Notas iniciais
nigredo = Processo alquímico de dissolução e putrefação da matéria. albedo = Processo alquímico em que ocorre a purificação da matéria.

Demônio-lagomorfo — Coelhos que foram submetidos à alquimia das trevas, tornando-se bestas. Seus dentes incisivos crescem continuamente, sendo necessário desgaste para manutenção do tamanho. Herbívoro, alimenta-se de vegetais, ervas e raízes suculentas. Costumam ter entre 3 e 4 cascos de altura, sendo as fêmeas ligeiramente maiores, e pesar entre 6 e 14 varós. Não são perigosos para humanos, caso não sejam provocados. São ágeis e muito rápidos. A pelagem varia entre ocre, avermelhada e marrom escuro. Podem ser solitários ou viver em grupos em galerias subterrâneas com até 30 indivíduos, geralmente um casal e sua prole. Costumam ser problemáticos para fazendeiros, por destruir plantações e devorar o pasto dos gados.

27º dia do mês Cerúleo de X206

Drika estava agachada no meio da plantação de milho, a lâmina curvada de caça habilmente entre os dedos, pronta para o confronto. O céu azul claro está salpicado de nuvens brancas, assim como o cabelo da jovem de dezenove anos. O vento balança o milharal para um lado e para o outro, entretanto, o vento não é o único elemento responsável pela agitação. Há uma criatura se escondendo, correndo entre as plântulas, derrubando as inflorescências e devorando os espigões. Drika está lá para caçá-la.

Aperta novamente o fecho metálico da sua bota de couro, bem apertada, para que não escape quando tiver que correr. Respira em silêncio, atenta a qualquer movimento. Nada escapa-lhe os sentidos. Seu rosto vira quase que automaticamente em direção ao som de plantas pisadas. Conta até dois e dispara na direção do ruído, os cabelos ao vento, a pequena bolsa batendo nas costas a cada passo. A criatura não é nada mais do que um borrão ocre no meio do mar de verdes, mas Drika continua ferozmente. A besta não vai escapar.

A besta não pode escapar. É sua nonagésima quinta caçada. Como uma caçadora mercenária, ela tem uma reputação a zelar. Ela caça todos os monstros. É sua utopia. Livrar o mundo dessas bestas. A adaga de caça serrilhada gira entre os dedos enquanto a perseguição se desenrola, ajustando-se para o golpe fatal. Estão se aproximando das cercas da propriedade, as folhas dos pés de milho acertando-lhe o corpo e o rosto.

A criatura vira bruscamente e se esconde. A caçadora alcança o local onde a besta estava segundos antes. Fora contratada pelos aldeões de Avati para capturar essa criatura que estava devastando suas colheitas e roubando seus alimentos. É um trabalho simples comparado ao mês anterior, onde teve que caçar dois ursos-coruja, mas Drika não pode se dar ao luxo de vacilar. Os Avati estavam contando com ela, e não poderia permitir que essa besta tirasse daquele povo seu sustento. Não poderia permitir que uma besta tirasse de uma pessoa aquilo que tem de mais precioso.

Drika silenciosamente analisa a situação. A criatura está escondida bem perto de si, não teve muito tempo para fugir e está esperando que ela se afaste para fazê-lo. Nota uma planta retorcida, as nervuras paralelas da folha bem expostas. É ali. O pequeno demônio-lagomorfo comedor de milho acabou de perder o jogo de pique-esconde. Um passo para trás, a sola da bota firma no chão preparando terreno, um chute de impulso e salta com tudo na direção do esconderijo.

Ela pula e segura-o por uma das patas traseiras, impedindo-o de saltar para longe. Enrosca o braço ao redor do pescoço da criatura teimosa, impedindo-a de fugir enquanto se agita, agora imobilizada. O roedor cor de ferrugem tenta mordê-la com os dentes frontais salientes, mas antes de poder completar o ataque, Drika passa a adaga de caça em sua garganta, derramando sangue vermelho na terra marrom, e sujando parte da camisa preta da caçadora.

— Droga, espero que não manche. É meu traje de caça favorito. – bufou.

Segurando a besta pelas orelhas longas, ela limpa a adaga de estimação e embainha presa no cinto. Refaz o caminho que fizera agora pouco, agora caminhando devagar ao invés de correndo perseguindo a criatura. É pesado. Deve pesar uns 10 varós, calculou. E quase tão rápido quanto um cavalo. Não é surpresa que tenha devastado meia colheita, esse bichinho deve ter que comer bastante para ter tanta energia.

Olha para o céu. Calcula que deve ser algo entre a décima quinta e a décima sexta hora, então provavelmente vai ter que dormir ali no vilarejo e só voltar para o reino de manhã. Aproxima-se da construção vermelha de madeira, um celeiro, onde um homem serra tábuas.

— Ah, vejo que voltou. – ele para o serviço e limpa a mão no avental, olhando para a caçadora – E pelo visto, foi bem-sucedida. Que rápida. Essa coisinha imunda era o que estava quase nos matando de fome?

— Sim. – coloca o corpo da criatura no chão – É um macho. Não avistei nenhum sinal de pegadas que indique alguma fêmea ou prole, então acredito que ele esteja sozinho na região. Portanto, trabalho completo. Não vai mais incomodar vocês.

O homem franziu o cenho, observando. Ele é alto, quase uma cabeça mais alto do que Drika, e bem forte e durão, apesar da idade. Provável que tenha uns 46 anos, os cabelos castanhos claros já são ralos na cabeça, e há alguns fios brancos. Embora a vila não tenha um chefe, Kajeel é um homem bem respeitado, e fora ele quem contratara Drika para caçar.

— E o que é? Parece um coelho, mas também não é. – a bota marrom roçando o pelo curto do animal caído, parte de curiosidade, parte por desprezo – Nunca vi nada parecido por essas bandas.

— E nem deveria. Não é um animal natural. É uma besta. Um demônio-lagomorfo. Provavelmente criado com alquimia das trevas. –respirou fundo e disse- Uma criatura que não deveria existir.

— Pelo visto, sua reputação tem um motivo. Completou o serviço bem antes do prazo, Carrasca Prateada.

— Podemos acertar a recompensa cedo. Há alguma estalagem na aldeia ou posso dormir no celeiro mesmo?

O grande homem riu alto, como se achasse graça naquilo que a garota havia dito.

— Hahaha, não se preocupe, jovenzinha. Você é bem-vinda na minha casa e da minha esposa para passar a noite. Graças a você, toda a vila não vai passar fome no inverno.

A garota corou um pouco e deu um sorriso de lado.

— Só fiz meu trabalho. Sou uma mercenária, não uma heroína. Mas fico feliz de saber que os Avati vão conseguir colher milho o suficiente para comer, apesar dos pesares.

— Você é uma garota muito peculiar. – pôs a grande mão calejada de trabalho manual no ombro da garota- Diz não ser nenhum herói, mas tem o coração e o olhar determinado de uma heroína. Venha, está escurecendo, minha esposa deve ter feito um caldo quente para nós.

Drika colocou sua jaqueta de couro vermelho e seguiu Kajeel para fora do celeiro.

* * *

A casa do homem era bem simples e rústica, edificada com madeira e pedras acinzentadas. Mesmo assim, não deixava de ser aconchegante. Um calor gostoso emanava da cozinha, onde Majira, a esposa de Kajeel, cozinhava um caldo de carne e legumes no fogão à lenha. O cheiro era muito bom e espalhava pelos cômodos, o que agradou Drika logo de cara.

Majira era dois dedos mais baixa que Drika, e usava os cabelos castanho e brancos presos num coque. Apesar do rosto coberto de rugas da idade, ainda tinha um olhar jovem e vivo. Seus olhos castanho-esverdeados pararam de cuidar o caldeirão por um momento para fitar a garota à porta, acompanhada de seu esposo.

— Cheguei, meu bem. – o aldeão disse animado – Essa é a caçadora que nos salvou toda nossa aldeia! Ela matou a besta que estava devastando nossas plantações. – Drika acenou timidamente por trás do homenzarrão- Ela queria dormir no celeiro, mas trouxe ela para cear conosco.

— Ora, mas fez muito bem. Onde já se viu uma jovem tão bonita dormir deitada no feno velho sem cobertor e nem jantar? Vai comer com a gente e passar a noite aqui, ouviu mocinha? – e sorriu. Drika nunca conheceu seus avós, mas imaginou que adoraria ter uma avó atenciosa como Majira.

A jovem sabia bem que era bonita, mas não deixou de se sentir feliz pelo elogio. Gostava disso. Kajeel deixou Drika auxiliando Majira a cortar cenouras e pimentão para pôr no caldo e foi tirar água do poço para esquentar para o banho. Depois de terminarem o serviço, Drika ficou na sala de estar observando os bancos de madeira, que provavelmente o próprio Kajeel fizera a mão e a qualidade destes, quando a voz feminina oriunda da sala de jantar anunciou que o jantar estava à mesa.

Kajeel entrou pela porta da cozinha, beijou a testa da esposa e ajudou-a servindo os pratos com o caldo direto do caldeirão e pondo-os sobre a mesa de madeira sólida enfeitada com um pano simples verde e branco.

Comeram e conversaram. Foi a refeição mais agradável que Drika teve em anos, e não pôde deixar de admirar que o casal continuasse se amando tanto após tantos anos. Perguntou a si mesma se alguém um dia olharia para ela do jeito que Kajeel olhava para Majira.

O caldo de carne e legume estava muito saboroso. As cenouras, acelga, cogumelos, amendoim e pimentões misturados à carne deixavam o caldo nutritivo e gostoso. A garota até se sentiu inclinada a repetir o prato, mas não o fez.

— Nunca comi um caldo tão gostoso! Quem dera onde eu moro ter algo tão gostoso assim. — Drika disse, sorrindo gentilmente.

— Ah, obrigada, querida! — Majira sorriu, as rugas em volta dos olhos bem visíveis — geralmente eu uso frango e mel, mas estava sem mel, então usei polpa de guavira.

— É mesmo? Uau, ficou muito bom!

Levantou-se da mesa pedindo licença e lavou seu prato, embora Majira tenha tentado impedir dizendo que ela era uma convidada e não precisava lavar e retirou-se para tomar banho. Pegou sua mochila com mudas de roupa e equipamentos que deixou à porta ao entrar, sorriu para o casal à mesa e entrou no banheiro.

A banheira era de madeira, mas muito bem feita. Despejou os baldes de água quente que Kajeel separou para ela até encher. Achou um pote com folhas de guavira ao lado da banheira e jogou algumas folhas no banho, pois sabia que era um ótimo relaxante muscular, e ela estava precisando. Colocou a mão e viu que ainda estava muito quente. Resolveu esperar enquanto tirava a roupa devagar.

Estava suja e suada por causa da caçada. Não gostava nenhum pouco dessa sensação da pele grudando. Tirou a jaqueta vermelha de couro e a deixou pendurada. Depois, a regata preta suja, e já gasta, embora fosse sua favorita para se aventurar. Deixou-a de lado pois precisava lavar depois. Prendeu o cabelo num coque desajeitado e tirou a calça de brim azul. Pegou a caixinha de música antiga e deu corda. Deixou o restante da roupa íntima descer pelas pernas e entrou na água enquanto a música tocava lentamente.

Deitou e quase afundou de tão bom estava o banho. Céus, como ela precisava daquilo. Nada como um banho relaxante após um bom trabalho feito, pensou consigo mesma. Ficou uns dois minutos apenas curtindo a água morna cobrindo o corpo e ouvindo a canção tilintante da caixinha. Adorava aquilo. Sua mãe tinha uma caixinha igual, mas fora destruída naquela noite onze anos atrás. Deu muito trabalho achar uma igual, Drika teve que procurar em dúzias de lojas até encontrar. Depois de relaxar um pouco, pegou a toalha e começou a lavar e esfregar o corpo. Pegou uma loção de banho que havia trazido em sua bolsa e passou no corpo, deixando a pele com um cheiro gostoso.

Ficou mais alguns minutos aproveitando o banho quente, depois saiu. Secou-se, vestiu uma camiseta cinza folgada, uma calça preta justa, guardou suas coisas, soltou o cabelo e estava dando uma olhada nele no espelho quando a música da caixinha chegou ao fim e a garota ouviu Kajeel gritando alto, som de coisas sendo quebradas e percebeu que havia algo muito errado acontecendo.

* * *

Correu depressa para a sala, mas não havia ninguém lá. A porta da casa se encontrava aberta e estava escuro lá fora, mas os sons vinham de lá. Calçou seus coturnos às pressas, pegou suas armas na mochila e saiu para fora com um facão em mãos, torcendo para que Kajeel e Majira estivessem bem, e que o pior não houvesse ocorrido.

Avistou luzes de tochas acesas próximas ao celeiro e correu na direção das mesmas. Aos poucos, sua visão se acostumou e conseguiu identificar Majira de costas e as portas do celeiro caídas, além de um vulto preto bem grande que não sabia bem o que era. Um clangor ósseo e seco cortava o ar junto ao som de batidas fortes, pinçadas e madeira quebrada. Drika apressou o passo.

Percebeu então que não era um vulto qualquer. Tratava-se de uma criatura. Era esquelética, maior do que um tigre, com tufos de pelo preto, uma cauda e seis patas. A cabeça lembrava um crânio, mas tinha duas saliências brancas e afiadas que desciam da mandíbula, que lembrava tanto as quelíceras das aranhas quanto as presas de um elefante. A besta estava farejando algo e tentando entrar no celeiro. Viu Kajeel caído com alguns pedaços de madeira sob o peito e próximo a uma tocha. Provavelmente tentou segurar a porta para impedir o invasor, mas não conseguiu.

Alcançou Majira e se colocou na frente desta enquanto a protegia e observava melhor a situação. Percebeu então que não havia tanta necessidade de proteção, pois a besta parecia estar interessada apenas no corpo do demônio-lagomorfo lá dentro.

— Esse bicho imundo é como um abutre, Drika! Veio farejando a carcaça desse outro de longe. E o pior é que o diabo é bem forte – gritou Kajeel sem muito fôlego.

— Entendi! Então é só arrastar a comida dele pra longe da aldeia e mata-lo enquanto se alimenta desatento. – a caçadora de bestas disse por entre os dentes enquanto sorria — Ok, vamos dançar, seu comensal de merda.

Saiu correndo e passou pela criatura enquanto essa estava distraída com a tocha no chão e os pedaços de madeira das portas. Sem perder o passo, correu em direção ao corpo do pequeno demônio que usaria como isca quando foi atingida pela cauda pesada do comensal e arremessada com força para a esquerda.

— Ai! – limpou o filete de sangue que escorria da bochecha arranhada – Desgraçado, vou te cortar em pedacinhos por causa disso.

Levantou e disparou novamente, dessa vez conseguindo pegar o corpo do bicho pelas orelhas grandes e arrastando-o para longe. O comensal grunhiu de raiva e derrubou um pedaço da parede do celeiro vermelho enquanto se aproximava batendo as quelíceras assustadoramente.

Drika olhou a brecha entre as patas do monstro e o rombo na parede e calculou se conseguiria correr depressa e passar por lá sem ser acertada de novo enquanto arrastava a isca. Tomou fôlego e se jogou de cabeça sem desacelerar ou hesitar por um segundo ao trocar de direção porque Majira estava ali ajudando Kajeel a se levantar. Fez um pequeno desvio e corria ao lado da criatura quando a cauda desceu imponente. Drika saltou sobre ela velozmente sem ser atingida e continuou, agora já fora do celeiro.

— De novo não, esquisitão! – berrou enquanto as seis patas giravam desajeitadas tentando se voltar para fora da construção – Estou aqui fora com seu lanchinho. Vem me pegar! – e disparou de novo.

Olhou para trás e viu aquele monstro bizarro trotando atrás de vi com velocidade. Era mais rápido do que ela achava que era possível ser, com aquele tamanho e com tantas patas. Parou do nada, jogou o cadáver longe, para frente, e se jogou rolando para a direita, enquanto o comensal passava acelerado em busca do seu petisco.

Levantou-se, limpou a terra da calça, pegou o facão e viu a criatura retalhando o corpo inerte da outra com aquelas presas grandes e sugando com sua grossa probóscide. Era impressionante como ela engolia tudo sem mastigar ou digerir, mesmo os ossos eram consumidos.

Planejava acertar com força um golpe em uma ou duas pernas para deixá-lo manco e então finalizá-lo quando viu algo estranho: a cauda da criatura ergueu-se eriçada e de uma grande glândula na ponta disparou longe uma gosma amarelada, que grudou nas paredes do celeiro.

— Que droga foi essa? Está marcando território ou chamando seus amiguinhos para a festa com o cheiro? Monstro inútil, vai dar o maior trabalho se livrar daquela gosma. – disse enquanto olhava para trás, para os disparos, tentando ver se notava algo de estranho.

A criatura grunhiu novamente, como se estivesse respondendo Drika, talvez, ou apenas coincidência, e continuou retalhando e engolindo o animal abatido. Drika começou a se aproximar lentamente, planejando o ataque, mas Majira gritou e, por reflexo, parou e se voltou imediatamente para a mulher. Os dois disparos mucosos flavos agora estavam tremendo e formando uma bolha. Tinha algo muito errado ali. As bolhas estouraram e dois pequenos comensais caíram delas. Eram filhotes, Drika supôs, e tinham tamanho de um par de botas. Não era um disparo normal, o comensal adulto estava pondo ovos enquanto se alimentava.

— Seu desgraçado – correu em direção ao casal – Isso aqui não é sua casa não. Pare com isso agora.

Comensal-rei, anotou mentalmente os detalhes que estava aprendendo sobre sua futura presa enquanto ia ao encontro do celeiro. Grande, hexápode, necrófago, possui um par de presas que usa para retalhar e manipular a comida, é rápido, tem uma cauda forte e bota ovos que eclodem em curto período de tempo. Ok, ela precisava acabar com aquilo logo, estava se prolongando mais do que esperava, mas era um tipo de criatura que nunca tinha visto.

Um dos pequenos comensais saltou da parede na direção de Kajeel e furou seu ombro direito com a cauda, que aparentemente era afiada nos filhotes. O homem xingou e arrancou a criatura do braço sangrando, derrubou-a com o soco e esmagou-a com força usando um pedaço de madeira, quando o segundo filhote estava prestes a saltar em sua nuca.

— Ah, mas não vai mesmo! – Drika saltou e jogou o facão com precisão, cortando- ao meio no ar, num golpe só – Ok, agora estou irritada. – virou-se para Kajeel – Você está bem?

— Sim, foi não foi fundo. Por que diabos esses lixos nos atacaram? Estou bem vivo.

— Pelo jeito os filhotes têm hábitos de predadores, e já o adulto, prefere carniças.

— Olha! – Majira apontou para a criatura e entregou para garota o facão que recolhera do chão – Drika, faça alguma coisa rápido, querida. Acho que ele vai pôr mais ovos.

— Droga! – saiu correndo – Já cansei dessa palhaçada. Você vai ser o nonagésimo sexto, se prepare.

Alcançou-o depressa e desferiu um golpe com toda sua força com o facão na perna posterior esquerda, amputando-a. A criatura urrou de dor cambaleante, mas não atacou com a cauda, pois esta estava inchada e pronta para a posta de ovos de novo. Desviou da besta descontrolada e cortou dessa vez a perna média esquerda. Dessa vez, a besta perdeu o equilíbrio e caiu no chão, dando brecha o bastante para que Drika subisse nele e o finalizasse com um golpe direto no pescoço, decapitando-o e jorrando sangue escuro por toda a parte.

Desceu e se apoiou nas próprias pernas, ofegante

Que bicho chato, pensou. Ele daria bastante trabalho se colocasse algumas dúzias de ovos. Olhou para Kajeel e Majira e eles se aproximavam dela comemorando.

— Puxa vida, garotinha! Você é mesmo incrível em ação. Que sorte a minha eu não ser uma dessas bestas, não teria merda de chance alguma contra você. – o homem gargalhou alto e Drika sorriu.

— Kajeel, tenha modos. – Majira sorriu e seus olhos quase sumiram – Mas ele tem razão, sabe? Você é uma jovenzinha muito talentosa. Sorte temos de ter você por perto. Agora vamos pra dentro, não faz bem ficar no sereno.

— Podem ir, gente. Eu já vou. Primeiro preciso juntar esses corpos e queimá-los, para evitar atrair qualquer outro bicho de novo. – Drika não podia pôr em risco a vida deles de novo.

— Tem razão, muito esperto. Mas por que fazer tudo sozinha? Isso eu consigo fazer também, e terminamos mais rápido – disse Kajeel batendo as mãos umas nas outras, indicando estar pronto pro serviço também – Por onde começamos?

A garota sorriu com a disposição que aqueles dois tinham, apesar de não serem mais tão jovens assim. Ok, dessa vez ela iria fazer tudo certinho.

* * *

Com os corpos de todos os comensais e do demônio-lagomorfo finalmente empilhados, além de pedaços de madeira, Drika entornou uma garrafa de álcool por cima, e Majira jogou uma tocha acesa, acendendo uma pira enorme e incandescente.

— Que cheiro podre e horrível – Kajeel tampou o nariz.

— Isso vai dar um jeito neles de vez, né? – A mulher perguntou.

— Vai sim. O cheiro é horrível assim porque não são animais normais. São bestas, criadas com alquimia, e das ruins. Mas logo que terminar de queimar, passar o nigredo e o albedo, vai ficar tudo bem. Já podemos ir pra dentro – Drika ajeitou o cabelo, jogou um pó na chama e tampou o nariz também. Aquele era o pior cheiro que ela conhecia, e era sempre o mesmo cheiro de quando ateava fogo nas bestas.

— Você sabe muito sobre tudo isso. Deve ser uma das melhores caçadoras de bestas que existe – o homem comentou.

Drika deu risada enquanto amarrava o cabelo, e então disse:

— Eu sou a melhor caçadora de bestas que existe.

— Hahaha, não sei, mas é a mais convencida. – e então gargalhou alto de novo.

— A mais bonita também – Majira disse e apertou as bochechas da garota com força – você é uma linda, viu?

— Ai, isso dói – as bochechas vermelhas de serem apertadas – E a culpa não é minha se eu sou muito boa no que faço – disse brincando e mostrou a língua para Kajeel.

* * *

Drika ouviu o som de pássaros cantando e sentiu o cheiro de bolo de milho e café. Soube então que era hora de levantar e partir. O dia anterior fora muito cansativo, tanto dia quanto noite. Apesar dos pesares, a garota havia dormido bem na cama do quarto de hóspedes que Majira arrumou para ela. Limpou os olhos e os abriu, e então se levantou. Foi ao banheiro realizar suas higienes, penteou o longo cabelo branco com um pente de sua bolsa e sorriu ao ver o Sol pela janela. Dormiu até a oitava hora e estava com um ótimo humor.

Organizou suas coisas na mochila e deixou a mesma encostada na parede. Desceu até a cozinha e abraçou Majira.

— Bom dia, lindinha. – a mulher sorriu animada – Sente-se, pegue um bolo e coma.

— Bom dia! – Drika se sentou na cadeira, pegou uma fatia de bolo cremoso de milho e mordeu – Hmmmm, isso aqui é tão bom que seria um crime deixar aquela besta comer todos os milhos de vocês!

— Que bom que gostou. Pode comer mais, viu? Tem café na garrafa.

— Poxa, assim você me deixa mal acostumada. Nem dá vontade de voltar pra cidade...

— Mas você tá mais que convidada para vir aqui na vila dos Avati nos visitar sempre que quiser, viu? – Majira sentou à mesa com Drika e serviu uma xícara de café para si – Vai ser sempre bem-vinda.

— Olha, eu adoraria. Se a senhora sempre me receber com comidas tão gostosas... Mas de verdade, eu só fiz meu trabalho – Drika geralmente era bem cheia de si, mas Majira era uma senhorinha tão fofa que a garota simplesmente não conseguia ser – Gente, que bolo gostoso!

— Quem vê uma garota tão jovem tão animada comendo bolo assim logo cedo nunca suspeitaria que é uma caçadora de bestas de mão cheia, hahaha — Drika se virou para ver de onde vinha a voz e se deparou com Kajeel entrando pela cozinha dando sua gargalhada típica – Bom dia, Drika!

— Bom dia! — reparou a gaze no braço do homem e lembrou que havia se machucado na noite anterior, por descuido dela que não previra o ataque – Seu braço está melhor?

— Bah, claro que sim, não foi nada grave. Já estou lá trabalhando de novo, cortando tábuas novas para consertar o celeiro.

Ah, o celeiro. A frente dele ficou bem destruída graças ao comensal-rei. Se sentiu um pouco culpada, mesmo que não devesse.

— Você já vai embora? – Majira perguntou – Porque ainda não te pagamos.

— Já sim, preciso partir logo para chegar antes da noite. Mas acho que não precisam me pagar, a hospitalidade de vocês e a comida já cobre todo o serviço.

— Que bobagem! Eu te contratei para cuidar da criatura que estava destruindo a plantação por doze escudos e tenho que te pagar por isso –Kajeel interviu.

— Sim, e eu e Kajeel conversamos e achamos que você merece um adicional de duas coroas por cuidar da outra criatura ontem à noite – Majira olhou séria para Drika – Você não vai se fazer de desfeita, vai?

— Eu posso até concordar com os doze escudos, mas duas coroas é muito dinheiro. Vocês me alimentaram, me deram cama, foram gentis e, além disso, precisam de mais dinheiro que eu, pois precisam consertar o celeiro, e eu só ia gastar com livros, vestidos e armas novas. E eu devo pelo menos quinze gládios pela comida e hospedagem.

— Não, nada disso, não vou aceitar quinze gládios por ter sido decente – Majira fez bico – você queria dormir no feno do celeiro, onde já se viu? Uma garota bonita assim passar a noite onde os animais dormem.

— Mas eu já tive que dormir até em lugares piores. Sério, me deixe pagar pela comida.

— Nada de ''mas'', sua teimosa – Kajeel falou – Apenas aceite, como forma de gratidão.

Notas finais
Críticas, sugestões e comentários são sempre bem-vindos, incentivam o autor a escrever mais e contribuem para que a escrita dele melhore.