Beast
7 Coleira
Notas iniciais
– Olha, essa eu realmente não esperava... – Foram as primeiras palavras de Jean, que realmente não acreditava que estava vendo o Eren Suicida Surtado Jaeger lhe pedindo desculpas.
– Er... Eu realmente sinto muito. – Repetiu se endireitando. – O Armin me contou da missão da Titã Fêmea... – Esclareceu e finalmente o Kirchtein começava a entender alguma coisa.
– A missão em que topamos com a Annie fora das muralhas, não é...? – Usava o nome da amiga do garoto apenas para provocar.
– Hum. – Eren preferia não pensar que Jean o provocava de propósito, ou então acabaria batendo nele de novo.
Alias, havia sido um choque ver o estado dele quando entrou na enfermaria. O cara de cav... Jean, tinha metade da cara de equin... Do rosto enfaixado, e Eren sabia pelo que ouviu que só tinha acertado um único golpe naquela região, todos os outros tinham sido na região do peitoral, que estava totalmente imobilizada. A sorte do cara de c... Do Kirchtein, fora que Mikasa e o Heichou apareceram logo, ou definitivamente seus órgãos internos teriam sofrido danos mais graves.
– É sério que você não sabia? – Jean se divertia com a cara culpada do Jaeger.
– Como eu poderia saber? – Reclamou.
– Sendo menos tapado, seu idiota. O Armin pode até ser um cara discreto, mas eu nunca fiz questão de disfarçar que aquela boquinha de boneca dele me tira do sério... – Comentou com um sorriso safado, vendo Eren esconder o rosto vermelho com a mão.
– Sem detalhes, Jean. – O Jaeger realmente não queria imaginar aquilo...
– Detalhes? Que detalhes? Eu nem mencionei de como ele geme manhoso, ou de como é apertar aquelas coxas... – Quase podia ver o vapor escapando pelas orelhas do outro garoto.
– Vai á merda idiota! – Eren já estava se arrependo de ter ido ali.
– Para quê ir até lá, com ela na minha frente? – Devolveu irônico.
Eren se perguntava, do fundo da sua mente e coração, como o seu melhor amigo poderia se envolver com alguém tão retardado.
–----- Algumas horas atrás -------
Não havia horário melhor para descanso do que depois do almoço. Parecia que nessa parte do dia, toda a preguiça acumulada resolvia se manifestar e acabar com qualquer vontade de se mover. E era nesse estado de lerdeza que Armin, Eren e Mikasa se encontravam.
Estavam embaixo de uma árvore qualquer, Mikasa cochilando com a cabeça do peito de Eren, o garoto de olhos verdes largado na grama de qualquer jeito, deixando um dos braços em torno dos ombros da irmã, e Armin enchia o cabelo de Eren de florzinhas pequenas e pedaços de grama, só para rir da reação deste quando percebesse... Quer dizer, se ele ainda reagisse um pouco como antigamente.
– Armin... Faz um tempo que eu tô querendo te perguntar isso, mas não sei como. Então não estranhe se a pergunta parecer estranha... – Falava em um tom tão preguiçoso que o loiro nem chegou a desconfiar do que seria, se divertindo em “decorar” os fios castanhos.
– O que é? – Indagou distraidamente.
– Esses dias, eu notei uma marca estranha no seu pescoço... – Armin travou completamente. – Ai eu venho me perguntando... Foi da vez que eu vi o Jean te agarrando a força... — O rosto do loirinho já parecia um tomate. – Ou vocês já estão se comendo faz tempo...?
Pronto. Só essas palavras fizeram Armin engasgar com a própria saliva e começar a tossir compulsivamente, acordando até a Mikasa que logo voltou a dormir no colo do irmão, que tinha se sentado para encarar o melhor amigo.
– Tá de brincadeira né, Armin? – Eren realmente estava pasmo. – Há quanto tempo vocês estão se comendo?
– Não fala desse jeito pelo amor de... – Falou o loiro sentindo o rosto queimar. – Nós estamos n-n-namorando há algum tempo...
–Puta que pariu... – Resmungou o Jaeger desacreditado. – E eu pensando que o cara de cavalo só secava a sua bunda, mas a coisa era pior do que eu pensei...
– EREN! – Armin acertou um tapa no ombro do outro. Por Deus! Precisava falar com aquelas palavras tão... Er...
“Espera, então o Jean já me secava há tanto tempo assim?”
– O quê?
– Seu vocabulário está um horror. – Reclamou o loiro tentando fugir do assunto... Sem sucesso.
– Tá certo, mas voltando ao seu caso com o Cara de Cavalo... Putamerda, como isso foi acontecer? – Indagou tentando entender o gosto... Bizarro do amigo.
– Não tá bravo comigo? – O menor perguntou temeroso.
– Por que eu estaria? Quem tá pegando ele é você. – Deu de ombros. — Só acho que eu deveria saber um pouco da sua vida... – Adicionou arrancando alguns fios de grama.
– Desculpa, mas é que tinha tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo... Você virando titã, a Tropa de Exploração, a Annie, a prisão do Erwin... E eu sinceramente não queria te preocupar mais com nada. Não é que eu não queria que você soubesse, mas eu pensei que você ficaria bravo, e não queria te arranjar mais problemas... – Começou a falar, desabafando um pouco.
– Armin, entenda uma coisa... – Começou Eren, levantando o rosto do menor com a mão. – Nunca, entendeu? Você nunca será um problema pra mim, nem nada relacionado a você. – Os olhos verdes lhe encaravam com uma intensidade impressionante. – Então, se um dia tiver algo pra me contar, esqueça todo o resto, e me conte. – Soltou o rosto do amigo, que tinha os olhos levemente nublados.
– Sim, eu prometo! – Respondeu com um sorriso, o sorriso que sempre estaria em seu rosto enquanto tivesse seu melhor amigo ali consigo, a pessoa que sempre o apoiava, e que esperava ser forte o bastante para apoiá-lo de volta.
– Assim está melhor. – Deu um dos seus, antes costumeiros, mas agora tão raros, sorrisos, se encostando melhor na arvore, sentindo Mikasa se adaptar ao seu movimento, buscando uma posição mais confortável.
– Então... Ainda quer saber como eu e o Jean... – Começou Armin meio sem graça. Na verdade, há muito que sentia falta das suas conversas com Eren, de como podia falar de absolutamente tudo com o amigo, desde sempre.
– Vai ser uma experiência traumática, mas vou correr o risco...
Armin não se preocupava em disfarçar ou explicar alguns fatos, em partes, sabia que Eren não queria saber, e em outras, sabia que o amigo saberia entender. Mas em resumo, explicou que ambos se aproximaram bastante depois da morte de Marco, que além de ser alguém por quem Armin tinha um forte carinho, era namorado de Jean (outro fato que fez Eren ficar de queixo no chão).
Como nessa época, Eren esteve preso e logo depois foi para a Tropa, e Armin não queria preocupar ainda mais Mikasa, acabou encontrando em Jean um apoio, alguém que compartilhava a mesma dor de perder alguém importante, que podia conversar, desabafar, e acima de tudo, confiar.
Não sabia definir com clareza quando seus sentimentos mudaram de amizade para algo mais, mas sabia dizer quando os percebeu. Sempre achou Jean um cara atraente, ele era um bom ouvinte, um bom amigo, tinha um humor ácido e irônico que tornava suas conversas durante as várias madrugadas que passaram acordados realmente divertidas e interessantes. Mas dai a ter que se controlar perto dele para não se aproximar demais, ou deixar algo escapar...
Jean tinha uma espécie de energia que o dava um detalhe a mais, que o diferenciava da multidão, algo que tocava Armin no fundo da sua alma e que fazia seu coração acelerar. Era como se para o loiro, ele se tornasse o livro mais interessante que já viu, mas que, infelizmente, ainda não podia ser lido por completo.
Armin sabia que seu afeto era unilateral, mas nem por isso se deixava abalar. Não importava se não ficassem juntos como casal, tê-lo ao seu lado, ler um capítulo de sua personalidade a cada dia, era o bastante.
Mas quando finalmente saíram da muralha, tudo mudou da água para o vinho.
A situação podia ser um pouco menos infernal do que Trost, afinal, já estavam mais experientes, tinham treinado um mês a mais com a Tropa de Exploração, e não estavam cercados de titãs, mas... Aquela ansiedade, aquele medo irracional se somava a lembrança do amigo e amante que ambos perderam, fizeram com que Jean e Armin não conseguissem tirar os olhos um do outro.
Depois do aparecimento da titã femea, a situação só se tornou mais tensa. Mas, mesmo em meio a guerra, o loiro tinha que admitir que se divertiu com algumas cenas protagonizadas pelo maior, como quando descobriu que ele morria de ciúmes da sua relação com Eren, ou quando Reiner — percebendo o clima entre os dois — começou a lançar algumas "indiretas" para Armin só para provocá-lo e até mesmo quando ele estava assobiando em busca do seu cavalo e conseguiu atrair um bando de veados.
Jean conseguia fazê-lo esquecer da realidade com uma facilidade impressionante, e essa sua característica só fazia o loirinho se sentir ainda mais entregue.
Mas foi depois do urro da titã fêmea, quando Armin percebeu que alguma coisa havia dado seriamente errado e quando não sabiam ao certo como agir, ou se sairiam vivos daquela situação que aquelas palavras e um simples roçar de lábios fizeram qualquer sentimento ruim se dispersar do seu coração e seu peito se encher de uma coragem para enfrentar não só o que ainda vinha por ai, como também as consequências da missão fracassada quando voltassem.
" Mantenha-se vivo, Armin. Eu não suportaria perder quem eu mais amo uma segunda vez."
O loirinho sorria levemente com as bochechas em um tom intenso de rubro ao repetir aquelas palavras em voz alta. Quase podia sentir os lábios de Jean colados no seu ouvido sussurrando elas...
– Você... Realmente gosta do Cara de Cavalo... — Eren ainda tentava se acostumar com a ideia, mas vendo a cara de bobo apaixonado do Armin não tinha como negar.
– Poderia, por favor, parar de fazer essa cara? — Resmungou o loiro enquanto o maior o olhava como se fosse um extraterrestre.
– Tá, ok. Entendi. Mas por que diabos você estava batendo nele? — O jeito como Eren pendia a cabeça para o lado como um cachorrinho fazia Armin ter vontade de apertar sua bochecha.
– Eu realmente... E-Eu acho que o amo também... Mas é que... — Suspirou profundamente, organizando os pensamentos. — Ele é ciumento, e eu sou possessivo. A gente briga por coisa besta, mas no mesmo dia a gente faz as pazes... Até gosto quando a gente briga pra ser sincero, e... Eu também gosto de quando nos reconciliamos e terminamos fazendo aquilo bem intensamente e... Ah, não me faça dizer mais que isso! — Escondia o rosto extremamente vermelho entre as mãos.
– Por favor, não diga mesmo. Eu ainda quero dormir á noite. — Eren também tinha o rosto rubro, e realmente tentava parar as imagens comprometedoras que vinham a sua mente.
– Ah, diz isso, mas se o Heichou te beijasse, você devolveria. — Cutucou o loiro com um olhar malicioso.
– EEEH? — Quase se engasgou com a própria saliva.
– Estou mentindo? — Armin se divertia em arrancar alguma reação do seu melhor amigo que andava tão introvertido que chegava a assustar.
– Mas por que ele faria uma coisa dessas?! -Eren tentava realmente não imaginar... Tinha medo de Armin estar coberto de razão.
" E por que ele não faria? Ou melhor, por que ainda não o fez?" O loirinho respondeu mentalmente, mas achou melhor deixar pra lá.
– Foi só uma hipótese. — Deu de ombros.
– Vai continuar sendo uma hipótese, por que se aquele tampinha ousar abusar do Eren, ele vai ser um chibi amputado daqui pra frente. — Mikasa falou se levantando do colo do garoto, ainda se espreguiçando sonolenta.
– Mikasa, o Heichou é o soldado mais forte da humanidade, se ele perder algum membro...
– Ele usa o pau pra matar titãs, por acaso? — Devolveu direta como sempre, fazendo Eren se engasgar completamente chocado e Armin cair na risada.
– — — — — — Agora — — — -- — — — -
– Enfim, já me desculpei, não vou ficar mais aqui olhando para essa sua cara. — Resmungou Eren diante do olhar enjoado de Jean.
– Agradeço. — O outro respondeu com descaso.
– Só digo uma coisa: Sonhe em machucar o Armin, e eu juro que eu arranco o seu coração ainda batendo do peito. — As esmeraldas se mostravam duras e sérias, o Jaeger não estava para brincadeiras.
– Eu não tenho o costume de machucar as pessoas que eu amo. Ao contrário de um certo alguém... — O Kirshtein devolveu ácido.
– Eu tenho mesmo que ir. — Eren não queria se mostrar abalado na frente do outro, então apenas se virou para ir embora de uma vez.
– Hey! Não, volta aqui idiota! — Surpreendentemente, até mesmo Jean sabia quando passava dos limites.
– O que você quer?
– Que você volte, tá surdo?
Respirando fundo, Eren recuou alguns passos e se virou, parando de frente para o Kirshtein.
– O que é?
– Senta aqui. — O maior apontou para uma beirada da cama, adicionando logo quando o outro começou a protestar. — Sem viadagem Jaeger, o assunto é sério.
Suspirando contrariado, Eren caminhou até o outro e se sentou na cama, ficando bem próximo do corpo do maior.
– Sabe, quando você partiu que nem um cachorro louco pra cima de mim, eu não consegui reagir direito. Isso por que... Por que... Sinceramente Jaeger, você parecia mais assustado que eu. — Desabafou desviando o olhar de um Eren completamente impressionado.
– Jean...
– Deixa eu terminar. — Pigarreou clareando a garganta. — Eu não sei o que diabos fizeram com você, e nem me interessa na verdade, mas essa sua cara de psicopata tá preocupando todo mundo. O Armin mesmo já perdeu o sono por sua causa.
– Cara de psicopata?
– É, seu idiota. — Resmungou se ajeitando melhor na cama e fazendo uma careta de dor. — Antes você parecia um lesado, agora parece que vai matar alguém como quem pisa num inseto. Ou seja, antes você era só suicida, e agora é um caso de internação. E com esses surtos, você se tornou um perigo pra todo mundo da Tropa, só te deixam andar por ai por que o Levi Heichou te colocou na coleira. Literalmente. — Adicionou com um risinho cretino que fez Eren se segurar para não enfiar a mão na cara dele.
– Era só isso? Não precisava se preocupar em me dizer, por que eu já sei que eu sou um mons...
– Não era só isso não. É só que esse seu relacionamento sadomasoquista com o Levi Heichou me diverte. — Outro sorriso filho da puta.
– Vai se foder Cara de Cavalo.
– Quem é o fodido aqui, Jaeger?
– Quem nasceu de uma égua?
A enfermeira olhava discretamente para os dois e se perguntava se tinham quinze anos ou quinze meses.
– Ok, agora deixando de lado as suas tendências masoquistas... — Jean adorava ver as veias estourando na testa do outro. — O que eu tinha pra dizer é: Dê um jeito.
– Hn? — A expressão de Eren passou de irada para totalmente confusa.
– Como assim "hn"? Você sempre foi mentalmente retardado, mas nunca foi fraco desse jeito. — Os orbes cor de chocolate perdiam o usual brilho de deboche demonstravam seriedade. — Então trate de dar um jeito, por que não importa o quanto o Armin, a Mikasa, ou quem quer que seja se importem, só você pode salvar a si mesmo.
Poderia soar insensível mandar alguém " se virar" sem nem ter ideia do que essa pessoa passou, mas não era como se algum dos dois se importasse com essas "suavidades" da vida. Não se consideravam amigos, talvez apenas colegas que infelizmente estavam no mesmo esquadrão, mas isso não mudava o fato de que percebiam claramente um ao outro.
Sempre que um dos dois saísse dos eixos, o outro estaria lá para colocá-lo de volta. As palavras eram duras e cortantes, mas não eram amigos, não é? Não precisavam ter medo de serem excessivamente sinceros. Era uma estranha parceria que tinha se formado sem que se dessem conta disso.
– Pare de fazer essa cara, tá me dando enjoo. — Reclamou Jean quebrando aquele silêncio constrangedor.
– Vou fazer o meu melhor, Cara de Cavalo. — Respondeu sabendo que o outro entenderia.
– É bom mesmo. Quando eu sair daqui, vou acertar minhas contas com você, e não quero espancar um completo perdedor.
– Bons sonhos com o dia em que vai conseguir me acertar, Kirshtein. — Se despediu, ouvindo alguns xingamentos em resposta.
Saiu do quarto da enfermaria ainda ouvindo as palavras do Kirshtein, sentia-se um pouco aliviado, por saber que o cara de cavalo estava relativamente bem e não teria nenhuma sequela, sentia-se também um tanto incomodado, afinal, achava que até agora vinha escondendo de forma pelo menos um pouco efetiva o que sentia, mas se até mesmo o Jean percebeu, a única coisa que vinha fazendo até então era se impedindo de surtar.
Ou melhor, tentando não enlouquecer de vez. Tentando...
" Tudo o que aquele homem fez, foi com a intenção de te desestabilizar. Ele quer que você fique realmente louco... " As palavras de Erwin não podiam ser mais corretas.
Acima de tudo, estava surpreso. Muita coisa não tinha sido dita naquela conversa, mas tinha sido percebida. E foi completamente estranho perceber que, mesmo de uma forma um tanto torta, ele e o Cara de Cavalo se preocupavam mais um com o outro do que admitiam para si mesmos.
" Ainda não acredito que o Armin está namorando aquela coisa..."
Torceu o rosto em uma careta de nojo, mas nada disse.
"Talvez o Cara de Cavalo até fique um pouco menos retardado convivendo com o Armin... "
Suspirou, saindo enfim do corredor da enfermaria, sentindo o sol batendo contra sua pele.
" Mas os dois realmente se gostam, acho que isso é o bastante."
Suspirou outra vez, encarando o chão agora.
" Como será que deve ser... Ter esse tipo de relacionamento com alguém...?"
Estava tão distraído que nem percebeu quando Levi se desencostou da parede ao lado da porta e veio na sua direção, prendendo novamente a guia/corrente na base da coleira.
Sim, acabou tendo que usar isso no fim das contas.
– Não temos o dia todo para você ficar suspirando como uma pirralha apaixonada. — Falou começando a andar logo em seguida, deixando um Eren com o rosto em brasa para trás.
Depois de muita luta, e de uma ajudinha especial da Hanji ( leia-se "eu seguro ele e você prende a coleira"), Levi tinha conseguido prender o objeto de metal em volta do pescoço do garoto, que ainda "severamente mal humorado" deu um pouco de trabalho (tradução: Desafiou um Heichou estressado) e acabou dormindo mais cedo (também conhecido como: Foi apagado com um soco no maxilar).
No dia seguinte, Eren logo entendeu o motivo da insistência. O objetivo do Heichou não era impedi-lo de surtar, mas sim calar a boca de daqueles — que mesmo dentro da Tropa de Exploração não eram poucos- que ainda acreditavam que Eren era uma ameaça.
Jean, Armin, Mikasa e Levi não eram os únicos que estavam no campo ao lado do bosque naquela tarde. E para os outros que viram de longe e não tinham como saber todo o contexto que gerou aquela agressão, agora Eren podia simplesmente atacar qualquer um mesmo sem estar na forma de titã. E isso sem considerar o estrago que o garoto podia fazer.
E como sempre, pessoas assustadas se juntam com outras pessoas assustadas e surgem histórias e teorias, o medo se personifica em palavras, gestos e ações.
O ser humano não procura entender aquilo que o assombra. Afastar e eliminar acaba sendo o caminho mais rápido e fácil para a sobrevivência no fim das contas.
Eren tinha apenas 15 anos, mas já tinha aprendido a entender aquela lógica.
Ficava feliz com a atitude do Heichou de tentar protegê-lo, mas sabia que era inútil. Sabia que se não tivesse o Heichou, a Hanji-san, o Erwin-san, a Mikasa e o Armin ao seu lado para o que der e vier dentro da Tropa, a realidade ali talvez não fosse muito diferente do que foi na PM. Óbvio que não imaginava pessoas assim tão asquerosas na Tropa de Exploração, mas tinha certeza que poderiam muito bem trancafiá-lo como um animal em um galpão, mantendo-o acorrentado, talvez o alimentando vez ou outra, deixando para usá-lo apenas durante as missões.
Claro que haviam muitas pessoas que o aceitavam, que lhe dirigiam um ou outro sorriso simpático, ou ajuda para alguma tarefa.
Mas o medo era uma doença contagiosa.
E agora, enquanto atravessavam o pátio, sentia todos os olhares fixos em si. Olhares nenhum pouco reconfortantes diga-se de passagem. Ah, claro, e havia os comentários...
" Eu disse a vocês que a ideia do Capitão Erwin era loucura... Não tem como um monstro cooperar com a Tropa, ora ou outra isso iria acontecer..."
" Não vai demorar muito para o Levi Heichou ter que matá-lo."
" Espero que ele não mate mais gente em missão."
"Mais gente?"
" Oras, ninguém viu o que aconteceu com o esquadrão de operações especiais. Dizem que foi a titã fêmea, mas sabe como é..."
" A presença dele aqui é um risco."
" Me pergunto quantas pessoas vão esperar ele machucar para matá-lo..."
Suspirou pesadamente. Sabia que não era humano, mas mesmo assim, ouvir aquilo doia. E doía muito.
Em outra época até discordaria, mas agora... Apenas ouvia calado.
Entendia o receio a repulsa que tinham por si.
Tinha nojo e medo de si mesmo.
– Eren. — Sentiu um puxão mais forte na coleira. — Não se distraia por besteira. — Os olhos cor de chuva perfuravam os esmeraldas. — Lembre-se do que eu te disse hoje mais cedo.
Os olhos do garoto se ergueram levemente. Um brilho sutil flutuou pelas suas iris.
– Sim senhor!
– — — — — 5:30 a.m. — — — — -
Tinha acordado com uma dor de cabeça infernal, que só se comparava a dor no seu maxilar que ainda estava levemente inchado. O metal frio em volta do seu pescoço fazia-o sentir uma sensação de sufocamento e um enjoo constante, mas não se atreveu a procurar uma chave de fenda e tentar tirá-lo dali.
Até por que, levando em conta o estado de espirito do Heichou... Talvez ele não sobrevivesse se o fizesse.
E depois do que tinha aprontado ontem, imaginava que o homem estaria com sangue nos olhos.
" Já era um pouco tarde da noite, a maioria dos componentes da Tropa já tinham ido dormir, ou estavam prestes a fazê-lo, de forma que em meio ao silêncio avassalador, o som das correntes e os gritos pareciam devastar a sala onde se encontravam.
– ME SOLTA! — Se debatia nos braços do Heichou, que o segurava usando uma corrente para prender seus braços.
As imagens daquela noite lhe vinham a mente inconscientemente. Se dependesse de si, simplesmente deixaria Levi lhe prender a coleira sem mais delongas... Mas uma verdadeira onda de pânico se apossava de si sempre que via aquele objeto. Lembrava-se de Nile, do sorriso maldito dele, do modo bruto e asquerosamente sedento como lhe tocava, e logo sua visão ficava escura, e tudo o que via eram lembranças das torturas que sofreu... Lembranças que lhe assustavam e enojavam, assim como lhe enchiam de um ódio pulsante e violento.
– EU VOU TE RASGAR... VOU PINTAR AS PAREDES DESSA SALA COM O SEU SANGUE! — Um sorriso doente se desenhava nos lábios do garoto.
– Nos seus sonhos moleque. — O soldado puxava a corrente com mais força, só não esfolando a pele do mais novo devido ao fino tecido da camisa. — Hanji, tome cuidado, ele pode te atacar. — Avisou vendo pela cara da amiga que ela não levava o surto do garoto a sério, parecia mais preocupada em ele se machucar do que qualquer outra coisa.
– Ele não vai me atacar. — Declarou convicta.
– Ele me mordeu. — Retrucou com um ar irritado. A Hanji dedicou um breve olhar para o braço do homem que ainda sangrava. Tinha sido uma senhora mordida.
– Por que você é um bruto. — Devolveu, fazendo Levi pensar seriamente em soltar o garoto e acertar um chute na Tenente.
"Foda-se isso de bater em mulher, a Hanji não é gente, a Hanji é a Hanji."
– Quatro olhos...
– Olha só, tá machucando ele!
Vale ressaltar, para medir o nível de estresse da situação do soldado, que Eren não parava quieto nenhum segundo.
– Então anda logo com essa porra! — Quase gritou, perdendo o pouco de paciência que tinha.
Suspirando pesadamente e quase com os olhos em lágrimas, a mulher foi em direção ao garoto que se debatia furiosamente, tendo que desviar de alguns chutes, e segurou seu rosto entre as mãos dando um demorado beijo na sua testa.
– Eren querido, eu preciso que você fique quietinho. — Sussurrou em um tom apaziguador, ouvindo um grunhido rouco em resposta ao mesmo tempo em que o garoto se debatia um pouco mais lentamente. — Isso mesmo, eu não vou te machucar, prometo. — Falou acariciando o rosto do mais novo, que ainda parecia fora de si, mas não tentava atacá-la.
– Não... Machucar...? — Um pouco de vapor escapa por entre seus lábios enquanto falava.
– Sim, eu prometo. Vou cuidar de você, sim? — Falava buscando o olhar do garoto que ainda permanecia vago, mas de alguma forma, ele podia ouví-la. — Olha, eu vou colocar isso em você, mas não machuca, tá? — Seu tom parecia calmo, mas suas mãos tremiam.
Aqueles olhos vazios e o rosto sem expressão alguma a perturbavam.
" Ela não vai conseg... O quê...? Vai se foder...!"
Levi mal conseguia conter sua surpresa quando resolveu soltar o garoto e ele simplesmente permaneceu ajoelhado na frente da Tenente que ajustava os parafusos da coleira de metal tranquilamente.
– Hanji-san... — Apenas murmurava e olhava para o chão sem parecer realmente enxergá-lo. Eren parecia em transe.
– Prontinho meu amor. — Sussurrou beijando novamente a testa do garoto. — Viu Levi? É só uma questão de jeito. — Sorriu para o Heichou que apenas fechou a cara.
– Hm. — Não queria admitir que a quatro olhos maluca estava certa dessa vez, mas não tinha o que fazer, ela realmente... Estava certa.
– Tente ser paciente com ele da próxima vez, creio que de todas as pessoas, ele obedeceria você. — Falou aproveitando que o garoto ainda parecia "fora do ar", e agora tinha caído com a cabeça apoiada em seu colo.
Ela agitou a mão em frente aos olhos esmeralda. Sem reação.
– Por que diz isso?- Levi indagou, parecendo mais calmo, enrolando uma genrosa quantidade de gaze em torno da mordida. Não aguentava mais sangue sujando sua roupa.
– Ora Levi! Não queres que eu ensine um vigário a rezar a missa, sim? — Falou acariciando os cabelos castanhos. — Ele gosta de você e sabes disso.
– Uma paixonite adolescente. — Deu de ombros.
– Você sabe bem que não... — Ela sorria de canto vendo o amigo encurralado.
– Talvez eu saiba...
– E ainda dizem que as mulheres que são complicadas! — Suspirou.
– Hanji-san... — Eren ainda parecia inconsciente, abraçando o corpo da mulher ternamente.
– Tão fofo! Mesmo parecendo um zombie nosso Eren consegue ser tão adorável! — Falava abraçando o menor de volta.
– Tch, chega disso. — Resmungou o soldado. — Oe Eren! — Cutucava o garoto com o pé. — EREN! — Chamou batendo o pé com força no chão, e surpreendentemente o garoto pareceu acordar repentinamente, se levantando até pelo menos estar de joelhos.
– Nyah, ele atendeu a seu chamado Leviiiiii! — Quase se podiam ver coraçõezinhos nas falas da mulher.
– Uh? — Eren olhava confuso de um lado para outro, parecendo perdido.
– Oe, pirralho. — Levi voltou a cutucá-lo com o pé, atraindo a atenção do garoto pra si.
– Heichou? — Chamou, e como um imã, seus olhos foram atraidos para a manga ensanguentada do braço do mais velho. — Heichou...? — Seu tom agora era preocupado.
– O que é?
– Perdão. Realmente sinto muito! — Falava abaixando a cabeça, e como já estava de joelhos, ficava em uma posição submissa que muito agradaria Levi se não fosse o brilho de culpa e autodepreciação em seus olhos.
– Pelo quê? Isso é sangue seu, idiota. — Falou com um ar de desdém, surpreendendo por completo a Hanji que ainda observava a cena.
– Quê? Onde? — Passava a mão pelo próprio corpo e rosto.
– Eu soquei seu nariz.
– Mas não tá doendo. – Desconfiou.
– Então já deve ter sarado. — Levi estreitou os olhos.
– Ou o senhor está mentindo.
– Como é pirralho? – Começou a se irritar.
"Isso não vai prestar..." Pensava a Hanji pondo a mão na testa quando percebeu o rumo que a situação tomava.
– Isso mesmo. Deixe-me ver o que foi isso. — Eren parecia decidido.
– Está me desafiando moleque? Perdeu o respeito, ou quer que eu o grave outra vez na sua cara? — A aura maligna do Heichou já se manifestava.
Eren se levantou, ficando frente a frente com o mais velho.
– Me ameaçar não vai me fazer calar a boca. — Encarava o outro incisivamente.
" Ele podia somente dizer que estava preocupado, e os dois acabariam num momento fofinho, mas não... Por que não poderia ser simples como nos livros? Ah, ok, esqueci que estamos falando da Miss Teimosia e da Miss Pavio Curto."
Hanji se perguntava sinceramente como Erwin juntaria aqueles dois antes da missão que fariam em breve.
– Tá querendo tomar uma surra, moleque? — Levi quase rosnou, puxando Eren com força pela coleira recém colocada. Abaixando-o ao nivel de seus olhos.
Quem dera Eren ainda se intimidasse com isso...
– Cacete! Para de me enforcar só por que você é pequeno! — Esbravejou, e quando finalmente se deu conta das próprias palavras...
Um momento de silêncio.
" Estou fodido..." Uma gota de suor descia pela nuca de Eren.
A ultima coisa que tomou ciência antes de apagar com um soco direto foi do grito da Hanji, dois olhos brilhando furiosos e um punho vindo vertiginosamente rápido na sua direção. "
É, definitivamente não era um modo muito agradável de "dormir".
Passou a mão pelo rosto, se levantando e vendo que alguém tinha tirado seus sapatos. "Heichou..." Sorriu de canto enquanto arrumava a cama antes de qualquer coisa (afinal, dividia o quarto com um certo alguém... E não queria outro soco), tirou a camisa e foi em direção ao pequeno lavabo que havia ali, jogando uma água no rosto e no pescoço, tanto para despertar como para diminuir um pouco a dor, mesmo que para a segunda, tenha se mostrado inútil.
Passou um tempo abaixado, os braços apoiados na pia e afastados um do outro, alongando os ombros, as gotas de água caminhando pelo seu rosto, pescoço e torax, ou pigando do seu cabelo. Não sabia se queria levantar.
Na verdade, desde que havia saido da prisão que não se olhava no espelho.
Não lhe trazia boas lembranças, e de certa forma, também não sabia se tinha coragem de olhar para si mesmo depois de tudo. Ia levatando o rosto vagarosamente quando percebeu um par de botas na soleira da porta.
– Eren...?
Mal teve tempo de responder e sentiu as mãos da irmã a sua volta, em um abraço protetor.
– Mikasa...? Er... Eu estou molhado... — Falou, mas não tentou afastá-la de qualquer modo.
– Não importa. — Respondeu afundando o rosto no seu pescoço. — Eu vim assim que soube... Você está bem? Digo, tá doendo muito? Onde aquele anão te machucou? E que coisa é essa que ele colocou em você?! Ah, dessa vez eu...
– Mikasa, se acalme. — Segurou o rosto da garota entre as mãos, passando pela surpresa de como, apesar de forte, ela era delicada. Sempre percebia isso quando a tocava. Chegava a ser engraçado.
– Mas Eren... — Apoiava as mãos no peito do garoto, sentindo seu coração bater. Não cansava de confirmar que ele estava ali consigo, vivo e bem. — Eu não quero que você sofra mais...
– Eu estou b...
– Eren... Se eu pudesse... — Tocava o rosto do irmão com carinho, contornando as olheiras arroxeadas. Apostava como ele deveria estar tendo pesadelos, ou não dormindo a quantidade de horas apropriada. — Se eu pudesse roubar a sua dor pra mim, se eu fosse suficiente pra te fazer feliz...
– Não diga isso Mikasa. — Seus olhos penetravam a imensidão cor de noite que eram os orbes da irmã adotiva. — Se um dia eu perdoar a mim mesmo por tudo, vai ser por que todas as pessoas que amo estão bem. Entende? — Colou os lábios na testa da garota, em um beijo terno e demorado. — Fique bem, é sua melhor maneira de me fazer feliz.
– Eren... — Sem mais palavras, a morena, que agora tinha os olhos levemente marejados, simplesmente sorriu. Aquele sorriso doce e sincero, que Eren sempre achou que ficava melhor nela do que sua inexpressividade habitual.
E foi nesse clima de amor fraternal que Levi encontrou os dois.
Claro, que na mente do Heichou tudo o que não passou foi amor fraternal.
Afinal, acabava de encontrar o pirralho sem camisa, no banheiro, abraçando a Ackerman que sorria, vejam só, sorria, na direção do garoto que a olhava com um olhar tão protetor e carinhoso que por um momento Levi se sentiu mal por não ter aquele olhar voltado para si.
E foi assim que a raiva lhe subiu a cabeça em questão de alguns segundos.
– Posso saber o que faz aqui, Ackerman? — Seu tom de voz era baixo, mas sombrio o suficiente para que os adolescentes pudessem perceber o seu estado de humor.
E a garota em questão adorava sentir o olhar mortífero do baixinho direcionado a si. Um de seus passatempos favoritos era tirar o Heichou do sério.
Ah, odiava Levi. Odiava-o profundamente desde o tribunal. Ele até tinha conquistado uma parte do seu respeito ao salvar o Eren da Titã Fêmea na missão fora das muralhas e na Muralha de Sina, mas ainda assim, o modo canalha e violento como ele tratava seu irmão, a fazia destestá-lo.
Sim, canalha.
Só um cego (vulgo: Eren) não perceberia que os sentimentos do garoto, que sem dúvida, ultrapassavam a linha da simples admiração, eram correspondidos. Em igual, ou talvez maior, intensidade. Mas mesmo assim, não eram poucas as vezes em que Eren acabava apanhando por motivos bem estúpidos, ou era xingado e humilhado pelo mais velho.
E ultimamente, percebia um certo do clima do Comandante Erwin para com seu irmão... Ah, jogaria-o para cima do loiro com certeza! Esse sim era um homem de verdade, que cuidaria com carinho do seu Eren, e quem sabe ele se esquecesse do que quer que fosse que o atraia para aquele anão...
– Vim ver se você não tinha matado meu Eren. — Falou dando uma bela enfase no "meu". — Soube que ele subiu desacordado para o quarto ontem. — Completou fazendo manha, abraçando ainda mais o irmão, enterrando o rosto no seu peito nu.
Ah, claro que tinha outros motivos para gostar daquela situação. Eren era um generoso pedaço de mal caminho, isso não podia negar. Mas não se imaginava romanticamente envolvida com alguém com quem tomava banho junto quando era menor.
Só... Queria passar o resto da vida ao seu lado.
Seu amor por Eren era algo que abrangia todas as esferas, podia dizer até que percebia o mundo através dele. Sabia que isso o irritava, mas ela apreciava até mesmo seu desejo por independência. Sabia que ele se preocupava consigo, que ele não queria depender dela, e que as vezes sentia-se como se ela desistisse de algo para protegê-lo... Conhecia-o, conhecia-o como a palma de sua mão, ou até mais.
Havia se tornado forte por ele, se erguia sua espada para lutar era por ele. Mas não apenas por ser aquele que tinha lhe dado uma segunda vida, por ter lhe mostrado um lado de si mesma que não conhecia, mas também por ser sempre seu porto seguro, por iluminar seus dias mais tristes com aquele sorriso escancarado e sincero, por sempre lhe oferecer um ombro, e por se apoiar nela também, o que a fazia se sentir importante, necessária para alguém, e alguém que mais do que merecia sua dedicação. E também... Admirava sua persistência, sua coragem, havia aprendido tanto durante seu tempo juntos, que as vezes o considerava uma parte de si.
– Mikasa...? — Eren parecia surpreso com a irmã que lhe apertava em um abraço, er... Como descrever... Dizer que sentia os seios dela amassando no seu peito duro e suas pernas se entrelaçando era argumento o suficiente?
" Só vou dar o Eren para quem o faça feliz, e não para esse anão que se acha dono dele"
A morena encarava o Heichou com uma expressão de " Eu posso, e você não" que fazia o menor fantasiar enforcá-la lentamente.
– Ackerman, saia. Agora. — Levi media suas palavras com cuidado para não acabar xingando a garota aparentemente sem motivo.
– O Eren não quer que eu saia. Não é? — Voltou os olhos para o irmão, agora seus rostos estavam bem próximos (o que quase fez Levi ter um enfarte). Fez sua melhor cara de carente, e sabia que o garoto não a deixaria ir magoada.
– Er... Tem problema a Mikasa ficar? — Eren arriscou vendo a aura assassina de Levi saltar para níveis alarmantes. — Só um pouquinho...?
– É claro que tem. — Seu maxilar estava trincado.
Mikasa queria muito rir, mas sabia que naquela situação, seu irmão acabaria pagando o pato, então parou por ali mesmo.
– Eu vou... Mas, Eren, você vai ficar com a gente depois do almoço, não vai? Só nos três... E o Erwin-san me disse que você precisava falar com o Armin, então como o Comandante está deixando, não acho que um certo chibi vá se meter. — Falou em seu tom normal, deixando para rir da cara do outro internamente.
Eren apenas engoliu em seco ao ouvir a palavra "chibi". Temia pela seu pescoço, uma vez que decididamente não deixaria o Heichou tocar um dedo em Mikasa.
– O que disse Ackerman...? — Levi parecia um demônio de tão irado. Na verdade, sua expressão não tinha se alterado minimamente, mas o brilho assassino no seu olhar assustaria qualquer um.
– Eu não disse nada, você que se doeu. — Provocou com um sorriso de canto.
"FILHA DE UMA PUTA, UM DIA EU AINDA TE ESFOLO A CARA VADIAZINHA MISERÁVEL...".
Se havia algo que era quase sobrenatural em Levi, era seu autocontrole.
– Não tenho tempo para gracinhas pirralha, apenas saia. — Declarou em um tom frio e controlado.
Podia estar puto como fosse, mas não se renderia ao joguinho sujo da Ackerman.
– Até depois, Eren. — Deu um beijo na bochecha do irmão adotivo, um pouco próximo demais do canto do lábio, e saiu sem nem dignar um último olhar ao Heichou.
O que foi uma decisão sábia, por que se o tivesse feito...
A única razão para Levi deixá-la agir daquela forma era que, se fosse puni-la, não saberia se a deixaria viva para contar a história. Então era melhor ignorar, ou melhor, tentar ignorar. Até por que, se fosse se deixar levar pela vontade de acertar um belos chutes na cara da maldita...
– Heichou... — A voz do garoto o tirou de seus pensamentos. — Desculpe por ontem.
Quando levantou o olhar levemente surpreendido na direção do garoto, percebeu os orbes verdes fixos no seu braço, e quando percebeu que tinha as mangas arregaçadas, a compreensão lhe atingiu como um soco no estômago. Tentou colocar suas mangas no lugar, mas teve seus pulsos presos de uma forma tão delicada que não soube ao certo como reagir.
– Eren? — Indagou erguendo uma sobrancelha.
Sem mais nenhuma palavra, o garoto desfez a atadura com um cuidado extremo, atípico da sua personalidade, se ajoelhando em frente ao Heichou e beijando o machucado que possuía uma perfeita impressão de todos os seus dentes. Tocou a pele pálida com o nariz por um segundo, antes de beijá-la outra vez, refazendo meticulosamente o curativo que ficou ainda melhor do que antes.
E Levi... Bem, ele tentava se lembrar por que estava irritado antes.
– Eu realmente sinto muito. — Murmurou se levantando, os orbes cor de esmeralda voltando vagarosamente para os cor de tempestade.
– Percebe-se... — Respondeu o mais velho sentindo-se um pouco estranho depois daquilo, mas era um "estranho bom".
Haviam muitas coisas que lhe cativavam no garoto, e uma delas, era o temperamento doce. Sempre pensou que não gostava desse tipo de coisa, mas no garoto... O modo como seu lado violento caminhava ao lado de seu lado dócil, simplesmente o fascinava até mesmo contra sua vontade.
" Diabos, só consigo pensar em tê-lo na cama o resto do dia quando faz essa cara..."
– Ei pirralho, me prometa uma coisa. — Falou de repente, tocando o queixo do maior e o direcionando para que pudesse encará-lo.
– Prometer...?
– Eu quero que não deixes de ser como és. — Falava com um ar sereno que surpreendeu o garoto. — Sei que peço o impossível, porém...
– Eu vou tentar. — Seu olhar era determinado. — De fato, não é algo que eu possa garantir, mas...
– É o bastante pra mim. — Falou simplesmente, espiando as marcas que as correntes deixaram no corpo do garoto. Era problemático, mas gostava do fato da sua regeneração estar mais lenta. Adorava ver aquela pele maculada pelas suas marcas. — E mais uma coisa Eren...
– Sim?
– Se ouvires algum cometário estúpido... Pode mandar o indivíduo ir se foder. — Falou se aproximando do maior que o encarava genuinamente surpreso. — A única pessoa a quem deve satisfações, sou eu. Entendeu? — Ditou em seu natural tom autoritário, com uma nota de possessividade que traçou um arrepio pela coluna do mais novo.
– S-Sim senhor!
– — — — — — Agora — — — — — -
Eren mantinha seu olhar unica e exclusivamente no homem a sua frente, desviando apenas quando sentiu uma presença calorosa ao seu lado e uma mão bagunçando carinhosamente seus cabelos.
– Boa tarde. — Cumprimentou o Comandante Erwin, sendo respondido apenas por Eren. — Estão indo para o campo depois das colinas? — Indagou curiosamente.
– Sim, vamos testar se eu ainda sou capaz de controlar minha forma de titã. — Respondeu o garoto, já Levi, parecia realmente empenhado em ignorar o loiro.
– Vou com vocês. — Anunciou vendo uma veia saltar na testa do baixinho.
Ah, Levi estava realmente puto dessa vez.
Como na noite passada Eren dormiu (ou melhor, desmaiou) como uma pedra, e a Hanji passou a noite no laboratório, o Heichou teve tempo o suficiente para ler todos os diários. Jamais admitiria para ninguém, mas chegou a passar mal com algumas passagens, se perguntava como o garoto suportou aquilo por tanto tempo.
Logo depois, já que estava com a mão na massa, pegou emprestado por alguns momentos também os exames que tinham feito em Eren logo que ele saiu da prisão... No mínimo, perturbador.
E quando se lembrou que o Comandante pretendia esconder todos aqueles fatos da sua pessoa... Explodiu.
Raramente se permitia perder o controle das próprias ações, mas naquele instante ele queria, não, necessitava, pôr fogo no QG da Polícia Militar, arrancar a pele e quebrar os ossos de vários integrantes daquele lugar imundo e torturar Nile, o maldito asqueroso que comandava toda aquela corja, pessoalmente.
E claro, alguém precisava mostrar ao Senhor Erwin Smith que pessoas não são peças de xadrez, e que nem todas aceitam toda e qualquer regra do seu jogo.
E foi assim que surgiram algumas das marcas que agora Eren reparava no rosto do Comandante, como um corte no lábio de um chute bem dado e uma leve mancha na maçã do rosto, e várias outras que ficavam escondidas pelo fardamento, ainda mais os arranhões...
Sim, arranhões.
O que conseguiu deixar Levi ainda mais puto da vida foi que, depois de uma bela briga, os dois acabaram na cama e Erwin descontou devidamente cada golpe que recebeu, e agora o menor sentia todo o seu quadril doer insuportavelmente a cada passo que dava.
Então, para não ceder a tentação de matá-lo, estava fingindo que o loiro não existia. O que era bem complicado com ele cada vez mais próximo de Eren e... O que ele acabou de sussurrar no ouvido do moleque?
– Seu aliciador de menores, dá pra soltar o pirralho agora? — Falou logo que alcançaram o campo, arrancando alguns risos discretos do Comandante e um olhar pasmo do garoto que não acreditava que alguém podia tratar o Erwin-san dessa forma.
– Não seja tão ciumento Levi, não vou arrancar pedaço. — Respondeu bem humorado, mordendo o lábio para não rir quando viu a cara de quem tinha acabado de ver um titã de duas cabeças e dez braços que Eren fazia.
– Não temos o dia todo. — Cortou o Heichou, ignorando o comentário anterior. Até por que se fosse discutir, o diálogo logo acabaria impróprio para menores de idade.
Eren, ainda surpreso com o modo como aqueles dois agiam um com o outro longe da presença dos demais, saiu em direção ao meio do campo logo que o Comandante tirou o braço que mantinha em volta dos seus ombros. Passou por Levi trocando um breve olhar e avançou para a campina, já começando a se concentrar.
– Estou com um mau pressentimento... — O loiro sussurrou trocando um olhar preocupado com o menor que agora entendia por que o Comandante tinha insistido em vir.
Levi nem teve tempo de refletir sobre a questão, só pode se apoiar no maior quando a terra tremeu devido as passadas rápidas e pesadas de um titã de 15 metros que corria com uma velocidade assustadora para a floresta.

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