Beast
1 Prólogo
Notas iniciais
Com a cidade de Stohess parcialmente destruída, a população aterrorizada, Annie Leonhart cristalizada, Erwin preso e a Tropa de Exploração sem um comandante, a custódia de Eren Jaeger foi automaticamente para a Policia Militar, e por mais que a Tenente Hanji e o soldado mais forte da humanidade tivessem tentado impedir, não foi o suficiente.
Por ser uma custódia temporária, não tinham autorização para matá-lo, e além disso, uma vez que ele tinha se provado útil a toda a humanidade, não teriam uma desculpa para a morte do garoto.
Mas isso não queria dizer que não iriam dissecá-lo.
Ao fim de uma semana, logo que o Comandante Smith voltou ao seu cargo, ele foi acompanhado de Levi, Hanji, Armin e Mikasa ao quartel general da Policia Militar, onde Eren estava sendo mantido. Erwin mantinha o olhar duro, ele tinha plena ciência do que poderiam fazer com o garoto naquele período de tempo, e por mais que se achasse covarde por essa atitude, tentava arduamente não pensar no que ele tinha passado.
Mikasa estava mais do que preocupada. A Hanji tinha os olhos tristes, como nunca tinha visto antes, o Armin quase tremia e o Heichou... Este parecia estar a um mínimo passo de queimar todo aquele lugar.
Quando as portas se abriram, o tempo parecia ter desacelerado momentaneamente. Dois guardas passaram inicialmente, depois mais dois trazendo um Eren de cabeça baixa — algo no mínimo anormal — junto, tirando as algemas de seus pulsos e deixando-o ir até os amigos que o aguardavam.
Todos estranharam a atitude quieta do garoto que aproximava a passos calmos. Erwin fechou os olhos por um segundo e a Hanji engoliu a seco, tentando desfazer o nó que se formava em sua garganta. Armin, que ainda tinha esperança de ver Eren com seu habitual sorriso luminoso correr na direção deles, estremeceu e teria caído de joelhos se Levi não o tivesse mantido firme no lugar com a mão em seu ombro. Mikasa ignorou a tudo e a todos e correu na direção do irmão adotivo, a quem mais amava nesse mundo. Para ela, o que importava era que ele estava vivo, no resto, dava-se um jeito.
A garota saltou nos braços de Eren, que a segurou a tempo, puxando-a pela cintura e aprofundando o abraço, deixando-a extravasar toda a preocupação e medo de perdê-lo em lágrimas, fazendo um leve carinho nos cabelos negros enquanto ela apoiava a cabeça em seu ombro.
– Mikasa... Fico feliz que esteja bem. – Sussurrou Eren quando ela finalmente afrouxou os braços em volta do seu pescoço, fazendo a oriental sentir um calafrio gélido.
A voz de Eren... Era vazia. Fria e vazia.
Características que nunca haviam combinado em absolutamente nada com o garoto de intensos olhos verdes.
– Eren... – Ela sentia todo o calor que ele representava na sua vida desvanecer um pouco. Eren estava ali, ao alcance das suas mãos, mas era quase como se não estivesse.
Ele saiu calmamente do seu abraço, sem nenhuma reclamação do excesso de carinho da irmã, como normalmente fazia nessas situações, sendo logo atacado por um Armin desesperado que quase voou nos braços do amigo, querendo senti-lo perto, sentir que seu coração, ao contrário do aqueles olhos opacos diziam, ainda estava batendo no peito.
– Eu estou bem Armin, não precisa ficar tão... – Começou com a voz afável, mas ainda fria.
– UMA PORRA QUE VOCÊ ESTÁ! – Gritou o loirinho exaltado como raríssimas vezes ficava. Raríssimas mesmo.
Sentia-se desesperado, estava vendo o melhor amigo morrer na sua frente pela segunda vez, só que agora era bem mais torturante. Via-o agonizar ao poucos e sabia que dali pra frente seria pior.
Logo Hanji se juntou ao abraço, confortando Armin e também Eren. Havia desenvolvido um verdadeiro amor de mãe pelo garoto titã com o tempo de convivência, e sentia seu coração em pedaços desde a hora em que viu aqueles olhos tão gélidos. Queria que seus sentimentos chegassem a ele, os seus e os dos amigos dele, que o carinho que todos sentiam trouxesse o Eren de volta ao seu normal, mas sabia que não seria tão simples assim.
Trocou um breve olhar com Levi que tinha um olhar assassino. Iriam pagar, todos que fizeram mal ao Eren iriam pagar caro.
Erwin se aproximou cauteloso, tinha vontade de abraçá-lo também, ou ao menos um aperto de mãos, mas havia percebido o quanto o garoto estava se forçando a corresponder aos abraços preocupados e o quanto aquilo o sufocava. Tinha uma clara idéia de que tipo de violência gerava aquele tipo de reação, e iria encontrar o culpado custe o que custar.
– Eren, eu queria me desculpar, deveria ter pensado nisso antes de...
– O senhor fez o melhor que pode pela humanidade, como sempre. Graças ao senhor eu estou vivo agora, realmente não tem do que se desculpar. – Seu tom beirava a monotonia, mesmo que respeitoso.
“O senhor fez o melhor que pode pela humanidade...” Smith sentiu uma pontada no estômago. Ele falava como se não pertencesse a ela, como se aceitasse todas as vezes em que o chamaram de monstro.
– Vamos logo embora desse lugar. – Levi se pronunciou pela primeira vez. – Quando chegarmos, vou treiná-lo pessoalmente, pirralho. A tropa precisa de um novo esquadrão de operações especiais, e vocês e os outros cadetes farão parte dele. – Sua voz era dura como de costume, mas a intenção era clara: Dar um estímulo para que Eren saísse daquele torpor.
– Sim senhor, será uma honra... – Respondeu com um projeto de sorriso fraco, mantendo a postura cansada, com as mãos nos bolsos. Sem posição de sentido, sem a saudação, sem o tom de voz animado e determinado, sem todo aquele gasto de energia desnecessário, mas que fazia Eren ser quem era.
– Não parece. – Levi insistiu tomando a frente do garoto, encarando-o incisivamente. – O que te fizeram, pirralho? Você tá esquisito. — Seu tom parecia mais ameaçador do que preocupado.
Eren tremeu onde estava, não suportava mais ouvir aquele tom. De ninguém.
Erwin viu que aquilo não ia acabar bem. Sabia que Levi estava preocupado com Eren, ele próprio podia não admitir abertamente, mas estava; porém sabia também que Eren não agia mais como antigamente, era como se estivesse na linha entre seu lado humano e um outro desconhecido, que nem mesmo o garoto tinha conhecido antes.
– Estou bem Heichou. – Respondeu friamente. Os olhos baixos e a postura desleixada.
O sangue de Levi subiu a cabeça com aquela atitude, não acreditava que aquele pirralho tinha coragem de mentir tão descaradamente na sua frente! Puxou Eren com força pela gola da camisa, forçando-o a se abaixar e deixar seus olhos no mesmo nível, iria fazê-lo lembrar como tratar seu superior quando se viu surpreendido pela atitude do garoto.
Seus olhos adquiriram uma centelha, uma pequena centelha, de brilho. Não do brilho habitual, mas sim daquela chama doentia que tomava seus olhos quando falava em matar titãs, eliminá-los, destroçá-los, desmembrá-los, rasgá-los em mil pedacinhos...
– Eu manteria as mãos bem longe de mim se fosse você. – Ditou em um tom quase rosnado que assustou a todos os presentes.
Eren segurou os pulsos de Levi com uma força monstruosa, fazendo-o abrir as mãos devido a pressão esmagadora.
Ninguém estava menos do que pasmo.
Não era segredo a admiração e até mesmo o carinho que Eren nutria pelo Heichou, afinal era algo que o garoto não tinha a mínima hesitação em demonstrar e Levi não se incomodava com isso, portanto, era comum ver o Capitão andando de um lado a outro com um Eren animado em seu encalço, obedecendo a qualquer ordem (“abanando o rabinho” como comentavam alguns), por mais absurda que parecesse, como certa vez em que acabou limpando o telhado do castelo com uma escova de cavalo.
A maioria das pessoas não via nada demais, e afinal Eren tinha apenas quinze anos e Levi era seu superior, alguns ficavam até tranquilos em saber que o capitão conseguia manter o titã tão obediente ao seu lado, mas quem conhecia realmente aqueles dois sabia que havia algo intenso brotando sorrateiramente naquela relação.
Um silêncio sepulcral caiu sobre a sala.
– Você definitivamente não está no seu normal... – Murmurou o Heichou plenamente pasmo ao constatar que o garoto não iria ceder um milímetro. – E se eu fosse você, trataria de começar a procurar onde raios deixou sua sanidade mental, por que eu vou colocar juízo na merda da sua cabeça, nem que eu tenha que te por numa coleira pirralho! – A aura assassina de Levi era tão densa que só podia ser comparada a de Mikasa, que era contida com muito esforço por Armin e Hanji para não piorar a confusão.
– É melhor irmos, não? – Interviu Erwin se colocando entre os dois e indo em direção a porta, conduzindo-os. – Eren, logo que se recuperar, vou te passar os detalhes da próxima missão....
– Me recuperar? Meu corpo está em perfeito estado senhor. – Respondeu olhando para frente, mirando nada em específico.
– Er... – O Comandante não sabia ao certo como entrar no assunto, mas já Levi...
– Há, duvido muito disso... Eu não vou levar um animal acuado em missão e acabar matando todo mundo. – Falou direto, fazendo Eren estancar no lugar.
Lembranças da ultima missão fora das muralhas invadiam a mente do garoto, os rostos dos membros do esquadrão de operações especiais passavam pela sua cabeça, era quase como se pudesse ver cada um deles morto.
– Eren! Volta aqui! –A Hanji gritou quando o garoto saiu correndo com uma expressão de quem iria perder a cabeça a qualquer segundo e fazer uma grande besteira, com Armin e Mikasa indo logo atrás.
– Tch, dêem um tempo a ele, ou o pirralho vai ficar ainda mais doido. – Levi avisou a Tenente que já se preparava para ir atrás dos garotos, recebendo um olhar incisivo da castanha.
– Culpa de quem? Anão insensível! – Rosnou antes de sair atrás dos outros, sendo agressiva com seu melhor amigo (uma amizade estranha e peculiar, mas mesmo assim forte e duradoura) como raríssimas vezes era.
O comandante e o Heishicho* acabaram sozinhos no portal do grande salão, resolveram aguardar a volta dos outros. O menor deixou a máscara de indiferença cair, deixando uma expressão frustrada e agoniada torcer os belos traços do seu rosto. Odiava perder o controle das coisas... Pior, odiava perder o controle de Eren.
O loiro abraçou o outro por trás, apoiando o queixo em cima da cabeça do mais baixo e suspirando ruidosamente.
– Levi... Resolva isso. – Murmurou em um tom que mais parecia um pedido do que uma ordem, sentindo o cheiro de shampoo dos cabelos escuros.
– Não sei fazer essas coisas, a Hanji ou a...
– Não falei do atual estado do Eren, falei da relação de vocês. Eu vejo nos seus olhos o que está acontecendo Levi, e sei por que você tem maltratado tanto o garoto ultimamente, mas afastá-lo agora só vai piorar as coisas... Não estou dizendo apenas para você seduzir um garoto de quinze anos e mantê-lo preso a tropa e a própria sanidade; estou dizendo para vocês dois assumirem o que sentem logo de uma vez, por que eu não quero ver as duas maiores esperanças da humanidade acabando em um hospital psiquiátrico. – Seu tom era brando, mas Levi sabia que o companheiro falava bem sério.
– Nem vou perguntar como diabos você percebeu... Agora, tem certeza do que está fazendo? – Indagou se virando de frente para o maior, que aproveitou para juntar os corpos ainda mais.
– Eu sempre tenho. – Sussurrou, os lábios cada vez mais próximos.
– Confio em você. – Puxou o comandante pela jaqueta, selando um beijo faminto por parte de ambos.
Erwin não tinha total certeza de seu plano seguiria como planejado dali para frente, mas dessa vez... Apenas dessa vez, apostaria todas as suas fichas no imprevisível. E por mais que não pudesse ver com clareza como aquilo ia terminar, esperava ganhar o jogo de virada.
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