Beast
4 Perdendo o controle.
Notas iniciais
Erwin adorava a carinha que Levi fazia quando estava bravo. Mesmo tendo uns bons anos nas costas, o moreno tinha uma carinha de criança constantemente mal humorada que fazia o Comandante querer mordê-lo (de uma forma nada inocente, diga-se de passagem). Mas mesmo adorando acalmar o gênio difícil do menor, ele sentiu um arrepio na espinha quando viu o olhar assassino do outro quando entrou no seu quarto bem cedo pela manhã.
– Bom dia. — O loiro cumprimentou ainda ajustando as cintas.
– Bom dia o caralho, quando foi que começou a mentir pra mim? — Levi foi direto ao ponto e Erwin enrijeceu por um segundo. Sabia exatamente do que se tratava, já esperava que algo assim acontecesse depois de ter trancado os dois ali a noite toda.
O baixinho não estava irritado, ele estava puto da vida.
– Foi necessário. — Respondeu seriamente, se mostrasse qualquer outra reação que não fosse a impassibilidade, acabaria sendo intimidado pelo moreno que parecia estar ansioso para destilar seu veneno naquela conversa.
– Uma porra que foi! Não sou eu que estou cuidando do pirralho? Porque que justamente eu não deveria saber? — O menor falava baixo, mas em um tom sombrio e totalmente irado.
– Cuidando? Nossa Levi... Pensei que sua responsabilidade era apenas matá-lo caso algo acontecesse. — Devolveu com um sorrisinho astuto, deixando o outro um pouco desconcertado, o que só fez o seu olhar assassino piorar.
– Foda-se, eu quero o relatório e os exames.- Exigiu quase trincando os dentes de raiva, reação que era analisada cuidadosamente pelo loiro que já sabia como usar aquele ódio todo.
Erwin definitivamente não era comandante á toa. Ele não só era bom com planejamentos, ou em se fazer ser obedecido, mas também tinha um dom excepcional para avaliar as habilidades, aptidões, talentos e até mesmo as emoções de todos a sua volta, e empregar tudo isso em uma determinada situação de forma favorável.
– Não. — Respondeu simplesmente.
– Por quê? — Ultimamente Levi vinha sempre questionando as ordens do superior, provavelmente desconfiando de mais um dos planos que o maior tinha o hábito de fazer por baixo dos panos.
– Quando a poeira baixar, eu te garanto que terá acesso a eles. — O Comandante contornou, desviando do foco da pergunta, o que também não passou despercebido pelo soldado.
– Tch... — Resmungou contrariado.
Se havia algo que era a base do relacionamento desses dois, era a confiança. Levi era ciente da capacidade de Erwin e confiava incondicionalmente no Comandante, mesmo não concordando com várias de suas ordens; já o loiro, tinha plena ciência tanto da capacidade, como do caráter do menor, e sabia perfeitamente que podia deixar a sua vida nas mãos daquele homem de aparência indiferente, mas que se dedicava mais do que deixava transparecer.
– Mas já que veio aqui tão cedo... Por que não fica mais um pouco? — Smith tinha um sorrisinho de canto repleto de segundas e terceiras intenções enquanto já subia as mãos pelo quadril do moreno.
– Seu pervertido. Eu tenho mais o que fazer do qu... — Levi foi subitamente interrompido por um beijo faminto que simplesmente não teve como não corresponder.
Já fazia algum tempo que os dois não faziam coisas mais interessantes do que roubar alguns beijos furtivamente pelos cantos do castelo, ou dar alguns amassos tarde da noite, então ter o corpo forte e atrativo do loiro tão perto e tão colado no seu fazia Levi tremer de excitação.
Se entregando ao desejo sem pensar duas vezes, empurrou o comandante com força na cama, subindo em cima deste, fazendo questão de sentar em cima do membro do loiro, ondulando de leve o quadril só para provocar antes de roubar os lábios do outro em um beijo luxurioso.
Não demorou muito para que as roupas se tornassem incômodas e praticamente necessitassem ser retiradas o mais rápido possível. Sentiam-se sedentos por contato, por sentir o calor um do outro, pele na pele, os corpos suados se movendo em uma sincronia selvagem e insanamente prazerosa.
Os dois realmente não resistiam um ao outro. E nem pretendiam resistir.
E assim, o Comandante da tropa e o soldado da humanidade acabaram acordando mais tarde naquela manhã...
. . .
Passar o tempo com Armin e Mikasa era uma das melhores coisas que vinha fazendo nesses últimos dias. Sentia-se egoísta por isso, sabia que os dois estavam preocupados consigo, e ficar na companhia deles, nem sempre conseguindo esconder o que sentia, só os preocupava ainda mais.
Sua mente lhe pregava peças constantemente, trazendo a tona lembranças que só queria esquecer sempre que conseguia sentir um pouquinho de felicidade. Mas percebia que aos poucos conseguia se refazer... Ou preferia pensar que conseguiria se refazer.
"Eles estão bem... Está tudo bem agora..." Repetia inúmeras vezes para si mesmo.
Talvez estivesse se iludindo, talvez só estivesse se afundando mais... Não importava.
"Eles estão bem. Isso basta pra mim. Agora tenho que pensar na missão..."
Sentia-se tão inútil! Tentava mostrar que estava bem a todo custo, mas seus esforços eram completamente frustrados quando Levi o provocava, fazendo-o perder qualquer mínima porção de autocontrole... Ou quando Erwin o olhava com aqueles olhos tão compreensivos e dizia que estava tudo bem em esperar... Aqueles olhos lhe passavam tanta confiança, faziam seu coração se acalmar um pouco.
E um pouco, era muita coisa para quem tinha pesadelos mesmo estando acordado.
. . . .
Ainda era o terceiro dia, e tudo de pior já passava pela sua cabeça. Queria se manter forte... Tinha que se manter forte! Mas não bastava o que vinham fazendo consigo desde que chegou ali, ainda tinham as notícias desesperadoras que ouvia nos corredores da masmorra onde estava...
"Por favor, que seja mentira... Que seja mentira..."
Não era estúpido. Sabia perfeitamente que poderiam estar fazendo aquilo para torturá-lo psicologicamente, mas não conseguia ficar calmo! Antes de ser apreendido pela Polícia Militar, havia visto Erwin ser algemado e preso, a Hanji iria dar depoimento no julgamento do Comandante e até mesmo o Heichou teve suas DMTs confiscadas e estava proibido de agir até segunda ordem.
A situação estava bem feia, então... Como não duvidar de que todos estivessem bem? E as histórias... Eram tão convincentes!
– Sabia... Aquela moreninha, sua irmã, esteve aqui. — Nile sussurrava ao seu ouvido. Eren estava completamente imobilizado, de instante em instante tinha sua cabeça imersa no tanque de água gelada á sua frente, deixando-o submerso por um bom tempo antes de poder voltar a respirar. — Qual era mesmo o nome dela... Ah, Mikasa... Mikasa Ackerman, não é? — Adicionou com um risinho.
– Lave... Sua boca imunda... Para falar... Da minha irmã... — Falava extremamente ofegante, respirando o pouco que podia antes de ter a cabeça novamente afundada no tanque.
Não soube quanto tempo passou. Mas não conseguiu prender o ar por muito tempo, e quando o soltou, entrou realmente em pânico. Seu corpo implorava por ar, acabou respirando involuntariamente, inspirando apenas água. Se debatia desesperado, seu corpo ficava fraco, uma dor alucinante tomava seu peito, queimava como se respirasse ácido, seus pulmões só puxavam mais e mais água...
– Ela era tão gostosinha... — Foi a primeira coisa que ouviu quando teve seus cabelos puxados bruscamente e seu rosto retirado debaixo da água, podendo finalmente, conseguir um pouco de ar para seus pulmões doloridos. — Ela gritava seu nome o tempo todo enquanto a gente fodia ela... — Seu tom era malicioso, acompanhado de um sorriso de canto nojento.
– I-Impossível... — A voz de Eren era tão baixa que mal se podia ouvi-lo.
Não podiam simplesmente pegar a Mikasa, sabia o quanto a irmã era forte e durona. Confiava que ela podia cuidar muito bem de si mesma, e talvez até de Armin também...
– O quê? Foi só dizer que ela podia te ver que a vadia abriu as pernas. — Falou causando mais risos maliciosos dos outros presentes na cela. — Ela disse que faria qualquer coisa para ver o irmãozinho querido... — Continuou, fazendo o coração do garoto acelerar ainda mais, desesperado, apavorado. — O regimento todinho comeu a puta da sua irmã, ela nem deve estar andando agora... Está presa na cela acima da sua.
"Não pode ser! Não... Não... Não..."
– Sabe quando foi isso? Ontem mesmo. Antes de eu chegar aqui na cela. Sua irmã estava com uns cinco caras ao mesmo tempo lá em cima, e você, se divertindo com os guardas aqui embaixo... Você é mesmo uma puta, não é Jaeger? Vocês dois formam um bela dupla. — Sua voz parecia ferir os ouvidos de Eren, a cada palavra, o garoto se sentia ainda mais desesperado. Já podia ouvir os gemidos de agonia e os gritos de dor da irmã... Pior, quase podia visualizar a cena a sua frente.
Mikasa sendo brutalmente violentada, chamando seu nome, pedindo sua ajuda, implorando, chorando... Enquanto ele nada podia fazer, não conseguia alcançá-la... Vinham cada vez mais homens, tocavam o corpo pálido da morena com ganância e ela se remexia com asco, tentava se libertar, mas estava presa, gritava por ajuda, mas ninguém mais ouvia, apenas Eren, e ele não podia ajudá-la... Estava sendo...
– Talvez você a veja mais tarde, se for bem obediente hoje à noite. — A língua do homem se arrastava pela pele de Eren que se arrepiava de nojo.
– Maldito... Desgraçado... — Rosnava tremendo de ódio, de nojo, enquanto o homem descia os toques indesejados pelo seu corpo totalmente amarrado e exposto.
– Ah, tá estressadinho? O que acha que pode fazer? Você não vai sair daqui putinha. — Roubou um breve beijo dos lábios do menor. — Sabe seu comandante? Foi preso, e já deve estar morto. Muita gente não gostava daquele imbecil metido a salvador da humanidade, aposto que devem tê-lo esquartejado ainda vivo. — Riu, fazendo o estômago do garoto revirar. — Aquele baixinho que era bom em matar titãs foi para o interrogatório... E eu ainda não vi ele sair. Será uma perda lastimável obviamente. — Eren sentia o mundo a sua volta ruir pouco a pouco. — Aquele loirinho que andava sempre com o Comandante, seu amiguinho também, sei lá o nome dele... Foi vendido a um nobre que aprecia, e muito, garotinhos frágeis e delicados... Era um inútil, nem fez falta. — O sangue de Eren fervia como se fosse larva em suas veias. A raiva e o desespero, o medo de perder a todos aqueles que amava, lutavam dentro de si, deixando sua mente imersa em uma onda de pensamentos que acordavam algo assustadoramente forte e violento do fundo da sua consciência. Algo que sentia que não podia controlar.
– Teve mais gente que foi vendida... Vi uns daqueles moleques da tropa irem como escravos numa carroça. Mas tiveram outros que entraram para as Tropas Estacionárias... — Um dos guardas, que sempre estava presente nas sessões de tortura, comentou.
– Viu garoto? Você não tem mais nada te esperando lá fora.- Complementou Nile, já se esfregando no corpo trêmulo do menor.
– É mentira... — Sussurrava, tentando manter a própria sanidade, que sentia ser engolida pouco a pouco por uma escuridão maciça que tomava sua mente sorrateiramente.
– Não se preocupe... Os anos aqui vão te ensinar no que acreditar.
Foi mais uma noite longa... Não se lembrava do quanto apanhou, ou de quantos caras se aproveitaram de seu corpo, não conseguia se importar mais com nada a sua volta, sentia-se completamente vazio. Uma escuridão assustadora tinha tomado todos seus pensamentos. Tudo que via era a escuridão, e tudo o que ouvia era os gritos de horror daqueles que amava...
. . . .
– Eren? O que aconteceu? — A voz de Mikasa o acordou de seus pensamentos.
– Uh? — Resmungou apenas, e foi ai que percebeu que seus olhos estavam vazando os sentimentos que não conseguia conter dentro de si.
Sem mais questionamentos, a morena o puxou para um abraço acolhedor, que só fez Eren se sentir culpado. Sentia-se fraco, tão fraco que não podia realmente cuidar de si mesmo, tão fraco que fazia Mikasa, quem ele devia proteger, agir como se fosse sua mãe.
Afastou-a gentilmente de si, segurando o rosto delicado da garota entre suas mãos, traçando cuidadosamente com o polegar a cicatriz que ela tinha na lateral do rosto.
"É verdade... Eu tentei matá-la..."
– Me perdoa, Mikasa? — Afastou as mãos dela. As imagens, as descrições do que ela teria sofrido por sua culpa tomavam sua mente, tudo o que ouviu naquela cela também....
– Eren...
– O que aconteceu enquanto eu estive preso? Fale a verdade, por favor. — Se afastou um passo. Precisava ouvir da boca dela se algo tinha acontecido ou não...
O Armin... Vendido como um brinquedo a um nobre nojento...
A Mikasa... Violentada por vários homens asquerosos...
O Heichou... Torturado e morto durante um interrogatório...
Podiam ser mentiras deslavadas, mas só de imaginar cada uma dessas imagens, sua mente começava a obscurecer perigosamente.
Levou uma das mãos a cabeça, lembrando-se da voz daquele homem.
"Você é mesmo uma putinha, não é Jaeger?"
"Vai implorar agora ou quer apanhar mais?"
"Vai ser bem obediente hoje a noite, não vai?"
– Nada aconteceu, nosso equipamento foi confiscado, e tivemos que restringir todas as atividades da Tropa ao castelo. A Tenente maluca e o tampinha ficaram no comando, e... Eren? Está se sentindo bem? — Sentia os passos dela se aproximando, e se afastou mais alguns.
Conhecia aquela sensação... Seus membros estavam leves, não sentia mais dor, não sentia mais nada... Só aquela vontade insana de destruir alguma coisa... E uma ira descomunal ao mesmo tempo.
Virou-se na direção contrária a da irmã e começou a correr. Tal como fez quando fugiu para a cidade logo depois de ser solto. Precisava se afastar de tudo e de todos antes que...
Seu corpo bateu fortemente em algo duro, uma árvore, quase fazendo Eren cair para trás. Cambaleou alguns passos, focando o olhar pra frente, vendo duas figuras não muito longe de si.
"Armin...?"
O loirinho ia a frente com os olhos azuis marejados e o rosto vermelho, andava apressadamente, pisando forte no chão, de forma irritada. Logo atrás vinha Jean, se esforçando para alcançar o menor antes que este voltasse a correr.
De onde estava, poderia ouvir a conversa, já que eles praticamente gritavam um com outro, porém, o estado mental abalado do garoto fazia-o observar a cena como ela estivesse em mudo, prestando atenção apenas nos gestão de ambos para entender qualquer coisa.
No início pensou que fosse uma briga boba, mas quando o Armin acertou um tapa com toda a força que tinha no rosto do maior, deu pra perceber que era sério, até por que, o loiro era um poço de paciência. Eren não conseguiu controlar o sorriso de canto que surgiu em seus lábios, não tinha sido um soco como os que tentou ensinar a ele durante alguns treinos, mas foi o suficiente para deixar o cara de cavalo zonzo.
Sentia orgulho do melhor amigo que tinha, o que Armin não tinha em capacidade física, tinha o dobro em capacidade mental, e não só isso, ele parecia ter um verdadeiro dom para encontrar a solução do que quer que fosse.
"Talvez, eu devesse confiar mais em todos eles... Eles saberiam se cuidar caso algo acontecesse e tam... O QUÊ?!"
O susto foi tão grande que o queixo do garoto quase foi ao chão e os olhos esverdeados saltaram das orbitas.
Em um movimento inesperado, Jean puxou Armin violentamente pelo braço, parecendo realmente irritado, e empurrou o loirinho contra o tronco de árvore mais próximo, logo colando seu corpo ao dele, e passando as pernas do menor que se debatia irado pela sua cintura antes de lhe atacar os lábios.
O som do corpo de Armin batendo na madeira... Os protestos irritados enquanto era beijado á força... O modo como se debatia, mas simplesmente não conseguia escapar...
Ah, Eren sabia exatamente como era aquela sensação.
E não permitiria que Armin a conhecesse também.
"Aquele miserável... Ele vai implorar perdão ao Armin de joelhos e com aquela cara de cavalo deformada..."
Um tremor de puro ódio percorreu todo o seu corpo, e só se intensificava na medida em que se aproximava dos dois. Seus braços e pernas tremiam, seus olhos estavam nublados e um sorriso totalmente insano se desenhava em seu rosto... As lembranças de tudo o que aconteceu enquanto esteve preso retornavam claras e intensas, como se tudo tivesse acabado de acontecer, e só de pensar que alguém que tanto prezava passaria por algo daquele tipo...
Era tão insuportável...
Segurou o ombro de Jean com uma força anormal, jogando-o contra o chão com uma mão apenas, pegando-o completamente de surpresa.
Começou... Ia acontecer de novo... Sua mente estava ficando nublada...
Passado o susto, Jean logo voltou a se munir da sua expressão irônica, iria dizer umas poucas e boas àquele garoto que achava que podia simplesmente ir se metendo onde quisesse.
– Ora, a princesinha finalmente saiu da torre...- A voz do outro soou zombeteira, como normalmente era. — Impressão minha, ou está chorando que nem mulherzinha Jaeger?
O sorriso de Eren se tornou ainda mais insano, um pouco de vapor escapava por entre seus dentes.
Ouvia as palavras, mas elas não faziam muito sentido para si.
Uma gargalhada escapou pela sua garganta.
Não pensava em mais nada.
Não lembrava de nada.
Não sentia nada.
Apenas a vontade de reagir contra tudo o que fizeram a si, de colocar toda aquela mágoa e aquela raiva pra fora.
Viu Levi e Mikasa se aproximando ao longe, mas não se importou.
Jean tinha ameaçado a pessoa errada na hora errada.
Fale com o autor