Beast
6 Diário do diabo.
Notas iniciais
“Os braços do Comandante são tão quentes...”
Eren relaxou mais no colo de Erwin, chegando até mesmo a sentir uma certa sonolência enquanto o outro acariciava seus cabelos calmamente. Por algum motivo que não entendia, sua mente processava o fato de estar sentado no colo do Comandante da Tropa com o rosto escondido no seu pescoço como algo perfeitamente normal. Mas... Se o Erwin mesmo o tinha abraçado, não havia problema, não é?
Fechou os olhos, encostando o nariz na pele do maior, se sentia acolhido naquele abraço. De repente, não era mais nenhum monstro, ou uma pessoa ruim, era apenas alguém que sofria e precisava ser consolado... Não, não era consolo. Era mais do que isso... Era mais um “estou aqui, pode contar comigo”.
Ouviu a porta de abrir devagar, mas nem se mexeu. O Comandante não parecia preocupado, então não tinha razão alguma para estar também. Ouviu alguns passos lentos e pesados entrarem e a porta se fechar em seguida. Conhecia aqueles passos...
– Levi, o que significa isso? – Indagou Erwin parecendo sério, mas por dentro tinha adorado a ideia do menor. Agora não só estariam no mesmo quarto, como também presos um ao outro e isso adiantaria muito as coisas nos seus planos.
– Eu ia usar algemas... Mas quando sai, percebi que alguém poderiam se lembrar da regeneração do garoto e que ele poderia cortar o braço para escapar. Então, resolvi usar uma coleira. – Deu de ombros displicentemente.
Eren enrijeceu no colo do loiro. Por um momento pode ver perfeitamente aquela cena... Nile a sua frente com aquela maldita coleira... E depois... Depois eles foram para aquele maldito quarto e...
– Eren, o que foi? – Erwin indagou preocupado, já que por estar quase colado ao garoto, podia sentir cada uma de suas reações.
O garoto virou o rosto cuidadosamente na direção do homem que tinha entrado há pouco tempo, engolindo em seco quando viu o objeto em suas mãos.
– Agora... Venha aqui, Eren.
Por um segundo as duas cenas se misturaram.
O som das correntes... A coleira metálica...
“ Venha aqui, Eren. Vai ser uma noite inesquecível...”
Sua mente escureceu por completo, afogando-se novamente na lembrança daquela noite agonizante, e o lado mais insano da sua personalidade assumia seu corpo, em uma forma torta de proteger seu coração já tão machucado.
Certa vez, o próprio Levi havia dito que Eren era um monstro, mesmo na forma humana.
E nesse momento, não poderia estar mais certo.
– E por que você acha que eu vou te deixar colocar isso em mim? – Sua voz soava ácida, com um tom irônico doentio, surpreendendo Erwin e Levi, que o encararam não menos que impressionados.
– Eu não pedi sua permissão. – Devolveu o Heichou com um sorriso de canto. Se o pirralho queria apanhar, não via por que negar...
– Óbvio. Você não sabe o significado da palavra pedir. – Os orbes verdes começavam a cintilar, aquele brilho insano e perturbador, enquanto os dois se aproximavam um do outro no centro da sala.
– Eu não preciso disso quando posso mandar. – Levi tinha que admitir, até se divertia com aquele lado do garoto. – Agora seja um bom cachorro e venha aqui antes que eu te faça sentir o gosto do seu sangue.
– Vai ser um prazer sentir o gosto do seu sangue... – O garoto rosnou, sorrindo de forma deturpada. Um sorriso negro e vazio, um reflexo de toda a dor que sentia.
Sem hesitar, Eren correu na direção do mais baixo, soltando uma quantidade imensa de vapor pela boca, parecendo pronto para atacar. E para piorar a situação, o moreno não estava com suas DMTs. Não que fosse problema, mas todo cuidado era pouco, não podiam permitir que o garoto se transformasse em titã nesse estado.
Porém, não era como se Erwin fosse permitir que o seu Levi corresse ao menos o risco de se machucar.
Com uma rapidez e destreza surpreendentes, o loiro agarrou o menino pelas costas, mantendo os braços deste junto ao corpo, prendendo-o em um abraço forte, onde mesmo se debatendo como um animal enjaulado, Eren não conseguiu sair.
O garoto rosnava selvagemente, se debatendo com uma força verdadeiramente monstruosa, fazendo Erwin ter que recuar até o sofá onde estavam e se sentar com o menor em seu colo, impedindo seus pés de tocar o chão e se levantar.
Segundo a Hanji, era comum que essa força assustadora se manifestasse, todo ser humano possui uma força latente que é liberada somente em momentos de alta tensão, uma vez que essa força, justamente por ser realmente poderosa, pode causar danos ao próprio corpo. Mas aquela pressão que Erwin sentia contra seus ossos era algo assustador, talvez se devesse ao estado de estresse extremo do garoto durante esses surtos, porém mesmo assim, parecia algo mais.
Vendo a dificuldade de Erwin em conter o garoto — que parecia realmente fora de si — Levi subiu no colo de Eren, imobilizando assim suas pernas, e fechou as mãos no pescoço do garoto sem dó nem piedade, impedindo-o de respirar por um bom tempo. Só quando o mais novo parou de se debater e já estava bem perto de desmaiar por falta de oxigênio, que ele o soltou.
“ É carinho demais para um casal só...” Erwin ironizou mentalmente, ponderando se seria realmente seguro deixar aqueles dois a sós.
Eren puxava o ar para os pulmões desesperadamente, sentindo um alívio avassalador quando finalmente pode respirar. Sentia o corpo mole, a cabeça e a garganta doíam, e... O que tinha acontecido mesmo? Por que o Heichou estava em cima de si? E... O que era aquilo? Por que ele tinha uma coleira de ferro na mão?
“ O que foi eu fiz?” Eren se desesperava ao cogitar todas as piores hipóteses possíveis, e já imaginando a punição que receberia.
Já Levi era o que tinha os pensamentos mais... Perturbadores para a ocasião. Ter o garoto embaixo de si, com o rosto vermelho, ofegante, com aquela carinha assustada e as marcas das suas mãos na pele estava mexendo seriamente consigo. Seriamente, mesmo.
Erwin soltou um pouco os braços, facilitando a respiração do menor que se sentiu imensamente grato por aquele pequeno gesto, o que não durou muito, já que logo Levi puxou violentamente os fios castanhos, virando o rosto do menino para si.
– Vou deixar uma coisa bem clara aqui – Seu tom era baixo e ameaçador. — Ou você me obedece direitinho, ou ninguém garante que você vai chegar inteiro ao final do dia, entendeu?
Erwin pode sentir na pele o tremor que ultrapassou o corpo em seu colo.
– Levi, um pouco mais de paciência, sim? – Mesmo falando de forma calma, seu tom era um claro sinal de alerta.
– Eu falei que iria domesticar o garoto, e eu vou. – Devolveu ríspido. – Eren, responda sinceramente, você me odeia? – Mudou o foco da conversa para o garoto que tomou um susto com a pergunta repentina.
– Claro que não! – Respondeu sem pensar nem meia vez.
– Já te enganei alguma vez?
– Não.
– Então por que é tão difícil simplesmente confiar em mim? – Indagou o encarando profundamente, seus olhos cinzentos parecendo enxergar a sua alma.
Seus rostos estavam realmente próximos, tanto que Eren podia ver cada tom das íris azuladas do Heichou e sentir sua respiração tocando seus lábios. Não conseguia raciocinar devidamente daquela maneira!
– Não é que eu não confie... – Murmurou sem saber por onde começar.
“ É que eu nunca sei o que pensar quando estou perto de você.”
“Não confio em mim mesmo quando estou ao seu lado, mas sei que posso fazer qualquer coisa que me mande, apenas por que foi você.”
“ E também... Eu me sinto mole quando você fica assim tão perto...”
– Então o que, pirralho? – Pressionou estranhando o tom rubro das bochechas do garoto.
“ Eu não consigo te odiar, não consigo lutar contra você, e isso é definitivamente assustador”
Eren apenas desviou o olhar, o que fez com que Levi segurasse seu rosto com as duas mãos, se aproximando ainda mais, forçando-o a encará-lo. Mantendo os olhos conectados, ou não entenderia os significados daquelas ações tão confusas.
– Eren, eu não tenho a intenção de te machucar gratuitamente... – Se permitiu a um leve afago na bochecha do menor, deslizando a mão para sua nuca. — Mas não espere que eu aceite esse seu comportamento, e muito menos que eu seja conivente com essas suas crises de cachorro louco. Ouse me atacar, e vai tomar uma surra, entendeu? – Completou tocando distraidamente as marcas das suas mãos que tinham ficado no pescoço do menor.
– Sim senhor. – A voz do garoto soava baixa e arrastada, não conseguia desviar seus olhos daquele céu tempestuoso que eram os orbes do seu superior.
– Eu assumi responsabilidade sobre você, eu te treinei, te moldei de forma que obedecesse perfeitamente as minhas ordens. Eu não admito que nada estrague o meu trabalho. – Suas duas mãos alcançaram a nuca de Eren que parecia hipnotizado, variando a atenção apenas entre os lábios e os olhos do homem em cima de si. – Você é meu, compreendeu bem? Você me pertence, e é bom que não se esqueça disso.
O pobre Erwin estava desesperado, por um lado, estava adorando a forma como seu plano corria bem, por outro, observar aqueles dois tenho um “momento” bem em cima do seu colo, era um tanto complicado... Afinal, ambos pareciam não ter ciência disso, mas estavam tão próximos que seus narizes quase se tocavam, as pernas de Levi se encaixavam em volta do quadril de Eren que tinha as mãos esquecidas em cima das coxas do menor, seus corpos pareciam se atrair inconscientemente...
Erwin não era nenhum adolescente para ficar duro com qualquer coisa, mas aquela cena era uma verdadeira prova de fogo para seu autocontrole! Definitivamente não conseguiria se manter quieto se aqueles dois começassem a se pegar.
– Eu quero minha resposta... Confia em mim, Eren? – Quase sussurrou contra os lábios do garoto.
– Completamente. – Respondeu no mesmo tom, porém, sem o mínimo de hesitação.
Levi sorriu um pouco de lado, um sorriso com um ar “ mal intencionado”, se aproximando ainda mais, roçando os lábios levemente, prestes a...
– HAHAHAH ERWIINNN EU CONSEGUII! – A Hanji abriu a porta num estrondo e... Ela até teria voltado discretamente se já não tivesse atrapalhado o clima.
E uma vez que estava ali, com certeza iria aproveitar para babar um pouquinho enquanto debatia consigo mesma se sentia inveja do Levi, por estar em cima daqueles dois pedaços de mal caminho, do Eren por estar no meio daqueles dois gostosos, ou do Erwin que tinha um casal que ela classificava como a personificação do pecado, em seu colo.
– Já ouviu falar em “bater na porta”, quatro olhos? – Pela voz, ela podia dizer que Levi não estava muito irritado... Estava extremamente puto.
– E vocês três já ouviram falar em “quarto”? – Respondeu com um meio sorriso, vendo a aura negra do baixinho piorar, o garoto praticamente fugir do meio dos dois parecendo uma pimenta humana e até mesmo Erwin pigarrear um tanto constrangido.
– Então, o que tinha para me falar, Hanji? – O Comandante preferiu ignorar o comentário da Tenente, voltando para sua mesa como se nada tivesse acontecido.
Já Eren tinha começado a ler um livro (de cabeça para baixo) para não encarar a sua superior e amiga, e Levi... Bem, estava lamentando não estar com suas lâminas naquele momento.
– Eu pressionei uns caras da PM, e descobri que você estava certo. – Falou se sentando de forma despojada entre Levi e Eren, recebendo um olhar assassino por parte do menor e sorrindo descaradamente em resposta. Adorava provocar aquele baixinho!
– Da PM...? – O garoto voltou sua atenção a mulher, fechando o livro que nem sequer tinha visto o título.
– Os papéis não só existem, como estou com todos eles na minha sala. E também... – Dizia quando foi subitamente interrompida.
– Que papeis? – Indagou Levi desconfiado, vendo Eren empalidecer ao seu lado na medida em que o assunto sobre os documentos corria. – Tá sabendo de alguma coisa, pirralho?
– E-E-Er... – O garoto simplesmente travou. Tinha sérias desconfianças sobre o conteúdo daqueles papeis, e se fosse mesmo o que estava pensando... Preferia morrer do que ter aquilo trago á tona. – Nã... Digo, eu não sei, eu...
– Só responda que não sabe. Não precisa ter um ataque cardíaco. – O Heichou ditou em um tom mais ameno, passando o braço por trás de Hanji e tocando os fios castanhos do menor, como se esse fosse um cãozinho assustado.
A Tenente olhava de um para outro, imaginando como aqueles dois tinham chegado àquele nível e ela não tinha percebido! Trocou um olhar malicioso com Erwin, definitivamente interrogaria o loiro mais tarde... Porém, agora, tinha um assunto mais sério pra tratar.
– Então... Levi, sua coleira vai ficar para mais tarde e Erwin, eu estou oficialmente te expulsando da sua sala. – A castanha falou em um tom autoritário. – Eu e Eren temos um assunto a tratar. – Adicionou com um olhar maternal em direção ao garoto, mas que nem por isso o deixou menos nervoso.
Levi odiava aquela situação... Mas sabia que o garoto não se abriria consigo de modo algum. Só realmente falaria se fosse com Armin ou Hanji, boas escolhas ao ver do Heichou... Ambos eram bem inteligentes, centrados (acredite se quiser, mas a Hanji consegue ser assim em alguns momentos de lucidez), calmos (no sentindo de ouvir qualquer coisa cabeluda e não surtar), e mais importante, ambos fariam tudo e um pouco mais por Eren.
Mesmo entre xingamentos e ponta pés, Levi de certa forma respeitava e confiava na Tenente. Uma vez ambos ficaram bêbados, e ela acabou lhe contando sobre como tinha chegado até ali... A Hanji era a irmã do meio dentre mais dois irmãos, um mais velho, e outra mais nova; quando seu irmão entrou para as Tropas de Exploração, ela e a irmã ficaram sozinhas com a mãe, e em uma noite em que a Hanji havia passado na biblioteca da cidade (que ficava dentro da muralha Rose) imersa em seus livros sobre medicina, sua casa foi invadida, sua mãe morta e sua irmã mais nova violentada.
Ela sempre fora uma mulher forte, mais protetora que sua mãe, e mais carinhosa que sua irmã, já que na falta do irmão mais velho, ela se sentia no dever de cuidar das duas... Mas naquela manhã... Quando chegou em casa... A cena quase foi forte demais para suportar. Queria correr, fugir, não acreditava no que via. Mas como a guerreira que era, cuidou do enterro da mãe e assumiu o filho da irmã, deixando apenas entre as duas aquele acontecimento.
Por ser, supostamente, mãe solteira, não demorou muito para que boatos sobre ela se espalhassem e Hanji tivesse que correr para conseguir um casamento para a irmã antes que esta também ficasse “falada”. E quanto a si mesma... Não importava. Sua irmã tinha se casado com um homem carinhoso e que cuidava dela, estava quase terminando sua faculdade (clandestina, já que não aceitavam mulheres médicas, apenas enfermeiras), e acima de tudo tinha Logan, seu filho, aquele a quem mais amava e que nunca a deixava ficar sozinha.
Nunca contou a ele que na verdade era seu sobrinho, e não filho, mas sabia que mesmo se ele soubesse, tudo ficaria bem... Os dois sempre ficavam um do lado do outro. Sempre. Ele era o único que aguentava os surtos de empolgação da mãe quando falava sobre biologia e medicina, na verdade, se divertia com sua personalidade estranha e admirava sua inteligência.
Logo quando soube do ocorrido, e que a irmã estava vivendo sozinha, o irmão de Hanji logo voltou para casa, e Logan, que tinha um temperamento incrivelmente forte, logo se interessou pelas histórias do tio sobre a Tropa... E assim que atingiu idade o suficiente, se alistou. Hanji, não suportando a ideia de não saber o que acontecia com o filho, foi junto. E foram bons anos... Até a missão onde ficou presa embaixo de um tronco e assistiu o irmão e o filho serem devorados na sua frente.
Foi nesse dia também que saiu da Divisão de Apoio aos Feridos da Tropa e entrou na linha de ataque. Se dependesse de si, ninguém mais experimentaria aquela dor tão insuportavelmente amarga...
E quando conheceu Eren... Não apenas o temperamento forte que lhe lembrava Logan, mas também a história dele com a mãe... Tão parecida com a sua. Compreendia-o, entendia a dor que sentia, pois já tinha passado pelo mesmo, e de forma inconsciente, Eren também parecia entender Hanji. Era um entendimento silencioso, que até mesmo fugiria ao olhar de alguém menos atento, mas não ao de Levi.
Não era possível dizer se, no fim de tudo, os dois eram apenas uma mulher que nunca superou a perda do filho, e um garoto que não superou a morte da mãe, mas era fato conhecido que a única criatura que não se incomodava com as crises de loucura da Hanji era o Eren, e a única pessoa que conseguia cuidar do garoto quando este estava ferido era a Tenente.
Por isso, unicamente naquela situação, Levi era capaz de confiar na maluca.
Ele e Erwin trocaram um olhar de “com mulher louca não se brinca” antes de sair, claro, com a promessa que estariam bem na porta.
Na verdade, Erwin ficou. Levi fingiu estar irritado e saiu pelo corredor... O que não escapou ao olhar afiado do Comandante.
Erwin sabia bem o que o menor ia procurar, e depois de muito ponderar se aquilo seria uma boa coisa ou não, ao se lembrar das palavras do moreno mais cedo, se sentia mais tranquilo.
“ Você é meu, compreendeu bem? Você me pertence, e é bom que não se esqueça disso.”
“Eu quero minha resposta... Confia em mim, Eren?”
“Completamente”
– Ah, esses dois... – Suspirou com um meio sorriso, já imaginando qual seria seu próximo passo.
. . . .
Na sala do Comandante, Eren tremia interiormente enquanto a Hanji apenas o olhava diretamente, sem expressão nenhuma...
Tinha medo do que ela iria pensar de si. Era alguém importante, alguém que gostava do fundo do coração, e não queria que ela ficasse com nojo dele por causa do que aconteceu... Principalmente no sétimo dia.
“Calma... Não se precipite, talvez não tenham sido aqueles papéis que ela achou e... Tch, o que merda eu estou pensando? Que outros papéis poderiam ser?”
– Eren, vou ser direta por que eu não sei ser de outro jeito... – Iniciou ela, se aproximando do garoto. – Existem criminosos que trabalham para a PM, não oficialmente, é claro, mas sim para atender aos pedidos de alguns membros daquele lugar, se é que me entende, e foi ameaçando um deles que eu consegui...
– Os diários de Nile. – Completou o menor, se afastando do toque da cientista em seu ombro. Sabia da existência daqueles diários, pois muitas vezes Nile escrevia na sua frente, e ainda lia em voz alta, como forma de humilhá-lo ainda mais.
– S-Sim... – Ela hesitou por um momento. Sentia sua garganta fechando, e olhar para o semblante culpado de Eren só a fazia ter ainda mais vontade de chorar... E de matar a todos daquela polícia imunda. – Er, eu sei que você não quer que saibam de... Tudo o que aconteceu, então... E-Eu queria pedir desculpas por ter lido, mas... Ah, Eren eu não consigo acreditar que...
– Hanji-san, eu juro, eu não queria ter feito nada daquilo... Eu... Foi minha culpa, mas eu realmente não queria! Foi tão... – Queria dizer a ela que não era nada como a “putinha” que Nile descrevia em seus escritos, que odiava tudo aquilo, que jamais concordou com nada do que lhe fizeram... Mas as palavras não vinham a sua mente.
“Talvez... Nada do que eu diga vá importar no final das contas. Talvez eu devesse apenas ficar calado de uma vez, afinal... Por que mais fariam aquilo comigo? No começo eu pensei que quisessem se vingar pelo que eu disse naquela vez no tribunal, só que... Era demais, eram coisas demais para só algumas palavras... Eu devo ter feito alguma coisa para merecer, mas...”
Sua linha de pensamentos foi subitamente interrompida por um abraço apertado por parte da cientista. Um abraço acolhedor e cheio de significados para ambos.
– Nunca mais diga que foi culpa sua, me entendeu?! – Exclamou enterrando o rosto nos cabelos do menor. – Nunca mais! Por Deus, Eren... Aqueles homens são verdadeiros monstros! O que eu não consigo acreditar, foi como pudemos permitir que tudo aquilo acontecesse com você... Eu... – Lágrimas se formavam nos olhos castanhos, e diante daquilo, era impossível para o garoto de manter impassível. – Eu li tudo aquilo, e não consigo acreditar como o ser humano consegue ser tão asqueroso! Eren, perdão... Nós da Tropa deveríamos ter arrumado um jeito de ficar de olho em você lá dentro, mas...
– Hanji-san, não foi culpa de vocês. Realmente. Eu... Só fico feliz por todos estarem a salvo. – Retribuiu o abraço da mulher, sentindo as lágrimas dela tocarem sua pele, enquanto as próprias desciam pelas suas bochechas.
A cientista apenas o abraçou ainda mais forte, sabia das notícias que tinham chegado até ele enquanto esteve preso, e havia ficado realmente surpresa ao perceber que, no final das contas, a maior preocupação do menino não era o que acontecia consigo, mas o destino de todos que estavam lá fora.
– Eren, deixe-me de te dizer uma coisa. – Ergueu o rosto do menor para si, enxugando as lágrimas que escapavam pelos olhos verdes, ainda tão profundos e opacos, com a ponta dos dedos. – Não importa o que digam, nunca se esqueça de quem você é. E você, definitivamente, é muito mais humano do que muitos que se dizem sê-lo por ai.
– M-Mas...
– Você confia mais na palavra daqueles nojentos do que na da sua Tenente? Haaamm? – Falou em um tom mais brincalhão, quebrando um pouco daquele clima mórbido, ou não pararia de chorar naquele ano.
Eren apenas negou com a cabeça, deixando um discreto sorriso de canto vir á tona quando ela beijou carinhosamente uma das suas bochechas, fazendo um estalo divertido.
– Ah, Eren, espero que não fique bravo, mas decidi entregar os diários ao Erwin. Eu fui a única que li até agora, queria te avisar antes de mostrar a qualquer outra pessoa... – Falou mantendo o rosto do menor ainda encostado em seu ombro.
– Tudo bem... – Suspirou de forma cansada.
“Não é como se eu pudesse discordar de qualquer maneira...”
– E acho que talvez o Levi acabe lendo... – Ela comentou com um sorrisinho brincalhão que o menor não pode ver.
– Eu morreria de vergonha se isso acontecesse. Tenho certeza que ele viria tirar satisfações, e... – Resmungou desviando o olhar.
– E...? – Insistiu a Tenente.
– Eu sei lá! – Resmungou com o rosto em brasas só de imaginar. Lembrava bem da reação do Heichou quando viu as marcas nas suas costas, e sabia que daquela vez não escaparia de modo algum.
– Estou brincando, Eren. Duvido que o Erwin o deixe ler aquilo, o Levi ia ficar doido. Sabemos como ele é possessivo em relação a você... – A cientista adorava deixar o garoto sem graça, era simplesmente a coisa mais adorável que já vira.
– Não começa... — Respondeu escondendo o rosto com uma das mãos.
– E você gosta disso...
– Não gosto de jeito nenhum!
– E o que vocês estavam fazendo quando eu cheguei...? – Ah, dessa ele não teria como escapar.
– Conversando. – Respondeu lhe encarando seriamente.
“ Tá de brincadeira comigo! O Levi estava quase avançando em cima de você e aquilo era só uma conversa?!”
Hanji se perguntava que milagre Erwin pretendia realizar para juntar aqueles dois...
– Sério? – Indagou olhando para o garoto que parecia não entender o porquê dela estar tão surpresa.
– Uhum. Ah, se você está falando sobre aquela situação foi por que... Eu meio que perdi o controle...Não sei ao certo, só me lembro da voz do Heichou me trazendo de volta. – Falava olhando distraidamente pela janela, o dia estava nublado, assim como a cor dos olhos dele...
“Tão fofo! ” Hanji se controlava para não sufocar o garoto com outro abraço.
– Ah, Eren, e sobre essas perdas de controle... Quando isso começou? – Indagou preocupada sobre o que aquilo poderia vir a se tornar.
– Huh? No sétimo dia... Não leu essa parte? – Respondeu com um olhar confuso.
– Não tinha nada sobre você no último diário daquela semana. Na verdade, só descreve o que aconteceu pela manhã, depois disso, está tudo em branco. – Falou mais confusa ainda.
– Sério...?
– Por que, o que houve nesse dia? – Perguntou simplesmente, mas logo se arrependeu quando viu o garoto segurar a ânsia de vômito.
“ Nunca tinha visto tanto sangue na minha vida... O barulho dos ossos de partindo, a pele rasgando... Doía tanto... Aquele cheiro, de sangue e algo mais forte, fazia minha cabeça rodar, era tudo tão escuro e doloroso que...”
– Eren! – A voz da Tenente o acordou de seus devaneios, como um balde de agua fria sobre alguém em chamas. – Você está bem?
– S-Sim...
– Não precisa me contar nada agora se não quiser, ok? – Falou compreensiva e o garoto acenou com a cabeça em resposta.
– Eu tenho que perguntar uma coisa para o Armin agora... Obrigado Hanji-san, até depois. – Se despediu o menos nervosamente que conseguiu e escapou pela porta.
A Cientista apenas ficou estática, seus neurônios trabalhando nas inúmeras possibilidades do que poderia ter acontecido naquele dia... Sabia que aqueles diários não contavam tudo, e agora tinha ainda mais certeza.
Trocou um olhar preocupado com o Comandante quando este entrou na sala.
O que estavam tramando, ia muito além da esfera da Tropa de Exploração, era realmente um golpe de estado. Mas para isso, tinham que “imobilizar” a Polícia Militar, e para tal, cada mínima informação era preciosa... Porém, o que assustava o Comandante e a Tenente cada vez mais, era o conteúdo sórdido de cada um desses segredos.
. . . .
“ Erwin... Sinceramente, as vezes acho que você se esquece com quem está lidando.”
Refletia o soldado mais forte da humanidade, testando cada uma das tábuas do assoalho do quarto da Tenente Hanji Zoe.
Ah, encontraria aqueles diários custe o que custar.
Se perguntava se o Comandante sabia o que ele iria fazer quando saiu pelo corredor... Era tão irritante, nunca sabia ao certo o que aquele homem pensava. Ok, talvez houvesse momentos em que soubesse... Erwin era um amante bem transparente. Mas como comandante, era como se seus pensamentos seguissem uma frequência diferente da dos seres humanos normais.
– Tch... Esse quarto está tão imundo que ela poderia esconder os diários só embaixo da poeira. – Resmungou passando o dedo por um dos móveis.
Sentia um impulso avassalador de dar uma geral naquele lugar, mas não podia denunciar sua presença por ali de modo algum.
Continuou procurando, tentando mexer o mínimo possível em tudo, tanto para não levantar poeira, como para não tirar muita coisa do lugar... Além do mais, não queria admitir para si mesmo, mas se sentia... Um tanto quanto desconfortável por mexer nas coisas da Tenente de forma tão descarada, e ainda mais de uma mulher! Mas por um lado sabia que se fosse a situação contrária, ela reviraria seu quarto sem um pingo de remorso.
Depois de revirar todo o local, já estava quase sentindo a pele formigar por passar tanto tempo naquele armazém de poeira, e sua mente começava a tomar medidas desesperadas.
“ Um lugar onde a louca acha que eu jamais procuraria...”
Tão rápida quanto seus movimentos com os DMTs, era sua capacidade de raciocínio, e mal o pensamento se dispersou na sua mente e seus olhos voltaram para aquela gaveta.
Sim, a gaveta que vinha evitando até agora.
A gaveta de roupas íntimas da Hanji.
“ A que ponto eu cheguei...” Resmungou mentalmente, abrindo a gaveta.
Não era que tivesse vergonha ou algo do tipo... Muito longe disso. A questão era que se tratava da Hanji, a criatura mais insana em que já havia posto os olhos. Não sabia o que poderia encontrar ali dentro...
Começou a tatear a gaveta, espiando alguns itens por curiosidade — e realmente se arrependendo depois — até encontrar alguns cadernos disfarçados, envoltos em uma lingerie completa de renda preta.
– Huh, nada mal quatro olhos... – Murmurou tirando um dos cadernos de dentro da peça, e pondo os outros no lugar. Não seria idiota de pegar todos, sabia que ela verificaria a gaveta quando voltasse, e se sumisse apenas um, ela talvez não percebesse de imediato.
Escondeu o caderno embaixo da jaqueta do uniforme e saiu pela janela usando os DMTs.
Agora finalmente iria entender que mistério todo era aquele em volta da prisão do garoto.
Fale com o autor