 80 cascos de comprimento. Era assombroso. A garota sentiu seu coração pulsando intensamente. Olhou para seu corpo e viu que seu corpo tremia. Estava tremendo como nunca havia tremido. Suava frio. Aquilo era medo. Não, medo não. Drika estava em pânico.
A alça da lamparina escapou dentre seus dedos trêmulos e foi de encontro ao chão. O vidro partiu e a chama extinguiu-se de imediato. A escuridão avassaladora tomou conta. Olhou para seu pai ferido, que removia uma taboa grande de cima do peito. Ele olhou para a besta reptiliana, olhou para Drika e disse para que ela fugisse. Ela não conseguia. Estava travada.
Virtino pegou a madeira e ia usar para afugentar o monstro quando uma de suas patas gigantes desceu esmagando o pai de família sob um pedaço da casa. Drika ouviu seu pai urrar de dor e uma poça de sangue se formar no chão. Uma garra o atingiu, ferindo-o gravemente. O casaco azul cobalto que seu pai usava agora estava reduzido a frangalhos. Sangue pingava e seus olhos reviraram de dor. Olhou à direita, sua mãe estava lá, caída e ensanguentada também, uma madeira atravessava seu tórax. O vestido carmesim estava com a barra rasgada, assim como o detalhe florido do ombro esquerdo. O braço esquerdo de Karytta havia sido rasgado por aquelas mesmas garras segundos antes de Drika chegar. Sua mãe estava pálida e esvaecendo. Estavam morrendo. E Drika seria a próxima.
Não, ela não poderia fugir. Mesmo que seu pai tenha exigido que ela fizesse isso, ela não podia. Não era capaz em meio ao pânico e nem queria. Não podia abandonar os pais ali. Eles ainda estavam respirando, talvez se ela conseguisse afugentar a besta, eles poderiam se salvar. O vento entrava forte pela fenda, e fez os laços do cabelo da garota se soltarem, deixando a gravidade derrubar os fios brancos sobre seus ombros.
Ela viu uma faca de cozinha caída no chão, entre as madeiras e cacos de louça quebrada. Por instinto, sabia o que fazer. Ela engoliu em seco. Mesmo morrendo de medo, ela ia lutar. Sua vida estava ótima ali, finalmente eles tinham uma casa. Finalmente a família estava junta e feliz. Não ia deixar um lagarto vermelho gordo e gigante lhe tirar tudo que tinha.
Em questão de segundos, Drika fez o impensável. Correu em direção aos escombros, pegou a faca e pulou em direção ao rosto da besta titânica. As pálpebras reptilianas nem tiveram tempo de fechar em reflexo quando foram atingidos. A faca afundou no couro escamoso. Por pouco ela não acertou o olho, mas fez um grande estrago no músculo oblíquo inferior, fazendo o monstro rugir de dor furiosamente. Ele sacudiu a cabeça e derrubou Drika apenas com isso. O corte, embora insignificante frente aquele ser monstruoso, foi fundo sobre o bolsão de gordura do olho direito da fera. Fundo o bastante para doer muito.
Outra patada desceu, afundando a garota sobre pedaços e pedaços de madeira, soterrando-a. A estrutura da casa cedeu perante ao golpe da besta e à fúria da tempestade. Metade da casa foi abaixo. Duas vigas grossas caíram sobre Drika, protegendo-a de muitos danos, porém, mesmo assim, estava muito machucada. Sentiu um frio muito grande na barriga, gemeu e curvou-se para olhar o que era. Seu pijama creme agora estava com uma mancha escura de sangue. Percebeu então a ironia do destino: a faca ensanguentada que ela usou para ferir a besta descomunal estava cravada em seu abdômen.
Sentiu frio, muito frio. Vento e chuva forte. Drika pensou que talvez as nuvens estivessem chorando. Segurou o cabo da faca com as duas mãos e fechou os olhos, já sofrendo antecipadamente. Contou em pensamento até três e puxou a arma de dentro de si, fazendo que mais sangue escorresse. Não sabia se ia morrer, se seus pais estavam vivos ainda, se ela estava viva ainda, se morrer doía ou se não sentiria nada. Era o fim.
Fechou os olhos sentindo muita dor, e depois abriu de novo. Perguntou a si mesma se eles seriam devorados pela criatura, mas pelo canto dos olhos viu que o gigantesco animal havia sumido. Nenhum sinal dele. Tão repentinamente quanto aparecera, também sumira. Como poderia ser tão cruel? Nem matara por fome, e sim por matar. Estava tirando três vidas sem nenhum motivo. Drika estava com tanta raiva no peito que não conseguia respirar. Ou talvez seja por causa dos escombros em cima dela. Ela não podia perdoar aquilo. Ela não iria morrer ali. Não, ela não poderia morrer ali. Fechou aos olhos e prometeu que um dia caçaria e mataria todas as bestas do mundo. Iria livrar o mundo dos monstros de uma vez por todas.
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