Beast

5 Sua culpa.


Notas iniciais
Agradeço sinceramente a todos que comentaram, não sabem o quanto me animam para escrever (poucas coisas me animam ultimamente...). Espero que gostem do cap~

Eren... Eren... EREN!

Quando acordou, a primeira coisa que viu foi a figura loira e desesperada de Armin, que segurava seu rosto com força e gritava seu nome desesperado. Sentia duas pessoas segurando seus braços atrás do seu corpo, impedindo-o de... Hm? O que estava fazendo?

– Armin...? O quê...? – Tentou murmurar confuso, mas seus lábios pareciam não se mover conforme sua vontade.

Aos poucos, seu corpo foi se acalmando... E logo sentiu um dos dois pares de braços que lhe prendiam se soltar e Mikasa aparecer com um olhar assustado a sua frente.

– Eren? É você mesmo? Você tá bem? Diga alguma coisa... – A garota tinha as mãos trêmulas enquanto tocava o rosto de Eren, confirmando se sua temperatura já tinha baixado. Afinal, há pouco tempo o garoto estava soltando vapor como se fosse para a forma de titã.

– Cala a boca, deixa o pirralho respirar mulher! – A voz do Heichou soou atrás de si e o corpo de Eren tremeu quando sentiu as mãos do mais velho soltarem lentamente um de seus braços, se mantendo apoiadas na sua cintura, como se para segurá-lo caso tentasse correr.

– Está me ouvindo, Eren? – As vibrações da voz imponente do soldado tocavam a pele amorenada, arrepiando-a de forma nada discreta, o que só deixava o menor ainda mais apreensivo com aquela situação.

– S-Sim, Heichou. – Respondeu respirando fundo, aquelas mãos continuavam lhe tocando...

– Ackerman, Arlert, façam um relatório sobre o que aconteceu a Hanji e digam que eu a estou esperando na... – A voz de Levi se tornava gradativamente mais distante na medida em que Eren voltava a mergulhar na sua mente, no seu próprio mundo turbulento.

Algumas coisas vieram a sua cabeça, em uma espécie de flashes, como se seu inconsciente lhe contasse um segredo... Por que seu inconsciente parecia tão vivo ultimamente?

No primeiro flash, ele avisou Armin e Jean ao longe... O menor parecia realmente bravo, e acertou um tapa no rosto do outro. Sentiu um sorriso de canto no rosto, seu melhor amigo tinha crescido desde que se conheceram, e o tapa que o cara de cavalo levou foi bem bonito.

Porém no segundo seguinte, a cena mudou. Jean puxou Armin com força pelo braço fino do garoto, prensando-o com violência contra uma arvore e o beijando forçadamente. O loirinho acertava socos no ombro do outro que parecia nem sentir...

Um enjoo repentino atingiu Eren.

Não suportaria... JAMAIS suportaria... NUNCA permitiria que seu melhor amigo passasse por nem mesmo um milésimo do que ele foi forçado a aguentar.

Seu sangue que já corria acelerado em suas veias, agora, sentia-o esquentar, ferver... Suas mãos tremiam, um rosnado que não sabia que era capaz de emitir escapou pela sua garganta. Sua mente estava cada vez mais escura... Seu corpo parecia ter o triplo da força, uma eletricidade percorria seus músculos e eles obedeciam imediatamente o que sua mente ordenava: Precisava matar.

– O que aconteceu? – Eren indagou quando se viu a sós com o Heichou. Suas mãos estavam sujas de sangue, mas mesmo assim, queria saber se...

– Você quase matou o Kirschtein de uma surra. – Respondeu lançando um olhar afiado ao adolescente.

Levi odiava ver soldados se ferindo em batalha, e quando nem mesmo estavam lutando — e ainda por um motivo aparentemente inútil — odiava ainda mais.

E se Levi odiava... Eren era quase capaz de sentir na própria pele a dor de cada soldado perdido. Sentia-se culpado por não tê-los protegido... E agora, era o responsável direto por alguém ter se ferido, só que dessa vez, não voltaria atrás de jeito nenhum.

“ Não podia permitir que o Armin se machucasse, e mesmo que eu não o tivesse surrado, garanto como iria puni-lo por pensar em fazer uma coisa daquelas...”

Sentia o coração bater com dificuldade e um nó, que mais parecia uma bola de espinhos, na garganta. Não odiava o cara de cavalo, só achava ele idiota... Não queria machuca-lo, mas... Ele ia machucar o Armin... Ele realmente machucaria o Armin? Ele não parecia ser esse tipo de pessoa...

Na verdade, ninguém da Tropa de Exploração o era.

Todos tinham um objetivo, algo para proteger, para lutar, para arriscar a vida.

Mas... Por que mesmo assim, não conseguia mais confiar em ninguém?

Por que de repente todos os humanos lhe pareciam traiçoeiros? Quando começou a desconfiar de todos aqueles que em que confiava cegamente?

Não tinha deixado de gostar de ninguém, suas mãos tremendo nesse momento eram a prova disso. Tinha ficado grande parte do tempo em que esteve preso preocupado com os outros que estavam lá fora, temia que os boatos que ouvia fossem reais, temia pelos seus melhores amigos, pelos seus companheiros cadetes, por toda a tropa... Realmente, podia dizer que tinha um sentimento especial por todos ali, e lutaria para protegê-los.

Quando começou a sentir que não fazia mais parte daquele grupo de pessoas?

E agora, tinha que protegê-los de si mesmo. Sabia a dor de ser machucado, e exatamente por isso, não queria machucar ninguém... Mas por que diabos vinha fazendo exatamente o oposto?! Não conseguia se controlar...

“Mas não é como se isso fosse novidade, já perdi o controle outras vezes. Talvez... Eu não seja mais humano, acho que é isso que anda acontecendo...”

– Ah sim... – Respondeu qualquer coisa ao Heichou, se afundando em culpa, sem voltar seus olhos ao mundo fora da sua mente. Não sabia mais dizer qual era o mais doloroso, o mundo onde era machucado brutalmente, ou onde machucava as pessoas.

Porém, não teve muito tempo para pensar nisso, uma vez que foi acordado de seus devaneios com um sonoro soco no rosto que o derrubou no chão.

– “Ah sim”...? É tudo o que você tem a dizer depois de tentar matar um integrante da tropa, aliás, alguém que supostamente era seu amigo? – A voz do mais velho era fria e dura, e definitivamente ouvi-la doía mais do que levar três socos como o ultimo. – Se essa história vazar, vão concluir que não é possível te manter sob controle e vão te matar, é isso que quer pirralho idiota? – Ralhou se contendo para não bater mais no garoto.

Eren ainda tinha um pouco daquele brilho desvairado no olhar, e depois de ter precisado da ajuda da Ackerman para tirá-lo de cima do outro garoto, e ainda ter tido bastante dificuldade no processo, Levi achou melhor não provocar por enquanto. Pensaria numa forma de conter os acessos de fúria primeiro.

– Perdão, Heichou. – Do mesmo modo que tinha caído com o soco, Eren tinha permanecido, tal como se fosse um boneco de pano. E parecia que não voltaria a se mexer tão cedo.

Levi se abaixou em frente ao garoto, erguendo o rosto do mais novo com o indicador para encarar aqueles olhos verdes que tanto lhe fascinavam, e acabou tendo uma decepção que quase o fez perder o equilíbrio. Os olhos de Eren estavam tão mortos e obscurecidos que pareciam ter mudado de cor.

– Eren... – Sua expressão podia não se alterar tanto, mas seus olhos e sua voz certamente deixavam transparecer como doía ver o outro daquela forma. – Acorde dessa escuridão que você está vivendo, antes que ela devore você. – Sussurrou baixo, passando o polegar pelos lábios do maior, que estavam ensanguentados por causa do soco que havia levado.

O garoto sentiu um arrepio percorrer sua coluna. Seus olhos que se mantinham vidrados, sem vida alguma, foram se focando lentamente na figura do homem abaixado a sua frente.

“Ele... Pode me entender?”

Aquela pergunta ecoou pela sua mente repetidas vezes, deixando uma sensação acolhedora, que era um bálsamo para um coração já tão quebrado e corrompido.

“Mas... Nem mesmo eu sei o que está acontecendo... Por que ele... ”

Naquele momento, sua percepção de mundo se resumia ao Heichou. Ainda sentia o soco forte no rosto, mas também o toque sutil e inconscientemente carinhoso em seus lábios. Lembrou-se das marcas em seus pulsos, de quando o mais velho o imobilizou em cima da cama... Havia gostado daquelas marcas, as mãos fortes do soldado tinham ficado bem aparentes em sua pele, e algo dentro de si gritava por mais daquela sensação de pertencer...

Sem pensar, inclinou o rosto contra a mão áspera do soldado, tocando o punho do outro com o nariz e inalando seu cheiro... Queria sentir mais dele.

Aquilo era confuso para Eren... Quando saiu daquele lugar, jurou que jamais perderia o controle de si mesmo para alguém, nunca mais iriam lhe forçar a nada, não toleraria ser machucado e usado daquela forma nem mais uma vez. Não importava por quem fosse.

“Por que... Ele me faz esquecer disso?”

Sentiu a outra mão do Heichou subir pela sua nuca, e sua pele parecia implorar por mais daquele calor. O toque de Levi era calmo, sem pressa, como se estivesse apenas sentindo a pele do menor. Seu toque era... Intenso, e viciante como uma droga.

E aquilo assustava Eren tanto quanto a confusão de sentimentos que se formava dentro de si.

Se afastou do homem como se tivesse levado um choque, caindo sentado para trás com um olhar de quem correria dali a qualquer segundo.

“ NÃO! E-Eu não posso esquecer... Ou tudo vai acontecer de novo... Não posso baixar a guarda! Para ninguém! Não posso! Não posso! Não posso...”

Enquanto Eren tentava fazer seu corpo obedecer a sua cabeça, Levi apenas se levantou, observando o olhar do garoto se voltar timidamente para si. Estava a um passo de tomar aqueles lábios manchados de rubro quando o pirralho pareceu perceber o caminho das coisas e se assustou... Era frustrante olhar para aquele rosto corado e aquele bico mal humorado nos lábios tentadores e não poder atacar, mas não se irritou. Já esperava ter um pouco de trabalho para domesticá-lo do jeito que queria.

Bagunçou os cabelos do garoto distraidamente. Queria realmente entender o que se passava com ele, de onde vinha todo aquele medo e aquela raiva, mas não insistiu no assunto, tinha coisas mais urgentes para fazer naquele momento.

– Vá para a sala do Erwin, e fique lá até eu aparecer. Como eu disse antes, se souberem do que você fez, vão tentar matá-lo. – Se afastou do garoto quando percebeu que se o tocasse e falasse ao mesmo tempo, o que dizia não seria perfeitamente compreendido. – Não acredito que ninguém da Tropa vá dizer algo, mas pessoas assustadas são imprevisíveis, e para não apavorar as maricas, eu vou prender você de novo. – Percebeu a cor do rosto do menor sumir, e seus olhos voltarem a ficar ainda mais escuros. – Não vou te jogar no porão, se é o que está pensando. Vou ver o que fazer com você ainda.

Eren tirou o olhar do chão, voltando-o para o homem a sua frente. Gostava dos olhos de Levi, eram nublados, extremamente difíceis de se ler, mas quando se acostumava a ler as entrelinhas daquelas orbes cinzentas, percebia o quanto eram sinceras.

– Obrigado, Heichou. – O garoto falou com o rosto levemente corado e uma insinuação de sorriso no canto esquerdo do lábio. Era algo realmente discreto, mas era uma reação, não é? Melhor do que a cara de morto que o pirralho vinha fazendo, na visão do moreno.

Levi não teve nem tempo de responder qualquer coisa, nem mesmo um “hm”, já que, mal terminando a fala, Eren saiu correndo em direção à sala de Erwin, deixando o soldado sozinho, perturbado com os próprios pensamentos.

Desde quando as reações do Jaeger eram tão importantes para si? Por que sentia tanta falta daquele sorriso besta que o garoto simplesmente não tirava do rosto? Por que... Ver os ferimentos dele, principalmente os ferimentos da sua alma, lhe doía tanto?

Sabia que sentia algo pelo garoto, não era mais nenhum pirralhinho para ficar negando coisas óbvias para si mesmo. Mas agora se perguntava seriamente se sabia da dimensão dos próprios sentimentos, por que pareciam ser mais intensos e traiçoeiros do que tinha previsto...

– Tch, maldito... Agora vou ficar pensando merda o resto do dia... – Resmungou mal-humorado, indo em direção as masmorras. Tinha uma ideia em mente.

. . .

Alguém bateu na porta e Erwin logo autorizou a entrada, vendo Eren com um semblante mais depressivo do que o “habitual” entrar avisando que deveria esperar ali pelo Heichou. Não era que o Comandante não estivesse ocupado, na verdade, ele tinha montanhas de trabalho acumulado pra lidar o mais rápido possível, mas decidiu voltar sua atenção para o garoto, poderia terminar aquilo mais tarde.

– Você... Realmente gosta dos seus amigos, não é? – Comentou atraindo a atenção dos olhos verdes para si.

– Sim... Acho que não há nada que eu não faria por eles. – Respondeu sentando na ponta mais distante do sofá, se encolhendo com uma almofada em seu colo.

– Percebi... – Lançou um olhar para o menor que logo entendeu as entrelinhas. Realmente, Eren estava bem mais perceptivo desde que voltou. Não... Na verdade estava mais desconfiado mesmo. – Não vou dizer nada sobre o que aconteceu, acredito que Levi já tenha te dito o bastante, mas se quiser ouvir, eu tenho um conselho. Ou melhor, dois. – Falou o loiro, sentando-se também no sofá.

– Quais? – Eren se virou na sua direção, e como sempre, Erwin se deixou cativar por aquelas esmeraldas que agora possuíam uma beleza mais fria e melancólica.

– Em primeiro, sempre conheça a situação antes de agir. – Ditou em um tom sério, que fazia sua voz soar ainda mais imponente, mesmo que em um volume baixo. – Quando sair daqui, deveria procurar o Armin e perguntar sobre o que você viu. – Sugeriu com um olhar cúmplice.

– Tem razão... Mas... Hey, espera ai! Está dizendo que... – O garoto quase tinha o queixo no chão.

– Isso só o Armin vai poder te responder. – Sorriu de canto com a expressão pasma do menor.

– É incrível... Você sabe de cada passo de todo mundo da tropa. – O garoto murmurou impressionado, fazendo Erwin soltar uma risada sem nem mesmo perceber. Estar com Eren sempre o fazia sentir-se dessa forma, mais... Espontâneo, por assim dizer.

– Ah, seria tão mais fácil se assim fosse... – Suspirou bagunçando os cabelos do menor que desviou o olhar, acanhado.

– E... Qual era a segunda coisa que iria me dizer? – Perguntou quando o comandante se acomodou mais perto de si.

Ultimamente, Eren evitava qualquer contato mais próximo, com quem quer que fosse, era como se qualquer aproximação o fizesse se sentir apreensivo, porém sempre que o Comandante chegava mais perto, o garoto só conseguia sentir uma espécie de serenidade que parecia emanar do loiro.

– Eren... – Erwin não sabia bem como começar aquele assunto, então resolveu agir como sempre fazia: Foi direto ao ponto. – Não vou dizer que sei o que aconteceu com você, por que nem mesmo eu consigo imaginar com exatidão os horrores que você sofreu. – Levantou o rosto do menor com uma das mãos, encarando os orbes verdes profundamente. – Mas eu quero que tenha em mente que tudo o que aquele homem fez, foi com a intenção de te desestabilizar. Ele quer que você fique realmente louco, de forma que...

– Eu não sirva mais para nada, e a Tropa de Exploração perca minha tutela. – Completou o menor. Suas palavras eram duras, mas infelizmente verdadeiras.

– Exatamente... Veja bem, Eren, não estou te pedindo para fingir que está bem, de forma alguma... Estou dizendo para não hesitar em procurar ajuda se achar que precisa. Eu vou estar aqui sempre que precisar, e tenho certeza que o mesmo vale para a Hanji e para o Levi também. Ele tem aquele jeito de quem não liga, mas te asseguro que enfrentaria um exército inteiro ao seu lado. – Falava sinceramente, olhando fundo nos olhos do garoto que corou intensamente com a última fala.

– O-Obrigado... De verdade, Erwin-san. – Murmurou voltando a baixar a cabeça, desviando daqueles globos azuis tão penetrantes. Talvez a única coisa que realmente o inquietava no loiro eram os olhos... Sempre tinha a impressão que ele podia ler sua mente quando o encarava daquela forma.

Já o Comandante, achava realmente adorável a forma como o garoto ficava sem graça facilmente, desviando o olhar para todos os lugares da sala e mexendo os dedos das mãos nervosamente. Mas por outro lado, sentia um frio no estômago quando o olhar do menor se perdia... Parecia que logo a sanidade do garoto se perderia também.

– Nee Erwin-san... – Eren começou, falando baixinho. Se o Comandante não estivesse a menos de um palmo do garoto, não teria ouvido. – Eu quero esquecer, eu realmente quero, mas... Por que parece tão impossível?

. . .

Já estava naquele lugar há quatro dias...

Sabia disso apenas por que sempre que via um feixe de luz entrar por uma janela que ficava no corredor da masmorra onde estava, fazia um arranhão na parede, para que não perdesse a noção do tempo.

Dentro da cela era sempre escuro. Sempre frio e gelado. A pouca luz que tinha vinha dos candelabros do corredor, e mesmo assim era insuficiente para enxergar pelo menor até o final da sua cela. Não ouvia nada do mundo lá fora, só sabia que era dia quando alguém entrava pela janelinha do teto e ele via que estava claro lá fora. Os únicos sons que chegavam a seus ouvidos eram o barulho dos ratos, o som de uma goteira que ficava em cima de uma tina de metal e, obviamente, tudo o que os soldados comentavam naquele corredor... E sinceramente ele preferia não ouvir.

Ah... Ouvia também os passos...

O pior de tudo aquilo, é que a tortura simplesmente não cessava. Só tinha descanso quando desmaiava de dor.

Durante o dia, eram os guardas que se divertiam sadicamente a suas custas... Espancavam-no, o cortavam, o subjugavam... Deleitavam-se com seu sofrimento, e quando não era isso, torturavam-no por diversão, e todas as vezes, tomavam o seu corpo da forma mais dolorosa e humilhante possível, iam dois de uma vez, lhe introduziam objetos cortantes, ou demasiado largos, lhe aplicavam choques para atordoá-lo e depois usavam a boca do garoto como bem queriam... Eren tinha tanto horror de tudo, tanto nojo, que não conseguia mais enfrentar de cabeça erguida... Acabou se encolhendo dentro da própria consciência, se abstraindo, mandando sua mente para qualquer lugar que não fosse aquela cela... Tentava não se ater ao que acontecia com seu corpo.

Durante o dia, ele conseguia fazer isso. Mas a noite, quando ele vinha, quando ouvia aqueles passos... Sabia que o terror estava apenas começando. E hoje, aqueles malditos passos vinham acompanhados.

Eren tremeu do fundo da sua alma.

A porta da cela foi aberta, e o corpo nu e marcado, encolhido no chão imundo e frio, tremeu visivelmente ao sentir a aproximação atrás de si.

“Por favor, não... Por favor não... Não... Eu imploro... N-Não consigo mais...”

Podia já ter passado por mais coisas do muitas pessoas mais experientes, porém, nada mudava o fato de que Eren era apenas um garoto de quinze anos, não tinha maturidade para entender que, na maioria das vezes, por mais que você implore, se arraste, rasteje vergonhosamente, o mundo só te esmaga com um sorriso divertido no rosto.

Por mais que tudo parecesse perdido, o garoto ainda queria acreditar que haveria uma saída. Que talvez, saísse daquele pesadelo e encontrasse todos que amava sãos e salvos... Mas aquela noite provou que qualquer esperança que fosse desenvolver algum dia, serviria apenas para ser pisada.

Por que essa era lei desse mundo, não era? Os mais fortes iam sempre pisar os mais fracos. E estes só podiam chorar diante da injustiça.

A porta da cela se abriu. Eren não queria se virar, não queria ver do que se tratava. Queria apenas fingir que não existia.

Mas sua vontade simplesmente não importava naquele lugar.

Um pé no seu ombro o fez deitar de costas no chão, olhando para cima e tendo a visão de Nile com um sorriso depravado e uma coleira metálica na mão.

– Como vai a minha puta favorita? Trouxe um amigo pra te ver... – O homem falava com um sorriso nos lábios, pisando no peito de Eren com mais força, atrapalhando sua respiração, mas o foco do garoto era outro.

Segurou a perna em cima de si, aplicando uma rasteira rápida e se aproveitando da queda do outro para se levantar e correr para fora dali. Já planejava isso há algum tempo, e tinha passado os últimos dias se concentrando em gastar as fechaduras das correntes que prendiam seus pulsos e tornozelos. Não olhou para trás, desviou do homem desconhecido que estava próximo a porta e alcançou o corredor.

Sentia-se fraco, há dias que não comia, mas corria o máximo que podia. Não, mais do que realmente podia.

Eren era realmente um menino obstinado... Aparentemente, a vida tinha um prazer sádico em pisar nesse tipo de pessoa.

Mal chegou no meio do corredor e sentiu vários cabos de DMT lhe atravessando a pele, prendendo todo o seu corpo, de forma que nem ao menos conseguia mandar o músculo se mover. A dor era insuportável, o simples ato de respirar era torturante, sua pele era rasgada e esticada pelas pontas do cabos, que se fixavam na sua carne.

O sangue escorria pela pele do garoto, desenhando o contorno de alguns de seus músculos, pintando sua pele de carmim, escorrendo pelas pernas trêmulas, nuas e bem desenhadas, formando uma poça rubra no chão. Para Nile, aquilo era simplesmente lindo.

O comandante da PM se aproximava calmamente, se deliciando ao ver os orbes verdes desesperados, procurando uma forma para sair daquela situação... Uma forma que Nile sabia que não existia, mas adorava ver o garoto tentando.

– Venha aqui, Eren... – Sussurrou já a um passo de distância do menor, puxando-o pela nuca para um beijo forçado. – Vai ser uma noite inesquecível... – Sorriu prendendo a coleira em volta do pescoço do garoto.

Eren ainda tentou escapar quando se viu livre dos cabos, mas para seu desespero, a coleira tinha inúmeras pontinhas pontiagudas na parte de dentro, que se enterravam no seu pescoço quando ele puxava. E essas pontinhas lhe aplicavam choques elétricos de uma voltagem relativamente baixa, mas mesmo assim agonizante.

– Gostou do meu brinquedinho? – Nile sorriu maliciosamente, vendo Eren tentar atacá-lo, mas ser contido pelos guardas. – Vamos lá garoto, diga alguma coisa, quero ouvir sua voz... – Dizia em um tom cínico e divertido.

– Eu vou te enforcar com as suas tripas... – Eren rosnou com um olhar verdadeiramente insano, que fez um calafrio correr pela coluna de alguns.

O comandante apenas riu, ordenando para que levassem o garoto até seu quarto ainda sorrindo. Iria domar aquela pequena ferinha, custe o que custar.

– Trouxe o que eu pedi? – Indagou ao jovem nobre que o acompanhava e sorria perversamente, também cobiçando o corpo do garoto e sabendo que o teria, uma vez que tinha cumprido perfeitamente com o combinado.

– Mas é claro. – Respondeu mal conseguindo conter a excitação.

– Então teremos uma madrugada deliciosa pela frente...

. — . –

Eren estava amarrado pelos pulsos, suspenso no meio do grande cômodo. Suas pernas também estavam presas, mas a correntes fixadas no chão, mantendo-as vergonhosamente separadas.

Debatia-se furiosamente enquanto o homem desconhecido, o tal “amigo” do Nile, tentava tocá-lo das formas mais asquerosas, já o comandante, estava próximo a mesa, fazendo preparativos que Eren sinceramente desejava nem mesmo imaginar.

– Mas que merda Nile! Ele não para quieto! – Reclamou o rapaz, sentando na cama com uma feição mal humorada depois de quase tomar uma bela joelhada.

– Ora, e teria graça se não fosse assim? – Respondeu o mais velho espalhando um pó branco na mesa, e então pegando uma porção com a mão. – Vamos lá Eren-chan, você vai gostar disso aqui... – Pegou um pouco de pó com as pontas dos dois dedos, e os forçou contra as narinas de Eren, fazendo-o prender a respiração ao máximo para não aspirar aquilo... Mas não teve jeito.

Nile repetiu o processo mais umas vinte vezes, sempre aumentando a quantidade, e quando se afastou dessa vez, Eren não se sentia mais tão mal fisicamente, na verdade, um formigamento até gostoso percorria seu corpo, principalmente nas áreas machucadas... Riu distraidamente... Que coisa era aquela?

– Eu não disse que ele ia gostar? Olha só Johnattan, como ele ficou mansinho... – O homem comentou orgulhoso do seu trabalho, voltando à mesa para pegar o ultimo item.

Eren estava distraído... Seu corpo estava esquisito, sua mente não conseguia se focar em nada especificamente, ouvia sons estranhos, vozes ao longe... Percebeu que o comandante da Polícia Militar tinha algo semelhante a um comprimido em mãos, só que de proporções uns tanto maiores, e falava algo sobre ele para o outro rapaz que estava no quarto.

Não entendeu, nem quis entender, seus pulsos estavam sangrando, mas estava fazendo cócegas...

Acordou do seu torpor momentâneo quando sentiu Nile abrindo suas nádegas e introduzindo o tal comprimido na sua entrada, que entrava com estrema dificuldade devido à falta de lubrificação. Eren tentou se afastar, mas logo o tal Johnattan o segurou pela frente impedindo-o de mover o quadril para qualquer lado que fosse.

– Agora sim o show vai começar... – Nile se afastou com um sorriso perverso, observando Eren atentamente, fazendo o garoto sentir náuseas diante daquele olhar luxurioso.

Não demorou muito para que uma sensação estranha começasse a se manifestar no seu baixo ventre, não sabia o que era aquilo, não se lembrava de tê-lo sentido antes... Era de certa forma bom, mas por outro lado muito esquisito, e o olhar satisfeito do outro sobre si definitivamente não era boa coisa.

As mãos do mais velho tocaram levemente a parte traseira do seu joelho, subindo pelo interior da sua coxa e causando um arrepio que entrecortou sua respiração.

– O q-quê...?

Não entendia... Por que... Seu corpo reagia àqueles toques tão asquerosos? Não podia realmente gostar de algo tão nojento, podia?

“NÃO! E-Eu... Não... eu não quero isso, não quero, definitivamente não!”

– P-Pare... – Não reconhecia mais a própria voz. Desde quando falava tão manhosamente daquela maneira?

Johnattan havia tomado a frente de Eren, atacando seus mamilos e subindo até seu pescoço de forma sedenta, o garoto se afastava, mas Nile vinha logo atrás, apalpando-o, violando seu corpo com suas mãos imundas... E logo já não eram apenas as mãos.

Mesmo intensamente drogado, Eren pôde sentir a dor excruciante da penetração lenta e no seco, sabia que Nile fazia aquilo de propósito, para ver o garoto contendo os gritos... O que não aconteceu dessa vez. Sons realmente animalescos escapavam pela garganta do menor, que fazia o possível para manter-se preso à realidade, para não afundar naquela dor insana, ou naquele universo onde seus machucados formigavam... Sentia-se tão sujo que não suportava olhar para si mesmo, tinha vontade de esfolar a própria pele a cada toque que recebia.

Olhou para a parede a sua frente e o susto foi tanto que engasgou com a própria saliva.

“H-Heichou...?”

O homem o olhava diretamente, seus olhos cinzentos tinham um certo brilho de revolta, de raiva, mas mostravam principalmente decepção.

Levi era a pessoa que Eren mais admirava nesse planeta, não aguentava quando o moreno o olhava decepcionado... Mas seu olhar de agora não era apenas decepcionado, parecia furioso, e ao mesmo tempo enojado.

Entendia aquilo, Eren também tinha nojo de si mesmo naquele momento...

– Você é realmente inútil, pirralho... – Sua voz parecia triplamente mais carregada do que o normal, e na medida em que o garoto prestava atenção, via os diversos ferimentos espalhados pela pele pálida. – Um merda imprestável como você deveria ter morrido logo na primeira missão, ao invés disso...

“Petra, Aruo, Eldo e Gunter morreram no meu lugar...”

– Tudo caiu... Tudo em que todos acreditavam foi destruído... – Sua voz adquiriu um tom mais triste, mesmo que ainda irritado, e foi no mais completo horror que Eren percebeu que ele tinha o cadáver ensanguentado e mutilado de Erwin em seus braços. – Culpa sua, seu maldito!

“ O Erwin-san... Morreu... Não! Não pode ser...”

– Culpa sua!

Outra voz se juntava a de Levi, Eren virou o rosto e o choque foi maior ainda... Lá estava Armin, encolhido em cima da cama, seu corpo repleto de marcas de chicote, outras de ferro quente, e claras evidências de estupro.

“O Armin... Foi realmente vendido? Não...”

– Eu confiei em você, Eren. Todos nós confiamos... – O loirinho chorava silenciosamente e abraçava o próprio corpo enquanto falava. – Depositamos nossa confiança em você... – Os olhos azuis vidrados se fixaram nos seus. – Todos que ficam perto de você morrem, não é mesmo?

“Armin...”

– Eren...

Virou o rosto outra vez, e agora seu coração parou uma batida. Mikasa estava no chão, as roupas rasgadas, as pernas bem ensanguentadas, e a parte do abdômen aberta, deixando alguns órgãos a mostra, de onde saiam baratas, aranhas, besouros, e vários outros tipos de insetos.

– Eu sempre fiz de tudo por você, Eren, eu sempre vou te salvar e sempre irei... – Sua voz era arrastada, como se sua garganta estivesse seca como a areia do deserto. – Então por que... Por que você não veio por mim? Por que... Deixou que fizessem isso comigo? – Os insetos que saiam dela alcançavam seus pés e subiam pelas suas pernas. – Eren... Doeu tanto... Por que você não me ajudou...?

“Mikasa... E-eu...”

– Eren... – A voz de Nile soou colada no seu ouvido. Seu corpo balançava nas correntes, indo e vindo com força, no ritmo bruto e doloroso do Comandante. – Isso tudo... Ah... Foi você que causou... Sabe disso, não é? – Gemia no ouvido do garoto, aumentando a intensidade das estocadas.

– Como e-eu...

– Mal deixou o Erwin esfriar na masmorra... Ah... Hn... E já saiu dando... Para o meu esquadrão... Hnn... Não foi? Ah, sua putinha... – Mordeu com força o pescoço do menor, a ponto de sair sangue.

– N-Não...

– Como não? Aposto... Que estava tentando usar esse seu rabo delicioso para sair daqui... Hmmm... Não é? Admita sua puta... – Estocava com força, puxando os fios castanhos com força com uma das mãos, e arranhando sua pele com a outra. Não precisava segurá-lo uma vez que Johnattan já estava colado a frente do garoto.

– Não... E-Eu não...

– O que, Eren? Acha que todo mundo... Iria... Simplesmente te comer? — Deu um tapa forte no traseiro do menor. – Você... Hn... Provocou isso...

“Então... Essas coisas nojentas... São minha culpa?”

Um novo formigamento começou a se espalhar pelo seu corpo, e quando olhou para baixo, viu algo se mexendo embaixo da sua pele. Onde aquelas mãos indesejadas tocavam seu corpo, surgiam aranhas... Aranhas que andavam por baixo da sua pele, subindo pelos seus braços e pernas, alcançando seu tronco, algumas saíram da sua pele pelo seu umbigo. Eram aranhas pretas e peludas, com patas pontiagudas. Outras continuaram subindo, passando pelo seu pescoço, saindo pela sua boca... Ele queria gritar, mas as aranhas tapavam sua garganta, tentou fechar a boca, mas acabou esmagando algumas aranhas que se debatiam na sua boca e lhe mordiam dolorosamente a ponto de gritar...

Só queria morrer naquele momento.

. . .

Erwin olhava para o garoto totalmente sem ação. Não sabia realmente o que fazer, e eram raríssimas as ocasiões em que isso acontecia na sua vida.

Eren havia fixado o olhar em um ponto da parede, e depois de um tempo, lágrimas rolavam pelas belas esmeraldas, que agora se encontravam tão opacas, e o corpo do menor tremia compulsivamente.

– Ei, Eren... – Tocou levemente o ombro do garoto, e vendo que não recebia nenhuma resposta, resolveu balançá-lo. – Ei Eren! – Chamou alto, sua voz imponente ecoando pela sala, fazendo o menor acordar sobressaltado dos seus devaneios.

– E-Erwin-san... – Murmurou parecendo apavorado, realmente apavorado, e o loiro não resistiu: Puxou o Jaeger para o seu colo, abraçando-o protetoramente.

– Ninguém mais vai te machucar, eu prometo, ok? – Sussurrou no ouvido do adolescente que tinha o rosto escondido na curva do seu pescoço e se encolhia no seu peito, ficando tão próximo do maior que Erwin podia sentir o coraçãozinho acelerado bater contra o próprio toráx.

Passou um tempo acariciando calmamente os fios castanhos, percebendo o corpo do garoto ir parando de tremer gradativamente, até que Eren respirava normalmente, tendo o nariz ainda colado na curva de seu pescoço, coisa que o loiro não imaginava que gostava tanto.

Erwin não deixava transparecer, mas era o tipo de homem carinhoso, e que gostava de ter momentos calmos e “doces” com a pessoa amada. Era uma pena que Levi simplesmente detestasse completamente tais momentos melosos.

Se bem que Eren... Ele parecia tão relaxado em seus braços nesse momento que não resistiu outra vez e afundou o rosto nos cabelos do menor, adorando aquela fragrância que lhe lembrava canela.

Ouviu a porta abrir, mas nem se mexeu. Conhecia aquele andar perfeitamente.

“ Oe, Erwin. Isso se chama aliciamento de menores, sabia?”

Levi pensou em dizer, mas... Tinha que admitir, era uma cena, er... Bela, de certo ângulo. Gostava de ver os dois juntos, mesmo que se sentisse um tanto (muito) irritado quando não estava por perto e não sabia o que tinham aprontado com o seu pirralho. E também, era a primeira vez que via Eren verdadeiramente calmo perto de alguém, então, achou melhor deixar do jeito que estava.

Entrou silenciosamente no recinto, provocando um breve tintilar de metal por causa do objeto que tinha em mãos.

Erwin olhou bem para o que Levi trazia, depois novamente para o rosto do moreno.

Ou aquilo daria muito certo, ou muito errado.

Notas finais
Bem, sobre a lembrança do Eren, caso alguém não tenha entendido, ele ficou tão chapado que de fato viu e sentiu aquilo tudo. O que aconteceu foi que ele teve o que pode ser chamado de uma "má viagem", ou seja, ao invés de alucinar em um mundo de sonhos, ele acabou tendo um pesadelo praticamente real. Isso pode acontecer quando se mistura dois tipos de substância (tipo, ecstasy e maconha). Qualquer erro, por favor, me avisem, não tive tempo de revisar. Vejo vocês nos reviews? (por favorrr diz que siiim, quero saber o que acharam do cap) Até mais~ Kissus